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Observando o contexto de final do século XIX na Amazônia, verificamos que as intervenções políticas no sudeste do Pará, que resultaram na criação de uma Colônia Agrícola localizada nas proximidades da foz do rio Itacaiúnas, se deram em período de crescente valorização econômica da borracha. Tratava-se de um período de grande envolvimento de trabalhadores na extração do látex, entre 1894 e 1899. Por sua vez, a criação do chamado Burgo do Itacaiúnas está intrinsecamente relacionado, como já mencionado, às pretensões políticas do então governador paraense Lauro Sodré. Tratamos, portanto, de explicar o contexto de sua criação e as formas de intervenções políticas que o tornaram realidade.

Conforme o pesquisador Roberto Santos, em sua obra clássica acerca da História

Econômica da Amazônia, a década de 1890 constituiu-se decisiva na produção industrial europeia, sobretudo a automobilística que, desde então, “não parou de crescer, arrastando consigo no fulminante sucesso a de pneumáticos de borracha”. De modo geral, segundo ele, toda a indústria fabril da borracha apresentava evolução impressionante, nas grandes importações norte-americanas, inglesas e de outros países da Europa.55 Entre o período de 1889,

a 1898 as cotações se elevaram extravagantemente em Belém e, “apesar da inelasticidade da produção, a quantidade de borracha exportada pela Amazônia brasileira aumentou bastante e continuou em ascensão até 1912”.56 Sobre o período de desenvolvimento comercial da borracha

amazônica, a historiadora Barbara Weinstein também detectou que “o impacto demográfico e econômico do negócio da borracha só viria a ser plenamente sentido com o advento dos ‘anos dourados’ da Amazônia, aproximadamente de 1880 a 1910”.57

Os anos de expansão ampliaram, em grande medida, às oportunidades de emprego e investimento no negócio da borracha, bem como a um grande número de empreendimentos públicos e privados. Na década de 1890, por exemplo, alterava-se a estrutura urbana central de Belém, lugar de residência da elite seringalista, comerciantes e profissionais liberais beneficiários do comércio gomífero. De acordo com a pesquisa de Barbara Weinstein, “em 1899, Belém recolhia sozinha, um total de impostos de 6.110 contos (cerca de 1,5 milhões de dólares)”. A prosperidade econômica da borracha, segundo Weinstein, foi percebida nos

55 SANTOS, Roberto. História Econômica da Amazônia: 1800-1920. São Paulo. T. A. Queiroz, 1980. p. 201. 56 SANTOS. Op. Cit., p. 202.

57 WEINSTEIN, Bárbara. A borracha na Amazônia: expansão e decadência (1850-1920). São Paulo: HUCITEC-

investimentos governamentais em obras arquitetônicas: a construção de palacetes como centros administrativos, mercados populares e a revitalização da estrutura urbana, sobretudo nas regiões centrais da capital paraense.58 Conforme pesquisa da historiadora Luciana Marinho Batista, foi

nesse período, segunda metade do século XIX, que a cidade de Belém passou a ter seus primeiros bancos como, o Banco Comercial da Província do Pará e a Caixa Filial do Banco do Brasil, além de grandes investimentos na pavimentação de ruas, na criação da Capitania do Porto, investimentos que foram seguidos do significativo aumento de prédios e a acelerada mudança nas vias públicas belenenses. Iniciava, portanto, o período de mudanças urbanas que culminaram nas construções de ferro características de seus empreendimentos imobiliários na virada do século XIX para o XX.59 Porém, com relação à política governamental para o interior

do Pará, nos últimos anos do século XIX, o geógrafo Rogério Rego Miranda registrou as ações impulsionadas pela preocupação em manter uma produtividade agropecuária compatível à produtividade da borracha e a realidade desenvolvimentista vivenciada naquele momento pela capital paraense. Conforme registro do pesquisador, uma das metodologias adotadas pelos governos paraenses do período, a fim de alcançar as diversas regiões do Estado foi a instituição de colônias agrícolas, incentivos à migração e a ocupação dos espaços tidos como ociosos e, portanto, não condizentes com o momento econômico vivido. Tais empreendimentos governamentais apresentavam em suas ideologias, pretensões de civilizar e levar o progresso a lugares vistos como desabitados. Por isso, acrescenta Miranda que “não por acaso essa colonização ocorreu de 1875 a 1908, coincidindo com o momento de maior desenvolvimento comercial do extrativismo da borracha”.60

