LABORATORIEUNDERSØKELSER – GEOTEKNISKE PARAMETERE
3.6 DE ENKELTE JORDARTENE
3.6.3.1 Norske marine leirer
Antes de iniciarmos nossa explanação acerca da questão da heterogeneidade enunciativa e explorarmos os aspectos que mais nos mobilizam na construção desta pesquisa, cabe tecer uma reflexão sucinta acerca do encontro das ideias de Authier- Revuz e a Análise do Discurso de linha francesa empreendida por Michel Pêcheux.
É sabido que a Análise do Discurso surgiu na década de 1960, na França. Seu objeto de estudo era exclusivamente o discurso político e os fundamentos que compunham seu quadro epistemológico estavam ligados à Linguística, ao Materialismo Histórico e à Psicanálise. Segundo o próprio Pêcheux, em seu texto de 1983, A Análise de Discurso: três épocas (2010), a Análise do Discurso pode ser dividida em três grandes épocas: a primeira delas tem como marco o livro inaugural a teoria de 1969, Análise Automática do Discurso, em que o teórico desenvolve alguns conceitos basilares como discurso, condições de produção, formação discursiva, formação imaginária. Contudo, cabe destacar que ainda não havia nenhuma reflexão mais verticalizada a respeito da natureza heterogênea do discurso já que, naquele momento, “um processo de produção discursiva é concebido como uma máquina autodeterminada e fechada sobre si mesma” e “o ponto de partida de uma AD-I é um
26 supostamente dominado por condições de produção estáveis e homogêneas (PÊCHEUX, 2010, p.307-308, grifos do autor).
Na segunda fase da AD, em Semântica e Discurso10, obra de 1975, Pêcheux
revê algumas ideias pertencentes ao quadro teórico da AD engendradas em 1969 (MALDIDIER, 2003); há as primeiras reflexões acerca da noção de heterogeneidade do discurso por meio da reordenação e do reexame do conceito de formação discursiva11 (FD) que não será mais vista como
um espaço estruturalmente fechado, pois é constitutivamente “invadida” por elementos que vêm de outro lugar (isto é, de outras FDs) que se repetem nela, fornecendo-lhe suas evidências discursivas fundamentais (PÊCHEUX, 2010, p.310).
A concepção de máquina estrutural fechada começa a ser dissolvida na medida em que se nota a relação da formação discursiva com um exterior; desse modo, há a introdução da noção de interdiscurso para designar esse “exterior específico” da formação discursiva, “‘o todo complexo com dominante’ das formações discursivas, intricado no complexo das formações ideológicas” (PÊCHEUX, 1997, p.162).
Na terceira fase da AD (AD-3), no início do anos 1980, houve a incorporação das ideias de Jacqueline Authier-Revuz. A pesquisadora já havia conhecido Michel Pêcheux, na ocasião em que a pesquisadora se interessava pela questão do sentido e da enunciação no Centro de Estudos e Pesquisa Marxistas (CERM), em 1976 (MALDIDIER, 2003). Todavia, foi o colóquio “Materialidades Discursivas” que marcou sua recepção.
O procedimento de Jacqueline Authier colocava em evidência as rupturas enunciativas no “fio do discurso”, o surgimento de um discurso outro no próprio discurso. Linguista externa propriamente dita ao campo da análise de discurso, trazia elementos decisivos à problemática da heterogeneidade do discurso (MALDIDIER, 2003, p.73).
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 10 Título original: Les vérités de la Palice.
11 Naquele momento, a noção de formação discursiva era tomada como: “aquilo que, numa formação
ideológica dada, isto é, a partir de uma posição dada numa conjuntura dada, determinada pelo estado de luta de classes, determina o que pode e deve ser dito (articulado sob a forma de uma arenga, de um sermão, de um panfleto, de uma exposição, de um programa, etc.) (PÊCHEUX, 1997, p.160, grifos do autor).
