Dada a importância do federalismo na matriz da vida política suíça, será de esperar não só que neste país a identificação local e regional seja particu- larmente elevada em comparação com outros países, mas também que essas formas de ligação se revelem mais fortes do que a ligação à nação.5
O quadro 6.1 mostra que há realmente diferenças entre países, mas não as esperadas.6É certo que, por exemplo, a França, país fortemente centra-
lizado, não apresenta uma identificação local elevada, mas a Espanha revela um elevado grau de identificação local, e neste caso esperar-se-ia uma maior ligação às regiões. Ao contrário do que poderia prever-se para um país com grande descentralização, os dados mostram ainda que o nível de identifi- cação local registado na Suíça quase coincide com a média europeia.
Também surpreendentemente, os inquiridos suíços revelam maior li- gação à Europa do que os inquiridos de outros países. Portanto, apesar do cepticismo manifestado em sucessivos referendos, a vocação europeia da Suíça parece inegável – pelo menos em termos geográficos. Quanto ao grau de identificação dos suíços com o seu país, este mostra-se mais elevado do que a média europeia.
Ainda que a interpretação das respostas dadas neste questionário exija alguma cautela, uma vez que a bateria de perguntas é naturalmente limitada e o modo como essas perguntas são entendidas pelos inquiridos pode so- frer alguns desvios resultantes da tradução e da especificidade dos contextos culturais, ainda assim, os resultados obtidos sobre os graus de identificação a nível local, regional, nacional e internacional de modo algum corroboram a ideia de que a Suíça é uma excepção. Importa agora investigar mais pro- fundamente o conteúdo da identidade nacional no contexto suíço.
Identidade nacional
A discussão sobre o conceito de identidade nacional nunca deixou de ser controversa (Reicher e Hopkins 2001). Por exemplo, quais serão os requisitos para alguém ser considerado suíço? Para analisar esta questão
5A questão da identidade nacional é particularmente delicada nos estados federais.
V., por exemplo, Billiet, Maddens e Beerten (2003) para o caso belga.
6A escala de resposta para a pergunta «em que medida se sente próximo» variava
entre 1, «muito próximo», e 4, «nada próximo». Recodificámos esta variável de modo que a escala esteja organizada de forma ascendente – 1, «nada próximo», e 4, «muito próximo».
seleccionámos um conjunto de critérios de atribuição da nacionalidade, incluídos no questionário ISSP-2003. A pergunta foi apresentada da se- guinte forma: «Algumas pessoas acham que os aspectos que lhe vou re- ferir são importantes para se sentir verdadeiramente [nacionalidade]. Ou- tras pessoas acham que não. E o(a) sr.(a), qual a importância que dá a cada um deles...».7Avaliámos a posição assumida pelos inquiridos rela- tivamente aos diversos critérios de nacionalidade apresentados. Por outras palavras, quisemos saber qual era a relação que se estabelece entre as di- ferentes «concepções» de nacionalidade e como varia de país para país a aceitação destes mesmos aspectos ou critérios determinantes. Foi efec- tuada uma análise factorial em componentes principais. Começámos por identificar a estrutura subjacente ao agrupamento das variáveis (quanto maior a correlação com uma componente, maior o papel na dimensão considerada). A seguir comparámos as respostas obtidas nos diversos paí- ses.8
Quadro 6.1 – Identificação local, regional, nacional e supranacional em nove países europeus
(médias)
Em que medida Em que medida Em que medida Em que medida País se identifica com se identifica com se identifica com se identifica com
a sua localidade a sua região o seu país a Europa
Grã-Bretanha 3,07 2,97 3,08 1,97 Irlanda 3,22 3,25 3,45 2,41 Noruega 2,92 2,94 3,32 2,72 Suécia 2,96 2,84 3,26 2,54 Espanha 3,47 3,43 3,33 2,90 França 3,00 3,04 3,46 2,60 Dinamarca 3,03 2,63 3,47 2,61 Suíça 3,08 3,02 3,32 2,98 Finlândia 3,02 2,58 3,39 2,35 Total 3,16 3,01 3,33 2,53
Escala: 1, «nada próximo», a 4, «muito próximo».
