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In document Pump turbines in existing powerplants (sider 33-38)

No universo das 361 fichas, as vozes presentes nos textos foram agrupadas em 12 categorias com o objetivo inicial de identificar todas as personagens mobilizadas pelos jornalistas para estar presentes no texto informativo. Nesse universo foi encontrado um total de 497 vozes. Em alguns casos, houve mais de uma voz presente no texto. Em outros, o texto não teve fonte. Para efeito de análise das vozes presentes no texto, o segmento de textos sem a presença de fonte direta não será considerado. Esses textos representam 3% dos 497 registros presentes na tabela 10. Os textos sem fonte/voz são registros informativos feitos pela redação, geralmente

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Entende-se aqui que o jornalista é o “autor” do texto jornalístico. Neste caso, como se trata de notícia, e não de opinião, o que nos interessa no estudo é observar as vozes que foram mobilizadas para compor o texto informativo.

39 Utilizamos o termo “matéria” para indicar todo o material não publicitário vinculado aos textos informativos. Não

apresentando resultados de pesquisas por segmento (por exemplo, “Petista cresce entre mulheres e evangélicos”, Folha de S.Paulo, 27/10/10, p. Especial 1) ou, ainda, textos que registram o comportamento de candidatos ou partidos em relação ao aborto em outros períodos que não o atual (“Serra causou polêmica ao normatizar o aborto”, Folha de S.Paulo, 5 de outubro, p. Especial 1; “No papel, PT defendeu legalização”, O Globo, 6 de outubro, p. 9).

As 12 categorias presentes na tabela 10 foram definidas da seguinte maneira:

a) Candidatos à presidência - declarações em aspas feitas pelos candidatos Dilma Rousseff (PT), José Serra (PSDB), Marina Silva (PV), Plínio de Arruda Sampaio (PSOL), Ivan Pinheiro (PCB), José Maria Eymael (PSDC) e Levy Fidelix (PRTB);

b) Parlamentares - declarações feitas por algum parlamentar das esferas federal, estadual ou municipal; c) Partidos políticos - falas de dirigentes ou representantes de partidos políticos ou coordenadores das campanhas políticas;

d) Religiosos identificados com instituições religiosas ou eclesiásticas - declarações de religiosos tratados nos textos como representantes de instituições religiosas, paróquias, igrejas, templos. e) Parlamentares religiosos - manifestações de parlamentares eleitos e identificados com alguma tradição/instituição religiosa com atuação no parlamento federal, estadual ou municipal.

f) Religiosos não vinculados a nenhuma instituição religiosa - declarações individuais de religiosos que não são associados a nenhuma instituição religiosa, mas são chamados de “padres”, “bispos”, “frei”. g) Movimentos pró-descriminalização do aborto - manifestações de representantes vinculados a movimentos sociais em defesa da descriminalização do aborto

h) Movimento contra a descriminalização do aborto - manifestações de representantes vinculados a movimentos contrários à descriminalização do aborto;

i) Especialistas/pesquisadores/universidades - profissionais liberais, estudiosos, pesquisadores de universidades, diretores de instituto de pesquisa;

j) Governo (federal, estadual, municipal) - representantes do Executivo nas três esferas do Estado; l) Populares - pessoas que foram ouvidas no intuito de ilustrar a matéria. Personagens que deram “vida” ao que os textos registravam, no entanto, não se constituíram em atores representativos e com predominância na definição dos enquadramentos dos textos.

m) Não há vozes no texto - matérias sem aspas. Como referido anteriormente, para efeito metodológico, os textos em que não há fonte em aspas ou vozes presentes não serão considerados na análise das vozes predominantes.

