2 THEORY
2.2 I NSTITUTIONAL T HEORY
No início de outubro de 1968, deu-se o confronto entre os membros do Comando de Caça aos Comunistas (CCC, organização paramilitar anticomunista), instalados na Universidade Presbiteriana Mackenzie, e os militantes do movimento estudantil, instalados na Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP), localizada na Rua Maria Antonia, em São Paulo.
No dia 2 de outubro de 1968, estudantes da Faculdade de Filosofia cobravam pedágio na rua, recolhendo fundos para a organização do Congresso da UNE, quando membros do CCC atiraram ovos contra o grupo. Teve início a primeira etapa do confronto, interrompida pela chegada da Guarda Civil. Na mesma noite, o Mackenzie abriu seus laboratórios “para que os alunos fabricassem bombas químicas e coquetéis molotov que foram usados contra a Filosofia” (FERRAZ, 1988, p. 226).
No dia seguinte, 3 de outubro, o enfrentamento foi mais grave: membros do CCC arrancaram duas faixas do movimento estudantil penduradas na frente do prédio da Filosofia: “CCC, FAC41 e MAC42 = Repressão” e “Filosofia e Mackenzie contra a Ditadura” (deixando clara a separação que havia, para o movimento estudantil, entre as organizações de extrema direita e o conjunto dos estudantes do Mackenzie), e o confronto voltou com força. O CCC “atacou com tiros e centenas de coquetéis molotov. Mataram um secundarista de vinte anos, José Guimarães, invadiram a Maria Antonia e incendiaram-na” (GASPARI, 2002). Em resposta à morte de José Guimarães, o movimento estudantil partiu em passeata pelo centro de São Paulo, incendiando alguns carros de polícia encontrados pela frente. Utilizando o argumento de pôr fim ao conflito, o governador Abreu Sodré ordenou a ocupação militar da Faculdade de Filosofia.
Na cobertura do JB, em sua edição do dia 4 de outubro de 1968, as agressões perpetradas pelo CCC foram tratadas genericamente como “conflito dos alunos da Faculdade de Filosofia da USP e da Universidade Mackenzie, de São Paulo”. De acordo com o jornal,
41 Frente Anticomunista. 42 Movimento Anticomunista.
“durante a luta, os dois grupos não foram incomodados pela polícia, que ficou apenas observando” – não há menção à proteção dada pela Guarda Civil ao Mackenzie ou à ação conjunta da Polícia Militar e do CCC, o que garantiu superioridade bélica ao Mackenzie (FERRAZ, 1988, p. 226). Uma foto grande mostra vários policiais na entrada do prédio da Faculdade de Filosofia, com a porta destruída nas mãos, e a seguinte legenda: “Invasão: A Força Pública invadiu a Faculdade de Filosofia para dominar a rebelião”.
Ao tratar o confronto apenas como conflito entre os alunos das duas universidades, o
JB exime o radicalismo de direita de qualquer responsabilidade no episódio. Da mesma
forma, a morte do estudante José Guimarães aparece como circunstancial nas páginas do jornal, consequência quase natural do embate: “o conflito recrudesceu ontem, causando a morte de um secundarista, atingido na cabeça por uma bala de calibre 38”. A imagem da Faculdade de Filosofia sendo invadida pela polícia responsabiliza o movimento estudantil pelo confronto, ao dar legitimidade à ação da Força Pública e tratá-la como forma de “dominar a rebelião”.
A análise de Maria Ribeiro do Valle (2008b, p. 43) sobre a cobertura que a Folha de S.
Paulo e O Estado de S. Paulo fizeram do episódio aplica-se também ao JB – os culpados pela
violência são os próprios estudantes, o que não envolve a polícia:
Este enfoque repercute desfavoravelmente ao movimento estudantil como um todo, pois a violência é divulgada como sendo desencadeada e utilizada pelos estudantes, enquanto a polícia exerce o papel de proteção e, portanto, de manutenção da ordem. A presença da polícia, para os jornais em questão, além de não gerar a violência, põe fim àquela desencadeada pelos estudantes.
