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Figura 8: imagem de divulgação do “Festival Amor Sim, Russomano Não”. Fonte:

http://amorsimrussomannonao.tumblr.com/

Como podemos observar nos gráficos 1 e 2, os dias seguintes às manifestações correspondem a uma queda significativa no conteúdo postado na página dos eventos no Facebook. Ainda assim, alguns usuários continuam ativos, enviando novas mensagens. Conforme apontamos anteriormente, tão importante quanto a tomada do espaço público pela multidão, é a percepção construída entorno das mobilizações e o alcance dessa percepção, sua visibilidade. Dessa forma, as redes sociais digitais seguem atuando como espaço discursivo estratégico.

Logo após o encerramento da manifestação, a maioria das mensagens enviadas, tanto no Facebook quanto do Twitter, celebram o sucesso dos eventos, agradecendo quem participou e compartilhando material de produção própria, seja vídeos ou imagens. Há também uma forte repercussão em torno da cobertura da imprensa. Mais uma vez, como durante a manifestação, ao mesmo tempo em que a multidão apropria-se e potencializa

aquelas notícias que lhe parecem favoráveis, questiona aquelas que julga não darem a devida dimensão ao evento. Enquanto a usuária Vânia critica a cobertura da Folha de S. Paulo, por exemplo, (“Para quem ainda crê no q lê nos jornais: A Folha fala em 300 pessoas no churrasco da #gentediferenciada”), Luana Torres indica uma galeria de fotos do portal G1 para mostrar que o evento “bombou mesmo” e o usuário Charlespisz elogia a matéria feita pelo portal iG.

De maneira menos significativa, mas ainda presente, observamos que a percepção de êxito ou fracasso da manifestação segue em disputa nas redes sociais digitais. Mais uma vez, o usuário Nino Dastre segue a estratégia adotada no dia anterior e mostra-se empenhado em construir uma percepção de insucesso com relação ao protesto. No dia 6 de outubro, Débora Oliveira comemora no Facebook: “Teve chuva, teve Tchaka, teve rosa, teve choque, teve GCM, teve polícia, mas FOI LINDO”. Nos comentários deste post, segue o seguinte diálogo (tabela 6):

Usuário& Data& Comentário&

Nino&Dastre& 6& October& 2012& Pena$que$a$chuva$atrapalhou$tanto,$né,$Debora.$Muito$pouca$gente.& Debora& Oliveira& 6& October& 2012&

puxa% Nino,% você% deve% ter% ido% embora% cedo,% porque% até% a% hora% que% eu# estava# lá# estava# cheio!# (e# pra# mim# a# chuva# não# atrapalhou# em# nada!)&

Nino&Dastre&

6& October& 2012&

Debora,( a( praça( está( lotada( desde( a( inauguração( na( semana( passada.&Se&você&for&lá&hoje&a&noite,&ela&vai&estar&tão&lotada&quanto,& mesmo%sem%a%manifestação%pró_haddad.&Vamos&ver&se&conseguimos& organizar&outro&evento&como&este&na&semana&que&vem?& Debora& Oliveira& 6& October& 2012& !poxa,&Nino&acho&que&você&estava&na&praça&errada.&porque&a&que&eu& fui$estava$lotada$e$ROSA!$Nada$e$nem$ninguém$desmerecerá$nosso$ movimento!) uma) pena) você) não) se) sentir) representado.e) não) ter) quem.&te&represente!&Foi&lindo!&

Nino&Dastre&

6& October& 2012&

Debora,( quem( viveu( intensamente( as( grandes( manifestações( pelas( diretas_já# acha# tudo# pequeno# depois...# rs...# Mas# minha# pergunta# continua:) com) russomanno) e) Serra) no) segundo) turno,) vamos) agendar'outra'manifestação'como&essa?&

Tabela 8: Exemplo disputa de sentidos no caso “Amor Sim, Russomano Não” após a manifestação.

