A Organização Mundial da Saúde (OMS) define saúde como estado de completo bem-estar físico, mental e social. Tal definição recebe várias criticas de diversos profissionais da saúde, que buscam otimizar o conceito e diminuir a idéia de que só existe saúde quando a totalidade dos critérios acima são atendidos. É mais aceita a idéia de associação entre estar saudável e sentir-se bem (JUNIOR, 2004).
Também não é de senso comum a definição de bem estar. Como definido pelo dicionário Webster, bem estar é o estado de sentir-se bem, de felicidade, virtude essencial para o homem social. Em linhas mais aprimoradas, Giacomoni (2004) afirma que bem-estar é uma área da psicologia que tem crescido muito ultimamente, cobrindo estudos que têm utilizado as mais diversas nomeações, tais como: felicidade, satisfação, estado de espírito e afeto positivo. Mais especificamente, este construto diz respeito a como e por
37 que as pessoas experienciam suas vidas positivamente. Também é considerada a avaliação subjetiva da qualidade de vida. Seguindo essa linha, de maneira mais elucidativa, Junior (2004) dá dois significados para bem estar: o primeiro pode ser a noção subjetiva de sentir-se bem, não ter queixas, não apresentar sofrimento somático ou psíquico, nem ter consciência de qualquer lesão estrutural ou de prejuízo do desempenho pessoal ou social (inclusive familiar e laboral). Aí, bem-estar significa sentir-se bem e não apenas não se sentir mal. Mas bem-estar também significa condição de satisfação das necessidades (conscientes ou inconscientes, naturais ou psicossociais). Nos seres humanos, implica na satisfação das necessidades biológicas, o bem- estar físico; das necessidades psicológicas, o bem-estar mental; e das necessidades sociais, o bem-estar social. E não apenas satisfeitas todas essas necessidades, mas perfeitamente (ou completamente) atendidas.
De certa maneira os estudiosos da área relacionam bem estar ao estado de felicidade e satisfação. Uma das maneiras de tal estado ser alcançado seria através da vivência de sensações prazerosas e diminuição de estados dolorosos (como stress), capazes de alterar o organismo de maneira saudável, gerando bem estar, como várias pesquisas que estão sendo realizadas atualmente tentam demonstrar. Em uma dessas pesquisas foi demonstrado que emoções positivas diminuem os efeitos do stress e da resposta luta-luta, diminuindo os efeitos do stress sobre o sistema imune que passa a funcionar melhor, gerando saúde (POST, 2005). Outra pesquisa interessante sobre sensações prazerosas e aversivas, demonstrou que os estímulos prazerosos estimulam áreas cerebrais diferentes dos estímulos aversivos, definindo que existem duas áreas distintas no cérebro: uma referente a recebimento de
38 estímulos prazerosos (sistema de recompensa) e outra referente a estímulos aversivos (sistema de punição) (DAGHER et al., 2001).
Com os avanços tecnológicos, as pesquisas referentes a sensações de bem estar, prazer e estado saudável têm ganhado respaldo em explicações do funcionamento cerebral e seus sistemas, como indicado, por exemplo, por Watanuki e Kim (2005), que desenvolveram um estudo sobre respostas fisiológicas induzidas por estímulos prazerosos. Eles estudaram várias respostas do Sistema Nervoso Central, do Sistema Nervoso Autonômico, do Sistema Imune e do Sistema Endócrino, quando estímulos prazerosos como odores, figuras emotivas e uma história cômica típica do Japão foi apresentada aos sujeitos. Os resultados revelaram que a atividade do córtex frontal esquerdo aumentou com o odor agradável e um aumento da secreção de imunoglobulina-A e uma diminuição do cortisol na saliva foram induzidos por prazeres emocionais verbais vivenciados. Os diferentes sistemas envolvidos na indução de emoções prazerosas são evocados por auto-estimulação do SNC e particularmente pelo sistema de recompensa. Interessante também que a amígdalas, próxima do sistema de recompensa, age como integradora das emoções prazerosas. Parece que uma das principais ações de estados prazerosos refere-se à auto-regulação e estimulação do sistema imune. Isso pode ser constatado em um estudo sobre a concentração de IgA na saliva após os sujeitos assistirem um vídeo de humor. O resultado indicou um aumento na concentração de IgA na saliva dos sujeitos que se divertiram ao assistir o filme. Em outro estudo, verificou-se que o otimismo estava relacionado a melhores estados saudáveis, a alto número de células T-helpers e a alta de células NK. Foi constatado também, que sentimentos mais pessimistas geram uma menor
39 ativação do sistema imune. Para isso ser verificado, os participantes da pesquisa foram inoculados com o vírus influenza e foi acompanhada a resposta imune desses pacientes. Aquelas com sentimentos mais negativos tiveram uma menor ativação do sistema imune do que aqueles com atitudes positivas (BARAK, 2006).
Mas não só o sistema imune parece ser ativado como resposta a vivências emocionais positivas. Em outra pesquisa foi constatada uma alta associação entre alta felicidade e baixa pressão sistólica, fator esse, independente dos sujeitos fumarem, serem obesos ou da posição sócio econômica. Em resumo, a pesquisa conclui que afetos positivos estão relacionados ao bom funcionamento de diversos sistemas biológicos. Emoções e sentimentos positivos estão associados com altos níveis do funcionamento do centro serotonérgico, enquanto a deficiência da função seratonérgica está associada a alto índice de massa corporal, resistência a insulina e pressão sangüínea. Respostas neuroendocrinas e imunes também são examinadas como possíveis mediadoras nos efeitos da saúde aos afetos positivos (STEPTOE e WARDLE, 2005). Estudos realizados com imageamento cerebral (PET e fMR) têm demonstrado uma íntima ligação entre áreas como o núcleo acumbente, a amígdala, o hipocampo e o córtex pré-frontal, todas envolvidas nos processos de recompensa e experiências prazerosas (PETERSON, 2005). Num sentindo evolucionário, as emoções positivas podem oferecer vantagens biológicas, como indicado por Danner, Snowdon e Friesen (2001), que encontraram em seus estudos uma grande correlação entre emoções positivas e longevidade. Os medidores mais comuns utilizados nessas pesquisas referiam-se a mapeamento cerebral (PET Scan e fMR), nível de
40 cortisol e de imunoglobulinas no sangue, na saliva e na urina assim como indicadores subjetivos como questionários, entrevistas e escalas, entre elas a escala VAS (Visual Analog Scale), usada para determinar mudanças no índice de bem estar e mal estar após as intervenções.
Nesse sentido, a influência de sensações de bem estar relacionadas ao prazer e emoções positivas parece ser benéfica para a saúde, seja ajudando no combate ao stress, seja otimizando o funcionamento do sistema imune (diretamente ou por diminuição dos efeitos negativos do stress), ou ainda por estimulação de outros sistemas cerebrais. Outro estudo, corroborando com essas idéias, mostra a influência positiva da Ocitocina (substância associada a vivências prazerosas) sobre o organismo, seja atuando como hormônio anti- stress, seja estimulando crescimento celular saudável, ou até mesmo estimulando a indução de hormônios gastrintestinais como a insulina. O interessante nesse estudo é a indicação de que a estimulação da ação de tal substância possa ser condicionada a estados psicológicos e de imaginação, indicando os benefícios reais de terapias como hipnose ou meditação (UVNA¨S-MOBERG, 1998).
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