Os núcleos coloniais desenvolvidos no interior paraense, contudo, se efetivaram devido ao financiamento ocasionado pelo extrativismo da borracha, já que parte dos tributos de sua exportação destinava-se aos cofres públicos. Os impostos oriundos do extrativismo patrocinaram os projetos de migração e a construção de linhas férreas como estratégias para o escoamento da produção do interior, cujas exigências eram de bens alimentares. Na Amazônia, a introdução desse meio de transporte se deu entre 1870 e 1890. Os empreendimentos de maior relevância no período referido foram às linhas férreas de Madeira-Mamoré, na fronteira com a Bolívia, cujo principal objetivo era ligar as áreas produtoras de látex e escoar sua produção; a

58 WEINSTEIN. Op. Cit., p. 105.

59 BATISTA, Luciana Marinho. Muito além dos seringais: Elites, Fortunas e Hierarquias no Grão-Pará, c.1850

– c.1870, p. 50.

60 MIRANDA, Rogério Rego. Interfaces do rural e do urbano em áreas de Colonização Antiga na Amazônia:

estudo de Colônias Agrícolas em Igarapé-Açu e Castanhal. Dissertação (Mestrado). Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Programa de Pós-Graduação em Geografia, Belém, 2009, p. 81.

Estrada de Ferro Tocantins, construída no sudeste do Pará, entre a então Alcobaça (cidade de Tucuruí) e o encontro dos rios Tocantins e Araguaia, cujo plano era interligar Belém aos cauchais do sudeste paraensse, superando os obstáculos postos pelas cachoeiras do Tauiry e Itaboca e viabilizando o comércio entre o Pará e a região central do país; e a Estrada de Ferro Bragança como auxílio para as políticas de povoamento, cuja pretensão era levar a colonização e o progresso aos locais tidos como ainda desabitados.61 No Pará, as Estradas de Ferro Bragança

e Tocantins visaram, além de tudo, a utilização dos espaços interioranos e a sua integração com a capital paraense.62 A criação de colônias agrícolas, munidas de apoio financeiro e projetos de

escoamento, tinham como fim manter à sustentabilidade na produção alimentícia perante o grande envolvimento da força de trabalho com os seringais. De acordo com o historiador Ernesto Cruz, havia uma especial atenção dos governos paraenses do final do século XIX quanto à prática de colonização do interior. Segundo Cruz, somente entre 1893 e 1899, foram regulamentadas dezenas de colônias agrícolas, dentre elas os Núcleos Coloniais da Estrada de Bragança como: Apeú, 1896; Castanhal, 1893; Jambu-Açú, 1895; Benjamim Constant, 1894; Marapanim, 1893; José de Alencar, 1898; Santa Rosa, 1898; Ferreira Pena, 1898; Anita Garibaldi, 1898; Ianetama, 1899 e Inhagapi, 1898.63

Os Burgos Agrícolas, conforme Cruz, foram até regulamentados através da lei de número 583 de 21 de junho de 1898, enquanto estabelecimentos industriais de agricultura fundados em virtude de concessões do governo estadual paraense. O objetivo em criar tais empreendimentos foi o de facilitar e auxiliar a criação e desenvolvimento de pequenas propriedades rurais ligadas ao poder central em Belém. Tais núcleos agrícolas seriam regidos por contratos de parceria, segundo as quais o preço da produção precisaria ser aprovado pelo próprio governo estadual. Os denominados Burgos Agrícolas, pensados para o interior, precisavam ser localizados em terrenos férteis e serem idênticos aos outros núcleos coloniais mantidos pelo executivo estadual do Pará.64 Neste caso, “às obrigações dos concessionários e

61 MIRANDA. Op. Cit., p. 81- 89. 62 MIRANDA. Op. Cit., p. 82.

63 CRUZ, Ernesto. Colonização do Pará. Conselho Nacional de Pesquisas. Instituto Nacional de Pesquisas da

Amazônia, Belém, 1958, p. 86-100. Além da pesquisa atribuída a Ernesto Cruz, destacando os projetos de imigração e formação de Colônias no interior paraense, lembramos aqui que outros trabalhos consistentes foram efetivados com essa temática. Em destaque os pesquisadores amazônicos e suas respectivas obras: LACERDA, Franciane Gama. Migrantes cearenses e colonização. In: Migrantes cearenses no Pará: faces da sobrevivência

(1889-1916). Belém: Açaí, 2010, p. 303-369; SARGES, Maria de Nazaré. A “Galícia” paraense: imigração espanhola em Belém (1890-1910). In: CHAMBOULEYRON, Rafael & ALONSO, José Luis Ruiz-Penado.

