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IV - I testi tradotti

IV.1 La novella del diavolo che prese moglie

Vários autores são unânimes quanto a escassez de estudos sobre os meios de comunicação social nos países de expressão portuguesa, sobretudo os situados no continente africano e asiático. No seu artigo intitulado Imprensa das colónias de expressão portuguesa: primeira aproximação, publicado em 2009, Hohlfeldt escreveu:

Não conheço obra que, no âmbito da história do jornalismo português ou do jornalismo brasileiro, tenha dado especial atenção às terras que, em África ou Ásia, também receberam a presença de Portugal e que, por decorrência, em algum momento, igualmente experimentaram a imprensa e o jornalismo, ainda nos tempos de colonização. (Hohlfeldt, 2009:137).

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A afirmação do autor espelha a exiguidade de estudos da comunicação, particularmente da imprensa (no sentido amplo da palavra), nos cinco países de África que falam português. Mais adiante, o mesmo autor refere também que os poucos escritos existentes encontram-se dispersos num rol de "histórias individualizadas do jornalismo e da imprensa" praticados em cada uma das ex-colónias portuguesas.

Inserida no conjunto dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), a República de Angola é parte dessa lógica de escassez de estudos dos media. As referências existentes fazem menção a um conjunto restrito de autores, dos quais faz parte Júlio Castro Lopo (1964), considerado o pioneiro dos estudos dos meios de comunicação social angolanos (Hohlfetdt, 2009; Fonseca, 2014).

Trata-se da obra Jornalismo de Angola - subsídios para a sua história em que Castro Lopo faz uma incursão específica sobre a evolução da imprensa angolana, desde o seu surgimento, em finais do século XIX, até princípios da década de 60 do século XX. O trabalho desenvolvido por José Júlio Gonçalves (1964), no seu livro intitulado A informação em Angola tem servido igualmente de base para a compreensão das origens da imprensa angolana. A outra referência nos estudos da comunicação em Angola tem sido a obra de Sebastião Coelho (1999), Angola, Histórias e Estórias da Informação, que, de acordo com Fonseca (2014), "abrange temas diversos como cultura, língua, literatura, imprensa, rádio e música, entre outros" (p. 60).

Além dos estudos apontados, existem outras contribuições sobre a imprensa angolana maioritariamente inscritas nas abordagens literárias (ou etnográficas) de autores como Mário António de Oliveira (1961) - A sociedade angolana do fim do século XIX e um seu escritor; Carlos Ervedosa (1975) - Roteiro da literatura angolana; Salvato Trigo (1977 e 1981) - Introdução à literatura angolana de expressão portuguesa e Luandino Vieira: o logoteta, respectivamente; A. Borges de Mello (1985) - A influência do Brasil no jornalismo angolano; Pires Laranjeira (1995) - Literaturas africanas de expressão portuguesa: formação e desenvolvimento das literaturas; Francisco Soares (2001) - Literaturas africanas de expressão portuguesa (Hohlfeldt, 2009); e Jurema José de Oliveira (2007) - As literaturas africanas e o jornalismo no período colonial.

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Nas duas últimas décadas, tem surgido alguma produção académica ou profissional sobre a imprensa em Angola. Em quase toda se repetem as referências específicas a Júlio de Castro Lopo, José Júlio Gonçalves e Sebastião Coelho, sobretudo no que toca à abordagem da evolução dos media no país no período que vai de 1845, data indicada como do surgimento oficial da imprensa em Angola, à década de 70 do século passado. Essa produção académica e/ou profissional sobre a comunicação reporta, na sua maioria, aspectos particulares da actividade de comunicação social ou de algum órgão de comunicação na sua relação específica com algum valor, prática ou assunto da vida social. Esses estudos têm versado sobre temas como a ética jornalística, o jornalismo e a política, o jornalismo e as tecnologias de informação e comunicação, o jornalismo e cultura, ou ainda, o meio de comunicação A, B ou C e a problemática do género, a saúde, o ensino/educação, o desporto, a economia, a criminalidade, entre outros assuntos.