É interessante aqui o percurso enunciativo que Nino Dastre traça, adotando diferentes estratégias para forçar uma ordem implícita: independente do que aconteceu na

praça no dia anterior, o evento foi um fracasso. Primeiro, ele afirma que poucos manifestantes compareceram à manifestação. Em seguida, assume que havia sim um número significativo de pessoas, mas quem estava lá era parte do movimento normal da praça, e não tinha relação com a mobilização. Por último, quando Débora Oliveira reforça sua posição (“nada nem ninguém desmerecerá nosso movimento!”), ele assume outra estratégia ao relativizar o sucesso da protesto. Compara-o com as Diretas-Já e tenta colocar-se numa posição de enunciação superior ao afirmar que tudo parece pequeno para quem ‘viveu intensamente” essa experiência de manifestação civil.

No caso “Amor Sim, Russomano Não”, observamos também que a atividade relacionada à mobilização segue ativa nas redes sociais digitais muito em função do resultado do primeiro turno das eleições, que ocorreria no domingo seguinte ao festival na Praça Roosevelt. Já nos últimos dias antes do pleito, as pesquisas começavam a indicar uma queda bastante significativa nas intenções de voto no candidato Celso Russomano, colocando-o em empate técnico com outros dois: José Serra, do PSDB, e Fernando Haddad, do PT32.

Quando o resultado das eleições é divulgado e Russomano está fora da disputa do segundo turno, surge a questão de como a multidão que havia se mobilizado em torno do “Amor Sim, Russomano Não” deveria se posicionar. No dia 8 de outubro, a usuária Marcela Rubia Silva posta na página do evento no Facebook: “Temos que nos unir nesse Segundo Turno e resolver oque vamos fazer, Votar no menos pior ou NULO??????”. Alguns tentam tirar proveito do potencial de mobilização ali já realizado e atuar contra a candidatura de José Serra, chamando para o slogan “Faça Amor, Não Faça Serra”. A ideia, contudo, não ganha força à medida que diversos usuários seguem defendendo o caráter apartidário do movimento, como Roberto Santana, que publicou o seguinte comentário nesse mesmo post:

O movimento Amor sim, Russomanno não acabou, vencemos. Agora deve-se criar outros movimentos: Voto NUlo, Não Serra sim Haddad, ou começarmos a discutir o fim do voto obrigatório! Não acho legal usar esse evento para derrotar o Serra e colocar Haddad, por mais que eu queira que o Haddad ganhe. Seria uma falta de respeito com os colegas que lutaram junto, e não gostam do Haddad e nem do Serra.&&

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Dados de pesquisa IBOPE divulgados pelo portal UOL, disponível no link:

http://eleicoes.uol.com.br/2012/noticias/2012/10/06/ibope-aponta-empate-entre-serra-russomano-e-haddad.htm (acesso em 11 de março de 2015)

O grupo de artistas que havia se mobilizado originalmente para a criação do “Amor Sim, Russomano Não” decidiu, então, organizar um segundo evento, mantendo o caráter de festival, chamando-o desta vez de “Existe Amor em SP”. O objetivo do grupo seria chamar a atenção dos dois candidatos que seguiam na disputa para a importância da cultura na cidade, apontando que as propostas de nenhum dos dois atendiam às necessidades da cidade. O festival reuniu, segundo a organização, cerca de oito mil pessoas e contou a apresentação de aproximadamente 20 artistas, entre eles alguns de destaque nacional, como os cantores Gaby Amarantos, Criolo e Emicida.

Considerações Finais !

Ao comparar os dois casos aqui analisados, é importante observar que existe um processo evolutivo que se desenvolve entre eles. O “Churrascão de Gente diferenciada” foi uma mobilização espontânea, surgida a partir da criação de uma página de evento no Facebook, e deveria, a princípio, ser uma piada e não uma chamada real para um protesto. Já o “Amor Sim, Russomano Não” foi organizado com uma proposta política bem definida: enfraquecer a campanha de um dos candidatos à prefeitura de São Paulo. Se o primeiro tornou possível a ocupação da rua através de uma mobilização baseada nas redes sociais digitais, o segundo se estrutura a partir desse possível.

