3. Teori
3.3 Nyttemaksimering av diskrete valg
Tanto para a turma 2004.2, como para a turma 2006.1, o fato de as transições para o segundo período (e segundo semestre letivo) terem sido marcadas pelas maiores desistências revela que esses foram momentos cruciais na vida do aluno recém-ingresso no curso de licenciatura em Física do IFRN. Mas o que está por trás disto?
34 Para explicações sobre o “efeito primeiro ano curricular”, ver nota de rodapé 30.
0 2 4 6 8 10 12 1º 2 º 2º 3 º 3º 4 º 4º 5 º 5º 6 º 6º 7 º 7º 8 º 8º 9 º 9º 1 0º 10 º 1 1º N Ú M E R O D E A L U N O S
TRANSIÇÃO ENTRE OS PERÍODOS
SITUAÇÃO ACADÊMICA X PERÍODO (TURMA 2006.1)
evadido cancelado jubilado formado
Na introdução do artigo “Opiniões de docentes e de coordenadores acerca do fenômeno da evasão discente dos cursos de graduação da Universidade Federal do Ceará”, Wagner Andriola, Cristiany Andriola e Cristiane Moura (2006) mostraram que um dos principais motivos para o abandono nos primeiros períodos de um curso, numa instituição de ensino superior, reside no fato de que alguns alunos – calouros principalmente – não se identificam com o curso que escolheram e, portanto, o abandonam. Esse motivo, que contribui significativamente com os altos índices de desistência nos primeiros períodos, foi também diagnosticado, por meio das entrevistas com os desistentes e com os professores do curso de licenciatura em Física do IFRN e, portanto esclarece parte do abandono nas turmas investigadas. (Maiores detalhes sobre esta constatação estão disponíveis no capítulo 4 e 5).
À exceção do motivo descrito acima, pouco havia em comum, entre as turmas 2004.2 e 2006.1, que explicasse a transição para o segundo período como o momento de maior desistência. Justificamos essa afirmação por meio de argumentos baseados na análise documental realizada, na vivência do autor desta dissertação e nas contribuições das entrevistas dos desistentes e dos professores. Havia diferenças entre as turmas quanto:
a) ao número de disciplinas por semestre; b) à carga horária por semestre;
c) às disciplinas oferecidas por semestre; d) aos professores de cada semestre;
e) aos momentos anuais de formação de cada turma;
Para melhor explicação dos argumentos citados, serão apresentadas abaixo (quadro 1) as disciplinas que compunham os primeiros períodos de ambos os currículos (antigo e atual) e os professores que as lecionavam35.
35 As disciplinas que estão com a mesma cor são equivalentes. Os professores, por questões éticas,
estão representados por códigos. A letra “P” significa professor e o número que a segue corresponde à posição ocupada pelo professor na lista de controle do pesquisador. Quanto à carga horária dessas disciplinas, esta poderá ser visualizada no anexo C.
2004.2 PROFESSORES 2006.1 PROFESSORES DISCIPLINAS DO 1º
PERÍODO
DISCIPLINAS DO 1º PERÍODO Cálculo Diferencial e Integral
I P11
Elementos de Física
P1 Física Experimental I P1 Cálculo Diferencial e Integral P11
Física Geral I P1 Língua Portuguesa P15
Fundamentos das Ciências
Sociais P12 Epistemologia da Ciência P17 Informática Básica P13 Fundamentos Históricos e Filosóficos da Educação P5 Introdução à Educação P14 Leitura e Produção de Textos I P15 Metodologia do Conhecimento Científico P16 Prática Profissional I *
Quadro 1: Comparação entre disciplinas do primeiro período das turmas 2004.2 e 2006.1 * Professor não identificado.
Como é possível observar, o primeiro período do currículo antigo era muito mais “puxado” (ou seja, muitas disciplinas por período) do que o respectivo período no atual currículo. Aquele possuía 9 disciplinas, enquanto este possui 5. Além do número de disciplinas, a carga horária também era maior, pois o primeiro período do currículo antigo possuía 512 horas (CENTRO FEDERAL DE EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA DO RIO GRANDE DO NORTE, 2002), enquanto que no atual são 300. (CENTRO FEDERAL DE EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA DO RIO GRANDE DO NORTE, 2006).
Diante disso, supunha-se que, na mudança curricular, a redução no número de disciplinas e na carga horária por período contribuísse para uma diminuição significativa da desistência de alunos no curso, uma vez que o licenciando seria menos exigido academicamente. Contudo, isto não foi percebido visto que, no primeiro período da turma 2006.1, ocorreram 13 desistências (10 evasões, 2 cancelamentos e 1 jubilamento), número ligeiramente superior ao da turma 2004.2 com 11 desistências (todas são evasões).
Além disso, quando perguntados na entrevista sobre o currículo ser considerado “puxado”, muitos desistentes negaram tal consideração. Porém, 3 entrevistados da turma 2004.2 afirmaram ter alguma dificuldade relacionada à quantidade de disciplinas por período, principalmente, relativas ao excesso de disciplinas pedagógicas. Isso também foi constatado pelos professores. Quando perguntados sobre essa mesma questão, a maioria deles relatou a existência de muitas disciplinas pedagógicas no currículo, o que sobrecarregava os alunos. Isso pode sugerir, então, ainda que de forma muito tênue, uma facilidade maior de “adaptação” ao atual currículo, já que os estudantes, nesse caso, lidam com menor número de disciplinas por período. Exemplificando a dificuldade acima, apresentamos o relato do desistente 4.2E13:
O currículo era um pouquinho puxado mesmo, principalmente, porque a gente tinha uma carga teórica muito grande de matérias na área de humanas. Então tinha que ler muito e ao mesmo tempo tinha que estudar muito pra Física, pra cálculo, pra tantas coisas. E aí foi meio puxado, devia ter mais horários vagos.
