350 BARROS, José D’Assunção. “História Cultural e História das Ideias – Diálogos Historiográficos”. In:
GEBRAN, Philomena (org) História Cultural: várias interpretações. Goiânia: E.V., 2006. p. 140.
351 WOLFF, Cristina Scheibe. Mulheres da Floresta: Uma História. Alto Juruá, Acre (1890-1945). São Paulo:
HUCITEC, 1999, p. 107. A região sudeste do Pará, durante o período de colonização no final do século XIX, já era visitada por populações indígenas, sobretudo a Gavião. Porém, não os citamos nesta parte da pesquisa por já termos identificado as suas ações na região em pesquisa anterior. Ver: CARNEIRO, Aldair José Dias Carneiro. Agricultores, castanheiros e índios: conflitos pelos usos da terra em castanhais do Médio Tocantins. Belém: Programa de Pós-graduação em História Social da Amazônia, 2009.
352 ANTONACCI, Maria Antonieta. Reservas extrativistas no Acre e biodiversidade: relações entre cultura e
No sudeste paraense, a conduta dos moradores dos castanhais contrariou o grande comércio da castanha na região. Por seguirem os seus hábitos e as suas crenças e se ocuparem, cotidianamente, com atividades inerentes à sobrevivência na floresta, determinando o tempo de suas próprias ações, foram acusados de “invadirem” territórios de castanhais demarcados pela administração municipal sem o documento de matrícula. Foram acusados de invasores pelos arrendatários, quando extraíam castanha em territórios arrendados. Foram repreendidos em seus modos de vida quando ignoraram as regras propostas pelos governo municipal através de Código de Posturas. Essas ações e reações aconteceram devido aos empreendimentos políticos e econômicos desenvolvidos no sudeste paraense, quando foram propostas utilizações do espaço de forma diferente da costumeira.
Durante o período em que permaneceram no interior dos castanhais, diversas crenças passaram a orientar os moradores das comunidades castanheiras, inclusive, algumas já mencionadas na seção anterior. Nos referimos às atividades periódicas que se fizeram determinantes no cotidiano dos castanheiros habitantes dos castanhais do sudeste paraense, aquelas que submeteram esses indivíduos a variadas ocupações. Dentre essas obrigações, identificamos a manifestação religiosa realizada na comunidade de Santa Terezinha do Tauiry, em Itupiranga, o culto ao Divino Espírito Santo. A razão de termos escolhido a referida manifestação religiosa naquela comunidade, foi devido às suas características rurais, além de ela não ter sofrido grandes influências urbanas. As comunidades ribeirinhas ainda se apresentam como principal público das festividades do divino, além de compor o maior número de devotos da festa. Em função desse propósito, lembramos aqui as argumentações de Eduardo Galvão com relação às diversas práticas religiosas do caboclo na Amazônia. Segundo o antropólogo, são os conhecimentos empíricos, manifestações religiosas e outras diversas experiências determinantes nas sucessivas ações cotidianas. Afirma o pesquisador, em um artigo dos anos 1980, que o isolamento dos caboclos amazônicos os teria deixado relativamente imunes contra inovações ou contra a tutela de instituições capazes de modificar o regime tradicional.353 Assim, Eduardo Galvão nos ajuda a entendermos às expressões religiosas do
Divino Espírito Santo na comunidade do Tauiry, devido à conservação de elementos do passado e por ter se mantido, por muito tempo, como tradição em grande parte da região sudeste do Pará.
Enquanto manifestação religiosa, na região de castanhais do sudeste do Pará destaca-se a festividade do “Divino Espírito Santo” e o conjunto de ações desenvolvidas em
353 Ver: GALVÃO, Eduardo. Vida religiosa do caboclo da Amazônia. Boletim do Museu Nacional – Nova Série,
função da sua festa realizada naquela pequena comunidade rural do Tauiry, distrito de Itupiranga. Neste caso, verificamos uma representação do Divino cujas características foram adequadas ao ambiente local. Como ação inicial, o grupo de foliões, cantadores, alferes, caixeiros, sauveiros, violeiros e rezadeiras realizam o “giro”, assim chamado pelos próprios participantes do círculo de visitações aos fiéis em diversos povoados e comunidades ribeirinhas do sudeste paraense. O “giro do Divino” segue o curso das águas, quando os foliões manifestam-se nas comunidades ribeirinhas, apresentam-se ao seus devotos e retornam em ao ponto de partida. A realização principal é a festa do Divino e, por isso, o círculo de visitações realizado tradicionalmente pelos foliões do Divino, possui também a função de convocar os devotos, de lembrá-los da festividade e sensibilizá-los às doações necessárias ao evento. Além da visita a outras comunidades que ainda se encontram, principalmente às margens do rio Tocantins, está incluída nessa rota, a sede municipal, em Itupiranga.354
Figura 17: Capelinha na comunidade de Santa Terezinha do Tauiry, localizado na Boca do Tauiry Grande, o ponto
inicial do “giro” do “Divino Espírito Santo”, 2007. Um povoado já existente em 1893, como povoado do senhor Liart. Fonte: Acervo Pessoal.
