Iannis Xenakis (Fig 35), arquiteto e compositor, nasceu a 29 de Maio de 1922, na cidade de Braïla, na Romania, e ter-se-á formado em engenharia civil primeiramente, o que o habilitou a trabalhar ao lado de LeCorbusier, em variadíssimos projetos. Sobre si diz Kanach: “Xenakis es um compositor, un arquitecto y un matemático. Estos três centros de interés están forzosamente presentes en su música, una música sin duda alguna com muchas teorias detrás y – creo – com un vasto porvenir por delante.” 538
Após combater contra a ocupação Nazi, fugiu para França, onde se estabilizou e onde se tornou uma importante figura da cultura. Terá sido um modernista no que diz respeito à música, desenvolvendo novas técnicas no sentido da composição musical, mas tendo a arquitetura já no seu currículo quando nos anos 50 foram publicadas as suas composições musicais.
Fig 35 – Iannis Xenakis foto de Michèle Daniel, c. 1970, Paris
Ainda que desenvolvesse as suas teorias a nível individual, fora muitas vezes relacionado ao movimento avant garde 539. Os seus métodos tinham sempre uma base com origem na
matemática e nos princípios arquitetónicos: “É também neste período que surge Iannis Xenakis, instigador do conceito das massas musicais, de musicas estocásticas, de música simbólica;
538 Kanach, Sharon (2009) Música de la Arquitetura. p.10
Tradução livre: Xenakis é um compositor, um arquiteto e um matemático. Estes três focos de interesse estão forçosamente presentes na sua música, uma música sem dúvida baseada em teorias e – acredito – com um longo futuro pela frente.
539 Movimento artístico de origem francesa, de inícios do século XX. De carácter inovador, revela-se nas
introduziu (…) conceitos matemáticos, nas composições instrumentais.” 540 Posto isto, a ideia
era confiada a um sistema eletrónico que a desenvolveria.
Iannis Xenakis um dos primeiros músicos a servir-se do computador para o cálculo das formas musicais, foi-o igualmente na parte da eletroacústica: “Iannis Xenakis, um dos compositores que tentou ligar a arquitetura com a música em termos conceptuais, criou mutações visuais e acústicas, para além da optimização técnica da audição.” 541 A abordagem ao som feita por
Xenakis remete-nos para o conceito de imersão, numa tentativa de rodear o ouvinte pela música.
Durante a sua vida o trabalho como compositor acompanhou sempre a sua carreira na arquitetura, e vice-versa: “Xenakis has been active as an architect and a composer, (…)” 542 e
não fora de forma comum a sua relação e o seu envolvimento com os dois mundos. Todo o seu trabalho arquitetónico tem presente uma musicalidade que marca as obras do autor, no entanto, Cite de la Musique (Fig 36) será o auge da sua evolução enquanto artista e sob a alçada do envolvimento da arquitetura com a música: “His elaborate proposal for a “City of Music” in Paris can be considered the climax of this evolution. Thus, a shift will be revealed from an abstract, conceptual relation between music and architecture, to a more sensual and practical approach to sound and space.” 543
Fig 36 – Cite de la Musique, projeto para o parque urbano de la Villette, em Paris.
540 Roque, Lídia Tauleigne (2008) Arquitetura e Música Uma visão estruturalista. p.38 541 Rui Barreiros Duarte prefácio em Roque, Lídia Tauleigne (2008), op. cit., p.12
542 Sterken, Sven (s.d) Music as an Art of Space: Interactions between Music and Architecture in the
Work of Iannis Xenakis. In Muecke Mikesch W., Zach Miriam S., Resonance: Essays on the Intersection of
Music and Architecture, Volume 1 (pp.21-51) p.32 543 Idem, ibidem, p.33
Tradução livre: A sua proposta elaborada para a “Cidade da Música” em Paris pode ser considerada o auge da sua evolução. Assim, uma mudança é revelada a partir de uma relação abstrata e conceptual entre música e arquitetura, com vista a uma abordagem mais sensual e prática sobre o som e o espaço.
O processo evolutivo de Xenakis dá-se não só na arquitetura, com a qual se familiarizava nos atelieres de Le Corbusier (Fig 37 a), mas também, e em paralelo, na música, tendo estudado composição musical com o já referido compositor Olivier Messiaen (Fig 37 b), figura incontornável da linguagem musical. Fora o mesmo quem aconselhou Xenakis a inspirar-se musicalmente nas suas raízes gregas, na sua formação em engenharia, e no seu trabalho enquanto arquiteto. O então pupilo de Corbusier seguira o conselho tão à risca que a sua primeira peça musical demonstra claramente a existência de dois elementos fundamentais da sua rotina: o modulor 544 e o papel gráfico.
a b
Fig 37 – Le Corbusier e Iannis Xenakis c.1955 - b; Iannis Xenakis e Olivier Messiaen c.1977 - b
A continuidade das suas obras apresenta formalizações baseadas em questões rítmicas. O caso do Convento de Santa Maria de La Tourette no qual trabalhou ao lado de Corbusier, mais precisamente na definição das suas fachadas, mostra isso mesmo: “Xenakis research into rhythmic patterns proved very useful for the design of the famous ‘undulating glass panes’ that cover the façade of the Monastery of La Tourette” 545
A sua composição maior recebera o nome de Metastasis, apresentada na Fig 38 a. Propunha-se a mostrar a relação que considerava ser óbvia entre os “volumes de som” e as linhas retas, leia-
544 Sistema métrico de proporções, com base na figura humana, criado por Le Corbusier. Realizado com
o objetivo de resolver questões várias não só na arquitetura como em várias outras artes, fora usado com bastante frequência.
