Com relação à introdução de arabismos no português brasileiro, há uma obra que trata das conseqüências do contato português-árabe verificado no contexto escravagista:
Arabismos entre os Africanos na Bahia, de Faris Antônio Salomão Michaele, publicada em
Curituba, pela editora Requião, em 1968.
Constitui-se de 06 capítulos, dedicados, em linhas gerais, a: capítulo I: aspectos étnicos, culturais e lingüísticos da África; relações entre camitas e semitas com afro-negros, conseqüências dos contatos culturais ali verificados (MICHAELE, 1968, p. 14-46); capítulo II: islamização da África negra, presença afro-muçulmana no Nordeste do Brasil e seu papel na formação do povo brasileiro, haussás e iorubás, arabismos nos candomblés (MICHAELE, 1968, p. 47-74); capítulo III: influxo árabe no iorubá, Nina Rodrigues e os estudos africanológicos, a posse de passagens do Alcorão por escravos (MICHAELE, 1968, p. 75-88); capítulo IV: arabismos ou elementos afro-asiáticos no vocabulário primitivo de línguas e dialetos da África Ocidental (MICHAELE, 1968, p. 89-106); capítulo V: arabismos segundo Nina Rodrigues, outros possíveis arabismos; a lingüística na compreensão da interculturalidade, sua relação com ciências afins (MICHAELE, 1968, p. 107-119); capítulo VI: relações entre os idiomas canúri e árabe, a língua tapa; línguas semíticas no conjunto dos grupos lingüísticos; conclusão (MICHAELE, 1968, p. 121-134).
A bibliografia traz 405 títulos, os quais contemplam as áreas da Lingüística (Geral, Descritiva, Comparada), Antropologia (Geral, Cultural, Estrutural e Física), Etnografia e Etnologia, Folclore, Geografia e História (da África e do Brasil), Geologia, Religião, Sociologia e mesmo Culinária, além de diversos textos literários e filosóficos.
Para este trabalho, fazem-se as mesmas ressalvas válidas para as obras até então citadas. O autor, apesar da sua inquestionável erudição, não tem formação específica em Lingüística. Graduado em Direito, exerceu o magistério secundário e universitário, mas sabe- se, por cartas de apreciação de outra obra sua e pelo título das demais obras por ele publicadas, que seu escopo de interesse era bastante amplo, incluindo as línguas tupi e inglesa e a Antropologia Física.
Há de se convir, ainda, que as quatro décadas que intermedeiam a publicação de
Arabismos entre os africanos na Bahia (MICHAELE, 1968,) e a atualidade produziram
avanços teórico-metodológicos tanto na área da Lingüística quanto de ciências afins, pertinentes aos estudos do contato lingüístico-cultural em questão, de modo a tornar imprescindíveis novas investigações sobre a contribuição da língua árabe ao português brasileiro, em decorrência da importação de mão de obra escrava islamizada.
Poucos são os estudos específicos sobre arabismos legados ao português americano devido à imigração de árabes e/ou muçulmanos, verificada em pelo menos dois importantes fluxos na sociedade brasileira, o primeiro predominantemente cristão (sírio- libanês); o segundo de maioria muçulmana (como os palestinos), apesar de estes deslocamentos configurarem inegável fato histórico (MONTENEGRO, 2002, p. 64; JARDIM, 2006, p. 171-172), como veremos mais adiante, na seção 2.3.5.3.
Encontra-se em fase de elaboração, na Universidade Estadual de Londrina, uma tese de doutoramento, da autoria de Maria Youssef Abreu, sobre o contato entre as línguas árabe e portuguesa na colônia árabe de Londrina, com o objetivo de descrever a interferência de traços da língua árabe na língua portuguesa falada por imigrantes libaneses (ABREU, 2009, p. 273-274, 276).
De acordo com Abreu (2009, p. 276):
No desenvolvimento da pesquisa junto a comunidade alvo, como ponto de partida, tomou-se a hipótese geral que, dada a evidência apresentada por outros estudos dessa natureza, a interinfluência das línguas imigradas em contato com o português, produzem alterações léxicas em ambos os sistemas. Os exemplos coletados do discurso oral de bilíngües podem demonstrar alguns fenômenos derivados do contato entre as línguas em presença. (ABREU, 2009, p. 276).
