Quer a música, quer a arquitetura são passíveis de constante e infindável estudo, desta forma, podem ser sempre descobertas, sempre apreendidas. Sobre as mesmas, nunca se terá conhecimento demasiado. Ambas as disciplinas requerem uma prática duradoura inerente ao bom entendimento das mesmas. Se na música é essencial a descoberta de um instrumento, e prática do mesmo para compreender melhor conceitos e técnicas musicais, o mesmo se passa na arquitetura, onde desenhar, projetar e conhecer diferentes formas de arquitetura enriquecem o arquiteto enquanto isso mesmo.
A arquitetura sonora como se pretende expor neste capítulo é a arquitetura desenvolvida segundo conceitos musicais, de forma mais ou menos propositada.
A arquitetura enquanto atividade musical expressa-se através da utilização de conceitos como o ritmo, a escala, a harmonia, a acústica, a textura, a altura e a composição. Ao definir-se segundo os conceitos apresentados a arquitetura expõe quase que imediatamente a musicalidade a si inerente.
Mas não são só os edifícios enquanto elementos isolados que apresentam musicalidade, a cidade, vista como um conjunto desses mesmos edifícios pode ser visto como mais ou menos melódica, veja-se: “(…) dentre os edifícios que a compõem (a cidade), uns são mudos; outros falam; e outros enfim, mais raros, cantam? (…) Isso tem a ver com o talento do construtor, ou então com os favores das Musas (…) Edifícios que não falam, nem cantam, merecem apenas desdém; são coisas mortas, inferiores, na hierarquia, aos montões de pedra vomitados pelas carroças dos empreiteiros e que divertem, ao menos, o olho sagaz, pela ordem acidental que adquirem em sua queda… Quanto aos monumentos que se limitam a falar, se falam claro, eu os estimo.” 577
Por vezes, em arquitetura, o ponto de partida de um projeto é a música verdadeiramente dita, e em casos menores em número poderão mesmo ser os instrumentos musicais a evidência, como é o caso da Piano House (Fig 47), um local para a prática musical e ao mesmo tempo um posto turístico. Desenhado pela universidade de tecnologia de Hefei localiza-se em Huainan, na China.
Mas poderá também ser uma pauta musical a base arquitetónica, processo que se encontra por exemplo no projeto para uma escola de música e de dança, da autoria do atelier israelita
Neuman Hayner Architects em colaboração com o arquiteto Gal Karni e cuja constatação é menos óbvia que o exemplo anterior, menos visual.
O projeto cito em Mevaseret Zion, em Israel, baseia-se nas cinco linhas horizontais da pauta musical e pretende a criação de espaços abertos ao mesmo tempo que existem os mais intimistas, com um objetivo claro, responder a todas as necessidades de uma escola de música e dança (Fig 48 - a, Fig 48 - b e Fig 48 - c).
a
b c
Fig 48 – Corte do edifício proposto - a; Proposta para uma escola de música e de dança, da autoria do atelier israelita Neuman Hayner Architects em colaboração com o arquiteto Gal Karni - b; Esquema ideológico da proposta
– c
Sobre este edifício que prevê ainda o cuidado a nível acústico e energético, transcreve-se o seguinte: “Five lines defining four strips, a frame of a story, a foundation for the creation... fertile ground for learning, a space for work, a stage for talent, a platform for infinite opportunities.” 578
Do panorama nacional, apresenta-se a obra de Manuel Tainha 579 (Fig 49), a Pousada de Santa
Bárbara, em Oliveira do Hospital, cuja geometria é revelada pela noção de simetria presente na fachada principal do edifício e ainda pelo ritmado sistema de vãos que a compõe. A obra foi entretanto proposta a remodelação, no intuito de constituir um hotel e spa de futuro.
As suas obras são comumente pautadas pelo ritmo, e dessa forma é continua e naturalmente percebida uma intenção musical nos seus projetos, ainda que não de forma exaustivamente clara e óbvia.
