A genealogia de Nietzsche e de Foucault aponta o momento do nascimento, do exercício e da morte do poder. Embora não sendo uma entidade tempo-espacial, o poder marca sua individualidade no cenário histórico ocidental. Em Vigiar e Punir (2010) encontra-se o pátrio poder dos romanos, o poder soberano do Antigo Regime, a microfísica do poder disciplinar; na História da Sexualidade (1988), o poder de vida e de morte, o biopoder; no Nascimento da Biopolítica (2008), o poder do governo, ou seja, o poder da governamentalidade americana. PASSETTI (2002) fala do poder da ecopolítica, MALETTE (2011) fala de racionalidade ecológica.
Utilizo a ideia de MALETTE (2011), para pensar o poder ecológico a partir do conceito de governamentalidade de Foucault, para refletir as maneiras de modelar, administrar e regular a conduta da humana, conjugada com a problemática da exploração da natureza tal como tem sido delineada na história da Amazônia durante os três últimos séculos. Nessa linha, afirmo que a genealogia da cocaína aponta para o poder ecológico da Amazônia.
O trabalho de Foucault sobre a governamentalidade – e mais particularmente seu conceito de biopolítica – pode ser reconstruído como o estudo da “ecopolítica” quando as condições sob as quais populações são administradas estão subordinadas a tentativas mais amplas de administrar toda a Vida com o desdobramento de racionalidades ecológicas de governo (p. 11-12).
A constatação do poder ecológico segundo Passetti e Malette pressupõe uma mudança na análise da biopolítica para a ecopolítica que pode ser sustentada pela expansão da genealogia do poder de Michel Foucault.
O conceito governamentalidade neoliberal pautada nos conceitos de população, segurança e economia política do pensamento de Michel Foucault, com a racionalidade ecológica, se expande para a regulação de tudo que é vivo. Nessa perspectiva, as relações de poder postas na ecopolítica são um acontecimento planetário da sociedade de controle.
Segundo PASSETTI (2002), a ecopolítica enfrenta os dilemas do tipo da centralização do Estado, controle dos indivíduos, normalização da conduta humana, investimentos na população pobre, etnias e culturas; utilização de pessoas, como as crianças, os velhos, os doentes e homossexuais; os modos de investimentos e produção do corpo, da biodiversidade e da qualidade e longevidade da vida. Esses são temas complexos que exigem outra metodologia de conhecimento, por isso Foucault
renunciava à abordagem de uma teoria do sujeito de conhecimento em que o sujeito da observação tem um papel construtor da historicidade, capaz de pensar as condições políticas e jurídicas em termos de progresso e de educação da humanidade. Para ele, o paradigma do iluminismo, que serve de fundamento moral do direito penal moderno, não é mais capaz de pensar as novas formas do crime e castigo, em especial o que tange ao mercado da economia da cocaína.
O poder ecológico tem sua matriz no processo de colonização da Amazônia. Ele introduz a natureza no centro da racionalidade política de governo como modo de controlar e regular o ambiente, a população, a sustentabilidade, a saúde, a biodiversidade e os recursos sustentáveis. Na tentativa de compreender o ambiente e a sociedade para explorar os recursos sustentáveis foi preciso a produção de conhecimento e a habilidade necessária das quais emergiram múltiplas relações de poder-saber. As incorporações, as inovações, o contato do colonizador com o povo amazônico estimularam e formataram uma percepção global da interconectividade do natural e intercultural.
A expansão econômica da Amazônia se fez como uma preocupação ambiental, fazendo a matéria-prima e a população participar de uma rede de global poder, deixando incrustada na Amazônia, como marca de seu exercício, a conduta ecológica, disciplinada e doméstica pelas diversas tecnologias de governo implantadas desde o século XVI até o século 21. A conduta ecológica do alcaloide da coca e do látex, como se desenvolveu na Amazônia, foi basicamente constituída pela racionalidade de governo dos recursos sustentáveis, “cristalizando assim, uma relação de poder/saber que reorganiza profundamente a maneira relacional os três movimentos constitutivos da governamentalidade moderna” (MALETTE, 2011, p. 16), a vida, o ambiente e o governo.
O poder ecológico subtrai o poder das disciplinas, as bipolíticas ultrapassando o controle da população, da cidade e da esfera do Estado, e abriu novos domínios para a intervenção política da ação humana no planeta que sustenta a hipótese de que a vida natural ou do planeta tem regras que nenhum governo pode interferir. Tomar o planeta como exercício de poder e saber foi possível criar esferas de interferência para interconectar o humano e não humano, tipo de relação ausente no pensamento moderno e presente no pensamento contemporâneo em torno das problemáticas da biodiversidade, dos conflitos por recursos naturais, do equilíbrio
ambiental e, econômico e mais importante a problemática da sustentabilidade do planeta.
O poder ecológico colocou a Amazônia como parte da preservação do planeta e a inseriu nas malhas da economia global. A aceleração do crescimento populacional que deve ser gerida no ambiente capaz de prover as suas necessidades torna cada vez mais o ambiente e os recursos sustentáveis instrumentos da racionalidade de governo. A história da cocaína é parte da construção do poder ecológico desde a apropriação colonial até a complexa máquina da economia ilegal e do consumo global. A história da cocaína coloca novamente a problemática do poder ocidental: o interesse de governar, controlar e regular o tecido de tudo que liga os vivos e os não vivos da mesma maneira. Na Amazônia, o poder ecológico usou da natureza na sua forma mais complexa, como um ambiente planetário onde o natural e humano são ao mesmo tempo atores, sujeitos e objetos.