Em seguida, ilustra a hipótese com uma série de vocábulos conforme pronunciados por imigrantes, ao lado da qual apresenta a forma portuguesa padrão equivalente:
estudandu – estudante; biçoa – pessoa; bocu – pouco; prendê – aprender; incontrará – encontra; iniçu – início; bur – por; burtunidade – oportunidade; bichtighil al brasa
– trabalhando na praça; makana qhiát – máquina de costura; snúbar – esnúbar; tanjara – panela; sfiha – esfirra; quibe; zeitun – azeitosa; lubnen – libanês; conseki – conseguir; burque – porquê; kraças – graças; fargone – vergonha; inchá`alah – se Deus quizer [sic]; parfumi – perfume; mania ala noiti – manhã à noite; guma – algum; difarenti – diferente; roz – arroz; sucar – açúcar; burtukês, português; wallah – juro por Deus; tabule – tabule etc. (ABREU, 2009, p. 276).
A autora analisa abreviadamente os fenômenos lingüísticos observados na pequena amostra, apontando o objeto e os objetivos da tese em andamento:
[...] Há interferências de traços do árabe, identificadas como estrangeirismos, nos vocábulos zeitun, tanjara, snubar etc.; empréstimos lingüísticos já dicionarizados, pelas palavras tabule, quibe e esfirra; trocas de códigos, nas expressões bichtighil al brasa, mania ala noiti [sic], além de outros como decalcos, convergências etc. No nível fonético-fonológico, os vocábulos biçoa, guma, fargone e conseki, justificam a inequivalência de diversos fonemas consonantais entre os sistemas fonológicos. A análise detalhada de interferências de traços árabes, no português produzido por imigrantes libaneses, de modo particular, constitui o objeto central de nosso estudo. (ABREU, 2009, p. 276).
Dos contatos português-árabe verificados no Brasil, à época da escravidão e, posteriormente, da imigração, a literatura especializada registra apenas a introdução de arabismos nos campos semânticos da religião, no caso dos escravos islamizados, e da culinária, por meio dos sírio-libaneses (VARGENS, 2007, p. 35).
Da análise dos arabismos registrados no Léxico Português de Origem Árabe (VARGENS, 2007) observamos que, dentre os seus 769 verbetes (não se considerando subentradas com compostos e derivados), 25 foram introduzidos na língua portuguesa pelos “malês”: açubá, adixá, aiassari, ailá, alicali, aligenum, alimangariba, aluá, alufá, amim,
assumi, azaca, barrica da subá, bissimilai, djema, o híbrido fazer sala, jihad, lemano, maçalassi, malê, maneco iassalama, mussurumim, sacá, salamaleco e tecebá, o que
corresponde a 3,25% do total dos vocábulos dicionarizados na referida obra. Com efeito, dos arabismos malês, apenas aluá integra o campo semântico da culinária, os demais figuram no campo religioso (MARANHÃO, 2009a, p. 09-10).
Colheram-se, ainda, no Léxico Português de Origem Árabe (VARGENS, 2007), 12 vocábulos legados ao português brasileiro por imigrantes sírio-libaneses, a saber: baba
hanuche, beleua, cafta, esfiha, falafel, homos, laban, labna, mijadra, quibe, tabule e tahine.
Este vocabulário constitui 1,56% dos arabismos registrados na obra citada, todos pertencentes ao campo semântico da culinária (MARANHÃO, 2009b, p. 06-07), o que corrobora a anteriormente mencionada restrição da aquisição de arabismos, pelo português brasileiro, aos campos semânticos citados.
Entretanto, Maria Youssef-Abreu, em sua dissertação de mestrado intitulada Um
Estudo Terminológico Monolíngüe do Vocabulário da Culinária Árabe, defendida no
Programa de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Londrina em 2005, apresenta 207 termos da culinária do mundo árabe buscado em amplo corpus de língua escrita, constituído a partir de livros sobre a história da alimentação, livros e revistas de receitas, cardápios e folders de restaurantes árabes, material de divulgação das embaixadas da Arábia Saudita, Argélia, Barein, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Iraque, Marrocos e Kuait, entrevistas realizadas com imigrantes árabes da comunidade de Londrina e com cozinheiras de restaurantes árabes locais, além dos romances A Hortelã e a Folha da Uva (CARNEIRO NETO, 2003) e Amrik (MIRANDA, 1997), que abordam a imigração árabe no Brasil, com passagens sobre hábitos alimentares médio-orientais para aqui transplantados.
