5. PSD instruments
5.2 Industrial policy
HOMEM E MULHER PROSTITUTA
AMBIGUIDADE UNICIDADE MICHÊ
HOMEM OU MULHER GAROTA(O) DE PROGRAMA
ØHOMEM
A seguir, o enunciador distingue travesti e o compara pela utilização da negativa: “não é uma coisa simples e doce; há um lado criminal”. O termo “coisa” suscita uma referência a tudo que existe; tanto seres animados, inanimados, real ou aparente; aquilo que pode ser apropriado; negócio, realidade, etc. Esses sentidos denotam aquilo que a travesti não é; por oposição é alguém que possui uma complexidade. Complexidade essa que é construída pela afirmação “há um lado criminal”, isto é, pelo fato de conter a duplicidade, vive nas ruas, sujeito à violência, ao perigo, à morte. Segundo Kulick (2008: p. 47) nos diz:
“À noite, de todo modo, os perigos são maiores. Precisando atrair os clientes, travestis fazem ponto nas esquinas de ruas e avenidas e acabam se expondo publicamente de uma forma que, não fosse a situação, elas teriam preferido evitar. A exposição coloca as travestis em posição vulnerável, alvo fácil do assédio de policiais, motoristas, transeuntes, gente que passa em automóveis e ônibus. Na maioria das vezes a violência vem na forma de agressão verbal, mas não são raros os casos em que gangues de jovens espancam travestis”. Também é comum ver gente que passa de carro lançar pedras e garrafas sobre elas. Algumas vezes chegam a disparar armas de fogo contra travestis em plena rua. Normalmente as pessoas que cometem esses crimes não são identificadas nem detidas. E quando o são, recebem penas leves”.
Esses aspectos conferem à travesti uma demonstração de coragem para enfrentar essa realidade. Essa coragem também está associada ao ridículo, ao terror “no centro da madrugada” (op. cit. p. 171). Assim, o travesti, infelizmente está fadado a ser ridicularizado, ofendido, morto.
Aqui podemos ter a ideia de Propp (1976) sobre o riso de zombaria ou derrisão, que está no âmbito da maldade, por meio da ironia. Propp nos diz “é a ironia que revela conceitos por meio de palavras aparentemente positivas, mas que, no entanto, têm sentidos negativos, reveladores de outro conceito oposto ao primeiro. Essa oposição é um aspecto da zombaria, que é a comicidade”. (p. 119).
Nesse sentido, o riso tem a finalidade de castigar alguém, principalmente aquele que é objeto dele. Conforme nos diz Charaudeau (2006), no nível discursivo, a presença de três elementos são necessários para a produção do riso: o locutor, o destinatário e o alvo. Dependendo da posição adotada no ato humorístico, estabelecemos os contextos do riso e da violência, visto que depende do lugar em que ocupamos no discurso. Para tanto, apresentaremos a sua visão, que segue:
Quanto aos atores, temos o locutor, que é aquele que produz o ato humorístico e que deve ter legitimidade; o segundo, é quem participa do ato humorístico, que pode ser a vítima ou cúmplice; por último, temos o alvo, que é aquele sobre o qual recai o ato humorístico.
Conforme dissemos anteriormente sobre derrisão e zombaria, verificamos uma linha tênue entre o riso e a violência, eles estão indissociáveis, depende do ponto de vista adotado, de qual ângulo nos posicionaremos.
Assim, retornando à ideia do enunciador, o travesti se expõe ao ridículo, à violência, às dificuldades, não tem medo. Por isso, reitera a imagem do travesti que é relacionado “ao lado criminal”.
O vocábulo violência tem diversos sentidos, dentre os quais, podemos elencar algumas possibilidades como: uma pessoa que tem a qualidade de ser violenta; que produz ação violenta, que oprime e muitas vezes a pessoa é tida como tirana; aquela que subjuga outrem mediante a utilização de força, que cerceia a liberdade por meio da coação.
A partir desses sentidos, podemos notar que a violência tem a sua raiz na interação entre uma pessoa que pode ser física ou mesmo jurídica que priva o Outro do seu direito de liberdade.
Segundo Odália (2012: p. 83) “A ideia de privação parece-me, portanto, permitir descobrir a violência onde ela estiver, por mais camuflada que esteja sob montanhas de preconceitos, de costumes ou tradições, de leis e legalismos”. Sob estes aspectos temos vários tipos de violências: a guerra, criminalidade, agressões, conflitos, entre outros.