T(r)ópicos de História: gente, espaço e tempo na Amazônia (séculos XVIII a XXI). Belém: Açaí, 2010, p.

201-218; EMMI, Marília Ferreira. Italianos nas cidades amazônicas/Contribuição da imigração de italianos à economia amazônica. Italianos na Amazônia (1870-1950): pioneirismo econômico e identidade. Belém: Edufpa/NAEA, 2008, p. 155-225.

colonos estavam regulados nos minuciosos e longos contratos que assinavam de modo a garantir a estabilidade do agricultor e o desenvolvimento do Burgo”, em conformidade com as regras determinadas pelo Estado. Os contratantes deveriam explorar apenas um terço dos terrenos concedidos pelo governo e destinar dois terços às famílias nacionais e estrangeiras que possivelmente pudessem contribuir com a colonização do espaço em questão. Para tanto, o governo garantia um “auxílio de quatrocentos mil réis por famílias de colonos introduzidos no burgo, pago ao concessionário, além da ajuda de duzentos mil réis entregues a cada colono chefe de família”.65 Os investimentos governamentais nos diversos espaços paraenses em forma

de Colônias Agrícolas, Burgos Agrícolas ou Núcleos Coloniais resultaram, posteriormente, em diversos municípios pelo interior do Pará, dentre eles Bujaru, Abaetetuba, Ourém, Porto de Moz e Marabá; este último no sudeste do Pará.66

Quanto à formação do Burgo Agrícola do Itacaiúnas como forma primeira de uma ocupação do sudeste do Pará, planejada por políticas de Estado, ela foi retratada de várias formas e versões. Ora através de argumentos que a defenderam enquanto colonização espontânea, ora sustentada como o resultado de acordos e tramas políticos. Porém, em grande parte das narrativas produzidas sobre o tema é perceptível um caráter épico do evento, que caracteriza os pioneiros do Burgo do Itacaiúnas como heróis e desbravadores. Em nosso caso, optamos por analisar a formação do Burgo Agrícola do Itacaiúnas através das tramas políticas, privilegiando os registros de época. Em nossa investida, não pretendemos retratar a verdade, mas apresentar uma coerência entre os acontecimentos, correlacionando-os. Para tanto, partimos da ideia de que os primeiros registros de ocupação oficial que deu origem ao denominado Burgo Agrícola do Itacaiúnas, na região sudeste do Pará, constituiu-se como uma ação planejada e marcada pela intervenção do então governo do Estado, a fim de adequar a região em questão à política central em Belém. Defendemos aqui, que a intervenção política foi concretizada por meio de um consórcio, contrato firmado entre Lauro Sodré, governador do Pará durante o período de 1891 e 1897 e Carlos Gomes Leitão, um morador abastado e líder político da cidade de Boa Vista de Goiás, correspondente a atual Tocantinópolis, Tocantins

(Figura 2). Nos dedicamos, então, a explicar esse acordo e sua relação com o princípio formal de ocupação da região sudeste do Pará.

65 Idem.

Figura 2. Município da antiga Boa Vista no final do século XIX. Fonte: PALACIN, Luis Gomez. Coronelismo no extremo norte de Goiás: O Padre João e as três revoluções de Boa Vista. São Paulo: Edições Loyola, 1990,

p. 23.

Começaremos nossa explicação com a identificação do engajamento político do governador Lauro Sodré e o porquê da sua aproximação com Carlos Leitão. Sodré havia se constituído em uma das maiores referências do positivismo no Pará e defensor da difusão das doutrinas do intelectual francês Augusto Comte no Brasil. Conforme pesquisa do historiador Alan Watrin Coelho, o discurso de Sodré quando aluno da Escola Militar da Praia Vermelha no Rio de Janeiro, expressa o seu compromisso em difundir as doutrinas comtianas no país. De acordo com as palavras de Sodré, citadas pelo historiador Watrin Coelho, a “ideia do século” seria a religião que não se opõe a ciência. Tratava-se da “religião comtiana” que já se fazia presente e àquela altura estava nas grandes comemorações realizadas por ocasião dos

centenários dos grandes homens, tanto da América quanto da Europa”.67 Já o outro personagem

do consórcio, Carlos Gomes Leitão, assim como Sodré, também se posicionava enquanto dedicado seguidor do pensamento positivista. Essa opção ideológica de Leitão o levaria a tomar algumas medidas como líder político na cidade de Boa Vista que, por sua vez, influenciaria na sua vida política, determinaria uma aproximação com Sodré e, consequentemente, possibilitaria a ocupação regulada e assistida da região sudeste paraense.

