Em relação à subcategoria atendimento pedagógico nas classes hospitalares, constatamos que todas as professoras entrevistadas realizam atendimento multisseriado, pois atendem crianças que se encontram na faixa etária que vai desde a educação infantil até o ensino médio, isto é, todo o nível de ensino da Educação Básica. Por conta deste tipo de atendimento, das sete classes hospitalares, quatro determinam horário diferenciado de atendimento, de acordo com idade, num primeiro momento do atendimento da classe hospitalar reservado para as crianças da educação infantil até o ensino fundamental I- 1º ano ao 5º ano, e, num segundo momento reservado para as crianças e os adolescentes do ensino fundamental II- 6º ano ao 9º ano e do ensino médio. Mas, afirmam que não se nega atendimento à criança que se dirige à classe hospitalar fora desses horários, pois para a professora, o fato do aluno sair do leito, este representa um grande benefício proporcionado pela classe hospitalar.
A respeito do horário de atendimento, as classes hospitalares tentam organizar horários que não atrapalhem demais a rotina de internação, que mantém horários para a higienização, alimentação, realização de exames, visita do médico no leito, horário para visitas, enfim, uma série de atividades presentes na rotina hospitalar. Por conta disso, a classe hospitalar, funciona em horário um pouco diferenciado do turno de uma classe de escola regular de ensino. Nas classes hospitalares pesquisadas, estas funcionam no período da manhã, das 7 h 30 min às 11 h 30 min e no período da tarde, das 12 h 30 min às 16 h 30 min, mas as professoras afirmam que o atendimento pedagógico educacional ocorrido no turno da manhã é o que mais sofre em questão do tempo escolar, pois grande parte dessas atividades da rotina hospitalar ocorre pela manhã.
A respeito do horário de atendimento, uma das professoras faz um horário diferenciado, pois atende o setor de nefrologia e seu atendimento ocorre das 8 h às 10 h. Depois seu atendimento na classe hospitalar ocorre das 10 h às 14 h. A professora afirma que o atendimento no setor de nefrologia é bastante complexo,
pois exige também por parte do professor muita sensibilidade para perceber se a criança está bem ou não.
Uma dificuldade que eu encontrei é a questão de eles passarem mal. Por exemplo, o aluno fala, "Professora, busca ali minha pasta para fazer atividade". Vou lá, quando eu volto, já tem vários médicos em cima da criança porque subiu a pressão demais ou então caiu à pressão demais e elas passam mal, vomitam. Uma série de problemas que acontecem ali, já aconteceu de eu vir atender em um dia e não atender ninguém porque eles passaram mal ou porque estavam dormindo ou porque realmente não quiseram o atendimento e eu fiquei simplesmente ali e não atendi nenhuma criança. Então o hospital, o ambiente hospitalar traz muito isso, a gente tem que respeitar a condição que a criança está. Então se ela falar, "professora, hoje eu não quero", eu não posso forçar essa criança a fazer a atividade. Então a gente respeita, conversa. Tem criança que já chegou e falou, "prô, hoje eu só queria conversar um pouquinho com você. Hoje eu não estou bem, a medicação não me fez bem, eu ainda estou com dor, pode sentar um minutinho?". "Posso". Sento, converso, eu sempre sou muito brincalhona, então eu falo alguma coisa e eu faço ele abrir aquele sorriso e depois eu falo, "agora eu tenho que ir, tem outras crianças que eu preciso atender, mais tarde eu passo para saber se você está melhor, tudo bem?". "Tudo, prô, pode ir". Então, eu vou. Neste momento o foco não é só fazer atividade, atividade, atividade; temos que respeitar a criança e atuar o nosso lado humanizador no processo de ensino (Professora Patrícia).
Ceccim (1997) fala da escuta pedagógica afirmando que a escuta não se limita ao campo da fala, que é muito mais que isso, se refere à descoberta dos mundos interpessoais da criança, que constituem seu mundo subjetivo, no sentido de entender cada singularidade presente em cada criança. Deve ser uma escuta da qual nasce o diálogo e que deve ser presente na Educação.