No essencial, essa produção tem integrado um valioso espólio para a compreensão da evolução da imprensa no país, tanto no período colonial como no período pós-colonial. Porém, são estudos que, muitas vezes, se apresentam mais como reflexões sobre o contributo da imprensa (ou de uma actividade desta) face às mais diversas demandas sociais, do que estudos dos media propriamente ditos. Servem de exemplos disso os trabalhos como Jornalismo e política (1991), de João Melo; Os periódicos como fonte de pesquisa histórica. A imprensa escrita de Angola no século XIX (1993), de Rosa Cruz e Silva, Alexandra Aparício e Fernando Gamboa; Jornalismo angolano. Contribuições (2002), do Ministério da Comunicação Social; A dinâmica e o estatuto dos jornalistas em Angola no período da 'imprensa livre', 1866-1923 (2002), de João Pedro da Cunha Lourenço; e Ética profissional de jornalismo (2012), de Gabriel Chingando.

Mais focados no papel educativo dos meios de comunicação social, particularmente a rádio e a televisão, destacam-se também os trabalhos tais como O contributo da rádio e da televisão no ensino da história, em Benguela, de 1975-1992 (2004) (tese de licenciatura – não publicada), de António Manuel dos Santos Júnior e Benvindo Maria Kaluquembe; Televisão e Formação Académica dos Adolescentes: um estudo de caso num bairro de Luanda (artigo apresentado no 1º Congresso Africano de Sociologia, em 2007, na Universidade de Rhodes, África do Sul), de Adérito Manuel; Telejornalismo educativo e ensino da história local de Benguela (2010) (dissertação de

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mestrado – não publicada), de Joaquim Domingos Freitas (autor desta tese); Valores Culturais e Apelos nos Anúncios Publicitários da Televisão Angolana: Estudo Exploratório (2013) (dissertação de mestrado – não publicada), de Eliane Pinheiro Silva; entre outros. A estes estudos académicos acresce-se também as dissertações de mestrado apresentadas recentemente, tais como O Paradigma do Jornalismo de Desenvolvimento na Construção da Democracia em Angola (2015), de João Félix Pedro Candumba; e A Televisão em Angola no Pós-Guerra (2017), de Alberto Manuel Sona Botelho, cujas reflexões incidem fundamentalmente sobre as funções e representações sociais da prática jornalística e da TV no actual contexto sociopolítico e económico do país.

Ainda no campo de estudos específicos da comunicação social angolana, não pode deixar-se de mencionar os apontamentos de Fernando Lima, A media em Angola, integrados na obra colectiva Pluralismo de informação nos PALOP (2000), bem como o texto A comunicação angolana, de autoria de Joaquim Paulo Conceição, publicado no Anuário de Comunicação Lusófona, em 2005. Nesta perspectiva, há ainda a mencionar um conjunto de reflexões sobre a comunicação social angolana, em geral, ou de certos sectores desta, em particular, como as que foram periodicamente veiculadas nas diversas «Jornadas Técnico-Científicas da Comunicação Social» e compiladas, entre outros exemplos, nos dois volumes da brochura Jornalismo Angolano. Contribuições (2004), do Ministério da Comunicação Social, editado pelo Centro de Formação de Jornalistas (CEFOJOR).

No essencial essas obras traçam um quadro geral de desenvolvimento da imprensa angolana, do ponto de vista da sua democraticidade e modernização, ao longo da primeira década após à implantação da democracia no país e aprovação da Lei de Imprensa de 1991 que, efectivamente, rompeu com o monopólio do Estado e estabeleceu a liberalização da actividade no sector da comunicação social.