O contrato entre Lauro Sodré e Carlos Leitão, está relacionado à renúncia ao governo brasileiro do Marechal Deodoro da Fonseca (1889-1891) e, por conseguinte, à ascensão de Floriano Peixoto como novo presidente da República positivista do Brasil, que governaria o país entre 1891 e 1894. A narrativa que trata dessa versão é da escritora maranhense Carlota Carvalho.68 Seus argumentos posicionam o florianismo como responsável

por imposições comtianas extremas. A principal medida desenvolvida pelos florianistas positivistas no poder, conforme Carvalho, foi a intitulada prática da “legalidade”,69 regulamento

político que tratava da deposição e demissão de todas as pessoas ligadas ao poder público que contrariassem ao novo regime de governo. O intuito da ação era evitar que alguém interferisse nas pretensões de institucionalização do positivismo no país. De acordo com a narrativa de Carvalho, a prática da “legalidade” foi executada e “funcionou sem tropeço”, porém, se fez uma exceção a então cidade de Boa Vista de Goiás que resistiu à ordem positivista de Peixoto.70

Com relação à razão que teria feito a cidade de Boa Vista reagir à “legalidade”, Carlota Carvalho aponta a extrema devoção religiosa desenvolvida na cidade desde os tempos da revolta maranhense dos Balaios, proporcionada pela situação de “terror dos suplícios de 1840 e alucinada pelo delírio religioso que a confortava na desgraça”.71 A ordem da “legalidade”

teria sido repassada em Boa Vista pelo líder político local Carlos Gomes Leitão, que, por isso

67 COELHO, Alan Watrin. A ciência do governar: Positivismo, evolucionismo e natureza em Lauro Sodré.

Dissertação de Mestrado. Universidade Federal do Pará. Belém. IFCH, 2006, p. 30-31.

68 CARVALHO, Carlota. O Sertão. Rio de Janeiro: Empresa Editora de Obras Scientificas e Literárias, 1924, p.

227. Não se trata de uma obra contemporânea ao governo de Floriano Peixoto, porém, os seus argumentos retomam o período de final do século XIX, a fim de analisar a conjuntura política nacional à época da “Revolta popular de Boa Vista de Goiás, entre 1891 e 1894. Enquanto método narrativo, Carvalho pretende mostrar que, com o movimento de Boa Vista, um contingente populacional se deslocou do Centro para o Norte brasileiros, seguindo o curso do rio Tocantins, ocupando o então Norte de Goiás (hoje Estado do Tocantins) e alcançando a região sudeste do Pará.

69 Diz-se do nome “popular” dado ao conjunto de regras políticas e sociais de cunho positivista, imposto por

Floriano Peixoto quando presidente da República, entre 1891 e 1894: a instituição de datas comemorativas para a exaltação de eventos científicos e de seus idealizadores, em detrimento de eventos religiosos, foi exemplo. Pelo menos na cidade Boa Vista de Goiás, às imposições de Peixoto e seguidores foram difundidas por Líderes políticos e religiosos da oposição local como práticas danosas, a “legalidade”, o que estimulou uma reação popular conhecida como “Guerra da Boa Vista”.

70 CARVALHO. Op. Cit., p. 227. 71 Idem.

seria hostilizado pela imprensa católica, pelos opositores políticos e pela população boa- vistense. A extrema religiosidade e devoção aos preceitos católicos do povo local havia historicamente transformado Boa Vista na “Cidade Santa da Fé”, conforme aponta Carvalho. Por conta disso, como reação aos princípios de Ordem e Progresso, a oposição política e religiosa, através do cearense Francisco de Sales Maciel Perna e do Frei Gil Vila Nova foi organizada a resistência. A imprensa, por sua vez, tratou de associar à imagem de Carlos Leitão características avessas aos valores religiosos constituídos no lugar, taxando-o ora como positivista ora como maçom.72

