O extrativismo é um termo geralmente utilizado para designar uma atividade econômica baseada na coleta ou extração de recursos naturais, diretamente do ambiente. Aqui empregar-se-á ele de forma mais ampla, sem ligação direta com a comercialização de produtos, uma vez que são poucos os produtos dessa atividade cuja finalidade é monetária, dentro do território.
Assim como já foi demonstrado para alguns cultivos, a economia Kalunga possui o caráter peculiar de, manter forte parcela de suas atividades fora da esfera monetária (UNGARELLI, 2009; BAIOCCHI, 1999), Da mesma forma que a maior parte dos produtos das roças não está destinada à transações financeiras, os produtos oriundos do extrativismos também visam outras finalidades. Entretanto, tem crescido o número de moradores que percebe na comercialização de seus produtos uma nova alternativa de renda para as famílias.
A relação do povo Kalunga com a biodiversidade cerratence sempre foi fundamental para a subsistência desse grupo, que conhece sua dependência e por isso respeita seu ambiente, compreendendo os ciclos naturais e limites impostos por eles. Dessa forma, o conhecimento associado a esse bioma é intrínseco à cultura aqui estudada, e permeia todas as informações coletadas, mas abordaremos aqui neste tópico, especificamente os conhecimentos relacionados às plantas alimentícias do cerrado, deixando as variedades medicinais e destinadas a confecção de utensílios fora do escopo desta pesquisa. O extrativismo vegetal associado a fins medicinais foi amplamente abordado no trabalho da pesquisadora Massarotto (2009) da Universidade de Brasília.
Tendo dito isso, abordar-se-á nos próximos parágrafos as principais espécies nativas extraídas do cerrado e sua destinação dentro do sistema alimentar dessa comunidade. As destinações não alimentares serão brevemente citadas, mas não aprofundadas, como no caso das tinturas, artesanatos e medicamentos.
O Cerrado é o segundo bioma mais antigo do Brasil, e guarda 5% da fauna e da flora mundial e 30 % da biodiversidade brasileira dentro das suas matas, campo e cerradões. Estima-se que ele possua mais de 10.000 espécies vegetais, valiosas em si, mas também importantes pelas suas utilizações. Algumas dessas espécies, destinadas apenas para
98 alimentação, foram levantadas por Ungarelli (2009), e conferem e enriquecem a lista já levantada ao longo das trilhas guiadas no período da pesquisa de campo. São elas:
Tabela 14 – Listagem das espécies alimentícias extraídas do cerrado, na região do Engenho II e de Vão de Almas(conferidas em campo) (Fonte: UNGARELLI, 2009)
1. Jatobá 2. Curriola
3. Pequi 4. Cajuí
5. Gueroba Verdadeira 6. Coco Indaia (Pindoba)
7. Baru 8. Coco Buriti
9. Cagaita 10. Coco Licuri
11. Mangaba 12. Coco Xodó (Macaúba)
13. Baquarí 14. Coco Catulé
15. Puxa-puxa 16. Coco Araçá
17. Mama-cadela 18. Gueroba
19. Muricí 20. Gabiroba
Nesta lista foram omitidas as subespécies, que só no caso dos palmitos, chegam a quatro. Sete dessas espécies são frutas, destinadas para o consumo in natura, confecção de polpas, geleias e doces, como é o caso da cagaita, mangaba, mama-cadela, muricí, cajuí, puxa-puxa e gabiroba (tipo de goiaba rasteira). Quando a comunidade possui energia elétrica, como é o caso do Engenho II, as famílias podem congelar as frutas in natura, ou as suas polpas. O uso mais comum é para sucos, mas algumas famílias fazem doces, como é o caso do cajuí, que pode virar, geleia, compota ou doce cristalizado, além de polpa para suco.
