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Numerical models of geological systems

O quintal, a horta e o pomar, são ambientes de cultivo, em pequena escala, de espécies alimentícias como frutas, verduras e legumes, que se distinguem pela finalidade e localização dentro da propriedade familiar. A horta é a dinâmica mais rara, e recentemente adotada da comunidade, consistindo em uma caixa de terra suspensa sobre um giral de madeira, geralmente localizado no quinta das residências principais. Ela está presente em aproximadamente 20% das casas Kalungas (SEPPIR/Fubra, 2004), mas essa porcentagem tem crescido, principalmente na comunidade Engenho II, após projetos sociais de hortas comunitárias e o Giral do Saber1, realizado por pesquisadores da UFG.

Nesse espaço alimentar foram encontradas as seguintes variedades: tomates, cenoura, alface, coentro, beterraba, rabanete, nabo, rúcula, couve, salsa, cebolinha, cebola e alho. Os produtos são mantidos na terra até serem requisitados para algum preparo culinário, dessa forma estão sempre frescos. É perceptível que muitos deles, como a alface, a rúcula e os rabanetes foram recentemente introduzidos, e ainda não fazem parte dos hábitos alimentares da comunidade, mas são constantemente oferecidos aos turistas que procuram refeições no Engenho II.

Nas famílias visitadas no Vão de Almas, essas variedades foram reduzidas a um número menor de espécies, sendo realmente popular nas hortas suspensas só os temperos, como salsa, cebolinha, alho e cebola, e a couve. O espaço nomeado de quintal, que envolve as casas da zona rural Kalunga, foi recentemente objeto de pesquisa de Pereira e Almeida (2011), da UFG.

Nesta pesquisa o quintal Kalunga é definido como um lugar e espaço de saberes, geralmente situado ao fundo das casas, onde se encontram plantas, distribuídas de em padrões semelhantes (plantas maiores ao fundo, e as menores próximas as casas), onde se localiza também a horta. Geralmente este é um espaço administrado pelas mulheres, onde essas reproduzem saberes adquiridos por gerações (PEREIRA e ALMEIDA, 2011).

É nesses espaços que se encontram as ervas medicinais mais utilizadas no dia-a-dia das famílias, assim como algumas variedade alimentícias e utilitárias de uso frequente,

1 O Giral do Saber é um projeto de extensão da Faculdade de Artes Visuais da UFG que atua dentro

da comunidade Kalunga. Ele tem parceria com a Secretaria do Estado de Políticas para Mulheres e Promoção da Igualdade Racial (Semira), Prefeitura Municipal de Cavalcanti e com a AQK.

95 como a mandioca doce, a cana, milho, jiló, a cabaça, o timbó, o algodão e as pimentas entre outras (Tabela 13). Além disso, o quintal kalunga muitas vezes abriga pequenos pomares, assim como aqueles observados junto às roças.

O quintal Kalunga é mantido e administrado por suas mulheres, que o criam logo após o seus casamentos, pois esses tinham papel fundamental na saúde e na alimentação de suas famílias. Hoje, com os alimentos e medicamentos industrializados, é comum escutar reclamações das matriarcas a respeito da falta de interesse das mais novas em aprenderem sobre os conhecimentos tradicionais da comunidade. Entretanto, por mais reduzido que ele possa apresentar-se, o quintal foi verificado em todas as famílias visitadas, e sempre contado com representantes de espécies vegetais associadas as três categorias; alimentícias, medicinais e de uso tecnológico (confecção de utensílios e outros).

Tabela 13 – Plantas identificadas nos quintais Kalungas. (Fonte: PEREIRA e ALMEIDA, 2011)

Medicinais Alimentícios Utensílios/outros

Mastruz Algodão Mandioca Banana Cabaça Fedegoso Cidreira Manga Abóbora Jacaré* Vassourinha Velame Cana Batata São Gonçalo* Ventre Livre Babosa Pimenta Mutamba Pinhão Roxo Capim Reis Dipirona Cagaita* Tomate Burere Capim de Cheiro Vic Abacaxi Mostarda Timbó Alfavaca de Horta Folha de Cravo Feijão Andu Lima Tinguí Alfavaca de Gado Manjericão Caju* Laranja Pão-terra* Carrapicho Folha Santa Pequi* Quiabo Álcool Branco* Gota do Zeca Pimenta Jaborandi Mangaba* Feijão de Corda Polista Hortelã Grosso Arnica Vinagreira Jambo

Cabaça Xioio Coentro Jamerão Capim Santo Jervão Tamarindo Adestragem Chapada* Boldinho Maracujá

Geivão* Canafiche Siriguela Caiba* Unha-de-gato* Goiaba Sucupira* Poejo Romã Sambaiba* Astimije Acerola

Mamona Jiló

*Plantas típicas do Cerrado

Os pomares da comunidade podem ser encontrados junto às casas, ou junto às roças. Quando localizados próximos às casas integram o, já mencionado, quintal (Figura 25). Ele é composto principalmente por espécies exóticas ao cerrado, como a mangueiras, amoreiras, laranjeiras, jaqueiras e limoeiros, mas nele também se observam as espécies alimentícias

96 nativas mais apreciadas, como o pequi, a mangaba, o cajuí, a cagaita e bacupari. Algumas dessas espécies nativas são plantadas, mas a maioria brota naturalmente a partir dos restos de fruto jogados no entorno das casas.

Na comunidade do Engenho II, onde as roças são distantes das casas, os pomares também estão presentes junto as áreas de plantio, com uma diversidade tão grande quanto a encontrada junto as casas, a exceção das plantas nativas, que não são propositalmente cultivadas nesses locais, mas são intencionalmente selecionadas, quando da feitura das queimadas. Esse é o caso das palmeiras, como o Buriti e o coco Xodô, que são poupados durante a abertura das roças e posteriormente se beneficiam com a redução da vegetação circundante, havendo um significativo acréscimo no número de novos indivíduos (Figura 25).

Figura 25 -(Esq) Casa Kalunga do Vão de Almas. Ao fundo é possível ver o pequeno pomar que se estabelece a partir das árvores nativas e exóticas que são cultivadas.(Dir) Roça do Engenho, onde é possível ver as palmeiras selecionadas (Fonte: Trabalho de campo. Jan/Out de 2014).

Os pomares estão constantemente povoados pelas crianças, que também são suas grandes beneficiadas, uma vez que realizam todas as “entre refeições” (ou lanches) de forma autônoma, em meio aos pomares e quintais. Ao contrário das cozinhas, espaço rigidamente controlado pelas mães Kalungas, os pomares e matas oferecem fartura de frutas sem supervisão régia, que faz a alegria das crianças, principalmente durante a estação chuvosa na qual abundam as frutas nativas e exóticas. Se pode-se dizer que as cozinhas são espaços controlado pelas mulheres, talvez possamos dizer que os pomares são o domínio das crianças quilombolas.

Esses três tipos de espaço são essenciais para a segurança alimentar Kalunga, uma vez que complementam aquilo que as áreas de roça não podem fornecer, como as frutas, os legumes e as folhagens. Na realidade, mesmo nas cidades próximas, essas variedades dificilmente são encontradas, devido à péssima qualidade das estradas, que encarecem o

97 preço dos fretes e desmotivam os comerciantes locais. Ou seja, é indispensável que haja esses espaços alimentares junto às casas ou as roças, uma vez que não é possível obter essas variedades nem quando se pode pagar por elas.