Suscitamos que aquele que ri carrega consigo o protótipo da “virilidade” e avalia e ridiculariza a “travesti” pelos estereótipos, conforme já mencionamos no decorrer desse trabalho. Ele suporta esse estado de zombaria, o estado de violência por uma questão monetária. O enunciador utiliza o advérbio entre vírgulas claro para apresentar o seu argumento.
O travesti trabalha nas ruas da Lapa, Mem de Sá, mas tem a glória de trabalhar também, quando consegue, no centro do Rio de Janeiro. Isso pode ser visto pela apresentação de dois locais: esquina do Hotel Hilton ou a Avenida Atlântica. O travesti encontra a glória no momento em que sai do subúrbio e passa a ficar no centro do Rio de Janeiro. Os locais apresentados denotam a presença de homens ricos, estrangeiros, que buscam a prostituição. Por isso, o enunciador se refere a esses locais como “espaço místico”.
Agora, o enunciador apresenta-nos a diferença entre o travesti e a prostituta:
Travesti Prostituta
Perigo às famílias Ajuda no casamento
Cria a duplicidade Cria a unicidade
Cria rachadura Sela a rachadura
Homem que se casa= não tem gratidão
Homem que se casa = benfeitor Não tem obrigação= deve agradecer Humilha a mulher que ajudou
Boa esposa A outra
Homem – executivo- mulher Homem- mulher
Autossuficiente; é um casal Dependente; é um terceiro e pode ser excluído
Sabe o que o homem quer Não sabe o que o homem quer O homem pode ser a mulher ideal A mulher ideal.
(Op. cit. p. 171)
O enunciador faz agora uma comparação entre o travesti e a prostituta. A prostituta, historicamente, é uma mulher que exerce a função da prostituição, isto é, relaciona-se sexualmente com seu parceiro por dinheiro.
Assim, ela é mantida pelo homem, que a custeia para ter seus desejos sexuais realizados. A prostituta ajuda no “tédio do casamento”; ela se torna o terceiro elemento da relação. Como dissemos anteriormente, ela tal como a garota de programa, é conservadora, partícipe do mundo do sexo envolvendo dinheiro, matem o casamento. Ela usa seu corpo como mercadoria.
Diferentemente, o travesti torna-se um perigo evidente á família, já que em si concentra a duplicidade. Ele tem utilidade para o mundo dos executivos. Depreende-se que são eles que os procura.
O travesti “é útil politicamente”. Esta utilidade está na duplicidade; o travesti rompe com o casamento. Assim, temos de um lado, a forma de selar o casamento pela presença da prostituta; enquanto do outro, temos uma rachadura feita pela presença do travesti. Há um princípio metonímico: parte pelo todo.
O enunciador disse anteriormente, que a travesti não quer ser mulher, visto que se o fizesse, significaria tratar-se de muito pouco. Assim, o travesti não é “uma pobre mulher”, que se encontra na busca de um príncipe encantado que “você pode se apaixonar e vier feliz para sempre”. (op. cit .p.171). Trata-se de uma leitura intertextual dos contos de fada em que a protagonista que sofre e alguém com uma boa condição se apaixona e o casal vive feliz para sempre.
Nesse sentido, o enunciador ao tirá-la do bordel e se casar com ela, torna-se o seu “benfeitor”. Por benfeitor temos uma pessoa que é avaliada positivamente pelo fato de fazer o bem, que é filantropo, que faz caridade, e também age de forma humanitária. No texto em análise, podemos observar que o homem descrito também avaliado positivamente, conforme apresentamos acima; no entanto, ele é avaliado negativamente, visto que além de ajudar a mulher amada, também a humilha.
Já, o travesti não tem gratidão por quem quer que seja; a pessoa é que deve agradecê-lo por estar na sua vida. Novamente, o enunciador busca dialogar com o enunciatário, estabelecendo a relação (EU-TU). Segundo o enunciador, o travesti “dá uma boa esposa” e logo volta a conversar com o enunciatário “Você é que poderá virar uma boa esposa para ele”. O verbo “virar” tem uma referência em que o homem transforma-se numa mulher. Vejamos a seguir:
Gráfico 10 – Travesti X Executivo
MULHER HETEROSSEXUAL EXECUTIVO
AtivaPassiva AtivoPassivo
TRAVESTI poder de transformação EXECUTIVO
Ativo e Passivo Passivo (mulher do travesti)
Numa oposição, temos o travesti que ao invés de ser passivo, aguardar o príncipe encantado, ele é inquietante. Ele pode ser passivo ou ativo, conforme a sua intenção. Nessa atitude inquietante, ele assume a posição do homem quando se relaciona com o executivo. O executivo acaba sendo a sua mulher, ele se torna passivo. Junto à esposa ele é ativo; junto ao travesti, é a mulher. Podemos aproximá-lo ao vocábulo “pachuco”, utilizada por Paz (2002), no item 1.3 “A virilidade Humana ao longo do Processo Civilizatório”, do presente trabalho.
