A partir destes dados, o enunciador passa a utilizar novamente da descrição, mas agora, voltado para o personagem, que neste caso, é o travesti. Logo, começa opor o travesti aos demais atores que estão envolvidos na prostituição: drag queen, michê, garota de programa, viado, entre outros. Ele busca deixar evidente o que ele quer defender e deixa subentendido o que refuta.
Seguindo o texto, percebemos que o enunciador fala sobre o travesti, que o qualifica como iluminado, isto é, aquele que se encontra nas ruas, na prostituição. Para tanto, o autor utiliza-se da antítese, que segundo Garcia (2010: p. 99 e ss) essa figura de linguagem “ consiste em opor uma ideia outra de sentido contrário” (Op. cit. pp. 99 e ss). Observemos o quadrado semiótico, adiante, que deixará evidente o que é o travesti está no campo do ser-parecer, que suscita verdade; e deixa evidente o não-parecer; não-ser que é a falsidade. Para tanto, desde o início ele deixa claro que refutará o senso comum no que tange à avaliação do travesti. Demonstra o que ele é, sempre opondo o que não é, a fim de propiciar o julgamento do leitor.
Figura 2 – Quadrado semiótico (ser)
Fonte: Greimas e Courtés (1979: p. 367).
O enunciador fica no eixo do ser- parecer, implicando aspecto verdadeiro; por sua vez, o enunciatário poderá estar ou não no senso comum no que se refere à avaliação do travesti e do homossexual, sendo encarado como mentira e ele, pela autoridade de escritor e jornalista busca convencê-lo. Há a instauração de um discurso polêmico, que conforme nos diz Orlandi (1987: p. 154):
“é aquele em que a reversibilidade se dá sob certas condições e em que o objeto do discurso está presente, mas sob perspectivas particularizantes dadas pelos participantes que procuram lhe dar uma direção, sendo que a polissemia é controlada. O exagero é a injúria”.
Assim, no discurso polêmico percebemos que há simetria entre o enunciador e o enunciatário. Assim, a relação entre EU-TU é fundamental, visto que o enunciador busca sempre, como já foi dito anteriormente, dialogar com o enunciatário, a fim de que tenha adesão àquilo a que ele está se propondo a escrever.
Analisando o quadro, percebemos a diferença entre o travesti iluminado e deixa subentendido o travesti “nas trevas”.
Travesti iluminado Travesti nas trevas
Shakesperianas, de grande
dramaticidade
Satírica
Centauros urbanos duplo Único
Beleza superior; poesia Beleza inferior; prosa Grana do michê, liberdade de ser o
que é (identidade)
Sem a grana do michê; sem liberdade (sem identidade)
Travesti Drag queen
Idealista; acredita na arte Realista; não acredita na arte; acredita no real
Dramática Satírica
Real Caricatura
Idealista, acredita na arte Realista, não acredita na arte
Coragem Temor
Utópico e romântico Realista
Orgulho de ser o que é Não tem orgulho de ser o que é Não é decaída, ascendente É decaída, decadente
Tenta ser uma afirmação do homem
Negação do homem Fonte: de JABOR, Arnaldo p. 170
Analisando o quadro, percebemos a diferença entre o travesti iluminado e o não- iluminado. O primeiro é qualificado por “figuras shakesperianas”, isto é, eles são capazes de representar valores de personagens dramáticas. O segundo, não possui dramaticidade, ela está vinculada ao discurso jocoso. Por discurso jocoso é aquele que ridiculariza os vícios, é maledicente, ardiloso, malicioso. Já, o travesti é o oposto do que foi apresentado.
Dentro da caracterização do travesti iluminado e não-iluminado, o enunciador apresenta uma metáfora “centauros urbanos”. O travesti é qualificado como corajoso, isto é, aquele que não tem temor, receio.
