produção, como também em um contexto empresarial e segmento de mercado onde pouco se pesquisou sobre o processo de formulação e implementação das estratégias de produção, tem-se o início da justificativa pela escolha do segmento de empresas de pequeno porte do setor metal-mecânico.
1.4.3 A relevância empírica: MPEs e o setor metal-mecânico
Por diversas razões, as micro e pequenas empresas apresentam condições limitadas de promoverem o crescimento econômico, baseando-se apenas na acumulação de capital, estando esse tipo de processo mais ligado às grandes corporações e grupos empresariais.
Apesar disso, as estatísticas por si só justificam a importância de pesquisas associadas as empresas de pequeno porte no Brasil, conforme resumo de algumas pesquisas nacionais destacadas no Quadro 1.
Hexsel e Lagreca (2007) revelam que uma das circunstâncias que dificulta o desenvolvimento das PMEs é que essas tendem a atuar em setores fragmentados, em que são baixas as barreiras à entrada, o processo competitivo é intenso e, por conseqüência, os lucros são baixos. Nessa situação, o desempenho de uma empresa depende, de forma mais significativa, das ações que desenvolve a partir de seus recursos internos e, menos, do ambiente.
Por outro lado, o conhecimento e a capacidade de inovação constituem-se elementos dinamizadores do pequeno negócio, induzindo, a médio e longo prazo, ao aumento do volume e da cultura empreendedora local. As resultantes dessa mudança de cultura, por fim, contribuem fortemente para o chamado “desenvolvimento endógeno”, ou seja, baseado nos agentes e nas potencialidades do meio local tem como resultado a ampliação do emprego, do produto e da renda local ou da região (NUNES NETO, 2006).
Aspectos econômicos: Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas – SEBRAE e o
Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos – DIEESE (2008)
Grande participação de micro e pequenas empresas – MPEs no conjunto dos estabelecimentos formais brasileiros: 98% do total;
A partir de 2004, as micro e pequenas empresas suplantaram a barreira dos dois milhões de empresas formais e empregavam; em 2006, mais de 13,2 milhões de trabalhadores urbanos formais, que representam um pouco mais da metade dos empregos urbanos formais do país.
Quando se considera a quantidade de empregos formais urbanos: verifica-se que no setor de comércio, as micro e pequenas respondem por 75,5% do emprego setorial. Nos serviços, estas empresas participam com 41,7% do emprego, seguindo-se a construção com 52% e a indústria com 42,9%
Aspectos da competitividade: Confederação Nacional da Indústria – CNI e Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e
Pequenas Empresas – SEBRAE (2006).
As MPEs aumentaram o lançamento de novos produtos e estão investindo mais na aquisição de máquinas e equipamentos, em pesquisa e desenvolvimento e na capacitaçãode seus empregados;
As MPEs mostram-se mais ágeis e eficientes na entrega de seus produtos. Os investimentos realizados em 2003 concentraram-se em aquisição de máquinas e equipamentos, capacitação de recursos humanos, desenvolvimento de produtos e processos e colocação de produtos inovadores no mercado;
De 1999 a 2003, os principais pontos positivos a destacar são: o aumento no investimento em design e em pesquisa e desenvolvimento - P&D. Os investimentos em capacitação dos empregados, no entanto, ainda são baixos, na comparação com as médias e grandes empresas.
Aspectos de permanência no mercado e exportação: SEBRAE (2007)
O percentual de empresas de pequeno porte que sobrevive pelo menos dois anos passou de 50,6% em 2002 para 78% em 2005, ou seja, 27,4% a mais de MPE permanecem em atividade;
Esses números refletem dois importantes fatores: a maior qualidade empresarial - os empresários estão mais bem qualificados e com experiência, obtida, em sua maioria, em empresas privadas; e a melhoria do ambiente econômico – a redução e o controle da inflação, a gradativa diminuição das taxas de juros, o aumento do crédito para pessoas físicas e o aumento do consumo, especialmente das classes C, D e E, propiciaram um período favorável ao desenvolvimento dos pequenos negócios no Brasil;
Redução do número de empresas exportadoras pertencentes a esse segmento: em 2006, queda de 4% comparativamente a 2005 − considerando-se que, naqueles anos, já se havia registrado uma redução de 4,4% em relação a 2004;
Mesmo assim, o valor total exportado por essas empresas cresceu em 2006: +2,4% nas microempresas, atingindo o montante de US$ 148,5 milhões, e 6,1% nas pequenas, com US$ 1,76 bilhões. O desempenho dessas firmas, contudo, foi bastante modesto em comparação com o das empresas de maior porte que cresceram 12,7%, com um montante superior a US$ 100 bilhões;
Em conseqüência, a participação das MPEs no total das exportações brasileiras vem caindo continuamente nos últimos anos. Após atingir um pico de 2,3% em 1999, elas passaram a representar apenas 1,4% em 2006. No número total de empresas exportadoras, as MPEs representaram 65%, também inferior ao registrado em anos anteriores. As empresas industriais e comerciais representam mais de 90% do número de firmas e do valor exportado;
Em relação à freqüência exportadora das PMEs, apresentaram participação contínua nos últimos anos, tanto no número de empresas quanto no valor exportado. Entretanto, o percentual de MPEs que desistem de exportar a cada ano permaneceu bastante elevado em 2006, tendo sido de 45,4% entre as microempresas e de 21% entre as pequenas.
Quadro 1: PMEs: crescimento, competitividade e importância econômica. Fonte: CNI e Sebrae (2006); Sebrae (2007); Sebrae e DIEESE (2008).