A seguir, o enunciador corta a narrativa e apresenta o discurso direto entre o executivo e o travesti: “Querida, já lavei sua minissaia de oncinha...”. Demonstra um aspecto irônico, voltado ao risível, visto que o seu objetivo do enunciador é apresentar a sua crítica. Ao invés de a travesti ser ridicularizado, como já salientamos, o executivo que é o alvo do risível. Há referência à metonímia: parte pelo todo – temos uma peça que remete ao vestuário feminino.
Neste sentido, a inversão dos papéis entre o executivo e o travesti; o primeiro torna-se passivo e o segundo ativo é que o motivo para muitos do riso. O executivo tem dois papéis: ativo com a esposa e filhos; e o travesti tem o poder de transformá-lo na sua esposa. Há implicitamente pontuada a virilidade do travesti, que tem o poder de transformar.
Assim, retornando à ideia do enunciador, o travesti se expõe ao ridículo, à violência do ser ridicularizado, bem como aos estados de violência acima apresentados; o autor refere às dificuldades do travesti, no entanto, ele não demonstra medo.
O enunciador demonstra a impossibilidade de tirar o travesti da “vida”. Aqui, o vocábulo “ tirar da vida” indica tirar da prostituição, mas o travesti tem a capacidade de tirar aquele que o procura da própria vida. “Tirar da vida”, conforme a música apresentada anteriormente.
O travesti pela sua duplicidade é autossuficiente, é um casal, não depende de quem quer que seja, não tem gratidão; em contrapartida, a prostituta é dependente, é a terceira da relação e pode ser excluída. Como já foi citado acima, ela ajuda a manter um casamento. Vejamos a seguir:
Gráfico 11 – Travesti X Prostituta
TRAVESTI PROSTITUTA
DESTRÓI O CASAMENTO MANTÉM O CASAMENTO
Não é excluído Pode ser excluída
O travesti pelo fato de ser homem, consegue determinar o que todo o homem quer, deseja, pois apesar de ter duplicidade à forma do centauro, ele traz consigo o desejo do sexo masculino, portanto, ele “conhece a mulher ideal”. Por ideal, temos uma pessoa que cria uma mulher conforme o plano ideal, voltado para o fantástico, índice de perfeição
suprema, isto é, tem um aspecto do divino. A criação dessa mulher independe do mundo real.
A prostituta, por sua vez, é caracterizada pela unicidade, sabe os desejos do homem. Esses desejos podem coincidir ou não com a esposa. Como já foi referido, ela ajuda a manter um casamento. O enunciador chega à conclusão de que o travesti, pelo fato de ser homem que está num corpo feminino, e conhece a mulher ideal, tem o poder de transformar o homem que o procura na mulher “ideal”. Esse homem é transformado no passivo e age semelhante à mulher no momento em que se relaciona sexualmente.
Dentro das várias características apresentadas pelo enunciador, o travesti “está numa missão difícil” e ele tem a plena consciência disso. Essa missão é ser um espaço fechado, demarcado do sonho. Esse sonho está relacionado ao artístico, à duplicidade, ao idealismo romântico que o travesti carrega em si.
O autor reitera que o travesti está no mundo artístico; a prostituta, por sua contraparte, está no mundo real; o primeiro, pelo fato de ser revolucionário, não pertence à área moral; ele combate; a segunda, como já foi dito, além de conservadora, não contesta a moral. Pudor significa que a pessoa que possui essa qualidade ela deve ter recato, com decência e se refere ao corpo. Ter pudor significa que a pessoa não quer chamar a atenção para si, nem para o corpo. O travesti, por sua vez, é ao contrário de tudo isso. Ele não teme ficar na esquina de Copacabana e o enunciador suscita uma nova questão ao enunciatário: “Quem está nu na esquina, o homem ou a mulher?” Segundo o enunciador, o travesti encontra-se só; solidão que não o impede de desafiar o pudor da sociedade. Nessa interpelação, percebemos a presença do conectivo alternativo, isto é, denota uma escolha.
