em Espanha*
A María Ros: in memoriam Este nosso trabalho, que constitui uma homenagem a Maria Rós, fa- lecida em Dezembro de 2006, recorre a um dos mais importantes con- tributos que esta autora deu à psicologia social espanhola: o estudo das identificações com categorias sócio-políticas cujos níveis de inclusão di- ferem entre si – desde as categorias infranacionais (regiões autónomas, no actual quadro organizativo do Estado espanhol) até à nacional (Es- panha) e à supranacional (União Europeia). Trata-se de analisar a reper- cussão dessas identificações e das relações complexas que entre elas se estabelecem nas relações entre indivíduos pertencentes às diferentes ca- tegorias. O nosso objectivo é, pois, fornecer um panorama dos estudos que se baseiam na identidade comparativa, assinalar as influências e re- lações entre a nossa investigação e outras efectuadas no mesmo campo e identificar as implicações teóricas destes trabalhos.
O jogo das identidades assume especial relevância na actualidade eu- ropeia, um tempo em que tanto os Estados membros da União como os candidatos à integração apresentam diversos graus de entitatividade – isto
* Este capítulo é uma versão modificada do artigo dos mesmos autores «La identidad comparativa veinte años después: repercusiones en el domínio de las relaciones intergru- pales», publicado na Revista de Psicología Social, num número especial em homenagem a Maria Ros (2008), 23 (3), 297-313.
é, registam divergências quanto à medida em que são percebidos como uma unidade pelos indivíduos que os integram. Muitos destes Estados também divergem quanto ao grau em que albergam no seu seio catego- rias infranacionais susceptíveis de gerarem lealdades sobreponíveis à leal- dade perante o próprio Estado e capazes de reivindicarem um novo es- tatuto no quadro da União. Neste caso, em que categorias sociais diferentes coexistem no âmbito de determinada entidade política, im- porta distinguir as situações em que as identificações se ordenam de modo congruente, com é o caso dos ingleses no Reino Unido e dos an- daluzes ou dos castelhanos em Espanha, das situações em que tal não acontece, porque a identificação com a categoria infranacional é muito superior à existente com a nacional, como acontece com os bascos. Im- porta também considerar as repercussões sobre as relações entre os mem- bros das categorias infranacionais nos casos em que a relação com a ca- tegoria nacional é congruente com a que se estabelece com a categoria infranacional e nos casos em que não o é ou se verifica mesmo uma re- lação negativa entre ambas as categorias. Neste último caso, é fácil en- contrar uma maior variabilidade das posições dos indivíduos no interior da categoria infranacional, o que deve ser considerado um indício de conflito no seio desta a propósito da lealdade perante o Estado nacional. Por exemplo, num estudo efectuado com uma amostra representativa da população espanhola, Sangrador (1996) detectou, ao comparar a identi- ficação com a Espanha e com as categorias autonómicas catalã e basca, que, enquanto no primeiro caso não existe relação, no segundo existe uma relação negativa. Além disso, encontrou maior variabilidade na iden- tificação com a Espanha no País Basco do que em qualquer outra das autonomias estudadas.
Importa ainda ter em conta que há grandes variações entre o número de categorias infranacionais que existem em cada Estado, desde, por exemplo, as 17 que encontramos actualmente em Espanha até às 2 exis- tentes na Bélgica. Isto deverá repercutir-se não só no modo como as identificações com as respectivas categorias infranacionais e com a na- cional influenciam as relações entre os indivíduos a elas pertencentes, mas também na intensidade das posições conflituantes, que podem che- gar ao ponto de questionarem a unidade nacional. Por outro lado, a re- lação entre a categoria infranacional e a nacional terá repercussão na po- sição dos indivíduos perante a categoria supranacional europeia, seja no plano da avaliação que dela fazem (Huici et al. 1997), seja na disponibi- lidade para adoptar as directrizes que dela emanam (Mols e Haslam 2008).
Como já se referiu, a investigação sobre a identidade comparativa constitui não apenas um dos contributos fulcrais que María Ros deu à psicologia social em Espanha, mas também um testemunho do seu espí- rito de iniciativa, capacidade de trabalho e inteligência penetrante, bem patentes na abordagem de questões tão cruciais como a das identidades nacional, autonómica e europeia no contexto espanhol e num momento histórico decisivo: o da consolidação do Estado das autonomias, num contexto de transição para a democracia e de integração da Espanha no que é hoje a União Europeia. Esta abordagem pressupõe a capacidade de detectar os problemas relevantes e dar-lhes resposta numa perspectiva psico-social e com recurso a instrumentos adequados.