354 José Oliveira de Souza, mestre do Divino Espírito Santo, da comunidade de Santa Terezinha do Tauiry. As
O “giro” é realizado através de um movimento anti-horário e inicia entre 19 e 23 de maio de cada ano. Como se trata de uma manifestação tradicional, o “tempo do giro” promove grande expectativa por parte dos promesseiros, pois todos os anos os foliões do Divino manifestam-se aos promesseiros nas comunidades ribeirinhas do sudeste paraense. A conclusão do círculo de visitas marca, também, os preparativos para o festejo do Divino Espírito Santo. As festividades são realizadas em volta ao ponto inicial do “giro”, na capelinha da comunidade de Santa Terezinha do Tauiry, igreja Santa Terezinha (Figura 17). Não existe dia determinado de fechamento do círculo, segundo o senhor José Oliveira de Souza, mestre do grupo de foliões do Divino, são cerca de 25 e 30 dias de percurso com a realização do festejo de encerramento da peregrinação no mês de junho.355Como a prática do “Divino” é um ato repetitivo e certo a
cada ano, os promesseiros já reservam com antecedência, segundo José Oliveira, os alimentos para doação e usufruto dos foliões. Há promesseiros que preservam cargas inteiras de frutas, outros guardam farinha, arroz, animais, etc., como forma de pagamento pelas graças, oferecendo os produtos para a realização da festa do Divino Espírito Santo.356
A festa do Divino Espírito Santo na região de castanhais do sudeste paraense caracteriza-se por uma manifestação religiosa que envolve um número significativo de camponeses zelosos por suas crenças. Por isso, durante determinado período, de maio a junho, os devotos direcionam suas concentrações às suas obrigações com os acontecimentos religiosos. O festejo do Divino com as sucessivas atividades ligadas a ele, se configura em uma das mais importantes ocupações dos habitantes dos castanhais, na comunidade do Tauiry e outros povoados ribeirinhos. Além do período dedicado às atividades do Divino, outras ações e crenças sempre regularam o cotidiano nas comunidades castanheiras, como já mencionamos algumas e, por isso, seus modos de vida se desenvolveram à margem da grande economia castanheira. Assim, com o objetivo de apresentar as condutas e posicionamentos expressos pelos habitantes dos castanhais, selecionamos alguns personagens que nos apresentam características dos cotidianos historicamente mantidos nas comunidades castanheiras. Optamos por arguir os sujeitos que viveram na região no período em estudo, entre 1930 e 1964, destacando seus modos de vida, as tradições, as crenças e as formas de adaptação ao lugar dos castanhais.
Como já apresentamos, anteriormente, as aversões dos castanheiros locais com relação às legislações dos castanhais e monitoramento na coleta de castanha, exemplificamos a seguir às reações mais recentes desses indivíduos perante a possibilidade de suas remoções
355 Idem. 356 Idem.
promovidas pelas Centrais Elétricas do Norte do Brasil (Eletronorte) na década de 1980. O objetivo em buscar esse acontecimento, localizado fora do nosso recorte, é reforçar o argumento de que os cotidianos desenvolvidos nos castanhais do sudeste paraense pelos castanheiros locais, desenvolveram-se alheios às políticas econômicas empregadas pelos governos municipais, estaduais ou federais. Além disso, devido à ausência de documentos que nos fornecessem maiores detalhes sobre a vida cotidiana no interior dos castanhais da região no período especificamente estudado. Buscamos, portanto, uma análise mais próxima do presente, entre o final dos anos 1970 e meados de 1980, mas com reflexões sobre tempos passados, os tempo dos castanhais do sudeste do Pará, entre 1930 e 1964.
