A terminologia se refere ao conjunto de termos de área(s) de especialidade(s).
Esse conjunto de termos é objeto da disciplina da Terminologia que é “dedicada ao
estudo científico dos conceitos e dos termos usados nas linguagens de especialidade, estuda a forma e o conteúdo com base no significado que adquirem no uso, por meio de
coleta, seleção e ordenação dos termos de um campo de especialidade”, com base em
Faulstich (2011).
A Terminologia “must come to the assistance of lexicologists and lexicographers both for the analysis and description of terms as well as for term creation and
naming”10, conforme Rey (1995, p. 92-93). Para que o Lexicógrafo obtenha a descrição
dos signos linguísticos que representem as coisas do mundo e que precisam ser enunciadas na comunicação dos diversos domínios discursivos, há necessidade de registro de terminologias de áreas de especialidade, principalmente as que são usadas
pelo falantes de língua comum. Esse contexto prova que “Terminology should provide
an opportunity for progress in Lexicography. Both disciplines interact with other; but each one also transcends the other; and each can offer the other methods and theoretical
foundations which enrich it.11” (Id., Ibid., p. 123). Se consideramos a
complementaridade entre a Terminologia e a Lexicografia, é inferível que, sem a descrição dos termos, as obras lexicográficas ficariam incompletas, uma vez que a Terminologia permite o acesso aos conceitos das áreas de especialidades.
Os termos são criados seguindo a gramática da Terminologia que possui regras para formação dos termos. Um exemplo disso pode ser visualizado nos processos de formação de Unidades Terminológicas Complexas (UTCs), proposta no constructo de Faulstich (2003) que contribuiu para os estudos terminológicos por apresentar a visão sociovariacionista da Terminologia. Por exemplo, UTC colchonete de espuma flexível de poliuretano, apresentada na NBR 13579:1 (ABNT, 2011) e analisada no artigo de
Vilarinho (2012), é constituída por “formativos que se organizam numa sequência de
base+predicado”, de modo que “a construção de terminologias complexas é um
fenômeno que se dá num contínuo conceitual que vai do + geral ao + específico”
10 Tradução: deve vir ao auxílio de lexicólogos e lexicógrafos para a análise e descrição de termos bem
como para a nomeação e criação de termos.
11 Tradução: Terminologia deve proporcionar uma oportunidade para o progresso na Lexicografia. Ambas
as disciplinas interagem com outras, mas cada uma também transcende a outra, e cada uma pode oferecer métodos e fundamentos teóricos que as enriquecem.
(FAULSTICH, 2003, p. 14). Ao analisar a formação da UTC colchonete de espuma flexível de poliuretano, constitui-se a regra [AaBCD], observe:
[[[[[colchonete] de espuma[ flexível[ de poliuretano] A aB C D
em que A é a base predicada por BCD. “Na regra de formativos, a repetição do símbolo em minúsculas diz que se trata de um significado apostivo” (Id., Ibid., p. 16).
Já em 1953, Wüster (1998, p. 21), o criador da Terminologia, “todo trabalho
terminológico utiliza como ponto de partida os conceitos com o objetivo de estabelecer delimitações claras entre eles.” Todo termo possui significado que é composto pelo conceito.
Os termos que representam os conceitos são identificados e organizados pela Terminologia e lexicografados nos dicionários, com vistas a que o falante de língua comum tenha acesso ao léxico que possibilita a comunicação nos variados domínios do saber. Os termos são registrados também em obras terminológicas e terminográficas. Assim como a Lexicologia se ocupa de descrever os lexemas e a Lexicografia se preocupa em utilizar-se dessa descrição para elaborar obras lexicográficas, o mesmo procedimento ocorre com a Terminologia e com a Terminografia, visto que a Terminografia tem como objetivo a confecção de obras de consulta de termos com base na descrição da Terminologia.
Embora tanto a Lexicografia quanto a Terminologia produzam dicionários, vocabulários e glossários, há diferenciação no enfoque que é dado, visto que
a Lexicografia considera as palavras como parte do conjunto de unidades de que uma determinada comunidade dispõe para se comunicar por intermédio da língua. Já a Terminologia considera as palavras enquanto um conjunto delimitado por uma situação concreta de utilização (AUBERT, 2001, p. 26).
A Lexicografia descreve o léxico virtual e o léxico externo da língua. O léxico externo é o que é usado na elaboração de enunciados e consultáveis em obras. O virtual possibilita as construções das formas lexicais. A Terminologia se organiza em domínios discursivos que demandam a criação de termos, que precisam ser sistematizados e descritos. Há situações em que a Lexicografia também terá a mesma demanda, mas o
que diferenciará uma da outra é que a Terminologia “se faz necessária para identificar o
conteúdo conceptual específico da situação em que a palavra encontra-se integrada”
Estamos de acordo com Rey (1995, p.123), quando afirma que “the applications of lexicopgraphy and terminology must necessarily link up at the level of their social
function12”, pois a função social da Lexicologia, da Lexicografia, da Terminologia é
oferecer os signos linguísticos sistematizados para que a sociedade possa interagir com propriedade vocabular. Dessa forma, as disciplinas Lexicografia, Lexicologia e
Terminologia são complementares entre si. “Terminology and Lexicology, must
mutually enrich each other by showing how designations and social reality are
conveyed through language,” conforme Rey (1995, p. 92-93). A descrição dos signos
linguísticos no âmbito da língua comum cabe à Lexicologia e, no âmbito das linguagens de especialidade, à Terminologia, o que faz com que essas disciplinas tenham a função de apresentar o léxico comum e especializado a ser usado em domínios discursivos.
