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Nesta subcategoria, verificamos que seis professoras participantes da pesquisa afirmam se basear nas orientações didáticas do Programa Ler e Escrever da Secretaria Estadual da Educação do Estado de São Paulo, para o ensino da linguagem escrita. Este programa influenciado pelos paradigmas da alfabetização do Brasil tem como base orientações postulado nas ideias de alguns autores, como afirma Oliveira (2010):

A partir da década de 70 começaram a ganhar ímpeto, tanto no Brasil como em outros países, as ideias de Frank Smith (1971, 1973), Kenneth Goodman (1965, 1967) e, posteriormente, Emilia Ferreiro (1986), a respeito da alfabetização. Por um lado, Smith (1971, 1973) postula a ideia de que aprender a ler é tão natural quanto aprender a falar. Para ele a leitura/escrita é modalidade linguística de prática social tanto quanto a

comunicação oral. Como o aprendizado da fala se desenvolve a partir da integração em ambientes falantes também o aprendizado da escrita dependeria da imersão em ambientes letrados. Essa imersão cumpriria papel fundamental na alfabetização. Por outro lado, Goodman (1965, 1967) afirma que a leitura é um jogo psicolinguístico de adivinhação. As letras, de fato, atrapalhariam a leitura, a apreensão do significado. Daí a importância do contexto para a leitura. Já a tese central de Ferreiro (1986) e Ferreiro e Teberosky (1989) é que as crianças elaboram hipóteses sobre o valor fonético dos grafemas. Dessa forma, incidentalmente, acabam por dominar o código alfabético (OLIVEIRA, 2010, p. 673-674).

Tais autores citados por Oliveira (2010) propõe ênfase num ensino centrado na compreensão e na produção de textos e não na ideia de um ensino explícito para o domínio do princípio alfabético, que prioriza o ensino da habilidade da criança segmentar palavras e notar que as palavras são compostas por unidades menores que são os fonemas, além da observação e reflexão sobre as regularidades do sistema de escrita alfabética.

Neste sentido, as professoras pesquisadas (86%) seguem as instruções do documento, que baseado nas ideias de Ferreiro e Teberosky (1986) propõem realizar uma avaliação – sondagem inicial, e assim, classificar em quais níveis de desenvolvimento da escrita as crianças se encontram, para desta forma, organizar atividades de intervenção diante das dificuldades da aprendizagem das crianças. As professoras afirmam que este procedimento é referencial para o encaminhamento posterior das atividades que serão oferecidas. A nosso ver, apesar dessas orientações didáticas serem norteadoras nas práticas pedagógicas das professoras foi possível perceber a presença da concepção da consciência fonológica por meio da descrição das atividades que as professoras relataram, pois estas envolvem jogos metalinguísticos focalizados no reconhecimento das relações entre letra e som e na capacidade de compreender o caráter segmentação das palavras, com atividades de linguagem oral, que envolvem trocadilhos, rimas, poesias rimadas e músicas, que a seguir serão descritas de maneira mais específica na apresentação da próxima subcategoria.

Quando questionadas em relação à concepção de alfabetização que baseavam suas ações pedagógicas, apenas uma professora participante da pesquisa (14%) fez referência em ter como concepção de alfabetização a consciência fonológica. A professora Adriana afirmou que por conta das características específicas de uma classe hospitalar seriam melhor para o ensino

da linguagem escrita as atividades que desenvolvem as habilidades da consciência fonológica e, desta forma, se baseia nesta concepção para realizar a organização e o planejamento de suas atividades, privilegiando situações didáticas que dão oportunidades das crianças de produzirem palavras com rimas, com segmentação das palavras em sílabas, de acrescentar e excluir sílabas das palavras, bem como de manipular fonemas das palavras, com trocas de letras. A professora aponta ainda, que devido à internação de algumas crianças durarem por volta de 10 dias, o trabalho sugerido pelo Programa Ler e Escrever não consegue adequar-se para essa realidade específica e que essas atividades da consciência fonológica, se tornam mais adequado, devido às condições e características da classe hospitalar.

A consciência fonológica foi à base de ensino que atendeu em todos os sentidos as necessidades das crianças da classe hospitalar (Professora Adriana).

[...] Eu trabalho a consciência fonológica, até porque na classe hospitalar, nós temos uma fonoaudióloga e ela nos orienta sobre a importância do ensino da correspondência grafema-fonema. Eu também fui investigar muito sobre a consciência fonológica e acredito que esse é o caminho para a alfabetização. A consciência fonológica nos dá condições de trabalhar em pouco tempo e obter bons resultados, possibilitando ter na alfabetização atividades com começo, meio e fim (Professora Adriana).

A professora Adriana, tendo como base a consciência fonológica para o ensino da linguagem escrita afirma utilizar softwares educativos, que se apresentam como uma estratégia didática bastante interessante, principalmente para as crianças internadas que apresentam distrofia muscular e que contam com uma enorme dificuldade na mobilidade das mãos, afirma que seu uso facilita a aquisição do princípio alfabético, tendo em vista que o software educativo apresenta-se como um recurso bem interativo e dinâmico para a criança possibilitando o desenvolvimento da consciência linguística.

