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Se ela um dia despencar do céu E se os pagantes exigirem bis E se o arcanjo passar o chapéu

(Edu Lobo/Chico Buarque – 1982)

Baumol e Bowen (1965) foram dois dos primeiros economistas a tratar especificamente das artes e de sua relação com o emprego nas indústrias culturais, ainda na década de 1960. No artigo On the performing arts: the anatomy of their economic problems (Sobre as artes performáticas: a anatomia de seus problemas econômicos), os autores partiam da premissa de que, na visão romântica, o trabalho artístico é associado à pobreza:

O Romantismo há muito tempo fixou em nossas mentes a ideia de que há algo inevitável na associação entre realização artística e pobreza. O artista que passa fome tornou-se um estereótipo, e entre suas conotações está a noção de que sordidez e miséria são nobres e inspiradoras. (ibidem, p.495, tradução nossa)17

Contudo, segundo eles, um atributo positivo da época em que viviam era justamente a negação deste "absurdo", uma vez que, longe de inspirar, a falta de recursos materiais privaria os artistas de "energia", "tempo" e "equipamentos" para criar suas obras. Além disso, para aqueles que diziam que os artistas não tinham uma fonte de renda, os dados sobre os salários dos trabalhadores, publicados pelo censo norte-americano em 1960, revelavam uma surpresa:

Pode-se, ou não, ver algo de chocante no fato de que o rendimento médio total, em 1959, de homens classificados pelo censo como atores foi de $ 5,640; que o de músicos e de professores de música foi de $ 4,757; e que o de dançarinos e professores de dança foi de $ 3,483. (ibidem, p. 495, tradução nossa)18

Mas havia um problema: nem todos esses valores vinham diretamente do trabalho artístico. Pelo contrário, os músicos, dançarinos e atores que responderam

17 Romanticism long ago fixed in our minds the idea that there is something inevitable about the

association between artistic achievement and poverty. The starving artist has become a stereotype among whose overtones is the notion that squalor and misery are noble and inspiring.

18 One may or may not see something shocking in the fact that the median total income in 1959 of

males classified by the census as actors was $5,640; that for musicians and music teachers the comparable figure was $4,757; and that for dancers and dancing teachers, $3,483.

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a pesquisa exerciam também outras funções, como pescadores ou motoristas de caminhão. Além disso, enquanto o governo dos Estados Unidos, na época, anunciava uma grande expansão da cultura, as casas de espetáculos, os grupos de teatro e as companhias de dança viviam em permanente crise financeira, apesar do mercado crescente para os filmes de Hollywood (ibidem).

Para explicar essas contradições, Baumol e Bowen (ibidem) compararam a produção artística às empresas sem fins lucrativos. De acordo com os economistas, se o objetivo de uma fábrica de automóveis é gerar lucro a partir da venda dos produtos, para uma empresa sem fins lucrativos, a qualidade dos serviços prestados é um fim em si mesmo, o que é motivo para uma verdadeira "catástrofe financeira", uma vez que sempre que essas instituições recebem uma verba, elas descobrem outra necessidade para aplicar o dinheiro e, assim, nunca estão com o balanço positivo. A propósito, o público de uma organização sem fins lucrativos é sempre maior do que uma empresa voltada para o lucro tentaria alcançar, e os preços são sempre mais baixos, já que os produtos e serviços que ela distribui são desejados pela parcela da população mais desprovida de recursos:

Uma vez que esses grupos normalmente consideram a si mesmos como uma fonte de virtudes, é natural que eles busquem distribuir sua recompensa o mais ampla e equitativamente possível. O grupo normalmente é determinado a evitar rendas e riquezas em si mesmas ao decidir quem terá prioridade no consumo de seus serviços. Ele deseja oferecer seus produtos aos necessitados e aos estudantes merecedores, aos que estão sem dinheiro, aos que inicialmente não estão interessados em consumi-los, e a uma variedade de outras pessoas para quem os altos preços serviriam como um impedimento efetivo ao consumo. (ibidem, p.498, tradução nossa)19

Segundo os autores, esses problemas enfrentados pelas organizações sem fins lucrativos também estão presentes no dia a dia das instituições voltadas para as artes e a cultura. Além disso, o capitalismo em geral avança a partir do desenvolvimento da tecnologia, que diminui os custos dos produtos e aumenta o consumo. Só que, com as artes, esse raciocínio não é verdadeiro: é pouco provável que um maestro diminua o número de músicos em uma orquestra para reduzir os custos dos ensaios, ou que compre instrumentos mais baratos e de qualidade

19 Since such a group normally considers itself to be a supplier of virtue, it is natural that it should seek

to distribute its bounty as widely and as equitably as possible. The group is usually determined to prevent income and wealth alone from deciding who is to have priority in the consumption of its services. It wishes to offer its products to the needy and the deserving-to students, to the impecunious, to those initially not interested in consuming them, and to a variety of others to whom high prices would serve as an effective deterrent to consumption. (Traduzido pela autora).

87 inferior para que a gravação de uma sinfonia não fique muito cara. Com isso, os economistas davam visibilidade ao trabalho artístico, mas concluíam o artigo sendo favoráveis ao financiamento público ou ao patrocínio privado para que as artes pudessem florescer.

A ideia da arte como um "problema econômico", uma atividade que não se sustenta financeiramente, iria persistir por algum tempo. E, de fato, apesar do crescimento das indústrias culturais, a década de 1960 foi marcada pelo desenvolvimento dos Ministérios da Cultura, em diversos países, sendo que o modelo francês foi um dos que mais se destacaram. É importante ressaltar que, apesar de um primeiro esforço no sentido da "preservação" do patrimônio artístico e das diversas tentativas de "democratização da cultura", as artes continuavam a se expandir pelos meios de comunicação e pela produção em série de bens culturais, o que, poucos anos mais tarde, seria incluído nas próprias políticas de governo.

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