Quanto às críticas tecidas à bibliografia que trata da formação do Burgo Agrícola do Itacaiúnas, como princípio de ocupação oficial do sudeste do Pará, elas estão embasadas, como foi assinalado, na existência do projeto de colonização agrícola do interior paraense, idealizado e concretizado pelo governador Lauro Sodré. Este, conforme Weinstein, foi escolhido pelo Congresso Estadual para um mandato de cinco anos, de 1891 até 1897, enquanto um defensor da economia positivista e de teorias monetárias conservadoras.101 Com relação aos
planos de Sodré para o interior paraense, foram registradas várias ações que revelam sua preocupação com o abastecimento alimentar dos centros urbanos. Porém, com relação aos discursos de escassez de alimento, devido a locomoção de mão de obra para o trabalho na extração da borracha, eles já foram superados por pesquisas sólidas acerca da existência de vasta produção alimentícia desenvolvida paralelamente à produção do látex. A pesquisadora Luciana Marinho Batista, por exemplo, verificou que a prática extrativista e exportadora e a produção agropecuária colocadas em posições dicotômicas constituem uma explicação simplista.102 Dessa forma, ganhará destaque a de maior valor comercial, como foi a borracha
na Amazônia. Porém, o que Batista pretende mostrar, é que existia uma estreita combinação das atividades de coleta, de cultivo e criação.103 Portanto, o que defendemos é a existência de
empreendimentos agropecuários pelo interior do Pará como ações preventivas, tendo em vista o grande contingente de trabalhadores deslocados para a produção de borracha. Sodré, em seu governo, demonstrou como uma de suas maiores preocupações, segundo Weinstein, a decadência da agricultura paraense, quer “para a exportação, quer para o consumo local [...]”.104
Em publicação do governador Lauro Sodré, de 1893, antes do acordo concessionário com Carlos Leitão, já era explícita a preocupação com a possível redução na produção de gêneros agrícolas que, com o passar dos anos poderiam desaparecer do mercado. Em mensagem, o governador Lauro Sodré denunciava o problema como uma preocupação antiga e dizia que:
já no mesmo ano de 1868 [...] falando da situação da lavoura e da irresistível atração que naturalmente leva para a indústria da borracha todos os homens à cata de mais alta remuneração do trabalho, assim quase todos os braços livres abandonam a
101 WEINSTEIN, Bárbara. A borracha na Amazônia: expansão e decadência (1850-1920). São Paulo:
HUCITEC-EDUSP, 1993, p. 134.
102 BATISTA, Luciana Marinho. Muito além dos seringais: Elites, Fortunas e Hierarquias no Grão-Pará, c.1850
– c.1870, p. 49.
103 BATISTA, Op. Cit., p. 47. 104 WEINSTEIN. Op. Cit., p. 135.
agricultura e lavradores não encontram já recursos suficientes para continuarem a aproveitar a terra.
Desde 1863 que o sr Araújo Brusque clamava contra esse estado de coisas, referindo- se a agricultura em termos que translado: ‘E os braços que emprega são sempre móveis cedendo as vantagens que lhes afigura a colheita dos produtos naturais, fogem ao trabalho regular, não se fixam e rolam soltos de mata em mata sem deixar em suas passagens por esses laboratórios da natureza, outros vestígios que não sejam a destruição das árvores que tão grandes riquezas lhe oferecem.105
O lamento de Sodré era que a responsável pelo grande desenvolvimento regional, a indústria da borracha, que tanto contribuía para a receita pública no Pará pudesse vir a causar grandes prejuízos na agricultura, anulando-a. Em análises referentes às preocupações alimentícias vigentes no governo de Sodré, Roberto Santos verificou que elas se davam em função do crescimento demográfico na capital paraense, o centro de comando das operações de produção da borracha. Registrava-se, portanto, que o sucessivo aumento do consumo de suprimento alimentar e de lenha passava a constitui um problema sério.106 Se a falta de braços,
divulgava o governador Sodré, era a principal das causas de grande preocupação, caberia a ele tratar de resolver o problema. Foi criado, em função disso, o serviço de colonização a fim de favorecer a migração de trabalhadores, principalmente destinados ao serviço da lavoura.107
Dessa feita, nasceram as pretensões em colonizar a região sudeste paraense, como já visto, levou a criação do Burgo Agrícola do Itacaiúnas.
