Nesta seção, compararemos dicionário com gramática e com enciclopédia. Debateremos sobre tipologias lexicográficas e os formatos em que podem ser apresentadas. O dicionário registra em verbete informações sobre lexema, enquanto a gramática “apresenta, de forma sistêmica, um conjunto de regras de combinatória dos constituintes da língua, em seus diversos níveis” (BORBA, 2003, p. 301). Baseando-se
nas regras, a gramática descreve a língua, estabelecendo critérios para “agrupamentos
das palavras em classes a partir de traços em comum” (BORBA, 2003, p. 302). O
dicionário, por sua vez, apresenta o modo de uso da palavra, “mostra a aplicação da regra palavra por palavra” (Id., Ibid., p. 302). O dicionário não registra regras gramaticais, embora ofereça informações gramaticais, que fazem parte da propriedade
do lexema. Assim sendo, “a competência que circula dentro dos verbetes é de base
lexical e de base gramatical, porque um item lexical se compõe, na sua essência, de estruturas gramaticais que formam um todo semântico”, conforme Faulstich (2010c, p. 173).
O dicionário e a gramática são complementares, já que “uma regra de
estruturação ou de uso se procura na gramática, um determinado resultado estrutural ou determinado uso se procura no dicionário” (BORBA, 2003, p. 302). Segundo Rey- Debove (1984, p. 46), “as palavras repertoriadas numa gramática são uma íntima parte do léxico e nem todas as regras da gramática são explicitadas no dicionário.” O quadro a seguir apresenta a comparação entre o dicionário e a gramática.
Quadro 1: Comparação entre dicionário e gramática
Dicionário Gramática
É o lugar do particular, do tópico. É o lugar do genérico, das regras.
Enumera palavras. Enumera regras.
É um acervo de formas livres. Contém um conjunto de regras que, aplicadas, mostram como a língua funciona.
Fonte: (BORBA, 2003, p. 301, com adaptações)
Na combinação de dicionário e gramática, a criação de lexemas é restrita aos morfemas que a gramática disponibiliza. No entanto, por meio do uso desses morfemas, pode-se constituir inúmeros lexemas. Embora os morfemas sejam finitos, é possível
formar infinitos signos. Por isso, o léxico é aberto enquanto a gramática é fechada. O resultado disso são construções de enunciados infinitos, baseando-se em combinações sintático-lexicais.
Além disso, o dicionário não pode ser confundido com enciclopédia. Esta se preocupa com a apresentação do conhecimento de mundo, com a descrição da realidade. O dicionário disponibiliza conhecimento linguístico por meio de definição lexicográfica. Embora possa existir a definição enciclopédica no dicionário, há outras informações linguísticas do repertório lexicográfico que a enciclopédia não fornece, como categorias gramaticais, transitividades verbais, diferentes acepções para uma mesma palavra, entre outras. Para Rey-Debove (1984, p. 64), a enciclopédia aborda um “conjunto das coisas da civilização e dá a definição delas. [...] Sua nomenclatura é essencialmente nominal [...], não apresenta as classes de palavras, informação, aliás,
inútil, uma vez que só existem substantivos.”
Para ampliar o conhecimento acerca de tipologias de obras, é necessário distinguir dicionário, vocabulário e glossário. Com base na norma ISO 1087 (1990, p. 10), “vocabulário (termo admitido glossário) é dicionário terminológico que contém a terminologia de um campo específico ou de campo temático relacionado e baseado no trabalho terminológico.” Apesar de a norma mencionada ter considerado vocabulário e glossário como sinônimos, encontraremos diferenciação entre ambos na literatura.
Segundo Barbosa (1995), o “dicionário de língua é constituído de lexema
(unidade lexical). O enunciado linguístico deve conter as acepções que um lexema apresenta em todos os níveis do discurso.” Já o “vocabulário técnico-científico ou especializado registra os vocábulos e as acepções específicas de um universo do discurso” (Id., Ibid.). O glossário “resulta do levantamento das palavras ocorrências e das acepções que têm um texto manifestado” (Id., 1995). Assim sendo, nessa obra, há o conjunto de palavras ocorrências e seu respectivo significado no contexto textual.