Algumas respostas, como as de 4.2E4 e 4.2E21, indicaram insatisfação36 em relação à ênfase nas disciplinas da área de humanas (disciplinas voltadas, principalmente, para a formação pedagógica), em detrimento das disciplinas da formação específica (disciplinas da Física).
• Entrevistado 4.2E4:
Eu acho que tava dando uma ênfase muito grande na área da educação e muito pouca na área de Física.
• Entrevistado 4.2E21:
Não. Eu só achava uma carga de disciplinas pedagógicas efetivas...assim...que poderiam ser juntas. Pegar mais de uma matéria e juntar em uma. E achava que...é claro que o curso de licenciatura tem que ter uma boa carga pedagógica pra formação do professor em si, mas eu achava que tinha muita disciplina ali que poderiam ser unidas uma com a outra, como foi feita pra nova grade.
Reflexões sobre a redução no número de disciplinas e da carga horária e a discussão das respostas dos estudantes quanto ao currículo ser “puxado”, são de
fundamental importância para uma das questões-objetivo desta pesquisa: houve influência da mudança curricular no fenômeno da desistência no curso de Física?
Pelo que observamos, a mudança parece não ter influenciado na redução do abandono, visto que, para a maioria dos entrevistados de ambas as turmas investigadas, a quantidade de disciplinas e a carga horária por semestre não influenciou em suas desistências.
Quanto a outros aspectos, retomando o quadro 1, percebemos que existiam diferenças entre as disciplinas oferecidas, no primeiro período, à turma 2004.2 e à turma 2006.1. Os professores encarregados de lecionar para os alunos deste primeiro período também não eram os mesmos. Logo, não foi possível identificar um padrão que pudesse ser reconhecido, entre os currículos, como a causa das desistências dos alunos.
Um candidato a padrão poderia ser o conjunto de disciplinas de Cálculo Diferencial e Integral I, Física Geral I e Leitura e Produção de Textos I, presente nos dois currículos, com os mesmos professores. Entretanto, segundo os alunos entrevistados, os professores destas disciplinas não representaram problemas ou não contribuíram para as suas desistências37.
Realizamos também uma comparação entre os dois currículos quanto à presença relativa que as disciplinas Cálculo Diferencial e Integral I, Física Geral I e Leitura e Produção de Textos I possuíam dentro de seus respectivos períodos. Notamos que no antigo currículo elas contabilizavam um terço das disciplinas, enquanto no atual currículo correspondem a mais da metade. Logo, mantendo-se um raciocínio que “culpe” essas três disciplinas pela desistência, era de se esperar que essa aumentasse, significativamente, com a mudança curricular, mas isto não aconteceu. Portanto, com base somente nesses argumentos, acreditamos ser possível deixar de lado a hipótese de que esse grupo de disciplinas seja uma causa curricular para a desistência em Física.
Outro argumento que diferenciava o primeiro período das turmas em questão foi o momento anual de entrada de cada turma. O vestibular que possibilitou o ingresso na turma 2004.2 aconteceu no meio do ano, o que, obviamente, permitiu aos alunos aprovados cursarem o primeiro período no segundo semestre do ano de 2004. Entretanto, no final do ano, houve o vestibular 2005 da Universidade Federal
do Rio Grande do Norte (UFRN), e alguns alunos do curso de licenciatura em Física do IFRN foram aprovados naquela instituição. Estudantes do IFRN que poderiam dar seguimento ao curso de licenciatura em Física resolveram abandoná-lo e se dedicar à formação profissional na UFRN. Um desses abandonos ocorreu logo após o ingresso do aluno naquela instituição (a exemplo do desistente 4.2E1). Outros aconteceram após alguns semestres, revelando uma tentativa dos alunos com dupla matrícula em tentar conciliar os dois cursos de graduação. Contudo, essas tentativas geralmente eram finalizadas com a opção pelo curso da UFRN (a exemplo dos alunos 4.2E4, 4.2E8, 4.2E11, 4.2E13 e 4.2E21). Este tipo de atitude, relatada na entrevista por alunos desistentes e pelos professores do IFRN, recebeu considerável destaque e será melhor discutido nos capítulos 4 e 5.
Com relação à turma 2006.1, como a própria identificação revela, o período de ingresso ocorreu no início do ano, mas seu vestibular havia sido realizado no fim de 2005. Diferentemente da turma 2004.2, a turma 2006.1 sofreu problemas de “concorrência” com o vestibular 2006 da UFRN, pois ambos vestibulares ocorreram na mesma data. Logo, o ingressante que optou pelo IFRN, acreditamos que não tinha pretensões em relação à UFRN ou, se tinha, teve que esperar um ano para tentar o vestibular da dessa instituição.
Essas constatações a respeito das diferentes épocas em que cada turma surgiu as diferenciam entre si. No entanto, o número de desistentes foi praticamente igual nas duas turmas, o que reforça o caráter de mera coincidência no número de alunos desistentes entre as turmas investigadas, segundo uma comparação exclusivamente de cunho curricular.
Ainda na esfera curricular, resolvemos analisar o impacto das reprovações na vida acadêmica dos alunos. Buscamos, então, relacionar as reprovações com as desistências ocorridas (sejam essas por jubilamento, cancelamento ou evasão).