A Usina de Tucuruí, segundo o sociólogo Antônio Carlos Magalhães, teve sua construção iniciada no começo dos anos 1970, como um dos Grandes Projetos para a Amazônia durante o regime militar, e se alongou até 1985. De acordo com esse autor, a barragem da hidrelétrica viria a inundar, a partir de setembro de 1984, um total de 2.430 quilômetros quadrados ou 243 mil hectares de terras.357 O empreendimento, inclusive, afetou além de outros,
a vida natural dos ribeirinhos instalados na região de Itupiranga e Marabá, o que forçosamente conduziria ao redimensionamento do espaço rural socialmente ocupado, como afirma o sociólogo Antônio Magalhães.358 Este redimensionamento, segundo o mesmo autor, implicou
“nas transformações relativas às atividades econômicas desenvolvidas pelos regionais”, como a extração da castanha, da pesca, da caça, e da pequena produção agrícola.359 A nossa
observação parte, exatamente, da ação da Eletronorte em remanejar os trabalhadores da comunidade de Santa Terezinha do Tauiry e das famílias ribeirinhas do entorno. Ela se configura com a iminência da relocação, ação que levou as comunidades daquela região a se sensibilizarem com seu locais de costume e a reagirem em favor dele. Essa manifestação das comunidades castanheiras, não se resume aos sentimentos relacionados às características em que se encontravam as estruturas comunitárias à época da remoção, mas ao que elas representavam como lugares de memória.
Em comentário sobre a instalação da Usina, a socióloga Sônia Barbosa Magalhães afirmou que houve um processo formal de expropriação da população ribeirinha do sudeste do Pará entre 1979 e 1984. Com base no pressuposto de que a região, que seria inundada, era um “vazio social”, e com a justificativa da ausência de propriedade e economia de mercado, de um
357 MAGALHÃES, Antônio Carlos. As nações indígenas e os Projetos Econômicos do Estado. In: HÉBETTE,
Jean. O cerco está se fechando: o impacto do grande capital na Amazônia. Vozes/NAEA/UFPA, 1991, p. 98.
358 Idem. 359 Idem.
baixo índice populacional e de analfabetismo, a Eletronorte investiu na remoção dos moradores e sua expropriação. Para a concretização do ato, a empresa de eletricidade patrocinou a construção de vilas na cidade de Itupiranga, além da criação de uma Nova Jacundá a fim de abrigar os moradores das comunidades ribeirinhas da região.360 Conforme Sônia Magalhães, a
transferência foi executada, tendo em vista que a Usina de Tucuruí havia sido planejada partindo de uma concepção dominante, de que a construção de barragens em território brasileiro tratava-se de extrema necessidade. Pela extensão da usina, conforme Sônia Magalhães, haveria a formação de imensos reservatórios de acumulação hidráulica, chegando a 2.430 km², inundado grandes áreas do município de Tucuruí e Itupiranga. O território inundado compreendia dezenas de pequenos povoados, sedes municipais e áreas indígenas. Em função disso, argumenta a autora, foram transferidas cerca de 23.871 pessoas, dentre essas, aproximadamente 4.300 famílias seriam desapropriadas, dos quais, 60% tratava-se de pequenos produtores e coletores residentes nas áreas consideradas rurais pela Eletronorte, ou seja, “as ocupações fora dos povoados, dispersas ou reunidas em pequenos aglomerados no interior da mata”.361 Reiteramos que, a comunidade de Santa Terezinha do Tauiry compôs essa estatística,
junto a outras comunidades ribeirinhas do seu entorno.