É importante considerar ainda o cenário net-ativista internacional e compreender que o “Amor Sim, Russomano Não” também se constrói com base no aprendizado propiciado pelas mobilizações em outros países. Se em 2011, quando o “Churrascão” ocorreu nas ruas de Higienópolis, as manifestações que marcaram o ano no hemisfério Norte estavam apenas começando, pouco mais de um ano depois um novo repertório de estratégias e ações já havia se consolidado. A escolha da Praça Roosevelt para o protesto, por exemplo, faz referência às ocupações das praças da Espanha, da praça Tahir do Cairo e mesmo ao Occupy Wall Street. Os organizadores do “Amor Sim, Russomano Não” também se deram conta que, tão importante quanto os corpos nas ruas, é a replicação deles nas redes sociais digitais através de imagens com forte impacto visual, elemento que fica explícito já na orientação de que todos os manifestantes deveriam usar uma peça de roupa rosa.

Ainda mais relevante parece ser o aprendizado sobre o potencial de uma mobilização em rede horizontal. Os grupos e coletivos de artistas que dão origem ao movimento apostam numa organização sem líderes declarados no lugar de uma estrutura hierarquizada. Podemos encarar essa decisão como uma opção genuína, alinhada com a ideologia do grupo, ou como uma estratégia para aumentar o potencial de engajamento (ou ainda como a combinação dessas duas motivações). De qualquer maneira, o agenciamento já estava previamente definido: ocupar o espaço público com um grande número de pessoas, criando uma força capaz de interferir diretamente na disputa eleitoral.

Mesmo o caráter apartidário do segundo evento poderia ser visto como uma estratégia assumida para mobilizar o maior número possível de pessoas. Os episódios no exterior já tinham mostrado uma aversão à política tradicional que, com certeza, encontraria eco no Brasil. Seria irresponsável de nossa parte concluirmos aqui que a

decisão em não levantar a bandeira de um partido seria puramente um artifício para aumentar as chances de êxito da manifestação e não uma vontade genuína. De qualquer maneira, este é um ponto chave para entender o acontecimento. Não é à toa que foi um dos temas sobre o qual observamos maior debate no material analisado.

É a partir dessa perspectiva evolutiva que podemos ampliar nosso olhar para apreender quais são as características desses dois casos que ganham força nos próximos episódios net-ativistas no Brasil, podendo oferecer ferramentas para melhor entendê-los. Um primeiro ponto, neste sentido, é o papel central desempenhado pelas redes sociais digitais como elemento articulador e mobilizador da multidão net-ativista. É principalmente através delas que a estrutura em rede dessas manifestações ganha forma e volume, que um protesto se espalha, ainda como um agenciamento de enunciação, e ganha novos apoiadores. E é também por elas que a multidão se articula em embates entre diferentes enunciados, numa disputa para definir o sentido dessas mobilizações.

Se as redes sociais digitais tornaram-se uma arena de debate político cada vez mais intenso, o episódio “Amor Sim, Russomano Não” deve ser e encarado como um ponto importante dessa evolução. A campanha vitoriosa de Barack Obama à presidência dos Estados Unidos já havia mostrado o papel central que o Facebook e o Twitter poderiam ter em uma campanha eleitoral, mas foi a manifestação na Praça Roosevelt foi um dos fatores que ajudou a concretizar esse cenário no Brasil. Mostrou que não basta para uma candidatura marcar presença no espaço on-line, que é importante mobilizar uma rede de apoiadores que difundam suas mensagens, defenda-a de ataques e, não tão ocasionalmente, ataquem o oponente. Mais importante ainda, se o acontecimento operou uma transformação na subjetividade dos indivíduos ao tornar possível que uma manifestação net-ativista tenha impactos políticos objetivos, é essa potencialidade que vemos emergir de volta em março e abril de 2015. Quando protestos em diversas cidades do país buscam alcançar o impeachment da presidente Dilma Rousseff através da pressão exercida nas ruas, eles também estão tomando como base também a experiência do “Amor Sim, Russomano Não” em 2012.

Outra característica que marcará profundamente as próximas manifestações net- ativistas e que já aparece nos casos que tratamos, ainda que de forma embrionária, é a relação problemática com a polícia. Como apontado, no primeiro caso a polícia intervém, primeiramente tentando cancelar realização do protesto, pressionando o responsável pela página do evento no Facebook. Sem obter sucesso, embora não tente novamente impedir a

passeata, filma os manifestantes alegando questões de segurança pública. Já no segundo caso, diversos usuários comentam a presença ostensiva e intimidadora da Polícia Militar e da Guarda Civil na Praça Roosevelt.

