Se a poesia se pode, de alguma forma, definir, usam-se as palavras de Mário de Andrade 481 e
de Paul Valery respetivamente: “o que o meu inconsciente me grita” 482; “permanente
hesitação entre som e sentido” 483, e é através desta última definição que se parte já com uma
visão de relação entre a poesia e o mundo musical.
Há quem sugira:
“
A poesia tem comunicação secreta com os sofrimentos do homem.” 484, oque, entenda-se, revela a relação entre a poesia e os afetos, entre esta forma literária expressionista e o sentir humano. No fundo, a poesia será forma escrita capaz de transmitir aquilo que vai no pensamento humano sem que haja perda da sua essência.
Este sentimentalismo existente na poesia pretendida alarga-se a todo o universo artístico: “Uma das peculiaridades importantes da arte é que ela deve ser capaz de despertar sentimentos ocultos no espectador, tornando-o consciente, através da sua leitura do segredo do artista, de um segredo similar no seu próprio íntimo; (…)” 485, o que faz com que artista e observador
estejam mais próximos, através de uma obra e da sua realização/apreciação.
Em termos de emoção, para um outro autor, Wassily Kandinsky, a poesia também se revela através da geometria e das suas formas, para ele, o ponto revela calma, enquanto a linha será reflexo de tensão interior, nas suas palavras: “Ponto – calma. Linha – tensão interiormente activa, nascida do movimento.” 486 Uma obra de Kandinsky é apresentada enquanto reflexo das
suas intenções, na Fig 28.
481 Mário Raul de Moraes Andrade (1893-1945) poeta de origem brasileira.
482 Editora Escala. (2016) A poesia lírica algumas reflexões. Recuperado em 25 outubro, 2016 de
http://literatura.uol.com.br/literatura/figuras-linguagem/49/artigo294315-1.asp
483 Editora Escala. (2016) A poesia lírica algumas reflexões. Recuperado em 25 outubro, 2016 de
http://literatura.uol.com.br/literatura/figuras-linguagem/49/artigo294315-1.asp
484 Pablo Neruda (1904-1973) poeta de origem chilena. 485 Mumford, Lewis (1986) Arte e Técnica. p.29 486 Kandinsky, Wassily (1989) Ponto Linha Plano. p.110
Fig 28 – “Composition VIII”, Wassily Kandinsky (1923)
O ritmo poético é um importante fator para a qualidade da obra, mas se num poema literário a perda da linha melódica se considera pouco significativa, o mesmo não se aplica quando se fala de poemas abstratos.
Numa continuidade do sentido geométrico-poético presente em composições arquitetónicas, e com destaque para a utilização da linha, refere-se a Torre Eiffel 487 (Fig 29), um projeto baseado
na linha, e pioneiro no sentido da construção. Um marco pós Revolução Francesa, a obra de Gustave Eiffel retrata aqui a relação que se pretende defender entre poesia, linha, ritmo e arquitetura.
487 A Torre Eiffel é aqui referida como produto da conjugação de fatores relacionados à arquitetura e à
Fig 29 – “Concert for Tolerance”, por Jean Michel Jarre, no Dia da Bastilha (festa nacional francesa) a 14 de Julho de 1995
Por se tratar de uma obra de engenharia, a técnica e o estruturalismo da torre não passam despercebidos, até porque se fala de uma obra cujo início data de 1887. Por esta altura a arte aliava-se à técnica, e a estrutura pretendia-se bela, no entanto, a evolução temporal traz novas considerações acerca da técnica e da estética: “A técnica está a tornar-se cada vez mais automática, mais impessoal, mais “objectiva”; por sua vez a arte, como reacção, mostra sinais de se tornais mais neurótica e auto-destrutiva, regressando a um simbolismo primitivo e infantil, com titubeios, borrões e garatujas disformes.” 488
Ainda acerca da obra de engenharia que marcou o século XIX, a poética que se lhe encontra é dada pelas suas linhas, e pela relação que as mesmas detêm, da mesma forma que num poema o ritmo se apresenta integrado com a precisão gráfica: “A criação ritmada do poema encontra a sua expressão nas linhas rectas e curvas e a sua alternância lógica desenha-se com uma precisão gráfica dentro da métrica poética.” 489
488 Mumford, Lewis (1986) Arte e Técnica. p.33 489 Kandinsky, Wassily (1989) Ponto Linha Plano. p.98
No século XVI é inegável a relação entre música e poesia. São os próprios poetas a buscar a música e a mostrar interesse por ela no sentido de que possam ser cantadas as suas peças. Exemplo disso é Ronsard 490, que também se auto intitulara como aquele que pela primeira vez
deu à poesia lírica 491 regras específicas. Também António de Baïf fora um poeta com várias
obras adaptadas à música.