Por essa expressão, o enunciatário é levado a ativar o seu conhecimento enciclopédico sobre o termo “centauro”. Por meio desse conhecimento, ele situa que se trata de um mito da Grécia antiga em que o personagem vive na própria carne uma vida dupla: isto é, aquele que condensa em si a duplicidade do “ser homem” e do “ser mulher”, ou vice- versa. Silva (op. cit: p. 57) nos diz:
“(...) se o travesti é ambíguo para a sociedade, esta também é ambígua para com ele. Suscitamos que são duas almas que convivem num só corpo e que dependendo da situação entra em cena um ou outro. Num aspecto oposto,o travesti não-iluminado é constituído pela unicidade: “ser homem” ou “ser mulher”.
A duplicidade acima mencionada propicia que a travesti tem um desejo ardente, intenso por uma beleza superior, a que o enunciador denomina de poesia; por oposição, temos que o travesti não-iluminado tem uma beleza inferior. O travesti iluminado, mesmo que seja compelido à grana do michê, isto é, preso ao valor material do seu trabalho voltado à prática sexual, não perderá jamais a sua poesia.
A seguir, o enunciador chama a atenção do enunciatário por intermédio da utilização do imperativo negativo para comparar o travesti iluminado a outro personagem que é a drag
queen. “Não confundir o travesti com a drag queen”. (Jabor, /s.d/ p. 170).
Como primeiro aspecto a opor entre travesti e drag queen, sendo que o enunciador nos apresenta a primeira é qualificada de satírica, está no plano do grotesco, do caricaturesco. No glossário apresentamos o conceito de drag queen, que se refere ao ator ou atriz que se veste de mulher ou homem, respectivamente. Logo, o autor apresenta-nos o aspecto artístico, do satírico e do caricaturesco. Esse caricaturesco é voltado para a impossibilidade de ser homem ou mulher; o travesti é uma possibilidade. Trata-se de uma figura disforme, que tem por característica, o exagero nos traços. O travesti é caracterizado por ser idealista, sonhador, que não tem os pés no mundo real, na terra; enquanto a drag queen é realista, com os pés no chão. O travesti acredita na arte, na criação racional de um lugar no espaço em que o mundo é recriado, numa perspectiva utópica e romântica. A drag queen, por sua vez, não acredita na arte, pauta-se no emocional e possui os pés no chão.
Seguindo o raciocínio, a travesti tem orgulho da sua identidade, “tem orgulho de ser quem é”; a drag queen não tem esse orgulho “não tem orgulho de ser quem é”. Está em busca de uma identidade. Suscita-se uma questão de caráter retórico: “Quem é a drag queen?” Ela está em busca da afirmação de sua identidade. A segunda é qualificada de decaída, decadente; a primeira é ascendente.
O travesti tenta ser uma afirmação do homem e da mulher (viris) e a drag queen é a negação do homem “não-viril”. Vejamos o gráfico a seguir:
Gráfico 3 – Virilidade
DRAG QUEEN TRAVESTI
Ø VIRILIDADE VIRILIDADE
Logo a seguir, o enunciador retoma a ideia acerca do idealismo do travesti. Ele é o ideal das mulheres, que são caracterizadas de “pós-peruas, das turbinadas e siliconadas”. (p. 170). As mulheres acima citadas querem ser homens, mas não são; são qualificadas de homens “macios”. Há nessa caracterização uma referência a “não-virilidade”.
As mulheres pós-peruas desejam ardentemente serem livres como os travestis são, sem, contudo, ter sua liberdade cerceada pelo preço pago ao michê. O termo designa tanto o dinheiro quanto à pessoa que agencia a prostituição. Vejamos que o travesti pode e as mulheres não peruas não podem fazer:
Gráfico 4– Quadrado semiótico (poder)
Fonte: Greimas e Courtés (op. cit: p. 338).
O travesti, de certa forma, tem liberdade (poder-fazer) e independência (Poder não fazer), enquanto as mulheres pós-peruas, tem que obedecer (Não poder não fazer) e são impotentes (Não poder fazer). Para tanto, adiante verificaremos que o travesti não é grato a ninguém, enquanto a prostituta, dama da noite e mulheres pós-peruas são de devem ser.
