• No results found

Levert som bestilt?

In document Et blikk utenfra (sider 14-19)

Para Bell e Oakley (2014, p.47), tudo o que um governo decide fazer em relação à cultura pode ser classificado como política cultural. Há duas possibilidades: a "regulamentação da cultura", o que inclui a censura, a proteção e os direitos à propriedade intelectual; e a "promoção da cultura", da qual fazem parte o "patrocínio e o financiamento público" ou o incentivo ao apoio privado. Nesse sentido, as políticas culturais estiveram presentes ao longo da história, seja na encomenda de obras por parte de aristocratas, da Idade Média ao Renascimento, seja no incentivo ao livre comércio, como ocorreu com a abertura das academias no século XIX, ou na proibição de atividades artísticas ou culturais, como no período da Ditadura Militar no Brasil.

As políticas culturais também podem ser entendidas como um discurso. Nesse caso, governantes e pesquisadores se perguntam: para que serve a cultura, como ela é organizada e como produz efeitos particulares, quem propaga seus diversos sentidos e com que finalidade? (ibidem). Essa última abordagem tornou-se mais estruturada a partir da segunda metade do século XX, quando os primeiros ministérios dedicados à cultura e às artes começavam a ser criados na Europa. Era o contexto da Guerra Fria e, segundo Miller e Rose (2012), as três décadas

88

posteriores ao fim da Segunda Guerra Mundial foram marcadas pela tentativa de fundir diversos programas sociais em um sistema coerente, dirigido a partir do centro:

As formas de racionalidade política que tomaram forma na primeira metade do século XX estabeleceram o cidadão como ser social cujos poderes e obrigações eram formulados na linguagem de responsabilidades sociais e de solidariedades coletivas. O indivíduo devia ser integrado na sociedade na forma de um cidadão com necessidades sociais, em um contrato no qual indivíduo e sociedade tinham mútuas reivindicações e obrigações. Uma diversidade de programas para previdência social, bem-estar da criança, higiene física e mental, educação universal e até mesmo a forma e o conteúdo da diversão popular, administrada dentro desse arrazoado, e numerosas tecnologias eram inventadas – da segurança social à clínica de orientação infantil – para buscar pô-la em prática. (ibidem, p.64)

A cultura fazia parte desse sistema, e o exemplo mais evidente vinha da França. Em 1956, foi publicado nos Cahiers de la République (Cadernos da República) o texto Pour um Ministère des Arts (Por um Ministério das Artes), escrito por Robert Brichet (2012), um alto funcionário da Secretaria de Estado para as Artes e as Letras, na IV República. A função do órgão seria "ensinar o público a apreciar a arte, e incentivá-lo a desenvolver sua sensibilidade artística através de uma educação que iria mais sugerir do que impor":

Ora, nos dias de hoje, apenas uma minoria participa dos benefícios das Artes. Uma aristocracia sempre pode comprar pinturas, móveis de estilo, ouvir grandes concertistas, aplaudir um balé no teatro de Ópera ou alguma reprise no Théâtre-Français, pagar o preço da entrada para ridicularizar Picasso no museu de Antibes ou admirar o espetáculo "Som e Luz" de Versalhes [...]. Os outros só podem escutar rádio ou assistir ao desfile de 14 de julho. Não se deveria frustrar o povo por mais tempo. (ibidem, p.47)

Apesar do alto apelo social, em sua proposta já se percebia também uma dimensão econômica:

O Ministério das Artes irá surgir como um ministério cultural e social defendendo a arte sob todas as formas, dando aos franceses o exercício de seu direito à cultura. Além disso, esse ministério será um ministério que tem contato com a economia nacional em mais de um ponto quando se considera o número de pessoas que se dedicam à criação artística ou gravitam em torno dela: fornecedores de matéria-prima, comerciantes de quadros, antiquários, restauradores de obras de arte, pintores, escultores, atores de teatro, bailarinos, decoradores, maquinistas, eletricistas, músicos, fabricantes de material ou de instrumentos musicais, de aparelhos para cinema, editores, livreiros, atores de cinema, arquitetos, conservadores, desenhistas, controladores, jardineiros, vigias etc. (ibidem, p. 50).

Em 1959, o Ministère d'État chargé des Affaires culturelles foi, de fato, criado pelo general De Gaulle e entregue a André Malraux. Inserido em um "Estado de bem-estar social", sua proposta continuava sendo a "democratização” da cultura. As duas políticas principais eram: "fazer que todos os cidadãos pudessem chegar às

89 obras da cultura" e "estender aos artistas os benefícios da proteção social" (POIRRIER, 2012, p.20). A ideia de intervenção do estado era predominante:

Em suma, nosso dever é acabar com a alienação do indivíduo em relação à cultura do presente e do passado. Transformar em um bem comum um privilégio é o objetivo das casas de cultura; é o objetivo da grande exposição das reservas do Louvre que será vista em maio de 1960; é o objetivo das grandes manifestações teatrais de massa que serão desenvolvidas a partir desse ano. É o objetivo do programa de publicação que está sendo estudado pela Caixa Nacional das Letras e que irá permitir, fora de qualquer subordinação comercial, a reconstituição do patrimônio literário francês. (PICON, 2012, p.53)

Esse modelo espalhou-se pelo mundo. No Brasil, por exemplo, nesta mesma década, o Ministério da Educação e Saúde desmembrava-se em Ministério da Saúde (MS) e em Ministério da Educação e Cultura (MEC), que, mais tarde, se separaria ainda em Ministério da Cultura (MinC) e Ministério da Educação (MEC). Nessa mesma época, a televisão chegava ao país e novas linguagens artísticas começavam a ser elaboradas. Surgiam, entre outros, "o Cinema Novo, a Bossa Nova, o Violão de Rua, o Grupo Oficina, os trabalhos de Lígia Clarck e Hélio Oiticica" (CALABRE, 2007). Enquanto isso, na França, uma "revolução cultural" também estava em curso: professores, intelectuais, estudantes, mulheres e minorias protestavam nas ruas, realçando novos comportamentos em relação à sexualidade, à moral, às tradições e às hierarquias.

In document Et blikk utenfra (sider 14-19)