A respeito do uso de recursos didáticos interativos e digitais, Souza (2014)24 em sua pesquisa demonstra que o uso de um aplicativo educativo para o

24

Na pesquisa de Joseane Terto de Souza, que no ano de 2014, elaborou em sua dissertação de mestrado intitulada Mundo das Letras: um aplicativo para ensinar o nome e o som das letras a crianças falantes do português do Brasil teve como intuito desenvolver um aplicativo educativo para ensinar o principio alfabético e testar de modo experimental em um grupo de crianças da

ensino do princípio alfabético, favorece a aprendizagem contribuindo para a reconhecimento e a nomeação das letras do alfabeto, após as intervenções com o uso do aplicativo. A autora, ainda sugere que, este recurso didático pode despertar o interesse e a motivação das crianças em permanecer na atividade com atenção e um desejo expresso de continuar aprendendo.

A professora Kelly, que também num dos momentos da entrevista fez referência à consciência fonológica, não como sua concepção de alfabetização, mas a professora destacou sobre a falta de receber uma formação mais específica a respeito do desenvolvimento das habilidades da consciência fonológica e afirma que apesar de seguir as orientações do Programa Ler e Escrever da Secretaria Estadual de Educação acredita utilizar, mesmo que de forma inconsciente, uma série de atividades que acabam por promover a manipulação dos segmentos menores da palavra, tais como a letra e o som da letra e com isso trabalhar a consciência fonológica.

Eu já ouvi falar sobre a consciência fonológica, mas eu não uso. Não é de a minha prática usar essas atividades, mas eu sinto necessidade de conhecer mais sobre isso. Porque na hora de ensinar uma palavra você tem de dizer, a letra inicial e mostra que tenho duas palavras com a mesma letra e sons diferentes. Inconscientemente a gente acaba trabalhando. Não é que eu trabalho, mas inconscientemente você acaba trabalhando, como por exemplo, com a rima (Professora Kelly).

No entanto, como Santos (2004); Santos e Maluf (2007; 2010) destacam ser de grande importância o professor tomar conhecimento sobre a relação da consciência fonológica e a aprendizagem da linguagem escrita, pois além de compreender os níveis de complexidade dessas habilidades, poderia oferecer de forma mais sistematizada atividades didáticas e situações que despertassem a percepção do aluno em relação às características sonoras das palavras e assim, manipular os sons da fala de forma consciente, tais como sílabas, rimas e fonemas.

Educação Infantil, entre 5 e 6 anos de idade. O grupo de aplicação era formado por 30 crianças, com um total de nove sessões de 30 minutos cada uma delas. Após as nove sessões do aplicativo educativo, a pesquisadora observou um aumento no total de letras nomeadas do alfabeto pelos alunos do grupo de aplicação, no total de 99 letras ao fim do experimento, demonstrando como o aplicativo pode ser uma ferramenta eficiente no avanço para o conhecimento do nome das letras e da aquisição do princípio alfabético.

Tunmer (2013) aponta que é um equivoco frequente buscar o “melhor método” para ensinar a ler, já que segundo o autor, a abordagem mais efetiva a ser utilizada com qualquer criança depende dos conhecimentos, habilidades e experiências que a criança traz, isto é, seu capital cultural letrado, para ocorrer à tarefa de aprendizagem da leitura. Diante disso, o autor destaca que numa perspectiva predominantemente construtivista, como a abordagem da linguagem total, que coloca maior ênfase na leitura de livros e na escrita de textos, com algum ensino eventual de habilidades de análise de palavras durante as atividades de leitura e escrita é, portanto mais apropriada para as que têm níveis mais altos de capital cultural letrado no início da escolarização. Por outro lado, as crianças com baixo capital cultural letrado – como podem ser consideradas as crianças hospitalizadas, no início da escolarização, provavelmente se beneficiarão mais de instrução de leitura que incluem ensino explícito e sistemático em consciência fonológica e decodificação no nível de palavras.

A ideia de que uma abordagem qualquer, seja a fônica tradicional ou a linguagem total, possa servir para todas as crianças tem sérias limitações, pois a abordagem mais efetiva para ser usada com qualquer criança depende de onde a criança está localizada no continuum de “divisão de trabalho” quando começa a frequentar a escola (TUNMER, 2013, p.135- 136).

Contudo, Ceccim (1999) afirma ter observado em sua pesquisa, que muitas das crianças hospitalizadas apresentavam defasagem escolar de um a três anos, se comparadas com crianças de mesma idade cronológica e nunca hospitalizadas, além de detectar o abandono escolar ou dependendo da idade em que foram acometidas pela enfermidade, nunca terem chegado a frequentar uma escola. Por conta desse fato, o atendimento pedagógico educacional no ambiente da classe hospitalar, com ênfase no ensino da linguagem escrita, se torna válido para que possa contribuir com o desenvolvimento de muitas habilidades necessárias para aprender a ler e escrever.

Tunmer (2013) aponta ser de muita importância para as crianças que aprendem a ler em ortografias alfabéticas, a exposição à instrução explícita em consciência fonológica e codificação alfabética com o objetivo de favorecer a compreensão do princípio alfabético, além dos usos de processos indutivos, isto é,

após considerar um número suficiente de relação letra-som, e pode desta forma generalizar, que são conhecimentos construtivos necessários para o desenvolvimento do conhecimento implícito acerca dos padrões de relação letra- som.