Numerical examples
6.2. MOVING CYLINDER 79
A Teoria dos Protótipos iniciou-se na década de 70 com Elenor Rosch com base em pesquisas acerca da prototipicidade dos conceitos, a fim de interpretar os fenômenos de categorização. A teoria se subdivide em duas versões segundo Kleiber (1990). A prmeira versão é a padrão e a segunda versão é a ampliada. A versão padrão foi elaborada pela psicóloga americana Eleanor Rosch (1975) e pela equipe dela, ao pesquisar a estrutura interna das cores, das aves e de outras categorias. A versão ampliada foi proposta por Kleiber (1990) e surgiu em decorrência de críticas à primeira versão da teoria, por isso a segunda versão representa uma ruptura com relação à versão padrão por ter ocorrido abandono de hipóteses iniciais da teoria dos protótipos.
O protótipo foi definido “comme étant le meilleur exemplaire ou encore la
meilleure instance, le représentant ou l’instance central d’une categorie” 16 (KLEIBER,
1990, 47-48). Categoria, por sua vez, foi definida como “strucutre prototypique”17.
Nessa estrutura prototípica, há o centro prototípico e casos mais ou menos distantes, de acordo com maior ou menor semelhança com o centro (Id., Ibid., p. 51-52). Há categorias que possuem membros mais característicos e outros menos, de modo que o
16 Tradução: como sendo o melhor exemplar ou ainda a melhor instância, o representante ou a instância
central de uma categoria.
membro com menos atributos em comum com relação aos demais da categoria é designado membro periférico.
A figura subsequente, de Givón (1986, p. 79 apud KLEIBER, 1990, p. 65), representa os membros localizados na interseção pintada que possuem as propriedades típicas da categoria, por isso são os membros prototípicos. Assim sendo, o membro do
centro é o mais prototípico. “Les membres possédent les propriétés A, B, C e D,
caractéristiques du prototype d’une categorie.”18 (KLEIBER, 1990, p. 66). A interseção
entre as propriedades pode estar vazia por não ter exemplar que possua as quatro propriedades.
Figura 14: Representação do conceito de protótipo. Fonte: (KLEIBER, 1990, p. 65)
Como exemplo, podemos observar a categoria fruta. As definições que nos serviram de base para identificação das características da categoria fruta foram extraídas do Léxico Multilíngue de frutas brasileiras para exportação (1999), denominado Frutalex.19
Para uma descrição dos atributos dos objetos dessa categoria, realizamos a análise componencial, útil como método de organização, a fim de explicitar os traços comuns e os traços distintivos entre os membros da categoria. Quando se está diante de um “conjunto de elementos que apresentam o máximo de afinidade, [...] as diferenças serão tanto mais significativas” (POTTIER, 1978, p. 61). Por isso, perante um campo lexical de uma determinada categoria, a análise componencial, conhecida também como
18 Tradução: Os membros possuem as propriedades A, B, C e D, características do protótipo de uma
categoria.
19 O Frutalex foi desenvolvido no Programa de Bolsa de Iniciação Científica (PIBIC), pela bolsista Ana
Maria Brandão Cavalcanti, orientada pela Dra. Enilde Faulstich, coordenadora do Centro Lexterm da UnB. “O objetivo principal do Frutalex é o de apresentar denominações de frutas brasileiras que são exportadas para os outros países do Mercosul, de acordo com a perspectiva de intercâmbio comercial” (FAULSTICH, 1999).
análise sêmica, é um método de decomposição do significado. Essa análise serve para organizar as características de cada um dos elementos, facilitando a compreensão das semelhanças e diferenças entre os lexemas. Na análise componencial, delimitam-se as características dos lexemas de uma categoria, representando a ausência de atributo pelo símbolo negativo (−), denominado traço distintivo, e a presença de atributo pelo símbolo positivo (+), denominado traço semântico comum. Segundo a postulação do estruturalista Pottier (1978), o conjunto de traços é o semema e a cada traço é o sema. Desse modo, o significado das frutas é constituído pelo semema da análise componencial, formada por semas, organizado no quadro seguinte:
Quadro 8: Análise componencial da categoria fruta
características/fruta Maçã Uva banana laranja limão abacate
é fruto de polpa
comestível + + + + + +
nasce em árvores + - + + + +
possui casca comestível + + − − − −
tem formato redondo + − − + + −
tem formato arredondado + + − + + +
faz suco + + + + + +
come-se cru + + + + + +
é doce + + + + - +
A análise componencial mostra que os semas são as características, a saber: é fruto de polpa comestível, nasce em árvores, possui casca comestível, tem formato redondo, tem formato arredondado, faz suco, come-se cru e é doce. O conjunto dessas características forma o semema da categoria fruta.