Conforme as tradições locais no final do século XIX, em Boa Vista, “o positivismo era doutrina herética” e havia aparecido justamente com a prática da “legalidade” e, conforme a concepção popular, apareceu para depor também Nossa Senhora e colocar no lugar dela a musa de Augusto Comte, Clotilde de Vaux.73 A “legalidade” havia instituído regras de

deposição e de substituição e, por isso, a moda da época consistia em depor e, falar em depor Nossa Senhora era armar a multidão devota da santa.74 A reação da população de Boa Vista

contra as determinações florianistas resultou em intervenção militar. Conforme considerações feitas por Carlota Carvalho, foi no decorrer da intervenção armada que inúmeras atrocidades teriam sido cometidas, quando “famílias de católicos inteiras foram assassinadas na prisão ou em suas casas depois de cruéis martírios[...]”.75 Aterrorizados pelas ações legalistas da

intervenção militar e pelas exigências promovidas pela “legalidade”, os boa-vistenses reagiram em armas numa guerra civil que durou cerca de dois anos, de 1892 a 1894. Os populares venceram as tropas do governo “nos combates de Aldeia, Sobradinho, Gameleira, Serrinha, Ribeirão Grande, Jatobá e Samba”. Foi quando a própria população de Boa Vista concluiu pelo banimento de Carlos Leitão e seus parentes daquela cidade goiana.76

Em análise do mesmo evento da então cidade de Boa Vista de Goiás, Otávio Guilherme Velho, em Frente de Expansão e Estrutura Agrária atribuiu a revolta boa-vistense à chegada de uma missão religiosa composta de padres italianos por volta de 1840. Aos poucos os sacerdotes católicos foram obtendo grande domínio, “chegando ao ponto de fechar escolas e proibir a leitura de livros”. O objetivo dessa prática consistia em combater a maçonaria e as teorias positivistas.77 Conforme Velho, a particularidade religiosa construída em Boa Vista se

72 Idem 73Idem. 74Idem.

75 CARVALHO. Op. Cit., p. 228. 76 CARVALHO. Op. Cit., p. 229.

77 VELHO, Otávio Guilherme. Frente de expansão e estrutura agrária: estudo do processo de penetração numa

tornou fator fundamental para a compreensão da revolta, que se agravou “com a subida ao poder de Floriano Peixoto”, período em que acendeu a rivalidade entre florianistas e partidos católicos. Em todo o Estado de Goiás o florianismo se impôs e, em Boa Vista, os seus efeitos resultaram na substituição de vigários católicos. A pretensão política teria iniciado uma guerra civil que durou dois anos. Na Guerra da Boa Vista, mesmo com a intervenção de forças militares estaduais, os florianistas teriam sido derrotados e banidos da cidade.78

A derrota dos florianistas em Boa Vista teria promovido um verdadeiro êxodo e, Carlos Gomes Leitão, junto com seus adeptos, teria descido o rio Tocantins em direção à região sudeste do Pará. A movimentação em fuga dos derrotados de Boa Vista, nas argumentações de Velho, foi vista pelo “Governador do Estado do Pará, Lauro Sodré, como uma oportunidade de afirmar o seu domínio sobre os limites litigiosos entre os três Estados”, tendo em vista especialmente as riquezas naturais e a produção agrícola. Através de uma manobra política, Sodré apoiou os fugitivos de Boa Vista e os colocou sob sua égide.79 Ainda referente aos

argumentos de Velho, a ocupação da região do rio Itacaiúnas teria assumido um caráter semioficial. Embora muitos dos refugiados políticos se espalhassem pela margem do rio Tocantins no sudeste do Pará, o maior grupo, aquele “liderado por Carlos Leitão, antigo deputado provincial (em Boa Vista) foi o beneficiado, pois em 1895 recebeu auxílio de 10 contos de réis do Governador Lauro Sodré para fundar uma colônia agrícola na região”.80

O que defendemos com esses argumentos sobre a ocupação da região sudeste do Pará é que uma reação popular, ao mesmo tempo política e religiosa expulsou de Boa Vista o líder político Carlos Leitão e seus mais fiéis seguidores e familiares, fato que os levou ao sudeste do Pará e a uma política concessionária firmada entre os dois adeptos de Augusto Comte, Lauro Sodré e Carlos Leitão. Neste caso, o governador do Pará, Lauro Sodré deu asilo aos florianistas expulsos de Boa Vista, sugerindo a criação do Burgo Agrícola do Itacaiúnas.81

Em outro registro, acerca da ocupação da região sudeste paraense, atribuído a Ignácio Baptista de Moura,82 os ocupantes do Burgo, tendo à frente Carlos Leitão para

desenvolverem a colônia agrícola, receberam do governo do Estado, além do dinheiro referido, apoio em mantimentos e produtos de necessidades básicas. A exigência com relação ao uso da