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Meu interesse pelo tema de pesquisa “trabalho e autonomia de mulheres que possuem contratos de produção com a agroindústria de dendê” surgiu após os primeiros contatos no campo durante o curso de especialização em Agricultura Familiar e Desenvolvimento Agroambiental na Amazônia (2013/2014), quando realizei um estudo sobre a podridão da mandioca1 (Manihot esculentum Crantz) em um assentamento em São Domingos do Capim. Nesse período identifiquei uma mulher encarregada pela gestão das atividades para a produção de dendê no estabelecimento familiar. Isto é, as atividades eram realizadas sob a sua responsabilidade. Tratava-se de Açucena, 59 anos, casada, mãe de 08 filhos. O

1 Conhecida na região como podridão da mandioca, é uma doença que se caracteriza pela podridão radicular das raízes da mandioca. A doença ocorre pela ação de dois fatores principais: por agentes infecciosos (considerado o mais grave), e outro ocasionado por mecanismos fisiológicos da própria planta (Farias, et al., 2002). No primeiro caso, os agentes infecciosos,, acredita-se que, já habitam o solo e ocorrem em inúmeras espécies cultivadas, e os sintomas são amplos em todos os casos (Michereff, et. al., 2005). Geralmente as raízes das plantas afetadas, parcial ou total, passam por um processo de necrose de seus tecidos radiculares e posteriormente morrem (Michereff, et. al., 2005). Em muitos casos, a podridão pode apresentar sintomas leves e impactos mínimos para o desenvolvimento da planta e em outros pode causar morte instantânea na planta (Michereff, et. al., 2005). No segundo caso, para Oliveira, et al. (2006), a incidência da podridão fica mais evidente em períodos chuvosos em áreas com solos adensados, com tendência a encharcamentos temporários nas épocas em que a precipitação é mais elevada.

Na literatura consultada, foi notório que, apesar dos prejuízos causados pela doença, não existe consenso sobre seus agentes causais mais comuns, intensidade da doença, contabilidade das perdas ocorridas, bem como as características de resistência das variedades plantadas na região Norte (Oliveira, et. al., 2006).  

contrato havia sido realizado em nome do marido com a agroindústria, porém, quem fazia toda a gestão do dendê no lote da família era Açucena.

O encontro me permitiu questionar sobre a participação da mulher naquela experiência, especialmente quanto à autonomia na coordenação das atividades, considerando que na literatura revisada predominam análises sobre a atuação dos homens nos estabelecimentos familiares produtores de dendê (SAMPAIO, 2014; RIBEIRO, 2016; VIEIRA, 2015; PONTES, 2014). Sob outra perspectiva, o tema me instigou pela minha experiência pessoal, considerando que na minha família são frequentes os casos de monoparentalidade feminina em que as mulheres atuam com muita autonomia para o aprovisionamento da família.

Na condição de aluna do Mestrado em Agriculturas Familiares e Desenvolvimento Sustentável, constatei os primeiros casos de mulheres com contratos de produção em seus nomes após as viagens de campo, realizadas em julho e dezembro de 2015 em diferentes municípios que têm agricultores familiares integrados à agroindústrias no Nordeste Paraense como parte do trabalho do Projeto Agricultura Familiar e Inclusão Social (AFInS2). Essas viagens aconteceram no decorrer de 17 dias3 divididos em três campos. Nessas ocasiões visitei seis municípios nos quais entrevistei, em caráter exploratório, 15 mulheres com contratos de produção em seus nomes. O contato com elas foi fundamental para ter certeza da existência e dimensão do fenômeno.

Mediante a dispersão de residência das mulheres e dificuldades de deslocamento para chegar aos seus estabelecimentos, decidi que o meu estudo deveria ser centrado em um município.

No meu modo de ver, o fato de o contrato estar em nome das mulheres foi algo atrativo, do ponto de vista tanto teórico quanto empírico, nas diferentes interações

2Projeto AFInS – Agricultura Familiar e Inclusão Social é a sigla de um projeto de pesquisa

financiado pela Embrapa sob o título Integração da Agricultura Familiar na Produção do Dendê no

Pará: Possibilidade de Inclusão Social? A execução do projeto ocorre por meio de parcerias com a

Universidade Federal do Pará-UFPA e Sindicatos Rurais do Nordeste paraense no período 2014/2017. A pesquisa privilegia: i) Agricultores e agricultoras familiares que têm contrato de integração à agroindústria de dendê; ii) Jovens que trabalham nos estabelecimentos familiares e como assalariados; e iii) Moradores das vilas situadas no entorno dos monocultivos. O sistema agrário, os estabelecimentos (grupos domésticos e sistemas de produção) e as vilas são as principais referências empíricas.

3 As viagens ocorreram entre os dias: 21 a 28 de julho (São Domingos do Capim); 01 e 05 de dezembro (Garrafão do Norte, Capitão Poço e Bonito) e; entre 17 a 22 de dezembro (Acará, Tomé-

que ocorreram ao longo da pesquisa entre mim (como pesquisadora) e elas (meu interesse de pesquisa). Pude observar nos seus relatos sobre quando os técnicos e agentes financiadores visitavam suas famílias a frequente referência à interação entre estes e seus familiares, o que apontou o fato de que essas mulheres, em muitos casos, não assumiam que participavam dessas interações, mesmo que a titularidade do contrato estivesse em seus nomes. Revelava-se assim uma dupla estrutura familiar, na qual, de um lado havia o aparente domínio masculino, uma vez que muitas vezes elas afirmavam que o seu trabalho nas atividades agrícolas eram apenas “ajuda” aos maridos, e de outro, uma preponderância feminina, segundo a qual as mulheres eram vistas como chefes de família.

Atentando para esse debate e analisando o trabalho e a autonomia das mulheres com contratos de produção do dendê, as perguntas que buscarei responder são: Por que as mulheres têm contratos em seus nomes? A mulher que têm o contrato em seu nome possui autodeterminação para organizar e desenvolver o trabalho? Como a participação em diferentes esferas da vida social e política influenciam no exercício da autonomia? Por quê?