Com base nas informações do quadro, verificamos que as características prototípicas de fruta são as que ocorrem com maior frequência nos membros da categoria em análise, as quais são: ser fruto de polpa comestível, nascer em árvores, fazer suco, comer-se cru, ser doce. Assim, a fruta mais prototípica é a maçã por ter mais traços comuns e típicos de frutas. Do conjunto de frutas listadas, a banana e o abacate possuem mais traços distintivos, assim seriam os mais periféricos entre os demais presentes da análise componencial descrita.
A Versão Ampliada da Teoria dos Protótipos é um modelo que prevê, mas não exige, que os membros de uma mesma categoria tenham traços em comum. Para justificar a falta de exigência de traços em comum, Schlyter (apud KLEIBER, 1990, p. semema
156) afirmou que “il y a peu de propriétés, peut-être aucune, qui sont communes à tous les individus périphériques, il n’y a qu’une famille ressemblance ou des ressemblances
avec le prototype”.20
A noção de protótipo já não é mais a entidade fundadora da estrutura categorial, pois é possível haver protótipos de diferentes categorias. Desse modo, o protótipo é substituído por efeito, por isso há o foco nos graus de prototipicidade e não no protótipo. O conceito de ar de família é essencial nessa teoria, o qual
caractérise un ensemble de similarités entre différentes occurrences d’une même famille. La question cruciale est cependant de voir quelles sont ces ressemblances : ce sont des propriétés qui n’ont pas besoin d’être partagées par tous les membres, mais que l’on retrouve au moins chez deux membres
21(KLEIBER, 1990, p. 157-158).
Assim, ar de família é a propriedade que justifica o fato de os membros de uma classe serem ligados uns aos outros, sem ter uma propriedade comum que defina a categoria. A ideia de semelhança de família foi proposta inicialmente por Wittgenstein (1953). Com base nesse conceito, os elementos relacionam as categorias de forma lateral e não central, conforme o esquema de Givón (1986 apud KLEIBER, 1990, p. 160):
Figura 15: Representação dos efeitos de prototipicidade. Fonte: (KLEIBER, 1990, p. 160)
Não é necessário existir propriedade comum entre os objetos de uma série
qualquer como tinha que ocorrer na versão padrão. Assim sendo, “une ressemblance de
famille peut donc consister em um ensemble de réferents A, B, C, D, E unis entre eux par des relations de type associatif : AB BC CD DE qui justifient une appellation
commune”22 (KLEIBER, 1990, p. 159).
20 Tradução: existem poucas propriedades, talvez nenhuma, que são comuns a todos os indivíduos
periféricos, existe apenas uma semelhança de família ou semelhanças com o protótipo.
21Tradução: caracteriza um conjunto de similaridades entre diferentes ocorrências de uma mesma família.
A questão crucial é, no entanto, de ver quais são essas semelhanças: são propriedades que não necessariamente precisam ser compartilhadas por todos os membros, mas que são encontradas ao menos em dois membros.
22Tradução: uma semelhança de família pode então consistir num conjunto de referentes A, B, C, D, E
Notemos que a categorização é justificada pelas relações de associação entre os diferentes referentes e não por uma relação comum a todos referentes. Para haver semelhança de família, não precisa ter propriedade compartilhada com todos os membros, mas alguma propriedade comum deve ser encontrada em pelo menos dois membros (Id., Ibid., p. 157-159).
Essa versão da teoria dos protótipos
résulte une version polysémique ou multi-catégorielle qui, plutôt que d’expliquer pourquoi telle ou telle entité particulière appartient à telle ou telle catégorie, rende compte de ce qu’un même mot peut regrouper plusieurs sens différents, c’est-à-dire peut renvoyer à plusieurs types de référents ou de categories23 (Id., Ibid., p. 155).
É válido acrescentarmos que a noção de protótipo não pode ser confundida com a de estereótipo,
embora tanto uma como outra destacam a informação mais saliente de uma dada categoria, o estereótipo é o conjunto mínimo de dados socialmente determinados (ou ‘norma social’) relativamente à extensão de uma categoria, representando portanto uma noção sociolinguística relacionada com a organização do conhecimento semântico dentro de uma sociedade, ao passo que o protótipo é uma noção psicolinguística relacionada com a organização do conhecimento semântico no léxico mental (SILVA, 1999, p. 36-37).
Enquanto o protótipo constitui-se de um conjunto de propriedades reais dos objetos, o estereótipo se constrói de experiências da sociedade em relação ao objeto, gerando uma distorção das características da coisa no mundo.
A discussão sobre a Versão Ampliada da Teoria dos Protótipos aplicada ao dicionário analógico encontra-se na seção 5.4.