Tabela 10. Vozes presentes no texto

Vozes no texto N. de citações/menções Frequência

Candidatos à presidência 141 28%

Parlamentares 25 5%

Partido político (dirigentes e coordenadores de campanha) 101 21% igreja (religiosos identificados com paróquias,

congregação ou outra instituição religiosa católica ou evangélica)

82 17%

Igreja (parlamentares religiosos) 25 5%

Religiosos não vinculados a nenhuma instituição da igreja 6 1% Movimentos sociais pró-descriminalização do aborto 8 2% Movimentos sociais contra a descriminalização do aborto 6 1%

Especialistas/pesquisadores/universidades 38 8%

Governo (federal, estadual, municipal) 41 8%

Não há vozes no texto (texto sem fonte) 17 3%

Populares 7 1%

Total de citações/menções 497 100%

A tabela 10 nos dá a dimensão das vozes que foram mobilizadas para compor os textos noticiosos, ou seja, todas as pessoas mobilizadas e selecionadas pelos jornalistas/autores para fazer parte das matérias. Estudos sobre os processos de produção da notícia revelam que muitas vezes a construção da notícia depende de um conjunto de práticas organizacionais inerentes ao campo jornalístico (newsmaking) associado à relação entre esses meios e as fontes. Há uma tendência de as notícias se concentrarem no que é conhecido, sendo em geral as fontes governamentais e políticas as predominantes na cobertura jornalística. Em consequência disso, “as notícias apoiam a ordem social dos homens brancos de meia idade da classe média alta pertencentes aos setores públicos, comercial e profissional da sociedade” (GANS apud KUNCZIK, 2001, p. 272).

Os dados presentes nesta pesquisa confirmam uma concentração relativa das vozes em grupos dominantes do campo político e religioso. As categorias agrupadas dos candidatos à presidência, parlamentares e dirigentes de partidos políticos constituem 54% das falas nos textos informativos (tabela 10). Se acrescermos a esse conjunto as vozes religiosas – sejam indivíduos vinculados às instituições eclesiais ou ao parlamento ou mesmo pessoas reconhecidas por sua trajetória no campo religioso –, há um universo de 77% das vozes presentes nos textos jornalísticos vinculadas a esses dois campos, exclusivamente. É claro que o período eleitoral pressupõe uma vocalização maior para aqueles que representam o campo político. Porém, chama atenção a concentração das vozes religiosas como segundo grupo com maior presença nos textos (23%), o que confirma o agendamento e o enquadramento do noticiário eleitoral pelo viés religioso. O estudo demonstra que a politização do aborto deu-se pela perspectiva da moral religiosa, orientada pelo ideário do “direito à vida [do feto]”.

A maneira como o campo jornalístico deu visibilidade para o debate reforçou valores conservadores e, como esfera privilegiada de produção de significados, ratificou posições patriarcais sobre a mulher e seu corpo, determinados pela profunda assimetria de enquadramentos e vozes em favor da criminalização da prática do aborto. Tal construção determinou os limites para o debate eleitoral concentrados num questionamento moral, sobretudo à candidata Dilma Rousseff (PT), por suas posições em favor da descriminalização. A concentração de vozes políticas (54%), associadas às vozes religiosas (23%), demonstra que a seleção dos episódios para compor o noticiário priorizou enquadramentos que reforçaram posições conservadoras sobre o tema. Embora tenha sido criticado pelos jornais em seus editoriais, o agendamento da temática do aborto na cobertura feita pela mídia naturalizou hierarquias de gênero, unificando uma cobertura em torno de posicionamentos determinados pelas igrejas.

4.8.1.1 As vozes da sociedade civil sub-representadas no noticiário

Observando-se o noticiário pela perspectiva das vozes vinculadas a movimentos sociais, sejam favoráveis ou contrários à descriminalização do aborto, percebe-se a baixa presença desses grupos. Somadas, as duas categorias não ultrapassaram 3% de vocalizações presentes no noticiário (tabela 10):

[...] a rede de fontes que os aparatos de informação estabilizam como instrumento essencial para seu funcionamento reflete, de um lado, a estrutura social e de poder existente e, de outros, organiza-se na base das exigências colocadas pelos procedimentos de produção. As fontes que se encontram às margens dessas duas determinações muito dificilmente podem influir de maneira eficaz na cobertura informativa (WOLF, 2005, p. 235).