No quadro subsequente, descreveremos os principais procedimentos metodológicos adotados pela Lexicografia e Terminologia com a identificação dos termos de uma área de especialidade para representar os conceitos.
Quadro 6: Procedimentos Metodológicos da Lexicografia e da Terminologia
Lexicografia Terminologia
delimitação do público-alvo delimitação do público-alvo decisão sobre a nomenclatura que comporá a obra
lexicográfica
identificação dos termos de uma área de especialidades para representar os conceitos estabelecimento dos campos lexicais para
categorização dos lexemas no caso de obras onomasiológicas
criação da árvore de domínio para ordenação dos termos
descrição dos lexemas descrição dos termos redação da macroestrutura e da microestrutura da
obra redação da macroestrutura e microestrutura da obra Fonte: (VILARINHO, 2013)
Para toda obra, seja lexicográfica, seja terminográfica, é indispensável estabelecer o perfil do público-alvo para que o nível da linguagem e a nomenclatura estejam adequadas ao consulente. Como a Língua Portuguesa possui acervo lexical vasto, a delimitação da nomenclatura é essencial, para que seja decidido quais lexemas encabeçarão os verbetes das obras lexicográficas. No contexto da Terminologia, é necessário obrigatoriamente selecionar o corpus que servirá de base para a identificação dos termos do domínio do saber. A Lexicografia pode usar essa metodologia, por
12 Tradução: as aplicações de Lexicografia e Terminologia devem necessariamente vincular-se ao nível da
exemplo, para selecionar os lexemas que devem ser registrados em um dicionário escolar. No entanto, a Terminologia precisa recolher termos para organização do campo conceitual da área de especialidade.
Na obra lexicográfica onomasiológica, isto é, aquela organizada do significado para o significante, os procedimentos metodológicos incluem a etapa de sistematização das categorias que regerão a ordenação da obra, conforme ocorre com os dicionário temáticos e analógicos, os quais possuem lexemas organizados com base em uma categorização estabelecida pelo lexicógrafo. Em obras terminológicas e terminográficas, após a identificação dos termos, é preciso fazer o mapeamento da área de especialidade para que se entenda a hierarquização dos termos, com vistas à organização dos
conceitos. Dubuc (1985, p. 53) denominou tal processo como “árvore de domínio”, o
que seria equivalente a criar os mapas conceituais para compreensão do campo conceitual da área em análise. A redação das definições, as decisões sobre os recursos linguísticos das obras são as etapas subsequentes ao processo de confecção de obras lexicográficas, terminológicas e terminográficas.
Em suma, a Lexicografia se serve da descrição da Lexicologia e da Terminologia para compor os recursos linguísticos das obras que produz, visto que o usuário de língua comum precisa ter acesso à língua comum e à linguagem de especialidade para se comunicar. A Terminografia, ao elaborar obras terminológicas e terminográficas, emprega a metodologia postulada pela Terminologia. Ao analisar os procedimentos metodológicos da Terminologia e da Lexicografia, fica claro que há semelhanças e diferenças entre ambas, mas podemos concluir que uma completa a outra.
A contribuição da Terminologia para a Lexicografia é disponibilizar conceitos que designam os termos, com vistas a que o falante de língua comum possa entender e produzir enunciados nos quais aparecerem termos em situações de uso da língua. Além disso, dependendo do tipo de obra lexicográfica, a metodologia da Terminologia pode ser aplicada.
Neste capítulo, foram realizadas: i) apresentação da autonomia do léxico; ii) identificação da interface do léxico com outras áreas da Linguística; iii) apresentação da Lexicologia e a Lexicografia como áreas que têm o léxico objeto de estudo; iv) distinção entre dicionário e outras obras; v) reflexões acerca de política de língua
aplicada a obras lexicográficas e vi) comparação entre a Lexicografia e a Terminologia, a fim de verificar semelhanças e diferenças entre ambas.
O entendimento acerca do léxico, das tipologias lexicográficas e da política de língua adotadas em obras lexicográfica brasileiras contribuem para que possamos identificar o cenário lexicográfico. Após a compreensão desse cenário e das características dos dicionários, prepara-nos para pensar em um modelo de dicionário.
No próximo capítulo, abordaremos as teorias do significado para identificar as entidades que constituem o significado e aplicaremos a Versão Ampliada da Teoria dos Protótipos e a Semântica de Frames para elaboração de dicionário analógico. Descrevemos ainda a diferença entre mapa conceitual e mapa mental, que podem ser ferramentas para organização da informação do novo modelo de dicionário analógico.
CAPÍTULO 2: O SIGNO LINGUÍSTICO NA ESTRUTURA CONCEITUAL DE