Há novamente uma referência ao aspecto deslizante do travesti. Não se consegue identificar, por isso, utiliza o pronome “ninguém”. Esse pronome está associado ao vocábulo disfarce. Por disfarce, temos uma pessoa que busca tornar-se invisível, ocultar- se por meio de maquiagem, esconder-se, com o intuito de não ser reconhecido. Ele busca disfarçar-se o tempo todo. Por isso, ele pode ficar nu na rua; ele é “ninguém”. Não como pessoa, mas no sentido de não se poder identificá-lo. Essa não identificação faz com que o travesti torne-se um indivíduo aberto, que se torne “descentrado”, “movente”, e
principalmente, “um sujeito”. Por sujeito temos aquele que realiza uma ação. Pelo fato de ter duplicidade, o travesti jamais poderá ser “fechado”, tal como o “viado”, a “prostituta”, “garota de programa, etc.
Há, no travesti a duplicidade. Duplicidade essa que busca estar disfarçada. Esse disfarce permite que fique na rua. O enunciador, por sua vez, apresenta-nos a prostituta, que qualifica por meio da utilização do diminutivo “-inha”. Esse sufixo em língua portuguesa possui o sentido de redução, mas também tem aspecto pejorativo. O par dela é o seu amante, seu cafetão. A repetição do pronome possessivo denota que eles são os donos da prostitutazinha; enquanto o travesti não tem dono algum; ele é o dono de alguém. A sua contraparte mantém o pudor, tem definido se homem ou mulher, tem a unicidade.
Gráfico 11 – Travesti (Sujeito) X Prostituta (Objeto)
TRAVESTI PROSTITUTA
Dono de alguém (Sujeito) Objeto do dono
Novamente, o enunciador qualifica positivamente a travesti pela sua coragem. Coragem essa de estar em contato com o perigo diário, com a violência, mas também no ato de apresentar-se nu. Assim, ele desafia os pudores, as regras. Em que local? Há uma referência à Copacabana, que é tido por um espaço místico, e as razões já foram explicitadas anteriormente.
Dentre as caracterizações, o enunciador nos apresenta uma outra que é ligada ao vaqueiro norte-americano, que é o caubói. O caubói durante muito tempo foi personificado pelo ator John Wayne, que sempre foi sinônimo de coragem, força, destreza com a arma, amante da justiça. Essa figura tem o aspecto “viril”. Mas o John Wayne nos é apresentado por uma forma estilizada, caracterizada por uso de “fio dental”. Fio dental trata-se da parte de baixo de um biquíni. Essa roupa é encontrada no mundo feminino. Assim, o enunciador nos apresenta o “travesti” na sua duplicidade, como já o fez quando fez menção ao termo centauro.
A seguir, o enunciador dialoga com o enunciatário “Porque você está na paz; ele está na guerra”. Que paz é essa? Que guerra é essa? Suscitamos que a paz refere-se ao enunciatário que se encontra dentro do seu Audi, que é uma marca de carro de luxo, de origem alemã. Esse carro é muito caro e aquele que anda nele tem grande status, aquele que mora em Copacabana, Hotel Hilton. Por sua vez, a travesti encontra-se em guerra contra a violência, contra a biologia, contra a sociedade, contra a moral. Ele se encontra na rua, prostituindo-se com o intuito de sobreviver.
Logo a seguir, o enunciador apresenta-nos um outro modelo de “virilidade”, sob o ponto de vista feminino: a atriz e cantora alemã Marlene Dietrich. Sua marca é a sensualidade. Esse ideal feminino aparece-nos estilizada por meio da utilização de “botas no meio dos faróis”. Temos novamente a imagem do centauro que carrega em si a duplicidade tal como nos apresenta “a terceira margem do rio”. Pelo fato de o travesti postar-se e usar roupas femininas propicia que “lá se vai o pai-de-família perdido de loucura”. Loucura voltada ao prazer, ao sexo, à prostituição. Ele é enganado pelo disfarce, pelo segredo que o travesti traz consigo. Esse segredo vem metaforizado pela expressão “A terceira margem do rio”, visto que o travesti não está na margem direita ou na margem esquerda, ele está numa terceira possibilidade, que é a junção dessa duplicidade. Em si, ele tem o homem ou a mulher e faz questão de manter essa duplicidade.
