Na busca do perfil alimentar Kalunga, encontraram-se também as características da comunidade que se alteraram e aquelas que permaneceram, assim como suas possíveis origens. Todas elas já foram abordadas ao longo do trabalho, mas serão agora sistematizadas e discutidas (Tabela 22).
A comunidade do Engenho II pode ser vista como uma síntese de todas as grandes mudanças que esses quilombolas veem sofrendo ao longo das últimas décadas. Vários fatores contribuíram para que ele se se tornasse o que é hoje, como a abertura de estradas, turismo frequente, grande número de projetos sociais, energia elétrica, infraestrutura, escolas e posto de saúde. Entretanto, essa também é uma comunidade que destoa das restantes, já que quase todo o território Kalunga apresenta padrões próximos aos do Vão de Almas. Listar-se-á agora as principais causas e alterações referentes aos sistemas alimentares desse povo.
120 A respeito dos programas assistenciais de transferência condicionada de renda, ambas as comunidades recebem o benefício, mas ele tem maior relevância no orçamento das famílias do Vão, chegando a 22% da renda mensal. Mostramos que esses programas incentivam a manutenção das atividades agrícolas voltadas para o autoconsumo, fornecendo ao produtor rural o poder de escolha sobre a destinação de sua produção, ao invés de ser obrigado a vendê-la em busca de dinheiro para o auxílio de questões básicas, como remédios, material escolar e vestimenta. Essa questão também poderia ser encarada como uma mudança, uma vez que até pouco tempo o direito de permanecer com seus produtos estava enfraquecido nas comunidades, mas agora retorna com a complementação monetária que o benefício oferece.
O turismo traz para a comunidade Kalunga uma nova estratégia de geração de renda, que pode ser desenvolvida de forma a promover um desenvolvimento sustentável para a comunidade. Entretanto, os benefícios oriundos dessa atividade não se espalham de forma homogênea sobre o território, se concentrando principalmente nos atrativos do Engenho. Essa situação pode se alterar caso haja investimentos voltados para a divulgação e implementação de infraestrutura de novos atrativos, pois o território conta com diversas outras belezas cênicas.
Na comunidade do Engenho, a renda oriunda do turismo pode representar quase 70% do orçamento das famílias que se propõem a integrarem essa nova atividade econômica, e mesmo no Vão de Almas, onde o turismo é pouco e esporádico, a renda gerada pode trazer benefícios rápidos às famílias participantes. De forma indireta, o turismo proporciona a venda de produtos extrativistas por valores mais justos, como no caso dos óleos artesanais, polpas de frutas e legumes que são comercializados nas feiras locais e nos receptivos turísticos da cidade.
Tabela 22 – Quadro síntese das alterações de cada uma das comunidades estudadas (Fonte: Trabalho de campo, 2014).
Quadro Síntese dos Aspectos Contrastante entre as Duas Comunidades
Engenho II Vão de Almas
Programas assistenciais Possui Possui
Turismo Forte e constante ao longo do ano Fraco e concentrado em um mês
Dinâmica espacial das casas Aglomeração espacial em torno de um “núcleo”
Dispersão e invisibilidade ao longo do território
Distribuição espacial das roças Distantes e de difícil acesso Próximas e de fácil acesso
Principais Culturas Arroz e feijão Mandioca, feijão de corda e arroz
121 A dinâmica espacial das casas é uma das alterações mais evidentes no povoado Engenho. Nessa localidade a instalação de infraestrutura, como luz, posto de saúde e escola, estimulou a aglomeração das famílias em um pequeno núcleo, que hoje já abriga mais de 120 famílias. Essa dinâmica permitiu a instalação de mercadinhos onde alguns produtos são adquiridos, mas também facilita a troca entre as famílias, principalmente de produtos perecíveis, como folhagens e verduras, ovos, leite e carnes. A aglomeração também facilita o escoamento da produção, ou o fretamento de carros para o transporte de produtos da cidade até a comunidade.
Entretanto, essa disposição espacial das famílias se deu em decorrência da grilagem de suas terras, forçando que as famílias se aglomerassem em áreas seguras, mas ficando afastadas de suas áreas produtivas. Durante certo período de tempo esse afastamento implicou em suspensão das atividades agrícolas para algumas famílias, que estavam com suas terras ocupadas, para outras significou uma jornada mais longa até as suas terras, além de prejudicar o processamento e armazenamento dos produtos agroextrativistas.
Esse distanciamento geográfico das áreas de roça levou ainda a algumas alterações nos produtos escolhidos para o plantio. Como no caso do Engenho, que teve uma significativa redução da produção da farinha de mandioca como consequência do afastamento das roças e casas. Ou seja, a grilagem das terras expulsou as famílias de junto das roças, alterando a dinâmica espacial das áreas produtivas, o que determinou a disposição dos núcleos familiares em relação à produção e escoamento, e que, por fim, influenciou na escolha de algumas das variedades cultivadas. Essa cascata de acontecimentos que o Engenho passou nos últimos 30 anos dá uma breve ideia dos impactos que a questão fundiária pode ter sobre os sistemas alimentares tradicionais.
No Vão de Almas, onde a dinâmica espacial permanece a mesma, os cultivos principais se mantiveram, mas nota-se uma gradual substituição das sementes locais por variedades novas, assim como em outras partes do território Kalunga. Essa dinâmica, junto a outras, como a origem das variedades distribuídas na cesta básica, levanta a seguinte questão: A insegurança alimentar está sendo aos poucos suprimida na comunidade Kalunga, mas será que a tradição e a independência dessa comunidade está sendo respeitada, e visada, nesse processo?
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