A implantação desse projeto hidrelétrico pela Eletronorte provocou, claramente, um confronto de interesses entre a empresa e os castanheiros locais, em comunidades castanheiras no sudeste do Pará. Portanto, para compreendermos esse confronto entre os executivos da hidrelétrica e os castanheiros habitantes da comunidade referida, é pertinente a análise do comentário feito pelo senhor Luiz Gomes da Silva, o “Pé de Pano” (Figura 18). Em sua fala, o senhor Luiz Gomes revela as atitudes da Eletronorte em relação aos moradores ribeirinhos da região na fase de preparativos para o funcionamento da Hidrelétrica, mas mostra também a reação dele como morador da comunidade do Tauiry frente às imposições da empresa. Nos discursos de Luiz Gomes, aparecem os interesses de ambos os lados. Primeiro a concepção da natureza como objeto, cujo interesse é essencialmente a aquisição de recursos, no caso da empresa, em contraposição à concepção da natureza como sujeito, onde prevalece a reciprocidade homem/natureza, no caso de Luiz Gomes. Afinal, como argumenta Antonieta Antonacci, as florestas para a populações que aprenderam a viver nela não são tomadas como objetos, “mas como sujeitos, integrantes de sua vida cotidiana, como parceiros com quem
360 MAGALHÃES, Sônia Barbosa. Expropriação e mobilização: A dupla face da relação entre os Grandes Projetos
e a população camponesa. In: HÉBETTE, Jean. O cerco está se fechando: o impacto do grande capital na Amazônia. Vozes/NAEA/UFPA, 1991, p. 178-179.
compartilham o viver, o trabalhar, o pensar, as crenças e os valores que fazem parte do ser e estar na mata”.362
Figura 18: Luiz Gomes da Silva, o “Pé de Pano”, vive sozinho em sua casa na comunidade de Santa Terezinha do Tauiry. Durante a transferência para a cidade de Itupiranga, o senhor Luiz permaneceu na comunidade, seu lugar de origem. As informações são o resultado de entrevistas realizadas em 2008 e 2018. 2008. Acervo pessoal.
O que percebemos, através de entrevistas na comunidade de santa Terezinha do Tauiry, foi que havia uma dependência de seus habitantes com relação ao “conhecimento empírico do ciclo das chuvas, da qualidade dos terrenos, da germinação das plantas etc., que habitualmente têm como referência o meio ambiente, a fauna, a flora etc., de uma região determinada”. Portanto, a ruptura com o habitat original constituiria profunda violência à suas tradições.363 Neste caso, é pertinente a observação de Marina Maluf, a propósito, argumentando
com Michael Pollak: “a memória coletiva (oficial) pode significar a própria exclusão de indivíduos e grupos que ficam condenados a zonas de ‘não-ditos’, cujas experiências comprometem a continuidade e estabilidade ideal da memória oficial”.364 A respeito desse
362 ANTONACCI. Op. Cit., p. 195-196.
363 MAESTRI, Mário e FIABANI, Adelmir. O mato, a roça e a enxada: A horticultura quilombola no Brasil
escravista. In: MOTTA, Márcia e ZARTH, Paulo (orgs.). Formas de resistência camponesa: visibilidade e diversidade de conflitos ao longo da história, vol. 1: concepções de justiça e resistências nos Brasis. São Paulo: Editora UNESP; Brasília, DF: Ministério do Desenvolvimento Agrário, NEAD, 2008, p. 73.
conflito de valores no sudeste do Pará, a entrevista com Luiz Gomes da Silva é esclarecedora, já que segundo ele, a Eletronorte havia feito um conjunto de casas na cidade de Itupiranga, com o intuito de transferir os moradores da comunidade do Tauiry para às citadas moradias. Enquanto isso, os funcionários da empresa de energia apresentavam o discurso de salvação pública, nesse ponto de vista, a ação de retirada, argumenta Luiz Gomes, constituía em algo bom. Conforme o entrevistado, enquanto uns funcionários da hidrelétrica se encarregavam de transportar os moradores da comunidade para Itupiranga, outros permaneciam no local com a função de derrubar as casas. Segundo Luiz Gomes, a atitude dos técnicos da empresa demonstrava preocupações com os possíveis retornos dos relocados às áreas que certamente seriam inundadas. Havia grande preocupação por parte da empresa, que todas as localidades fossem “esvaziadas”, devido aos riscos de acidentes e doenças. Por outro lado, o senhor Luiz Gomes se negou a sair da comunidade. Conforme sua fala: “eu nem cheguei a ir, eu fiquei aqui, eu gosto daqui que na hora que dar vontade de pescar, pego a canoa e vou pegar meu peixinho. Muita coisa que eu preciso tem aqui. Aqui é tranquilo, eu gosto de pescar e de caçar”.365