Levando em consideração a preocupação com possível enfraquecimento da agricultura, Lauro Sodré teria tomado uma série de outras medidas para evitar a escassez de alimento, dentre elas, a redução de impostos sobre a exportação do cacau em 4% e sobre a castanha do Pará em 16%; eliminou todos os impostos estaduais sobre produtos alimentícios e bens manufaturados, além de incentivar o cultivo da cana e contribuir com cinco e sete contos de réis “a quem cultivasse borracha, café, cacau ou qualquer outro produto agrícola promissor”.108 Com o intuito de assumir o controle do território paraense, sancionou uma Lei,
em 28 outubro de 1891, que tratou dos registros e vendas de terras públicas, discriminação e legitimação de posses.109
Em relatório, o governador paraense Lauro Sodré ressaltava, como maior problema a ser enfrentado no seu governo, o povoamento do imenso território do Pará que, em sua quase totalidade encontrava-se desaproveitado e inculto. Tratava-se de ocupar, urgentemente, a
105 SODRÉ, Lauro. Mensagem. Congresso do Estado do Pará, 1893, p. 25.
106 SANTOS, Roberto. História Econômica da Amazônia: 1800-1920. São Paulo. T. A. Queiroz, 1980. p. 103. 107 SODRÉ. Op. Cit., p. 25-26.
108 WEINSTEIN, Bárbara. A borracha na Amazônia: expansão e decadência (1850-1920). São Paulo:
HUCITEC-EDUSP, 1993, p. 135-136.
imensidão de terras que a mingua de braços estavam voltadas ao abandono.110 A atenção
apresentada por Sodré estava pautada na ocupação do interior do Pará, nas tantas riquezas naturais existentes, as quais o Estado não usufruía e que estavam esquecidas ou inutilizadas, além do empenho de uma grande quantidade de mãos de obra no fabrico da borracha. Para tanto, defendeu a prática de colonização pioneira do interior do Estado como uma forma de garantir abastecimentos futuros e prevenir escassez. Para o governador Sodré, o progresso paraense só existiria de fato, quando “a superabundância de braços atirar para a agricultura as grandes sobras dos que vivem da indústria extrativa, só então devemos dormir tranquilos sobre o nosso futuro grande e feliz”.111 Por isso, argumentava também o governador, que a agricultura
carecia de braços, e os sertões paraenses precisavam ser colonizados. O anseio de Sodré era o de manter o incentivo alimentar e conservar o extrativismo de exportação, tendo à sua disposição uma indústria agropecuária sólida e sustentável. Portanto, as atitudes políticas no decorrer do seu governo, conforme Weinstein, voltavam a programas imediatos de colonização como “necessidade premente de revitalizar a agricultura paraense e, particularmente, aqueles setores que produziam para o mercado local”,112 sendo a região sudeste do Pará um claro
exemplo dos efeitos causados pelos investimentos de Sodré voltados ao interior paraense. No entanto, os esforços para ampliar a agricultura na Amazônia, não foram exclusividades do governo de Lauro Sodré, à medida que eram destaques nos projetos de governos estaduais na região desde meados do século XIX. Segundo Roberto Santos, preocupados em ampliar a agricultura e conscientes da necessidade de implantar núcleos agrícolas com colonos ligados à terra, os governantes paraenses deram grande importância ao processo migratório para esse fim.113 Conforme Manoel Barata, já em 1854, no Pará, “o
presidente da Província Sebastião do Rego Barros chamava a atenção para “o emprego quase exclusivo dos braços na extração e fabrico da borracha” e, por isso, estimulava a criação de regiões agrícolas que pudessem suprir as necessidades alimentares.114 O historiador Arthur
César Ferreira Reis também fez referência ao tema destacando as preocupações daqueles governantes na Amazônia que, a partir de 1850, estiveram atentos aos deslocamentos de mão de obra agropecuária para a extração do látex.115
110 Idem. 111 Idem.
112 WEINSTEIN. Op. Cit., p. 137-138. 113 SANTOS. Op. Cit., p. 87.
114 BARATA, Manoel. Antiga produção e exportação do Pará: estudo histórico e econômico. Belém-Pará:
Livraria Gillet de Torres e Comp.1915, p. 30-31.