Se esse elemento apenas dava os primeiros sinais nas duas ocasiões, em 2013 a repressão policial explode com força, tanto nas manifestações contra o aumento da tarifa no transporte público, como nas ocupações contra o governador no Rio de Janeiro e nas revoltas em favelas e periferias de Rio e São Paulo, como mostra a coletânea de artigos e depoimentos organizados em formato de livro por Bruno Cava e Giuseppe Cocco (2014). Conforme apontam Hardt e Negri (2012), o poder soberano não aceita ser questionado ou colocado em risco pela potência insurgente e sem líderes da multidão, por isso convoca seus exércitos policiais. Trata-se de uma guerra civil, travada contra um inimigo não definido em nome da manutenção de uma suposta paz.

É essencial apreender também que depois desses dois acontecimentos, a rua nunca mais foi a mesma, como já indicado na introdução. Primeiramente, porque passa a ser o espaço onde a multidão manifesta suas vontades políticas, faz valer sua potência para atualizar os agenciamentos enunciativos que constrói. Se até esse momento, o ativismo on- line era associado com a ideia de “militantes de sofá e agitadores de Twitter”, os “sofás” então “desceram para as ruas” (Silveira, 2013, p. 9). Ao mesmo tempo, a rua assume um caráter atópico, conforme indica Di Felice (2013), passa a corresponder a um outro tipo de espaço, no qual a dimensão física material convive com a dimensão digital informatizada. Na medida em que uma mobilização parte do ambiente digital on-line para tomar o espaço público, ela só será exitosa ao voltar para a o ambiente on-line por meio de fotos, vídeos e depoimentos. Temos então uma espacialidade dupla. Para o autor, “o sangue dos manifestantes feridos não cai somente no chão e no asfalto das ruas, mas se derrama em espacialidades informativas” (2013, p. 65).

Há ainda um último elemento que atravessa ambos os casos aqui tratados e todos os próximos exemplos de net-ativismo que ocorrem no Brasil, sobre o qual uma análise se faz necessária. Já falamos da organização em forma de rede descentralizada, mas nos resta entender melhor quais elementos unem essas pessoas, o quê dá coesão à multidão. Hardt e Negri (2014), ao tratar das manifestações de 2011, constatam um elemento de resistência e insurreição, que aparece também nos episódios brasileiros. Um mesmo tipo de sentimento, amplo, não objetivo, um tanto disforme e difícil de apreender, cuja metáfora mais apropriada talvez seja a comparação com um elemento gasoso, que a princípio não é visto

facilmente, que penetra em diferentes espaços, assume diversas formas e pode tornar-se rapidamente explosivo. No caso do “Churrascão”, essa resistência manifesta-se contra um caráter preconceituoso de parte da elite brasileira. Já no “Amor Sim, Russomano não”, ela opõe-se a possibilidade de ascensão ao poder de uma figura identificada com conservadorismo, intolerância e violência. Nas jornadas de junho de 2013, por sua vez, as palavras de ordem “não são só vinte centavos” mostram uma insatisfação com a atuação da classe política como um todo. Por último, é esse mesmo sentimento que ganha formas inesperadas nas manifestações dos primeiros meses de 2015, nas quais aparecem até grupos pedindo pela intervenção militar como forma de combate à corrupção. Desde 2012 e com mais força ainda em 2015, a causa latente da insatisfação é uma profunda crise de representatividade. Assim, essa revolta revela-se como uma potência cujo sentido não está pré-determinado, ou seja, não é necessariamente libertária ou igualitária.

A partir dessa perspectiva, parece essencial reavaliarmos o conceito de “multidão” de Hardt e Negri (2005). Como já comentado, para os autores, Império e multidão “tem mecanismos de formação de alguma forma análogos, em sua absoluta diferença e em sua absoluta oposição” (Negri, 2003, p. 153). Em outras palavras, a multidão só existe enquanto força que faz frente à soberania do capitalismo contemporâneo. Deveríamos, portanto, assumir que, se um grupo de indivíduos defende bandeiras alinhadas com os interesses do Império, como por exemplo o receituário neoliberal de diminuição do Estado em nome de uma maior liberdade de mercado, não estaríamos diante de uma multidão? Mesmo que esse grupo seja formado por indivíduos produtivos, em movimento, potentes enquanto coletividade e que se recusem a formar um corpo uno, estaríamos frente a um outro fenômeno? Nesse caso, ficamos sem resposta sobre como poderíamos caracterizar tal grupo.