A definição de glossário para Faulstich (2013b) é mais abrangente:
1. Repertório exaustivo de termos, normalmente de uma área do conhecimento, apresentado em ordem sistêmica ou em ordem alfabética, com informação gramatical, definição, registro opcional de contexto de ocorrência do termo e de remissões. 2. Lista de palavras de uma obra, pouco conhecidas ou desusadas. 3. Lista de palavras, apresentadas ao final de uma obra com a informação numérica de páginas ou parágrafos onde se encontra a palavra dentro daquela obra, para auxiliar o leitor a encontrar a informação em remissão. Também índex; também índice remissivo. Nota: Nos estudos modernos de terminologia, somente a definição 1, acima, é considerada na organização dos repertórios terminológicos e lexicográficos; a definição 2 é
obsoleta e coincide com o conceito de elucidário; a definição 3 é de caráter técnico e remissivo, com vistas a conduzir o leitor a comprovar de modo mais rápido o termo ou um autor citado na obra.
Esta definição é relevante para a literatura lexicográfica por contemplar as diversas acepções que o glossário possui e pode ser útil para que as editoras saibam como saber como designar o tipo de obra criada.
O vocabulário, por sua vez, é definido pela mesma autora (2013b) como
repertório monolíngue, bilíngue ou multilíngue de palavras ordenadas de acordo com critérios específicos, como, palavras pertencentes a uma determinada atividade ou a um dado campo lexical, acompanhadas geralmente de definições ou de explicações sucintas.
Existem características em comum entre o vocabulário e o glossário por serem repertórios de determinada área de especialidade. Entretanto, o glossário apresenta de forma completa os termos de um domínio do saber, enquanto o vocabulário pode registrar uma compilação de termos de uma área ou de um campo lexical.
Em suma, o dicionário registra lexemas da língua comum e apresenta: +palavra- entrada, +informação gramatical, ±contextualização, +definições, +acepção, ±remissão, ±ilustração, ±fraseologia, ± equivalência. O vocabulário é o repertório terminológico que apresenta os termos de uma área do conhecimento, registrando: +palavra-entrada, +informação gramatical, ±contextualização, +definições, +acepção, +remissão, ±ilustração, ± equivalência. O glossário consiste em uma recolha de uma lista de lexemas de um texto ou de termos de uma área de especialidade, ou de um campo lexical, podendo conter: +palavra-entrada, ±informação gramatical, +definição, ± equivalência.
Outro tipo de obra lexicográfica é o dicionário terminológico ou dicionário de terminologia “que apresenta a terminologia específica, de uma ou de várias áreas científica ou técnica”, conforme Faulstich (2013b). O que diferencia o dicionário terminológico de um vocabulário especializado ou de um glossário de uma área de especialidade é a quantidade de verbetes, tendo em vista que o dicionário de terminologia é mais abrangente na nomenclatura e pode até contemplar mais de um domínio do saber.
Além desses tipos de obras, há o léxico, que, como obra lexicográfica, é o “repertório que inventaria termos acompanhados de seus equivalentes de uma ou várias línguas e que não comporta definições” (Id., 1995, p. 284).
Na literatura e no comércio editorial, falta consenso para nomear as obras lexicográficas ou terminológicas. Por isso, é necessário saber distinguir cada tipo de obra, pois há diferença entre o objeto nomeado e o objeto definido.
Nessa direção, Faulstich (2010c, p. 174) chama atenção para o que seja
minidicionário, quando diz que “um minidicionário é uma edição resumida de um
dicionário elaborado para o público adulto”. Assim sendo, é errado inferir que o minidicionário é direcionado para crianças, visto que, para elas, deve ser elaborado o dicionário infantil, que possui características específicas para o público-alvo.
O dicionário infantil “é projetado e elaborado para a faixa etária a que ele pretende atingir e é editado com tipos de letras grandes e em cores. O discurso se apresenta próximo da oralidade, induzindo o usuário a pensar que está dialogando com o autor do dicionário” (FAULSTICH, 2010c, p. 174). Esse dicionário deve ser atrativo, por isso o layout deve ser adequado ao público-alvo. A linguagem deve ser simples e objetiva, possibilitando fácil entendimento do significado dos lexemas. Além disso, a encadernação do dicionário infantil deve ser feita de modo que seja fácil a obra ficar aberta, auxiliando o manuseio da obra para a criança que ainda não tem a coordenação motora toda desenvolvida a ponto de se esforçar para deixar a obra aberta.
O dicionário fundamental “abrange um léxico útil para a aquisição de vocabulário e descreve um universo de palavras que está na esfera de interesse da faixa
etária para a qual foi concebido” (FAULSTICH, 2010c, p. 175). Como a pesquisa
lexicográfica deve ser baseada em método, para a elaboração desse tipo de dicionário, é necessária a realização de estudos que investiguem o conjunto de lexemas que compõe o vocabulário fundamental para o público-alvo da obra. Na Lexicografia brasileira, há carência desse tipo de dicionário.