A investigação sobre a identidade comparativa teve início em 1985, no âmbito de um primeiro projecto em que participaram, além da pró- pria María Ros, Carmen Huici e Ignacio Cano. Logo então surgiu o in- teresse pelo que viria a constituir o foco de atenção prioritário em ques- tões de identidade social: a identificação com categorias sociais que apresentam diferentes graus de inclusividade e a sua repercussão sobre as relações intergrupais. Basicamente, coloca-se como hipótese que, quando uma pessoa se identifica mais com uma dessas categorias e menos com outra, a primeira será mais relevante para essa pessoa individualmente considerada (que se sentirá, por exemplo, mais galega do que espanhola) e influirá mais nas suas relações com membros de outras categorias e na valoração dessas categorias (por exemplo, castelhanos ou Castela). Se- guiu-se uma longa série de trabalhos centrados nesta hipótese, num total de vinte, que contaram com a participação adicional de outros investi- gadores, espanhóis e britânicos: Ángel Gómez, Mercedes Carmona, Ni- cholas Hopkins, Nicholas Emler, Hector Grad e Antonio Bustillos.
Na segunda parte do presente texto procurar-se-á detectar eventuais influências da referida investigação em trabalhos posteriores sobre a iden- tidade comparativa, tanto de autores espanhóis como de outros países, e indicar quais os âmbitos de aplicação da psicologia social quando a iden- tificação simultânea com categorias sociais de diferentes níveis de inclu- são é tida em conta.
Como se sabe, a noção de identidade comparativa surge no âmbito da teoria da identidade social, que dominou o campo das relações inter- grupais nos últimos trinta anos. É uma noção que se baseia no conceito de identidade social proposto por Tajfel (1972 e 1978). Para este autor, a identidade social resulta da pertença psicológica a um grupo social e con- siste no conhecimento dessa pertença e num conjunto de conotações emocionais e valorativas a ela associadas. O facto de a identidade social
ter um carácter positivo ou negativo será uma consequência dinâmica das comparações sociais com outros grupos relevantes em determinado contexto social.
A construção do conceito de identidade comparativa teve também em conta os desenvolvimentos da teoria da autocategorização (Turner et al. 1987), segundo a qual o autoconceito é o resultado de uma série de auto- categorizações a diferentes níveis de abstracção ou generalidade. Assim, uma pessoa pode categorizar-se quer enquanto indivíduo (caso em que o nível de abstracção que utiliza é o mais baixo e as comparações que efectua pertencem ao nível intragrupal), quer enquanto membro de certos grupos sociais, activando a sua identidade social, o que implica o recurso a um nível de abstracção intermédio. Neste segundo caso, a pessoa estabelece comparações com membros de outros grupos. Por último, pode pensar nela mesma como ser humano, aqui já com recurso ao nível de abstracção mais elevado, na medida em que a sua atenção foca aquilo que mais tem de comum com as outras pessoas. Esta corrente teórica propõe que há uma série de categorias que fazem parte do autoconceito e variam quanto ao nível de especificidade e de inclusão. Dentro do nível social é possível distinguir categorias mais ou menos inclusivas, como, por exemplo, oci- dental, europeu, espanhol ou andaluz. Para a mesma teoria existe uma re- lação hierárquica formal entre estas várias categorias inclusivas e sobre- postas, desde as menos inclusivas até às mais inclusivas. O relevo que um indivíduo atribui a determinada categoria dependerá do contexto social. Esta saliência de uma categoria social em relação às outras, ou entre o nível social e o pessoal, reflectir-se-á no comportamento. Turner et al. (1987) propõem que a relação existente entre os níveis pessoal, social e como ser humano é de antagonismo funcional, de modo que, quando um dos níveis está activado, os outros deixam de influir no comporta- mento. O antagonismo funcional entre os vários níveis de autocategori- zação existe porque «a saliência de um nível produz semelhanças intra- categoria e diferenças entre categorias, o que reduzirá ou inibirá a percepção das diferenças intracategoria e das semelhanças intercategorias que servem de base, respectivamente, aos níveis mais baixos e mais eleva- dos de categorização» (Turner et al. 1987, 49).