O CM, por outro lado, denunciou em editorial do mesmo dia 4 de outubro a ação dos “grupos radicais de direita, partidários de uma ditadura total, estimulados pela impunidade de que têm gozado”. Para o jornal, “os elementos da organização terrorista Comando de Caça aos Comunistas, num típico movimento de provocação, atiraram-se contra os alunos da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo”.
Depois de caracterizar a agressão do CCC como ação fascista, o CM fala de um crescente radicalismo da direita, sustentado pela “apologia da radicalização” feita por Costa e Silva. Ao mesmo tempo, o jornal termina o editorial cobrando do presidente uma atitude para evitar o caos: “Até quando o presidente da República permanecerá na ilusão de conjurar
perigos, simplesmente ignorando-os, quando na verdade gera assim o caldo de cultura da insanidade direitista?”
A crítica ao radicalismo de direita permanece no CM: o jornal mantém a sua coerência em relação às manifestações do primeiro semestre ao continuar cobrando das autoridades do governo um freio ao avanço das ações violentas. Há uma mudança importante, no entanto: o jornal aponta uma inflexão na postura de Costa e Silva. Se até há pouco o presidente “declarava-se liberal, mas punha em prática um esquema de força”, agora ele “abandonou os pronunciamentos liberais, substituindo-os pela apologia da radicalização”.
Mas não foi apenas Costa e Silva que mudou no intervalo entre junho e outubro de 1968: segundo Irene Cardoso (1988, p. 237), “naquela ‘guerra’ estão presentes elementos que passarão a definir a luta política no pós-AI-5: foi uma luta ‘armada’, que embora tivesse de um lado rojões, paus e pedras, tinha, de outro, revólveres, rifles, metralhadoras e bombas molotov”. O uso da violência pelo movimento estudantil é, por um lado, resposta ao aumento da violência e da repressão por parte do governo e de forças paramilitares; por outro, fruto da opção de alguns setores do movimento estudantil pela radicalização.
De acordo com João Roberto Martins Filho (1987, p. 150), essa opção é resultado de um impasse a que chega o movimento estudantil em seus dois eixos fundamentais: a campanha pela transformação da universidade (a “luta específica”) e a luta antiditatorial (a “luta política”). Assim, é possível observar no movimento estudantil a tensão entre uma proposta de universidade como um fim em si e a luta pela reforma universitária como um “meio de ação política”. No segundo caso, a ênfase recai na “impossibilidade de implantação de um modelo democrático de escola superior numa sociedade capitalista” (MARTINS FILHO, 1987, p. 150).
Ao longo de 1968, as diferentes correntes do movimento estudantil caminharam para a crítica radical:
a oscilação entre as duas concepções da reforma universitária – como fim a ser atingido nos quadros da sociedade existente ou como meio para transformá-la – parece constituir um dos indícios mais nítidos do impasse do qual se aproximava o movimento estudantil de 1968. [...] A partir daí, suas lutas só poderiam avançar com o advento de transformações mais radicais no nível do regime ou da sociedade (MARTINS FILHO, 1987, p. 150).
O deslocamento na posição do movimento estudantil e a mudança no cenário político, com o consequente acirramento das tensões, tiveram consequências importantes: na imprensa,
a violência passou a ser considerada uma marca do movimento estudantil. Até mesmo o CM criticou os atos violentos cometidos durante a manifestação em resposta à morte de José Guimarães, e começou a condenar as manifestações estudantis de rua por considerá-las possível pretexto às investidas autoritárias dos militares.
O movimento estudantil deixou de ter o amplo apoio recebido em junho, na época da Passeata dos Cem Mil. Na manifestação que ocorreu após o confronto da Maria Antonia, ao contrário do que se deu na Sexta-Feira Sangrenta e na Passeata dos Cem Mil, a população não se juntou aos estudantes nas ruas e não se solidarizou diante das agressões do CCC. Essa importante mudança ficou evidente na linha editorial do JB: o jornal havia mudado levemente o tom da sua cobertura em junho, aliviando em parte as suas críticas ao movimento estudantil, e voltou à sua posição original em outubro, legitimando as ações da repressão.