115 REIS, Arthur César Ferreira. O seringal e o seringueiro. Rio de Janeiro: Ministério da Agricultura, Serviço de
Porém, às preocupações governamentais e os investimentos agropecuários destinados ao interior paraense não surtiram os efeitos desejados no sudeste do Pará, região onde o extrativismo predominou. A título de exemplo, a produção do caucho já aparecia como destaque nos registros de Ignácio Baptista de Moura nos anos finais do século XIX. Segundo ele, por volta de 1895, foi descoberta nas margens do rio Itacaiúnas a árvore que se reconheceu ser da mesma família da hevea guyanensis.116Naquele momento, segundo Moura, lançou-se o
espírito empreendedor à caça ao produto de borracha, o caucho.117 A economia do caucho no
sudeste do Pará, proporcionou um constante deslocamento demográfico para a região do Itacaiúnas, impulsionado pelo grande valor da borracha amazônica na virada do século XIX, como já mencionado.118 Destacamos esse período de produtividade da borracha de caucho no
sudeste do Pará, como o marco de inserção da cultura extrativista de exportação na região. O trabalho empregado na extração do produto de caucho no sudeste paraense dependia, em grande medida, dos rios e igarapés (Figura 3). Esse mesmo modelo foi repassado, no início do século XX, à dinâmica de coleta da castanha, formando a estrutura econômica dos castanhais e permanecendo predominante até início da década de 1960 na mesmo região.
A região sudeste do Pará, onde nasceria a cidade de Marabá, já se caracterizava como produtora de caucho em 1897. De acordo com a pesquisa da socióloga Marília Ferreira Emmi, merecem destaque nesse processo extrativista da borracha desenvolvido na região sudeste paraense, os irmãos Hermínio e Antônio Pimentel, visto que, foi atribuída a eles a descoberta das primeiras árvores de caucho na região do alto rio Itacaiúnas.119 Conforme
Ignácio Moura, o primeiro contato dos irmãos Pimentel com as árvores de caucho na região, se deu em uma das suas expedições em busca de pastos para o gado trazido do Maranhão e Goiás. Os Pimentel, para Moura, foram atraídos à região pela possibilidade de abastecer seus habitantes com carne bovina.120 No entanto, nos argumentos do historiador Pere Petit, continua
sendo motivo de controversa, a questão do responsável pela organização da expedição liderada
116 De acordo com Paulo de Souza Gonçalves, pesquisador da EMBRAPA, em artigo publicado com título:
“Origem, variabilidade e domesticação da hevea; uma revisão”, caracteriza-se como uma espécie que alcança a altura de 25 a 30 metros. Tronco cilíndrico geralmente sem galhos até a metade de seu comprimento, e uma copa compacta. Produz uma pequena quantidade de látex de coloração amarela e, a borracha produzida é de qualidade inferior se comparado a seringueira tradicional da Amazônia, Hevea brasiliensis. Disponível em: <https://seer.sct.embrapa.br/index.php/pab/article/view/13355> Acesso em 13 fev. 2018.
117 MOURA, Ignácio Baptista de. De Belém a São João do Araguaia: Vale do Tocantins. Reedição da obra
editada em 1910. Belém: Fundação Cultura Tancredo Neves/SECULT, 1989, p. 262.
118 EMMI, Marília. A oligarquia do Tocantins e o domínio dos castanhais. Belém. Centro de Filosofia e Ciências
Humanas / NAEA / UFPA, 1988, p. 25.
119 Idem.
pelos irmãos Pimentel, que havia saído do Burgo do Itacaiúnas “em dezembro de 1895, à procura de campos gerais no Xingu”, para a criação de gado.121
Figura 3. Representação da prática de escoamento do caucho dos igarapés e rios da região sudeste do Pará para
os diversos portos no rio Itacaiúnas. Os rios e igarapés eram fundamentais para esse trabalho. Fonte: CHAVES, Antônio Braga e. Do Lago Vermelho a Itupiranga: uma história para crianças. Itupiranga. 1990.
Concordamos com os argumentos de Pere Petit de que há um consenso quanto à afirmação de uma casualidade pelo fato do sudeste do Pará ter-se incorporado, em fins do século XIX, à extração de borracha.122 Quanto aos irmãos Pimentel, eles eram “criadores de gado e
naturais da Vila do Riachão no Maranhão”,123 que buscavam estabilidade na região do Burgo
Agrícola, através da criação de gado e da comercialização de carnes.124 Desde então, foi o rio
Itacaiúnas que passou a ser a principal via de escoamento do caucho e de ingresso de mão de obra para sua extração, o que proporcionou a locomoção dos habitantes da Colônia Agrícola para o núcleo de Marabá e seu entorno.125 Em pesquisa sobre a história da cidade de Marabá,
121 PETIT, Pere. Chão de Promessas: Elites Políticas e transformações econômicas no Estado do Pará pós-1964.
Belém: Paka-Tatu, 2003, p. 188.