Alguns teóricos já teceram críticas ao conceito proposto pela dupla de autores justamente no que tange ao sentido em que a multidão se movimenta. Para Balibar, por exemplo, ela pode ser vista como um navio de rumo firme, mas “sem timão que possa orientar a sua direção” (2005, apud Hardt e Negri, 2014, p. 180). Já Badiou (2003) opõe-se à estrutura do pensamento de Negri e Hardt como um todo, julgando-o demasiado dialético ao levar em consideração apenas duas forças opostas: a opressão do capitalismo, ou do Império, e a resistência a ela. Julga também que os autores estão presos a uma perspectiva marxista de que o capitalismo é ambivalente em sua essência, que assim como libertou o homem da opressão feudal e aprisionou-o em outro sistema produtivo, agora carregaria internamente sua própria destruição:

Negri e seus amigos estão buscando desesperadamente reestabelecer esta visão inaugural [referindo-se à visão marxista], na qual as “multidões” são tanto resultado da atomização capitalista e o novo iniciador criativo para uma “modernidade” horizontal (redes, transversalidades, “nano-organizações”, etc.). Mas tudo isso é apenas uma alucinação delirante [une rêverie hallucinée] (Badiou, 2003, p. 337).

A mesma crítica é feita por Žižek: “Eles nos levam de volta à confiança marxista de que á história está do nosso lado’, de que o desenvolvimento histórico já vem gerando a forma do futuro comunista”. (2008, p. 352). O pesador esloveno, no entanto, vai ainda além e afirma que a verdadeira face da multidão é capitalista. A própria noção de um grupo de singularidades que se autogovernam seria justamente a grande fantasia do capitalismo, de movimento produtivo auto propulsor.

Nesse sentido, a definição proposta por Virno (2013) parece mais apropriada ao considerar que a multidão não é boa nem má. Enquanto Hardt e Negri a definem como um projeto de libertação, o autor italiano trata-a como um diagnóstico da sociedade contemporânea. Por isso, há espaço no raciocínio dele também para uma perspectiva negativa sobre o tema. A multidão, assim, não corresponde a uma ideologia, mas a uma forma que se manifesta tanto no servilismo como no conflito: “Trata-se de um modo de ser, diferente do modo de ser ‘popular’, é certo, mas, em si, não desprovido de ambivalência, com uma dose de venenos específicos” (2013, p. 98). Silveira, trata de “multidões”, no plural, as quais estão “ativas no enfrentamento de outras redes de opinião” e “a bipolaridade se desfaz em meio aos múltiplos conflitos” (2013, p. 10). Fazendo referência justamente à manifestação na Praça Roosevelt, ele levanta ainda uma ressalva:

Se os ativistas pela radicalização da democracia não se dispersarem nas redes distribuídas e não se envolverem na intensa conversação das plataformas de relacionamento, poderemos ver a onda rosa de quebrar diante de ondas conservadoras (2013, p. 10).

Negri (2003) considera também que, ao contrário da massa, a multidão não é irracional, uma vez que consiste em algo organizado. Ou seja, não é uma força destruidora, perigosa e violenta. No entanto, com relação a este ponto também parece haver espaço a uma segunda análise. Primeiro, será que essa racionalidade da multidão a deixaria a salvo de estratégias de manipulação? Com relação ao caso “Amor Sim, Russomano Não”, por

exemplo, já falamos que não temos aqui como avaliar se o caráter apartidário do protesto seria genuíno ou não, embora tendamos a acreditar que sim. No entanto, numa reflexão de caráter especulativo, se a ideia original de realizar a manifestação tivesse surgido a partir de um grupo diretamente ligado a um candidato, e o discurso de isenção da política partidária fosse apenas uma estratégia de mobilização, os efeitos práticos não teriam sido os mesmos? Pelo que apreendemos do corpus, tendemos a acreditar que sim, uma vez que as primeiras decisões tomadas pelo grupo que deu origem à organização, tais como a data, horário, local da manifestação e inclusive a orientação de que todos deveriam ir vestidos