O preço pago refere-se tanto ao aspecto monetário quanto à violência, à morte, ao perigo a que estão sendo submetidos diariamente. Em contraposição às travestis, as mulheres pós-peruas são covardes, não são livres, mas pagam um enorme preço que é a falta de identidade. Nesse sentido, o travesti apesar dos perigos e do preço pago ao michê possui identidade plena, conforme citamos acima a metáfora “centauros urbanos”.
Dentro do mundo da prostituição, temos uma doença que está presente: a AIDS, em função de ser construída na/pela relação sexual. Assim, o enunciador nos diz que a travesti é muito maior do que a doença, é um risco. Esse risco, o enunciador nos apresenta pela metáfora “homem-bomba”. Essa caracterização advém da forma de qualificar alguns religiosos do mundo árabe que estão prontos para destruir-se e quem estiver ao seu redor, em nome da religião.
Aqui, essa metáfora suscita que pelo fato de serem homens e estarem no mundo da prostituição, eles podem adquirir ou podem transmitir essa doença aos seus parceiros sexuais. Mas esse perigo os torna maiores do que a doença. Essa sobreposição do travesti à doença é apresentada sob a forma de um segredo que ele carrega consigo “que
pode matar ou te mudar para sempre”. (p. 170). Novamente o enunciador dialoga com o enunciatário e o faz referência com a utilização do pronome possessivo “te”.
Em seguida, o enunciador apresenta o travesti iluminado como o indivíduo que enfrenta a moral, a biologia, o sistema. Denota coragem; enquanto o travesti não-iluminado é partícipe do sistema, compactua com a moral vigente e com a biologia.
Percebemos que no Brasil não há uma política de saúde que atenda os travestis. Por muitas vezes, eles se auto aplicam silicone ou buscam profissionais, que cobram um preço acessível, no entanto, sem higiene, que os levam muitas vezes a contrair infecções e também à morte. Segundo Kulick (op. cit. p. 65):
“A aplicação de silicone industrial é uma das últimas etapas do processo de transformação de um indivíduo em travesti. A etapa mais radical e, irreversível. Embora algumas sustentem que é possível extrair, ao menos em parte, o silicone injetado (...) – embora as travestis utilizem um método chamado drenagem, que consiste basicamente em incisões no corpo e na aplicação de uma gaze no local, de maneira que o silicone vá aos poucos sendo expelido com o sangue, o fato é que o silicone industrial injetado no corpo mistura-se aos tecidos internos, fazendo com que seja quase impossível removê-lo. Assim, quando uma travesti toma a decisão de se submeter a “uma aplicação de silicone”, ela está dando um passo cujas consequências terão efeito pelo resto da vida”.
Recentemente, podemos citar o trabalho de Spizzirri, Abdo, Azevedo (2013), que com um grupo interdisciplinar atende os travestis, principalmente no que tange à redesignação sexual, por meio de implante de próteses e uso de hormônios, mas também pela retirada tanto dos órgãos genitais femininos quanto masculinos. Este grupo está na Faculdade de Medicina da USP, Hospital das Clínicas, Instituto de Psiquiatria da USP.
O enunciador começa a comparar o travesti à garota de programa. A comparação é estabelecida em relação à segunda, que é conservadora, é uma peça da engrenagem do sistema de exploração sexual vigente. Por isso, que não é contra o sistema e o aceita prontamente, já que explora e se deixa explorar. O primeiro é revolucionário, busca mudar o mundo, não compactua com o sistema. Vejamos o quadro a seguir:
Gráfico 5 – Travesti X Garota de programa
TRAVESTI GAROTA DE PROGRAMA
REVOLUCIONÁRIO CONSERVADOR
No que concerne às comparações, o enunciador estabelece uma oposição entre o “viado” e o “travesti”. O “viado” ama o homem; ao passo que o “travesti” ama a mulher. Pelo fato de amá-la, o travesti não quer ser uma mulher. Podemos observar que se transformar em uma mulher seria muito pouco; e o “travesti” quer muito mais
Gráfico 6 – Travesti X Viado
TRAVESTI VIADO
AMA A MULHER AMA O HOMEM
O que o travesti quer realmente é a duplicidade: concentrar em um corpo duas pessoas, tal como o centauro. Por intermédio das antíteses, tornar-se indecifrável, dotado de grande cultura, de poder. Por essa antítese que constitui o “travesti” suscita que ele quer
ser reinterpretado sob o viés humanista, tal como foi o Barroco54, isto é quer ser
respeitado como pessoa, ter sua integridade na sua duplicidade preservada.