Constitui igualmente uma referência nos estudos dos media angolanos na primeira década do século XXI o trabalho desenvolvido por AdebayoVunge (2006), com o título Dos mass mídia em Angola. Um contributo para a sua compreensão histórica, no qual esboça o percurso geral da comunicação social, expõe os projectos jornalísticos e retrata sumariamente alguns nomes do jornalismo angolano, até mais ou menos no ano de 2005. A par desta, destaca-se também a obra Estado da comunicação

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social em Angola, de autoria do sociólogo Paulo de Carvalho e do jornalista Reginaldo Silva, publicada em 2007.

Se existem carências em relação ao estudo da imprensa angolana, no seu geral, isto agrava-se em relação às pesquisas sobre como as populações se relacionam com os diferentes tipos de meios de comunicação disponíveis. Segundo Carvalho (2002), datam de 1995 as primeiras acções que se podem considerar de estudos de recepção dos meios de comunicação, tendo sido pioneiro o diário estatal «Jornal de Angola». Mesmo assim, nos anos que se seguiram não se produziram iniciativas consistentes de produção regular de estudos do género.

As poucas referências neste sentido têm-se situado ao nível de consumo de media ou da percepção de determinados bens económicos, sociais e políticos veiculados por estes, particularmente na capital do país. A partir de 2002 assiste-se a inauguração de um período mais consistente em termos de estudos de recepção dos meios de comunicação social no país. São referenciais desta fase os estudos «A audiência de media em Luanda» (2002) e «A campanha eleitoral de 2008 na imprensa de Luanda» (2010) da autoria do sociólogo angolano Paulo Carvalho. Como os respectivos títulos indicam, a primeira aborda a recepção, junto do público luandense, dos meios impressos, radiofónicos e televisivos; enquanto a segunda reporta o comportamento dos media, em Luanda, relativamente às acções dos partidos e actores políticos, no âmbito das eleições de 2008. A aferição da cobertura eleitoral e do pluralismo nos órgãos de comunicação social tem contado também com estudos (ou relatórios) sectoriais, com caris de monitorização dos media, levados a cabo por algumas organizações.

Há ainda a destacar os sistemáticos estudos, Angola AMPS - All Media & Products Study, desenvolvidos pela empresa Marktest, desde 2006, com vista a "fornecer informação sobre os hábitos de audiência da Grande Luanda, bem como sobre os hábitos de consumo e estilos de vida dos seus residentes" (www.marktest.com). Além dos estudos citados, a empresa desenvolve igualmente o que designa de Media Monitoring com dois principais serviços: um, o Publimonitoring está vocacionado à monitorização de investimentos publicitários; e outro, o Clipping apresenta-se como um observatório de notícias na comunicação social. Neste mesmo segmento, enquadra-se ainda o livro intitulado A Publicidade em Angola. Contribuições. Publicado em 2009

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por José Guerreiro, é essencialmente útil para o conhecimento da evolução do sector publicitário e de marketing no país.

Embora focados essencialmente a Luanda, estes estudos se têm revelado importantes para a compreensão dos hábitos de consumo dos media em Angola e do comportamento social e político dos órgãos de comunicação social angolanos. Aliás, basta ter em consideração que a capital do país é simplesmente o mais representativo mercado nacional em quase todos os domínios, incluindo em termos demográficos.

Em síntese, a actividade mediática em Angola tem uma tradição secular. Construída sobretudo a partir de meados do século XIX, teve uma evolução não muito linear em função dos contextos sociopolíticos e económicos que o país conheceu ao longo de sua história, como colónia portuguesa e como país independente. Em cada uma das etapas, a imprensa foi participe das dinâmicas sociais vigentes, tendo contribuído incisivamente no projecto da angolanidade ainda em construção. Ao longo do percurso foram surgindo (e também encerrando) ógrãos de comunicação sociais, quer pelas contingências sociopolíticas quer por imperativos económicos e culturais. Mas, a missão de informar, formar e entreter continuou. Actualmente, o país conta com uma crescente e diversificada oferta de meios de comunicação, viabilizadas pelo processo de liberalização do sector e pelas inovações tecnológicas cada vez mais difusas, proporcionando novos produtos comunicacionais aos cidadãos.

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PARTE II