27 A heterogeneidade passa a ser parte constitutiva da noção de formação discursiva, em que ambas – a heterogeneidade pela incorporação e admissão da existência do Outro e a formação discursiva pela discrepância, embates ou aliança entre as classes sociais – apontam para a natureza heterogênea do discurso. A heterogeneidade aparece na reelaboração da noção de formação discursiva, porque esta será vista sempre em interação com outras formações discursivas, de modo que vários discursos estão ora em relação de conflito, ora de aliança (PÊCHEUX, 1997). Em outras palavras, é possível dizer que no interior do discurso há saberes vindos de outros discursos, o que faz com que uma formação discursiva se defina na sua relação paradoxal com outras formações discursivas que a atravessam trazendo o outro para o seu interior.
Já o sujeito que antes era considerado como puro efeito de assujeitamento ao dispositivo de uma formação discursiva com que ele se identificava, agora passa a ser clivado, atravessado constitutivamente pelo outro e pelo Outro, sendo envolvido pela ideia de que há um exterior que pode constituir o interior discursivo e perderá sua univocidade (BRANDÃO, 2012).
O discurso será reconhecido como um objeto heterogêneo, não será mais fechado nele mesmo, pois está a todo momento remetendo ao outro e a outros discursos produzidos no alhures, “um além discursivo não identificado, o espaço do interdiscurso” (MALDIDIER, 2003, p. 84); é possível entender, dessa maneira, que todo discurso é produto de um interdiscurso. Nas palavras de Pêcheux,
Mas também e sobretudo a insistência de um “além” interdiscursivo que vem, aquém de todo autocontrole funcional do ‘ego-eu”, enunciador estratégico que coloca em cena “sua” sequência, estruturar esta encenação (nos pontos de identidade nos quais o “ego-eu” se instala) ao mesmo tempo em que a desestabiliza (nos pontos de deriva em que o sujeito passa no outro, onde o controle estratégico de seu discurso lhe escapa) (PÊCHEUX, 2010, p.313).
Fica evidente que o encontro intelectual de Michel Pêcheux e Jacqueline Authier-Revuz foi de grande valia para ambos, já que a heterogeneidade enunciativa de Authier-Revuz entrelaça questões do interdiscurso de Pêcheux, sendo que o discurso Outro reencontra a ideia central trazida pelo conceito de interdiscurso (MALDIDIER, 2003). Constatamos que diante da noção de heterogeneidade
28 enunciativa, é possível vislumbrar o interdiscurso funcionando na língua de maneira marcada ou opacizada (AUTHIER-REVUZ, 2004), por exemplo, para identificar a heterogeneidade constitutiva que não está marcada na superfície do discurso, pode-se formular algumas hipóteses por meio do interdiscurso. Esta seria uma das maiores contribuições para a Análise do Discurso, pois, ao repensar, ao reelaborar seus conceitos e abarcar a questão da heterogeneidade, a linguagem não seria mais vista como transparente (PÊCHEUX, 1997), ela será marcada por uma opacidade que pode abrigar diferentes sentidos em um mesma palavra.
Cabe acrescentar ainda que Pêcheux faz menção ao trabalho de Authier-Revuz em seu último texto, Discurso: estrutura ou acontecimento (2006), quando se refere a certas marcas de distância discursiva, como veremos no trecho que segue:
Esses espaços [...] repousam, em seu funcionamento discursivo interno, sobre uma proibição de interpretação, implicando o uso regulado de proposições lógicas com interrogações disjuntivas e, correlativamente, a recusa de certas marcas de distância discursiva do tipo “em certo sentido”, “se se desejar”, “se podemos dizer”, “em um grau extremo”, “dizendo mais propriamente”, etc. (PÊCHEUX, 2006, p.30-31).
Fato que para nós marca definitivamente a inserção da ideia-força da presença do outro/Outro, da heterogeneidade constitutiva do discurso, sendo ela marcada ou não, nos estudos teóricos engendrados por Pêcheux e, assim, ela passa a ser vista como mais uma categoria analítica, um instrumento para os estudos discursivos.