A mangaba e a cagaita são citadas predominantemente para o consumo in natura e na forma de sucos. Já a mama-cadela, o puxa-puxa, a gabiroba e o baquari são frutas preferencialmente consumidas in natura. No início das chuvas, época de abundância dessas espécies no cerrado, é comum encontrar famílias que juntam pequenas quantidades de frutas e levam para as cidades, onde vendem de porta em porta ou para amigos e conhecidos. Esse período dura cerca de um mês, e as vendas subsequentes são unicamente de polpas congeladas.
99 Os palmitos, conhecidos popularmente como gueroba, gueiroba ou gaririba, estão divididos nas variedades Verdadeiro, Catulé, Falsa e Palmito Soldado. Eles são considerados iguarias e são retirados em ocasiões significativas, como visita de “gente da cidade”, festas e aniversários.
Os “cocos”, ou palmeiras, são espécies muito respeitadas entre as populações quilombolas. Eles oferecerem uma gama grande de produtos e por isso são poupados, mesmo quando se limpam os terrenos das roças. Alguns deles são aproveitados de tal modo que se costuma dizer que “se aproveita tudo”, como no caso do Buriti. As variedades Indaiá (Pindoba) e Macaúba (Xodó) são usadas não só para a confecção de óleos, mas também para a produção do leite, extração da castanha e raspagem do dendê (polpa). O Babaçu também pode ser usado para a extração do óleo de coco, muito apreciado na cultura Kalunga, tanto para a culinária quanto para fins medicinais e estéticos.
O jatobá é uma espécie emblemática do cerrado, e vem ganhando espaço nos espaços gastronômicos das cidades, mas o seu sabor e valor nutritivo veem sendo apreciado pela comunidade quilombola há alguns séculos. Sua polpa, de textura farinácea e odor marcante, é ressecada ao sol e pilada para a criação de uma farinha, extremamente nutritiva, aplicada na confecção de bolos e vitaminas. Sua casca é reaproveitada como carvão, e também pode ser utilizada como remédio, quando transformada em pó.
Por último falar-se-á do pequi, fruto símbolo do cerrado goiano, sendo nacionalmente conhecido pelos seus usos culinários. A sua popularidade regional só é igualada pela grande gama de produtos usados localmente. Do pequi são preparadas a polpa desidratada, o caroço descascado, as conservas, a farinha, o óleo e o doce, além de vários pratos. Uma das vantagens que essa fruta apresenta para as famílias que a coleta, é que pode ser descascada onde estiver e levada para casa já na etapa de caroço. Os sacos de pequi sem casca são vendidos in natura, mas também congelados (quando existe energia) para serem vendidos após o período de frutificação.
A próxima etapa do seu processamento é a retirada da polpa, para ser estocada ou vendida desidratada, ou em forma de farinha. Para isso os frutos (já sem casca) são fervidos com água e sal em grandes panelas no quintal das casas. São escorridos e resfriados, após o que são delicadamente raspados com o auxílio de uma colher e colocados sobre o giral2, no sol, para secarem (Figura 26).
2 Girau ou Jirau é uma espécie de prateleira alta construída com varas sobre esteios fixados no chão.
Serve para estender roupas, guardar caixas, panelas e alimentos. Também é utilizado para secar alimentos ao sol.
100 O que sobra do pequi, ainda pode ser utilizado para a produção de óleo. Para isso, os caroços sem polpa, são colocados em água fervente para amolecerem, e depois são esmagados, nesse mesmo recipiente, com o auxilio de garrafas de vidro3. Voltam ao fogo, onde começam a soltar a sua gordura característica, que é coletada com o auxílio de colheres, e separada em outro vasilhame. Esse processo será repetido após se adicionar mais agua à mistura já reservada, que volta ao fogo, separando-se, assim, o óleo da água. Da borra, que sobra após a retirada do óleo, é produzido o sabão. O litro do óleo é vendido em média a cinquenta reais e a polpa desidratada a vinte e cinco reais o litro
Figura 26 – Pequi em diversos estados de processamento. Vão de Almas, quilombo Kalunga (Fonte: Trabalho de campo. Outubro de 2014).