7Esta questão é também analisada para outros países nos capítulos 2, de João Leal, e
3, de José Sobral, nesta obra.
8Devemos ter sempre presente que uma das dificuldades inerentes aos inquéritos in-
ternacionais é a comparação entre as respostas dadas a determinada pergunta nos dife- rentes países. Isto porque a percepção do sentido da pergunta e a escolha da resposta por parte dos inquiridos são influenciadas, quer pelo significado específico das palavras em- pregues em cada país, quer pelo contexto nacional concreto. Nesse caso a análise factorial pode ser a solução para encontrar «uma resposta média», menos sensível a este tipo de variações e por isso mesmo mais apta a servir de instrumento de comparação.
A análise extraiu duas componentes que agrupavam todas as variáveis (quadro 6.2).9Na primeira componente, a pertença a um país surge as- sociada às raízes e a elementos formais constitutivos da cidadania política
stricto sensu. Na linha de Heath e Tilley (2005),10dizemos que esta é uma
«dimensão étnica». Já a segunda componente valoriza aspectos que podem ser considerados sinais de integração, como o uso da língua e o respeito pelas instituições do país de acolhimento. É o que designamos, uma vez mais na esteira de Heath e Tilley (2005), por «dimensão cívica»11 (v. também Green 2007).
O quadro 6.3 mostra que a «dimensão étnica» é muito importante na Irlanda e relativamente pouco importante nos países nórdicos.12Em con- Quadro 6.2 – Critérios determinantes da nacionalidade
(pesos factoriais)
Dimensão étnica Dimensão cívica
Ter antepassados [nacionalidade do país] 0,85 0,06
Ter nascido em [país] 0,83 0,06
Ter vivido em [país] a maior parte da vida 0,70 0,27
Ser [religião] 0,68 –0,05
Ter cidadania [nacionalidade do país] 0,58 0,43
Respeitar as leis e instituições políticas de [país] –0,06 0,78
Saber falar [língua do país] 0,07 0,75
Sentir-se [nacionalidade do país] 0,40 0,57
% variância explicada 35,3 22,5
Método de extracção: análise factorial em componentes principais. Método de rotação: Varimax com normalização Kaiser.
9Estes resultados suscitam duas questões: serão os referentes idênticos para todos os
inquiridos? E, no caso de haver diferenças, será o país o factor de diferenciação? Sem pretender entrar em pormenores, refira-se que um estudo efectuado com base no IN- DSCAL concluiu que existem diferenças de avaliação e ponderação de país para país no respeitante à importância atribuída aos vários aspectos da nacionalidade. Contudo, assu- mimos que os aspectos considerados foram igualmente entendidos pelos inquiridos, o que nos permite utilizar os resultados obtidos como variáveis explicativas nos modelos a seguir desenvolvidos.
10Heath e Tilley (2005); v. uma distinção semelhante em Green (2007).
11Os resultados são idênticos aos apresentados por Sobral no capítulo 3, apesar de
este autor ter incluído na análise 33 países, e não apenas 9, como sucede aqui. No con- junto, estes resultados indicam: (a) uma grande estabilidade dos entendimentos de senso comum sobre esta questão, apesar da imensa diversidade dos países envolvidos; (b) cla- rividência do senso comum relativamente à dimensão cívica, mas não relativamente à dimensão étnica. Futuros estudos deverão testar a hipótese de uma correlação entre as duas dimensões no pensamento leigo, quotidiano (nota dos organizadores).
12As variáveis originais foram codificadas de 1, «muito importante», até 4, «nada im-
trapartida, quase todos os países nórdicos (com a única excepção da Fin- lândia) e a França atribuem grande importância ao respeito pelas insti- tuições e à língua («dimensão cívica»).
A posição dos inquiridos suíços é vincadamente «neutra». Nem o apoio à «cidadania étnica» (que seria de esperar, visto que a lei suíça es- tabelece critérios de atribuição da nacionalidade baseados no princípio do ius sanguinis) nem o apoio à «cidadania cívica» se mostram particular- mente fortes. Mais uma vez, pois, a hipótese de a Suíça constituir um «caso especial» é posta em causa.