Para finalizar este capítulo, interessa-nos apresentar alguns comentários sobre dicionários on-line e informatizado. Adiantamos que não são tipos de obras lexicográficas, mas sim formatos de apresentação. Há dois formatos: os impressos e os informatizados. As obras lexicográficas em formato impresso são feitas em papel, sem automatização em máquina. O formato informatizado é concebido de modo que seja organizado e lido pela máquina com base na programação feita polo homem. Assim sendo, nesse formato, há automatização das informações. O formato informatizado se subdivide em dois subtipos: on-line e eletrônico. O primeiro disponibiliza o dicionário na internet, para consulta via rede. O segundo apresenta o dicionário informatizado em
CD-ROM, DVD-ROM, ou em “aplicativos em dispositivos móveis, do tipo smartphones ou computadores tablet”, Pocket Eletronic Dictionary (PED), conforme Corrêa (2012, p. 357). Os formatos informatizados favorecem a criação de obras lexicográficas modernas e interativas, devido à facilidade na atualização e no armazenamento dos dados e à diversidade de recursos informatizados disponíveis. O esquema subsequente representa os formatos de dicionários.
Fonte: (VILARINHO, 2013)
Embora seja comum as pessoas terem acesso à internet em toda parte do mundo, nem sempre todas as pessoas estão conectadas, o que pode tornar o formato on-line nem sempre acessível em comparação com o formato em aplicativos de dispositivos móveis, por exemplo. Além disso, o formato on-line requer que o consulente entre na página e pesquise. Os formatos eletrônicos dos aplicativos de smartphones, possibilitam a consulta rápida por meio de um clique no atalho do aplicativo. No caso dos dicionários de Língua Portuguesa, o Dicionário on-line Caldas Aulete, disponível gratuitamente na página aulete.uol.com.br, possibilita que o usuário baixe esse dicionário, de modo que é criado um atalho na área de trabalho para a consulta. Apesar disso, sempre o usuário terá de estar conectado à internet, para que consiga ler o dicionário.
Apesar de os formatos eletrônicos de CD-ROM e DVD-ROM possibilitarem consultas mais rápidas e interativas do que no dicionário em papel, os formatos em CD- ROM e DVD-ROM apresentam desvantagem, pois não podem ser usados em netbook, ultrabook, tablet e smartphones, já que os equipamentos mais portáteis não possuem leitor para CD e DVD. Notamos uma preferência das editoras em comercializar esse formato, por dificultar a difusão gratuita na internet. Como referência, indicamos os
dicionários eletrônicos Houaiss de Língua Portuguesa (2009) e Aurélio da Língua Portuguesa (2010).
O formato acessado por meio de aplicativos em dispositivos móveis possui maior facilidade de consulta, uma vez que só precisam do acesso à internet para a instalação. Depois de instalado, o consulente poderá ter acesso aos verbetes. Há dicionários gratuitos e pagos nesse formato. Se o usuário tem um smartphone, pode clicar na loja da marca do aparelho celular, digitar o lexema dicionário e encontrará as opções de dicionários para serem baixadas. Os dicionários bilíngues são frequentes nesses formatos, além de existirem dicionários monolíngues nas diversas línguas. Todavia, ainda falta qualidade nas obras disponíveis neste formato.
O Pocket Eletronic Dictionary (PED) é um dispostivo eletrônico portátil, de tamanho pequeno que possui o dicionário registrado. Esse dispostivo é similar às agendas eletrônicas e aos bips. Economicamente, o PED não é viável, pois a compra de equipamento eletrônico que só oferece a função de consulta ao dicionário não atende às demandas da sociedade atual, que já possui computadores e telefones celulares com capacidade de execução de outros recursos, além da consulta aos dicionários.
Em síntese, o dicionário é repertório lexicográfico versátil que descreve o léxico da língua. Há vários tipos de dicionários com vistas a atender às demandas dos variados públicos-alvo. As tipologias de dicionários podem ser disponibilizadas em formatos impresso ou informatizado. Atualmente, existe a tendência à elaboração de dicionários informatizados, tendo em vista que as gerações cada vez mais desejam acesso rápido e dinâmico à informação, o que é oferecido pelos formatos on-line e eletrônico. Contudo, é notável que as editoras nem sempre denominam as obras lexicográficas em respeito às tipologias estabelecidas com base na teoria da Lexicografia. Desse modo, identificamos a ausência de uma política de língua para regulamentação da tipologia de dicionários. Na seção posterior, discutiremos essa questão.