Fonseca (2008) aponta que a humanização em saúde busca resgatar o respeito à vida humana, e que não apenas nas relações no hospital, mas em todas as relações humanas que deveriam levar em conta as circunstâncias sociais, éticas e educacionais de cada pessoa.
As normativas do estado de São Paulo recomendam que todos os pacientes em idade escolar internados podem receber atendimento escolar, desde que autorizados pela família. Lembrando que o atendimento pedagógico educacional na classe hospitalar será para os pacientes internados num período superior a 15 dias ou em acompanhamento ambulatorial diário que estejam impedidos de frequentar a escola, mas mesmo com um número de dias de internação menor que isso, as professoras afirmam que não ficam sem realizar a intervenção junto à criança, pois julgam ser muito importante que essas se sintam acolhidas neste ambiente hospitalar.
Em todas as classes hospitalares as professoras relataram duas formas de atendimento pedagógico educacional para as crianças da ala pediátrica do hospital: (1) A criança que não tem nenhuma restrição médica vai até a classe hospitalar e na maioria das vezes esse atendimento ocorre de maneira individual, com uma atividade programada que tem começo, meio e fim. (2) A criança com restrição médica ou impossibilitada de se locomover até a classe hospitalar o atendimento é feito no leito (ou na UTI, ou na Sala de hemodiálise, ou no ambulatório). As professoras também falam das crianças que tem algum tipo de restrição e que devem permanecer em isolamento: como por exemplo, o isolamento de contato ou isolamento reverso (que é o de proteção), que visa proteger o paciente de agentes infectantes. Neste caso, para ocorrer o atendimento pedagógico o professor deverá adotar algumas medidas de segurança, como usar os seguintes materiais descartáveis: capa, máscara, luvas e não deixar de higienizar as mãos antes e depois do atendimento pedagógico educacional. Outro aspecto a ser observado diz respeito aos materiais escolares, que devem ser de uso exclusivo dessa criança e no final descartar as atividades realizadas, não as transportando em hipótese alguma, para a classe hospitalar.
Em relação ao atendimento ocorrer na classe hospitalar ou no leito, uma das professoras destaca que os adolescentes preferem o atendimento individual no leito, mas para trazê-los até a classe hospitalar ela utiliza de algumas estratégias muito interessantes, descritas abaixo numa das entrevistas realizadas.
As crianças maiores não se sentem à vontade para ficarem na classe hospitalar, eles se sentem infantilizados. Por isso, os atendimentos são feitos na maioria das vezes no leito. A professora para incentivá-lo a sair do leito pede sua ajuda e que estes possam na classe hospitalar explicar as regras de um jogo, acreditando com isso, propiciar a socialização da criança, aumentar sua autoestima e assim ao se sentirem importantes pode esquecer o momento da doença que estão vivendo (Professora Jandira).
Outra questão presente, que podemos observar sobre o atendimento, diz respeito às atividades consideradas como lição de casa, mas que na classe hospitalar são classificadas como atividades de leito. Percebemos que todas as professoras se utilizam deste artifício para que as crianças se mantenham ocupadas e possam mesmo no leito realizar atividades pedagógicas que visam enriquecer seus conhecimentos e desenvolver habilidades. Uma grande parte
disponibiliza livros para que fiquem no leito e estes possam ler em outros horários e inclusive ser um motivador de interação junto ao acompanhante.
Constatamos que no atendimento da classe hospitalar não existe uma regra única, pois o professor deverá ter a sensibilidade de perceber o aluno, suas condições físicas, psicológicas e intelectuais e com isso oferecer atividades que lhe visem desenvolvimento, bem estar e prazer, alegria e em poder oferecer atividades que o tirem do leito e possam propiciar momentos de socialização e aprendizagem.