578 ArchDaily (2008) Neuman Hayner Architects Designs Conservatory in Israel Inspired by the Lines in Sheet Music. Recuperado em 26 outubro, 2016 de http://www.archdaily.com/791296/neuman-hayner-
architects-designs-israel-conservatory-inspired-by-the-lines-in-sheet-music
Fig 49 – Pousada de Santa Bárbara, obra de Manuel Tainha, em Oliveira do Hospital
Goethe vê a arquitetura como sendo música em estado imóvel, petrificado, estático ou congelado, e na obra Quatro Palavras sobre Arquitectura e Música de Raúl Lino pode ler-se: “(…) a certa luz a Arquitectura é com mais propriedade comparável à Música do que às outras Artes plásticas com as quais se alia vulgarmente no grupo académico tríplice das Belas Artes.”580
A arquitetura e a música podem dizer-se irmãs, mas não serão gémeas. Se as irmãs têm semelhanças e diferenças entre si, as gémeas não assumem as diferenças como evidentes, o que não é o caso da arquitetura e da música, a começar pela idade que as separa. Antigamente, e numa altura em que a arquitetura tinha já grande valor, no tempo dos Gregos, a música era ainda uma semente, que esperava germinar: “A Música mantinha-se num estado latente.” 581
É curioso, que ainda que sejam artes tão próximas, não se manifestem lado a lado mesmo quando condições sociais o permitem. Talvez pela necessidade que lhe é inerente, a arquitetura foi sempre mais assertiva através da História.
Mas se são tantos os aspetos que ligam arquitetura e música, muitos também serão, e não devem ser ignorados, os que as separam: “A Música só indirectamente depende do grau de cultura do Homem, porque está ligada antes a factores puramente psicológicos. – A
580 Lino, Raul (1947) Quatro Palavras sobre Arquitectura e Música. p.9 581 Idem, ibidem, p.17
arquitectura, Arte social por excelência, pelo contrário, está sujeita em primeiro lugar a circunstâncias culturais.” 582
A arquitetura reflete assim a cultura do espírito de uma época, já a música, mais pessoal, poderá não retratar o espírito geral da sociedade mas sim o espírito individual do criador. Enquanto a arquitetura se explica pelas condicionantes sociais ao longo do tempo, a música percebe-se pelas mudanças interiores no ser humano: “A História da Arquitectura explica-se pelas vicissitudes da civilização; mas para se compreender a evolução da Arte dos sons é necessário recorrer as transformações por que a Alma passou através dos tempos.” 583
Da mesma forma que na Arquitetura o desenho demorou séculos a chegar à proporção, também na música a melodia demorou a atingir a harmonia, sendo dela parte fundamental: “(…) uma composição arquitetural sem apuro nas proporções é como trecho de música executado por instrumentos desafinados que deturpam a harmonia.” 584
Numa continuação daquelas que são as também naturalmente existentes disparidades entre arquitetura e música apresenta-se o seguinte: Raul Lino não acha possível, por exemplo, estabelecer paralelismo entre a Arquitetura e a Música, muito menos sincronismo, segundo o próprio, o motivo prende-se pelo desenvolvimento de ambas: “(…) porque estas Artes se transladam em planos diferentes, - a primeira no quadro histórico da cultura; a segunda nas esferas da psique.” 585 ainda segundo o autor: “Conquanto a Arquitectura também possa
reflectir momentos estáticos da alma, a Música é que nos dá a completa dinâmica dos nossos sentimentos.” 586
No entanto, o próprio admite uma analogia clara relativamente à estrutura das mesmas: “Há então o paralelismo perfeito do metro e do ritmo, traduzidos no espaço e no tempo; e a correlação dos duos: desenho-melodia, côr-timbre, proporção-harmonia.” 587
Desta forma, torna-se inegável que a arquitetura seja uma arte com musicalidade associada ao espaço, e que a música seja uma arquitetura erguida no tempo.
582 Lino, Raul (1947) Quatro Palavras sobre Arquitectura e Música. p.18 583 Idem, ibidem, p.31
584 Idem, ibidem, p.50 585 Idem, ibidem, p.52 586 Idem, ibidem, p.52 587 Idem, ibidem, p.53