O travesti encontra-se no eixo (ser-não parecer), isto é, denota o segredo55. Segredo esse
que pode ser identificado com o “pênis dissimulado”. O homem olha e vê uma mulher, no entanto, essa mulher traz consigo um homem. Reiteramos a ideia de que o travesti tem uma ambiguidade deslizante.
O temo “ A terceira margem do rio” suscita num aspecto intertextual com o conto de João Guimarães Rosa “A terceira margem do rio”, contido no livro Primeiras histórias. A travesti não está na margem direita ou esquerda, ela está numa terceira possibilidade, que é a junção dessa duplicidade. Em si, ele tem o homem ou a mulher e faz questão de manter essa duplicidade. Ele é um centauro urbano.
Finalizando, o enunciador utiliza-se do pronome indefinido “todos” e agora aparece o pronome pessoal “nós, cuja função é criticar a si, o enunciatário e a sociedade da qual
55
pertence. Essa crítica a ingenuidade, falta de malícia ao ser ludibriado, enganado pelo travesti que ora se veste como homem ou como mulher. O enunciador utiliza o termo “travesti” diferentemente da referência ao ator/ atriz que se veste ou se porta conforme o sexo oposto, mas sim, tornar-se irreconhecível, falso, modificar o caráter ou natureza. Para tanto, ele se utiliza da antítese “maus” vestidos de “bons”.
Denota que as pessoas assumem diferentes formas de procedimento que são diferentes do que realmente são. Conforme a situação, assumimos diferentes papéis, formas de agir e de conviver com as pessoas. Há uma duplicidade no ser humano. As antíteses prosseguem com “idiotas vestidos de sábios”. “egoístas de generosos”, “bichas de machões”.
O idiota é a pessoa que é desprovida de inteligência, que não tem discernimento, não tem sentido, não tem valor; sábio: que fala com razão, tem sabedoria, prudência, experiência de vida; egoístas: pensam em si mesmas; generosos, bondade, liberalidade, prodigalidade; machões: homem macho, viril; bicha: homem afeminado, “não-viril”. As pessoas cotidianamente incluindo o enunciador assumem essas oposições, são travestidos diariamente, conforme a situação em que se encontram. Deslizam entre um e outro e outro ponto; não assumem uma posição.
Finalizando, o enunciador e o enunciatário sentem-se fascinados pelo travesti em função de eles assumirem um pesado encargo, aceitar e tomar para si uma responsabilidade, de se revelar, de se exibir. Atrelada a essa ideia temos o seu contrário “a mentira” que se trata da negação do que é verdadeiro, aquilo que é falso, escondido. O travesti encontra- se no eixo (parecer-não ser).
Na crônica em análise, o autor utilizou-se muitas vezes, quando se refere ao travesti a concordância no masculino. Temos uma ideia geral que a sociedade compartilha. Ressaltamos que mediante o trabalho de Jesus (2012), que ao nos referir aos travestis, aos transexuais a concordância deverá ser feita no feminino. Isso significa uma forma polida de se proceder.
Durante a narrativa, o travesti é silenciado. Esse silêncio pode ser evidenciado pelos aparatos sociais e o seu discurso não chega ao seu destinatário. Caso chegue é interpretado pelos seus estereótipos. Esses estereótipos acabam rotulando todos os
homossexuais por uma única forma: gay ou bicha ou viado. Assim, os travestis acabam sendo violentados, pelo fato de não terem uma designação própria.
A única vez que a voz do travesti é apresentada, ele se encontra modulada pela voz do enunciador em discurso indireto livre. Por isso, o gesto de afeição de Luana Muniz pelo jornalista, visto que ele foi há dez anos o primeiro a falar sobre o mundo das travestis. “e me abraçou, dizendo que era meu fã, por que tinha escrito um artigo sobre as travecas, que ele, Luana Muniz, líder comunitário” (p. 169).
Para tanto, o autor nos apresenta na crônica uma visão que busca romper com o senso comum no que tange à designação do homossexual. Ele desconstrói e diferencia o travesti das demais designações.
Ao lado destes elementos periféricos, encontramos sua avaliação pela sociedade, que são os estereótipos. Estes estereótipos possuem características metafóricas Podemos distinguir ao invés de dois protótipos de “virilidade”, que é o heterossexual; um protótipo construído por estereótipos, que é o homossexual e, por fim, um terceiro protótipo, que é o travesti, que une o masculino e o feminino e está mais próximo ao modelo concebido de