Se, de um lado, foi possível evidenciar que o saber tácito é marcado por uma validade e pertinência no que se refere à realização de uma determinada atividade, por outro lado, é possível afirmar, também, que o fato de este saber ser tido como tácito favorece em muito para que haja dúvidas em relação a sua relevância epistemológica. Todavia, entendemos, ain- da, que os debates sobre o saber tácito não evidenciaram todas as possibilidades de formaliza- ção deste tipo de saber, e tampouco desvelaram em que medida ele pode ser tido realmente como tácito.
Neste sentido, elaboramos uma hipótese, na qual consideramos que o uso do saber tá- cito ocorra mediante o uso de estratégias, também tácitas, de produção, mobilização e forma-
lização de saberes. Consideramos, ainda hipoteticamente, que estas estratégias tácitas poderi- am se desenvolver em um esquema de retroalimentação cíclica isso quer dizer que o uso de estratégias tácitas para produzir saberes é dependente de estratégias tácitas de mobilização de saberes que, por sua vez, dependeriam do acionamento de estratégias tácitas para formalizar os saberes a serem mobilizados, ou seja, todas as estratégias tácitas se realimentam constan- temente. Por esta trilha, as estratégias tácitas para produzir, mobilizar e formalizar só encon- tram um sentido uma perante a outra.
Essas estratégias tácitas além de garantir a validade e pertinência do saber tácito, so- bretudo para quem as realizam, uma vez que por meio delas, entrariam em marcha os saberes que monitoram a realização de uma determinada atividade, poderiam, também, funcionar co- mo um mecanismo de “filtragem” que permitiria ao sujeito selecionar os saberes a serem mo- bilizados para realizar uma tarefa. Essa hipótese encontra respaldo em Malglaive (1990) com a expressão “saber em uso”, que designa um determinado conjunto de saberes que regem uma ação. De acordo com esse autor:
O conjunto destes saberes forma uma totalidade, complexa e móvel, operatória, quer dizer ajustada à acção e às suas diferentes ocorrências; uma totalidade substi- tutiva no seio da qual os diversos tipos de saber se substituem uns aos outros à mercê das modalidades sucessivas da actividade, uma totalidade que eventualmente se deforma sem, todavia, modificar a sua arquitetura, mas alterando, por vezes, o modo e a qualidade dos seus constituinte. (p. 87)
Em que pese a possibilidade de um determinado grupo social criar e consagrar deter- minadas estratégias que mobilizam um tipo de regulagem entre o corpo e a mente, a hipótese de haver um esquema de retroalimentação entre as estratégias “tácitas” por parte daqueles que fazem uso de saberes tácitos nos remete, ainda, a uma última pergunta: o sujeito que faz uso do saber tácito poderia criar e recriar uma regulagem na relação entre o seu corpo e a sua mente? Se o saber possui uma dimensão individual e subjetiva, a singularidade do sujeito po- deria estar na forma de como ele regula a relação entre o seu corpo e a sua mente? E ainda, a
partir dessa regulagem, o sujeito criaria formas não só de produzir, mobilizar e formalizar saberes, mas, também, de expressá-los?
A idéia de que possa haver estratégias de regulação entre o corpo e a mente para a a- preensão da realidade é de certa forma sugerida por Damásio (1994):
(...) A escolha de uma decisão quanto a um problema pessoal típico, colocado em ambiente social, que é complexo e cujo resultado final é incerto, requer tanto o am- plo conhecimento de generalidades como estratégias de raciocínio que operem so- bre esse conhecimento (...) Mas como as decisões pessoais e sociais se encontram inextricavelmente ligadas à sobrevivência, esse conhecimento inclui também fatos e mecanismos relacionados com a regulação do organismo como um todo. (p. 109)
Todavia, se foi importante apresentar a nossa hipótese mais refinada, qual seja, a idéia de que o sujeito que faz uso do saber tácito o faça mediante o uso de estratégias tácitas de produção, mobilização e formalização de saberes, é igualmente importante lembrar que a construção dessa hipótese tem débito com situações concretas do chão de fábrica que corrobo- ram a possibilidade de que haja saberes produzidos, mobilizados e formalizados a partir de uma racionalidade distinta da formalidade científica.33
Neste sentido, acreditamos que a atividade de trabalho se constitua como um excep- cional campo para se analisar o saber tácito, dado que as contradições presentes neste espaço são marcadas por um apelo à inteligência operária que, de um lado, é um alvo cada vez maior dos interesses do capital e que, por outro lado, como afirma a literatura especializada, os tra- balhadores nunca ficaram sem produzir saberes e tampouco deixaram de imprimir o seu inte- resse no trabalho (EVANGELISTA, 2001; SANTOS, 1997; ARANHA, 1997).
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Essa possibilidade é apresentada por diversos pesquisadores (SANTOS, 1997; ARANHA, 1997 e SALERNO, 1994).
3 AFERRAMENTARIAEASATIVIDADESINDUSTRIAIS
O trabalho de ferramentaria se insere em diversas atividades industriais, como, por e- xemplo, a indústria alimentícia, farmacêutica, automobilística e eletro-eletrônica. Nesta pes- quisa será abordada a ferramentaria de autopeças, portanto, aquela que se vincula ao setor automotivo. No que se refere à inserção da ferramentaria no ramo autopeças, há que se dizer que o crescimento nas vendas de automóveis de passeio no século XX é apontado como um dos eventos responsáveis pela expansão desta atividade. Ainda hoje, ela responde por boa parte dos componentes automotivos, dado que, dentre outras características, o emprego deste processo de fabricação é apropriado para as grandes séries de peças, ou seja, a produção em larga escala (NAVARRO, 1954; SENAI 1998). No caso brasileiro, podemos apontar que o impulso da ferramentaria se vincula à indústria automotiva dada, principalmente, pela política de nacionalização das peças a partir de meados da década de 1950 (GATTÁS, 1981). Em Mi- nas Gerais, é também a chegada de uma montadora que vai impulsionar a atividade de ferra- mentaria como recordou um dos ferramenteiros com quem conversamos, “no inicio da década de 1970 tinha muito pouco serviço de ferramentaria aqui em Minas, depois veio a Fiat e a Ferramentaria evolui aqui”. Um outro ferramenteiro disse que: “Quando saí do Senai e fui parar na Fiat, eu era um ajustador mecânico, lá na Fiat eles perguntaram quem queria ir para a ferramentaria. No início eu não queria, eu não sabia o que era aquilo, aí um cara lá me falou, pode ir que esse negócio é bom, o ferramenteiro ganha mais do que qualquer peão”.