Após apresentar os confrontos: travesti iluminado X não-iluminado, travesti X drag queen, travesti X mulheres pós-peruas, travesti X garota de programa e travesti X viado, o enunciador nos apresenta um confronto entre o travesti e o clone.
Por clone, temos um processo biológico em que células idênticas foram produzidas a partir de outras, num processo de manipulação genética. Há a criação de várias cópias pela manipulação do D.N.A.
O enunciador começa a comparar “travesti” e “clone”, que tem semelhança ao robô. Em seguida, ele muda a concordância para a terceira pessoa do plural, suscitando uma silepse de número. Essa mudança implica num aspecto mais amplo, um aspecto mais generalizante.
O travesti; é uma invenção, é uma criação. Essa ideia já foi apresentada pelo enunciador no momento em que ele relaciona o primeiro ao idealismo romântico e à arte. Aqui está no plano da invenção a que ele qualificou como poesia. Ser travesti implica em algo poético; por oposição, o travesti não-iluminado é real, não é construção, não tem aspecto poético.
Gráfico 7 – Travesti X Clone
TRAVESTI (CRIAÇÃO/INVENÇÃO) CLONE
Segundo o enunciador a travesti não quer uma identidade tal como já foi citado em relação à drag queen, garota de programa, viado; ele quer muito mais, ele quer a ambiguidade, isto é, ter uma dualidade profunda, que desperte dúvida ou incerteza naquele que o vê. Incerteza que o faz deslizante: homem e mulher.
Por ambiguidade, Ferreira (op. cit. p. 120) nos diz que é o emprego de palavras ”que levam a uma interpretação duvidosa do assunto em questão”. Sob esse viés, podemos comprovar a ideia que o enunciador apresenta sobre a metáfora “centauro” para definir o
travesti; homem e mulher. A sua contraparte tem a sua identidade construída na certeza: ou é homem ou é mulher. Não tem poesia na sua construção.
A seguir, o enunciador apresenta-nos uma questão retórica: “O que oferece o travesti ao homem que o procura?” As perguntas retóricas presentes no texto possuem a função de interpelar o enunciatário, provocá-lo e dar ênfase ao que está dizendo, cf. (Ceia 2008). A resposta da questão acima vem a seguir; o homem que procura o travesti acaba sendo sua mulher “chance de ser a mulher de uma mulher”. (op. cit. p. 171). Assim, o travesti oferecerá ao seu parceiro um “pênis dissimulado”, escondido, encoberto. Essa dissimulação implica no segredo que adiante foi apresentado pelo enunciatário, que “pode te matar ou te mudar para sempre”. (p. 170).
A poesia do travesti está centrada na duplicidade, na ambiguidade, como já dissemos anteriormente, e a perda dessas características faz com que ele perca a sua maior riqueza.
Vejamos o gráfico a seguir:
Gráfico 8 – Travesti X Drag quen, Michê, Garota de Programa, Viado e Prostituta
Dragqueen TRAVESTI Michê Garota de programa Viado, Prostituta AMBIGUIDADE UNICIDADE
Homem e mulher Homem ou mulher
O travesti castrado ao invés de ser homem e mulher; torna-se uma negativa: nem homem, nem mulher. Essa negativa é reiterada pela expressão “Não vira nada”. (p. 171)
Há uma dupla negação cuja finalidade é dar ênfase à ideia de que a operação propicia um ser nulo; assexuado. O travesti castrado sai do plano real e fica no plano da fantasia. No que tange à ambiguidade e à unicidade, podemos dispor os atores ligados à prostituição da seguinte forma:
Gráfico 9 – Travesti X Drag Queen e Castrado