Imigração
A imigração é, desde há muito, um tema de discussão relevante na Suíça. Os referendos sobre o assunto têm-se sucedido desde há mais de trinta anos, independentemente das políticas nacionais seguidas em cada momento. Recorremos a seis itens do ISSP-2003 para avaliar as atitudes face à imigração e aos imigrantes. As variáveis seleccionadas permitem distinguir entre os inquiridos com uma visão crítica da imigração e os que vêem nessa mesma imigração consequências positivas. A análise fac- torial em componentes principais que efectuámos extraiu uma única componente que reflecte esta oposição (quadro 6.4).
Quadro 6.3 – Concepções de nacionalidade
(médias dos scores factoriais)
País Dimensão étnica Dimensão cívica
Grã-Bretanha 0,07 –0,13 Irlanda 0,74 –1,07 Noruega –0,12 0,40 Suécia –0,59 0,43 Espanha 0,39 –0,45 França –0,23 0,44 Dinamarca 0,07 0,33 Suíça –0,22 –0,21 Finlândia –0,04 –0,09 Eta2 0,353 0,474
dente: 1, «nada importante», até 4, «muito importante». Assim, um score factorial negativo indica baixa saliência de uma das duas concepções sobre a nacionalidade num dado país. O valor do eta refere-se ao «tamanho» das diferenças entre países, o que neste caso pode ser considerado elevado.
De acordo com a escala utilizada, os valores positivos correspondem aos países que, em média, são menos críticos e os negativos indicam aqueles países onde globalmente se revelaram atitudes mais críticas rela- tivamente aos imigrantes. Também aqui importa usar de cautela na in- terpretação dos resultados, dado que os contextos nacionais são de tal modo variados que a própria noção de «população imigrante» pode mudar de significado de um país para outro.13
Quadro 6.4 – Percepções sobre a imigração
(pesos factoriais)
Atitudes face aos imigrantes
O governo gasta demasiado dinheiro na assistência aos imigrantes –0,81 Na sua opinião, o número de imigrantes em [país] deveria ser... 0,76
Os imigrantes beneficiam a economia de [país] 0,72
Os imigrantes melhoram a sociedade [país], trazendo novas ideias e culturas 0,72 Os imigrantes fazem com que as taxas de criminalidade aumentem –0,70 Os imigrantes tiram oportunidades de emprego às pessoas que nasceram em [país] –0,68
% variância explicada 53,9
Método de extracção: análise factorial em componentes principais. Método de rotação: Varimax com normalização Kaiser.
Escala: 1, «concordo completamente», a 5, «discordo completamente». Quadro 6.5 – Atitudes face aos imigrantes
(médias dos scores factoriais)
País Média Grã-Bretanha 0,34 Irlanda 0,04 Noruega 0,23 Suécia –0,21 Espanha –0,29 França 0,15 Dinamarca –0,04 Suíça –0,32 Finlândia 0,03 Eta2 0,208
13Pode haver enviesamentos menos conhecidos ou subestimados que nem por isso
deixam de ter influência. Numa comunicação que apresentou sobre os resultados da pri- meira vaga do European Social Survey, Jaak Billiett assinalou que em certos países, como a Holanda, o facto de ter havido muitos inquiridos que inicialmente se mostraram relu- tantes a responder mas acabaram por ser convencidos a fazê-lo provocou o aumento da proporção das respostas críticas relativamente à imigração.
O quadro 6.5 mostra que a Suíça está longe de ser o país com atitudes menos favoráveis em relação aos imigrantes.14Embora as médias nacio- nais não divirjam significativamente umas das outras, são mesmo os in- quiridos suíços que, além dos espanhóis, se mostram menos críticos, em contraste com os noruegueses e, mais ainda, os britânicos. Este resultado tem interesse porque demonstra que a persistência da questão da imigra- ção no debate político helvético, com reflexo até em diversas iniciativas da sociedade civil, não aumentou o distanciamento dos suíços em relação aos estrangeiros neste domínio – e quase se diria que ocorreu o contrário. Também aqui a análise não sustentou a ideia de Sonderfall.