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É de se considerar, portanto, que o processo de produção noticiosa tende a favorecer fontes institucionais, produzindo uma “exclusão discursiva” daqueles grupos sociais sem capacidade de produzir ou influenciar a construção do discurso dominante, como populares ou minorias sociais. O jornalismo atual está repleto de relatos de acontecimentos programados ou controlados por agentes institucionais com competência para agendar suas informações e influenciar os enquadramentos da notícia (ALCANTARA et. al., 2005, p. 203). No noticiário político, por exemplo, as fontes muitas vezes buscam dirigir e orientar a construção do relato noticioso utilizando meios e recursos como os boatos e os rumores (muita vezes em off), de forma a adequar o enquadramento do noticiário para seus interesses na disputa política (CHAPARRO, 2007, p. 76 - 80). Alguns textos observados nesta pesquisa corroboram essa assertiva.

A predominância de vocalizações vinculadas às estruturas de poder político e religioso, identificadas nesta pesquisa, confirma estudos sobre a contribuição do campo da mídia na sustentação de instrumentos restritivos à pluralidade de vozes no debate público:

O pluralismo de vozes resultante [na mídia] parte de uma posição não plural, que o limita e condiciona; por isso se fala de um “simulacro de pluralidade” no noticiário jornalístico. [...] Ao definir os limites do pluralismo político, o jornalismo delimita também o espaço de contestação discursiva. A ampliação do “espaço da controvérsia legítima” (Hallin, 1986) depende da possibilidade de que contradiscursos circulem em condições de disputa e diálogo com os discursos hegemônicos. Nos padrões convencionais do jornalismo, os discursos hegemônicos são reproduzidos como portadores de valores “universais”. Os contradiscursos, por sua vez, são silenciados ou não se tornam públicos, a não ser como estereótipos verbais (MIGUEL; BIROLI, 2011, p. 69).

A mesma sub-representação no noticiário, detectada nos grupos vinculados aos movimentos sociais pró e contra o aborto, também se revelou nas vozes populares. A presença de somente 1% dos registros de populares (ver tabela 10) e a forma isolada como aparecem nos textos são constitutivas de uma representação segundo a qual os indivíduos são “personagens”, com a função

de ilustrar ou confirmar episódios relatados pelos jornais. Em geral essas pessoas não estão vinculadas a grupos ou movimentos sociais, estando, portanto, limitadas na capacidade de agendar o noticiário enquanto grupo organizado. Os depoimentos podem ilustrar matérias importantes, como as reportagens de O Globo sobre as mortes por aborto já referidas anteriormente (FARAH; BENEVIDES, 2010b) ou como as declarações da ex-aluna de Mônica Serra na Folha de S.Paulo que afirmou ter ouvido da ex-professora, em sala de aula, que ela havia feito um aborto, o que provocou uma “reviravolta” no tratamento sobre o aborto noticiário eleitoral (BERGAMO, 2010, p. A10). Essas fontes serviram para ilustrar um assunto previamente decidido pela redação (abordagem sobre o aborto) ou para vocalizar uma informação pontual, jornalisticamente relevante, mas com um fim em si mesmo (a revelação da realização de um aborto por Monica Serra), não se constituindo em categoria de voz com representação de grupo social.

Como método de análise, as vozes populares foram separadas da categoria “vozes ou grupos predominantes” pelo entendimento já referido de não se constituírem em grupo determinante do agendamento do noticiário. A partir dessa separação foi possível chegar à efetiva concentração relativa de vozes. O objetivo, a seguir, foi identificar como a visibilidade no noticiário das vozes de certos grupos em detrimento de outros “naturalizou” posicionamentos dominantes, legitimando enquadramentos conservadores definidos pelo campo religioso na disputa política.

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