A exposição de Luiz Gomes revela a existência de conhecimentos que se constituíram em estratégias de sobrevivência. Manifestaram seus saberes proporcionados pelos meios naturais em um ritmo ditado pela própria natureza, como por exemplo, a orientação espacial e o manejo da floresta. A cultura produzida esteve intrinsecamente relacionada ao universo mental de seus mentores. A necessidade cotidiana exigiu, além dos apetrechos para a pesca, a fabricação dos abanos e dos fogões a lenha, a preparação das cabaças, a produção dos côfos, das esteiras, a culinária, a fabricação das canoas, arquitetura de suas casas, como apresentados adiante. Sobre o conhecimento do lugar, os habitantes dos castanhais adquiriram a capacidade de locomoção na floresta, rios e igarapés. Na vida cotidiana desenvolvida nos castanhais do sudeste paraense, as práticas e as representações foram tomadas como dimensões inextrincáveis da vida cultural, alimentandas mutuamente, sem que as fossem possível compartimentá-las.366
Devido à forte relação dos indivíduos com os seus lugares na comunidade castanheira, marcada pelas ações cotidianas historicamente desenvolvidas, assim como Luiz Gomes, outros ainda mantiveram suas roças e vazantes ou continuaram a caçar e viver também da coleta de frutos ou pescas. Os castanheiros continuaram vinculados às características
365 A primeira entrevista com o Luiz Gomes da Silva, o “Pé de Pano”, foi em 2008. Porém, tivemos um novo
contato em 2018, a fim de ratificar sua fala e contextualizar a ação. Luiz Gomes tem 73 anos e nascido na comunidade de Santa Terezinha do Tauiry, em Itupiranga.
366 LUBAR, Steven e KINGERY, W. David (Ed.) History from things: essays on material culture. Washington:
naturais, não se desfazendo de seus laços com os lugares nos castanhais. Porém, enquanto uns simplesmente retornaram aos seus antigos espaços ou proximidades, outros não se deram ao trabalho de sair, permaneceram nos seus lugares tradicionais ou nos seus entornos, fazendo dos elementos da cidade apenas complementos não muito importantes.
A exemplo de Luiz Gomes, outra personagem dessa história é Sizinando Gomes, o “seu Zizi”. Este foi nascido na comunidade de Santa Terezinha do Tauiry e, se lembra muito bem dos tempos anteriores, tempos de farturas de peixe, de caça e abundância de castanha e de outros frutos como, o cupuaçu, açaí, a bacaba, todos em seu tempo. Observamos na fala do “seu Zizi”, a sua satisfação em ser do lugar, elogia o clima e exalta as lembranças dos pais. Segundo ele, em torno daquela antiga comunidade, a vida se tornou bem mais fácil, já que, tradicionalmente, se viveu da roça, do garimpo, do peixe, da caça. De acordo com Sizinando, ele estava acostumado com o ambiente da comunidade, a cidade, para ele, apresenta dificuldades, enquanto que no lugar onde mora tudo é mais fácil, quase tudo pode ser plantado e colhido. Na fala de Sizinando, é possível perceber a exposição de alguns locais de memória:
Quando a Eletronorte tirou o povo daqui da Vila pra levar para as casas em Itupiranga era umas 35 pessoas, e dessas, 15 ou mais gente voltou e outros vivem falando em voltar, se achar casa pra comprar aqui eles voltam. Em 80, a água arrancou tudo, a rua da beira acabou, tinha igreja, tinha tudo, depois que o pessoal voltou veio aqui pra cima, eles venderam as casas que tinham ganhado da Eletronorte lá na cidade pra vir de novo pra cá, e eu fui um deles.367
A exposição de Sizinando, revela diversos movimentos cotidianos que caracterizavam a sua vida na comunidade castanheira do Tauiry, além disso, apresenta a capacidade de sobrevivência na floresta, seguindo ritmos determinados por variados produtos naturais em diferentes tempos. Fala-se das variadas ocupações ditadas pelo espaço da floresta. Os recursos naturais em torno dos espaços tradicionalmente ocupados estão no cerne dos discursos formulados pelos tauirienses. O prazer de “estar lá” e o orgulho de “ser de lá” perpassa os depoimentos.
Outras informações sobre o cotidiano nas comunidades castanheiras foram tomados na entrevista com o senhor Mariano Coelho, também morador de Santa Terezinha do Tauiry desde 1955. Para ele, a sobrevivência na cidade para quem se acostumou a “viver no mato” é extremamente difícil, já que nos espaços que ocupa tem tudo que precisa: os medicamentos ideais para curar os males, os frutos da floresta e os animais de caça preferidos.368 A série de