A poesia terá sempre, sob uma visão mais despreocupada, uma magia inerente, muito característica também de determinados sons, Fedro, personagem em Eupalinos ou o Arquiteto fala dessa sua experiência relativamente aos sons: “E também observei que estar, quer nesse recinto, quer no universo criado pelos sons, lá ou cá, era estar fora de si mesmo...” 492
Em termos paisagísticos, se assim se puder considerar a arquitetura em relação com a poesia, poderá certamente encontrar-se nessa mesma relação a musicalidade que aqui se procura afirmar, diz Beethoven num dos seus escritos pessoais: “Quanto maior é o regato, mais baixo é o tom.” 493
Qualquer que seja a arte de que se fale, ou até a época a que se refira, a mesma necessitará sempre de uma base, algo em que se suporte, e onde possa ser apresentado. Quer na arquitetura, quer na música, e inclui-se ainda a poesia, existirá sempre um plano original, no qual se desenvolvem as linhas, pontos e todos os elementos necessários à obra, essa base poderá ser de várias ordens, ainda que não necessariamente física, Kandinsky afirma-a como “a superfície material chamada a suportar a obra” 494
A maior diferença entre a arquitetura e a poesia terá realmente que ver com o estruturalismo obrigatório na primeira, e opcional, até certo ponto, na segunda. Claro que também a poesia fica mais completa e mais rica quando segue algumas considerações métricas, mas pode sê-lo sem as seguir. A arquitetura não, seria deficiente, instável e arriscada. Para que não o seja, considera ainda um último fator, o fator tempo: “O Pàrtenón, a catedral gótica, ou as grandes obras da Música não se fizeram num dia.” 495
Talvez seja esta a razão para que o estudo seja tão importante para um arquiteto e o seja menos para o mundo da poesia: “Poetas, dizem, não se fazem nas faculdades de letras. Mas, as de arquitetura têm que formar arquitetos.” 496
490 Pierre de Ronsard (1524-1585) poeta de origem francesa.
491 Poema normalmente curto com grande musicalidade refletida pelo seu ritmo e rimas. De génese
pessoal revela sentimentos e emoções.
492 Fedro (personagem) como referido em Valéry, Paul (1996) Eupalinos ou o Arquiteto. p.75 493 Lino, Raul (1947) Quatro palavras sobre arquitectura e música. p. 44
494 Kandinsky, Wassily (1989),op. cit., p.96 495 Lino, Raul (1947) op. cit., p. 41
4. MORFOLOGIA
Fig 30 – Villa Savoye, Le Corbusier (Poissy, França). Ilustração a caneta e aguarela realizada por João Miguel (original 21cm x 29.7cm), cedida pelo autor.
A forma surge neste capítulo como elemento essencial para as artes, mas sobretudo como veio de ligação entre estas que se descrevem como “irmãs gémeas”. Villa Savoye de Le Corbusier (Fig 30) é altamente conhecida pelas suas formas, e sabe-se, porém que a forma resulta sempre de algo proveniente do interior: “O ritmo e o andamento, em conjunto, dão origem à vitalidade, ao temperamento da música – ao seu sistema nervoso, poderia dizer-se.” 497