122 PETIT. Op. Cit., p. 188.
123 CARVALHO, Carlota. O Sertão. 3ª Ed. Rio de Janeiro: Empresa Editora de Obras Scientificas e Literárias,
1924, p. 209.
124 Idem.
Almir Queiroz de Moraes ressaltou que na foz do rio Itacaiúnas, já em 1898, um grande movimento de trabalhadores do caucho se formava diariamente para negociar o produto e adquirir gêneros alimentícios no estabelecimento de um maranhense de Grajaú, Francisco Coelho da Silva, este havia sido atraído pelo comércio do caucho realizado no rio Itacaiúnas126.
De acordo com a escritora maranhense Carlota Carvalho, depois de ter observado a região como visitante do Burgo Agrícola, Francisco Coelho deixou o Maranhão e se instalou com uma casa comercial à margem direita do Itacaiúnas, exatamente na sua foz com o rio Tocantins. Segundo Carvalho, a referida casa comercial foi denominada “Marabá” por Francisco Casemiro de Souza, pequeno comerciante de Pedro Afonso de Goiás, mas natural do Ceará, tomando como referência a poesia de Gonçalves Dias. Da casa comercial de Francisco Coelho nasceria o povoado Marabá.127
Já no início do século XX, a produção de caucho na região de Marabá chegou a 462,5 toneladas, representando “1,2% do total da produção de borracha brasileira” daquele período, argumenta o historiador Pere Petit em Chão de Promessas: elites políticas e
transformações Econômicas no Estado do Pará no pós-1964. A narrativa de Petit, acerca da produtividade do caucho na região sudeste do Pará, nos apresenta um período efêmero no que diz respeito à sua rentabilidade. O argumento do historiador está embasado na relação entre o tempo de ascensão econômica do caucho, em final do século XIX, e a desvalorização da borracha amazônica, em início do século XX. Para Petit, “a partir de 1921 e até o segundo curto ciclo da borracha (durante a Primeira Guerra Mundial), a produção de látex no município (Marabá) nunca superaria 100 toneladas”.128 Quanto à dinâmica de produção adotada na
extração do caucho, ela se assemelhou às relações de trabalho desenvolvidas com a extração do látex da seringueira: nas relações de trabalho e coleta, no sistema de aviamento129, nos meios
de locomoção na floresta, nos igarapés e nos rios.130
Como já abordamos as tramas políticas que resultaram no processo de ocupação do sudeste paraense e apresentamos as características econômicas desenvolvidas na região,
126 Idem.
127 CARVALHO. Op., Cit. p. 220. 128 PETIT. Op. Cit., p. 189.
129 Segundo o antropólogo Mikel Otazu Aramburu, em seu artigo, Aviamento, modernidade e pós-modernidade no interior amazônico, aviamento diz-se de um termo cunhado na Amazônia, um sistema de adiantamento de mercadorias a crédito. Começou a ser usado na região na época colonial, mas foi durante a economia da borracha que se consolidou como sistema de comercialização e se constituiu em senha de identidade da sociedade amazônica. No sistema de aviamento o comerciante ou aviador adianta bens de consumo e alguns instrumentos de trabalho ao produtor, e este restitui a dívida contraída com produtos extrativos e agrícolas. Disponível em <http://www.anpocs.org.br/portal/publicacoes/rbcs_00_25/rbcs25_09.htm> Acesso em 13 fev. 2018.
130 CARVALHO, Carlota. O Sertão. 3ª Ed. Rio de Janeiro: Empresa Editora de Obras Scientificas e Literárias,
trataremos agora, das características do percurso entre Belém e o Burgo Agrícola do Itacaiúnas descritas por viajantes no final do século XIX. Se o governo do Pará havia assumido o controle do sudeste do Estado, a via mais adequada para a conexão com o poder político central seria descendo o rio Tocantins em direção a Belém, evitando o caminho inverso que levaria a outros Estados da região central do Brasil. Portanto, verificamos como o percurso foi narrado e a relevância atribuída a ele por viajantes patrocinados pelo governo paraense. Além disso, buscamos mostrar que ao assumir o controle da região sudeste do Estado, contestada por governos goianos e maranhenses, os representantes políticos paraenses tiveram que adotar o caminho mais difícil, com corredeiras, cachoeiras e pedrais, em uma atitude de caráter protecionista. Tais características protecionistas aparecerão com mais clareza, durante o processo econômico da castanha, quando foram criadas regras para a sua coleta e para o seu escoamento, além de regular a distribuição de castanhais.