545 Sterken, Sven (s.d) Music as an Art of Space: Interactions between Music and Architecture in the
Work of Iannis Xenakis. In Muecke, Mikesch W., Zach Miriam S., Resonance: Essays on the Intersection of
Music and Architecture, Volume 1 (pp.21-51) p.34
Tradução livre: A pesquisa de Xenakis sobre os padrões rítmicos mostrou-se bastante importante para o desenho dos famosos “panos de vidro ondulantes” que cobrem a fachada do Convento de La Tourette.
se: “Metastasis is a literal sonic interpretation of this idea: here, ‘sound volumes’ are created on the basis of simple straight lines (glissandi).” 546
A par da sua obra maior em música, surge a sua também maior obra em arquitetura. Visto como um ícone arquitetónico, o pavilhão Philips (Fig 38 b) para a feira internacional de 1958 em Bruxelas foi da autoria completa de Xenakis uma vez que Le Corbusier lhe concedera “carta- branca” para a idealização do projeto.
a b
Fig 38 – Metastasis de Iannis Xenakis, 1957 - a; Pavilhão Philips de Iannis Xenakis - b
Em termos arquitetónicos, pode ver-se na obra de Xenakis o que considera a perfeição: uma combinação delicada entre paredes e tetos, como se uns fluíssem dos outros. A música está permanentemente presente e é sempre, de alguma forma, transportada para a estrutura da obra arquitetónica: “La arquitectura de Xenakis debe o, al menos, puede ser vista como una transposición espacial de estructuras musicales que mantienen relaciones específicas entre tiempos y alturas, y todo ello gracias a una potente capacidade de abstracción, intensificada por su formación de matemático.” 547
As suas duas obras de maior importância revelam semelhanças, ambas se mostram além do concebido até então: “Philips Pavilion and the graphical score of Metastasis goes however beyond the formal level.” 548
546 Sterken, Sven (s.d) Music as an Art of Space: Interactions between Music and Architecture in the
Work of Iannis Xenakis. In Muecke, Mikesch W., Zach Miriam S., Resonance: Essays on the Intersection of
Music and Architecture, Volume 1 (pp.21-51) p.41
Tradução livre: Metastasis é uma interpretação sonora literal da seguinte ideia: aqui, os “volumes sonoros” são criados com base nas linhas retas simples (glissando).
547 Kanach, Sharon (2009) Música de la Arquitetura. p.10
Tradução livre: A arquitetura de Xenakis deve, ou pelo menos pode ser vista como uma transposição espacial de estruturas musicais que mantêm relações específicas entre tempos e alturas, e tudo graças a uma potente capacidade de abstração, intensificada pela sua formação em matemática.
548 Sterken, Sven (s.d), op. cit., p.42
A relação que se tenta provar nesta dissertação é vista por Xenakis como demasiado óbvia para que possa ser ignorada: “For Xenakis, the analogy between the orthogonal co-ordinate system and the musical notation system must have been too obvious to pass unnoticed.” 549
Le Corbusier, mestre de Xenakis tivera já também relacionado a arquitetura, a música e a matemática, através do seu Modulor, que se veio a refletir mais tarde em Metastasis, e consequentemente nas fachadas do Convento de Santa Maria de La Tourette (Fig 39): “In modern times LE CORBUSIER was one of the protagonists for renewing close relationships between architecture, music and mathematics. (…) measuring system “Modulor” as a system of proportions in a music theoretical context. The “Modulor” can be understood as a scale of proportions. LE CORBUSIER inspired Iannis XENAKIS, who worked from 1948 to 1959 in his office (…). He applied the “Modulor” to both. (…) XENAKIS composed “Metastasis” in its rhythmical structure with increasing and decreasing density according the “Modulor”. Then he applied these proportions to the façade of the monastery “La Tourette” (…). Architecture as well as music are founded on the geometry of proportions and forms.” 550
Fig 39 – Aplicação do Modulor, na Metastasis e consequentemente no Convento de La Tourette Iannis Xenakis pôde, durante a sua vida, exercer as duas paixões que sempre teve: arquitetura e música, e encontrou a forma ideal de não abdicar de nenhuma, conciliando-as. Após anos de investigação e trabalho nas áreas de arquitetura e música, o legado de Xenakis é ainda hoje motivo de estudo em ambos os campos.
549 Sterken, Sven (s.d) Music as an Art of Space: Interactions between Music and Architecture in the
Work of Iannis Xenakis. In Muecke, Mikesch W., Zach Miriam S., Resonance: Essays on the Intersection of
Music and Architecture, Volume 1 (pp.21-51) p.38
Tradução livre: Para Xenakis, a analogia entre o sistema de coordenadas e o sistema de notação musical terá sido demasiado óbvia para passar despercebida.
550 Leopold, Cornelie (2005) Experiments on Relations between Geometry, Architecture and Music.
p.171
Tradução livre: A música é o tempo e o espaço tal como a arquitetura. Música e Arquitetura dependem de proporções. [5, p. 29]. (…) o sistema de proporções “Modulor” como Sistema de proporções num contexto teórico musical. O “Modulor” pode ser entendido como uma escala de proporções. LE
CORBUSIER inspirou Iannis XENAKIS, que trabalhou desde 1948 até 1959 no seu escritório (…). Ele aplicou o “Modulor” em ambas. (…) XENAKIS compôs “Metastasis” nesse ritmo estrutural com crescentes e decrescentes densidades de acordo com o “Modulor”. Depois aplicou essas proporções à fachada do convent de “La Tourette” (…). A Arquitetura como a música são formadas com base na geometria das proporções e formas.