Dentro da perspectiva da importância das PMES no processo de desenvolvimento endógeno, os principais mecanismos colocados em pauta pela literatura especializada para promover uma situação competitiva mais favorável a este segmento de empresas podem ser assim resumidos: adoção de estratégias conjuntas com as grandes empresas globalizadas (CARVALHO JR. e CASTILHO,1994); Arranjos produtivos locais
(NUNES NETO, 2006); Coordenação estratégica ao longo das cadeias de suprimentos (ANTONIOLLI e SALLES, 2006); Formação de redes de empresas (OLAVE e AMATO NETO, 2001), (BALESTRIN e VARGAS, 2004), (SOUZA e GOMES, 2005).
Olave e Amato Neto (2001) fazem vários registros considerando a aplicabilidade das redes como uma forma de empresas pequenas competirem em escala global sem terem que arcar sozinhas com os custos e incertezas vultosos que esta empreita acarreta. A associação sinérgica de competências essenciais complementares e mesmo similares entre empresas pequenas geraria um out put em que se combinam diferenciação (devido às competências essenciais de cada participante) com o custo reduzido de operação (devido à otimização do uso comum dos recursos como tecnologia de processo, suprimentos e habilidades pessoais e organizacionais, que a ação conjunta propicia).
Para Souza e Gomes, (2005) a formação de redes de empresas se justifica pela necessidade da busca da eficiência coletiva, dada as grandes dificuldades enfrentadas por empresas deste porte, que vão desde o acesso à financiamentos até a aquisição de matéria-prima, além dos problemas muitos característicos da pequena empresa, quer seja nas questões de organização, que seja as relacionadas a operacionalização de seus produtos.
Entretanto, todos esses mecanismos de cooperação e integração apresentados como uma possível solução para os problemas relacionados à competitividade das pequenas empresas no mercado, requerem antes de tudo, um setor de produção eficiente e eficaz. É neste sentido que se justifica o tão importante papel da estratégia de produção no segmento das pequenas empresas.
Porter (1991, p. 147) argumenta que empresas menores, seguindo estratégias especializadas, podem atingir uma maior diferenciação do produto ou uma progressividade tecnológica mais alta ou um atendimento superior em seus “nichos de produtos particulares do que as empresas maiores”, de forma a criar uma cadeia de valor diferenciada (Porter, 2002) e desenvolver um sistema exclusivo de atividades. Considera que a estratégia talvez seja ainda mais importante para as empresas menores, uma vez que as grandes empresas têm mais margem de manobra – porque seus recursos e sua inércia são maiores.
Considerando o potencial das MPEs e a importância de sua organização produtiva, este trabalho compreende um modelo de alinhamento estratégico a partir das abordagens sobre estratégias de produção tendo como ambiente de pesquisas empresas do setor metal-mecânico. O setor metal-mecânico, código International Standard Industry Classification - ISIC 38, é a manufatura de produtos metálicos fabricados, máquinas e equipamentos.
Para Coutinho (1993), a atividade metal-mecânica é um grande complexo industrial, envolvendo os seguintes segmentos: segmento de insumos: indústria de ferro, indústria siderúrgica e indústria de alumínio; segmento de máquinas e equipamentos: indústria de máquinas agrícolas, indústria de máquinas-ferramenta e indústria de equipamentos para energia elétrica; segmento automotivo: indústria automobilística e indústria de autopeças.
No geral, apesar da importância estratégica, o setor metal-mecânico ainda é um ambiente empiricamente pouco explorado nas pesquisas acadêmicas nacionais. Durante a formalização dessa pesquisa, tem-se as referências registradas dos Anais do Encontro de Engenharia de Produção.
Em termos mais regionais, especificamente na Paraíba, é pouco explorado pesquisas em ambientes do setor metal-mecânico, e estas pesquisas apresentam intervalos significativos entre uma e outra publicação. Na busca por trabalhos de tese e dissertação, também ficou evidente a escassez de estudos nesse segmento. Dentre os poucos encontrados, tem-se: Lira (2001), Oliveira (2007) e Carvalho (2005). Este último, é pontualmente importante porque trata de um estudo sobre estratégias de operações na indústria metal-mecânica brasileira, tendo como base de dados a Rede International Manufacturing Strategy Survey - IMSS.
Trata-se de uma rede internacional de pesquisa que, desde 1992, busca investigar a estratégia de manufatura de empresas do setor metal-mecânico, contando com a participação de escolas de negócios e empresas em mais de 20 países. A pesquisa teve três rodadas, sendo a primeira em 1993/94, a segunda em 1996/97 e a terceira e mais recente em 2001/02 e ao longo de suas três rodadas, o IMSS construiu
uma base de dados com informações sobre estratégias e práticas de mais de 700 empresas industriais no mundo.
Uma das contribuições da pesquisa da IMSS diz respeito à análise do conteúdo da estratégia de manufatura no Brasil com base em estudo de âmbito internacional, permitindo compará-la à de outros países. A referente pesquisa também contribuiu para o campo da estratégia de manufatura ao demonstrar empiricamente que o alinhamento entre as estratégias competitiva e de manufatura tem uma influência positiva na tradução de objetivos de desempenho em planos de ação e sobre o desempenho empresarial, ratificando abordagens clássicas sobre estratégias de manufatura como a de Hayes e Wheelwright (1984).
Assim sendo, dadas as relevâncias teórica, acadêmica e empírica acerca da temática sobre estratégia de produção, essa pesquisa procura explorar essa perspectiva de alinhamento associada à estratégia de produção dentro de um contexto mais amplo, considerando aspectos quantitativos entre objetivos de desempenho e planos de ação, além de uma série de outros elementos que serão fundamentados no capítulo II do quadro teórico, bem como destacados e explicados no capítulo III sobre o modelo de alinhamento proposto.