No glossário, os arabismos da culinária se organizam em 11 campos semânticos, dentre pratos e ingredientes, evidenciando ser a contribuição lexical sírio-libanesa maior, mesmo no que concerne ao único campo semântico tradicionalmente concebido como seu depositário, conforme ilustram os termos a seguir: bebidas (áraque); carnes (auarma, checrie,
cheik el mehchi, djêji mahâmara, harira, merguez, muhâmasa, turdos, umkáli, zanderlárus);
condimentos (zátar, zauba, zhug); doces (ainar, burma, garáib, sambúsik); frutas (lagmi); gorduras; grãos (basila chiríe, lúbi be záit); laticínios (chanklich); massas (bastela, chichi,
bárake, fatier be jibne, rakakat); ovos (baid be awarma, ijit hudra) e vegetais (fatuche, full umdamas, hábis, mufarque, umçaka).
Organizados por ordenação alfabética, dentro de cada campo semântico considerado, os verbetes do Estudo Terminológico Monolíngüe do Vocabulário da Culinária
Árabe trazem a lexia como entrada, seguida da equivalência árabe, da definição, de
contexto(s) e referência(s) do(s) contexto(s), de remissiva(s) e de nota.
Também mais adiante, na seção 2.3.5.3, retomaremos esta questão, uma vez que a imigração árabe no Brasil não se restringe à sírio-libanesa dos primórdios, em geral cristã e rapidamente assimilada à sociedade brasileira, verificando-se, ainda, a chegada de imigrantes muçulmanos, caracterizados pela preservação da língua árabe e de costumes médio-orientais, cuja interação com a comunidade lusófona em que está inserida não foi suficientemente investigada.
Mantém-se aberto, assim, o campo dos arabismos portugueses aos lexicólogos e lexicógrafos que se proponham a adentrar o universo do contato de línguas, dos
estrangeirismos, da cultura estrangeira, tornada muitas vezes parte da nossa própria cultura, embora mascarada pela integração lingüístico-cultural.
Cabe ora lembrar o artigo Presença Moura no Brasil, de Câmara Cascudo, inicialmente publicado em 1966, reeditado pela Global em 1999, com nova impressão de 2001, no qual o autor aborda a influência moura em vários aspectos da cultura popular brasileira, aqui introduzida pelo colonizador. Em suas palavras: “O mouro viajou para o
Brasil na memória do colonizador. E ficou.” (CÂMARA CASCUDO, 2001, p. 16).
Neste aspecto, haveríamos de citar, ainda, a obra de Manuelito de Ornelas,
Gaúchos e Beduínos: a Origem Étnica e a Formação Social do Rio Grande do Sul, cuja
quarta edição veio à público pela editora Martins Livreiro em 1999, bem como o ensaio A
Filigrana Árabe nas Tradições Gaúchas, publicada pela editora Arte em 1952.
Ao longo de sua obra sobre os arabismos dos escravos islamizados na Bahia, Farias Antônio Salomão Michaele também apresenta aspectos da cultura popular brasileira cuja origem é creditada aos árabes, ainda que por intermédio dos escravos muçulmanos, a exemplo do “corpo fechado do jagunço”, da alimentação e da religião (MICHAELE, 1968, p. 59, 77, 79).
Já Luís Soler, em Origens Árabes no Folclore do Sertão Brasileiro, obra publicada em 1995 pela editora da Universidade Federal de Santa Catarina, correlaciona violeiros e rabequeiros nordestinos à tradição árabe, descortinando o transplante desta para o Brasil pelo colonizador português e suas conseqüências na cultura brasileira, para, então, deter-se no influxo cultural do Oriente na música e nos instrumentos musicais em uso no Brasil, dada a atuação do autor como professor de violino, música de câmara e estética musical. Citando Manuelito de Ornelas, afirma, a título de ilustração, que o invasor holandês encontrou a população de Recife vivendo “à moda oriental” (SOLER, 1995, p. 42). Claro está que caberia a antropólogos e sociólogos a revisão desta literatura, decorridas décadas desde a sua publicação.