A professora Cristiane conta que iniciou na graduação em educação artística com habilitação em música, na Universidade Sagrado Coração (USC), em São Paulo, no entanto, optou por um perfil voltado para o bacharelado em música, fazendo novo vestibular, dessa vez para a Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP):
Na época, não havia música como hoje há e, nesse curso [USC], havia muito mais matérias no universo das artes, folclore, história da arte, etc. e eu queria algo mais musical e então fui para a UNICAMP. O curso no Conservatório de Tatuí foi a ponte nesse processo. Durante cerca de um ano fiz a graduação em Campinas. Nesse período também, durante a graduação, surgiu o interesse por questões da música de uma forma terapêutica... então, muitas leituras no universo da musicoterapia, arteterapia me chamaram a atenção. (Cristiane, E1, p. 1).
Cristiane, como mencionado, ingressou na Escola de Música da UFRN no ano de 2003. Trata-se, portanto, de um momento bem distinto do processo de criação do CIART e do período de atuação das demais colaboradoras. Essa professora ingressa por meio de concurso, para atuar na graduação, na área de percepção. Devido à sua atuação anterior no âmbito do ensino de música para crianças, ela foi convidada para participar da equipe do CIART, sobre o quê lembra:
Eu cheguei no CIART quando cheguei em Natal, né? Logo que comecei a dar a aula na graduação de percepção musical. Como eu já havia trabalhado aqui em Campinas [SP] em escolas particulares, trabalhei vários anos na educação infantil com musicalização e no ensino fundamental, com flauta doce... então eu cheguei em Natal com esse algo a priori... (Cristiane, E1, p. 3).
A professora Cristiane narra que, quando passou a atuar no Curso em 2003, encontrou o CIART da seguinte forma:
A estrutura já estava muito bem concebida [...] Sempre pensando na questão dos fundamentos, sempre cuidando desse universo das artes, então já havia uma estrutura bacana em termos de disciplinas, em termos de entrada e saída de alunos, de números de vagas... já vinham de uma prática de muitos anos. (Cristiane, E1, p. 3-4).
Nos depoimentos de Cristiane, a presença de ensinamentos advindos das propostas metodológicas de Orff, Kodally e Schafer - uma ênfase à especialização em música -, mostra- se como sendo a práxis educativa musical do Curso.
Essa professora discorre sobre o valor da integração entre o ensino teórico e o prático:
[...] a visão de música é maior do que só a teoria ou o instrumento. Por um lado, isso é positivo, pois estamos formando, educando um todo musical, mas por outro lado, é difícil encarar um ensino mais tradicional que separa teoria e instrumento, especialmente depois de ter vivenciado um universo rico de possibilidades. Alunos sentem a transição do ensino do CIART, para qualquer outro... (Cristiane, E1, p. 14).
Durante sua atuação no CIART, a professora Cristiane ingressa na especialização em arteterapia. Conta que este era um desejo concretizado desde a época da graduação em São Paulo:
E, depois da graduação, já em Natal [RN], fui estudar arteterapia, fiz um curso de especialização lato sensu na Universidade Potiguar (UnP), que concluí em 2004. E, então, estudei arteterapia, adorei, aprendi bastante a olhar para a sala de aula de uma forma diferente, acho que de uma maneira mais completa. Porque às vezes a gente se prende muito à técnica, né?... Eu acho que a arteterapia me ajudou a ver melhor o universo do indivíduo... (Cristiane, E1, p. 1).
Cristiane lembra sobre ter se tornado professora:
Gente! Desde criança eu já brincava de dar aula... eu tenho irmãos mais novos, né? Eu já meio que ajudava a fazer as tarefas, e tinha uma lousa em casa, e essa proximidade com a minha tia que me deu aula de música, e essa coisa da família também, vários professores, não de música, mas de português, então assim, a questão de dar aulas era bem presente na minha casa, na minha família... Então foi meio natural para mim; é uma coisa que eu amo fazer, adoro... adoro estar em sala de aula; é muito renovador para mim. (Cristiane, E1, p. 2).
gente ensina para criança não é por falta de opção, mas, por opção, porque eu gosto, porque eu desejo, acredito... as pessoas estavam lá porque acreditavam” (Cristiane, E1, p. 12).
Ao falar de mudanças no Curso ocorridas durante o período de sua atuação no CIART, devido à saída e chegada de professores, Cristiane sintetiza: “A cada novo professor, a cada nova equipe que vem... vai se tentando uma cara nova, né? E algumas ações que têm mais a ver com as pessoas que estão na época. Por isso, vai se renovando de acordo com o corpo docente...” (Cristiane, E2, p. 1).
Os relatos acima mostram que as professoras participavam de cursos de formação, adensando, assim, as sua carreiras docentes, ou seja, se constituindo como professoras de música no período em que ensinavam; associado a isso, os relatos trazidos mostram uma consciência do valor da formação continuada.
Em síntese, esses relatos demonstram que as colaboradas não chegaram para ensinar no CIART preparadas para o exercício docente. Suas carreiras profissionais enquanto educadoras musicais foram se construindo e se adensando nesse desenrolar de tramas sociais e pedagógicas, pois assim sinalizou a época em que viveram, tendo sido suas formações tecidas na prática do dia-a-dia, frequentando cursos de curta duração.
As lembranças dessas professoras sobre o tecer de suas formações pedagógicas musicais revelam que foram aprendendo a se constituir enquanto professoras praticamente ao mesmo tempo em que passaram a ensinar as crianças. Isso vai ao encontro com o que diz Manke (2006):
[...] ao iniciar a profissão sem formação específica, [...] as professoras encontraram diversas dificuldades. A insegurança, as dúvidas, os medos marcaram o início profissional dessas professoras. E a prática foi sendo realizada através do esforço diário, os métodos de ensino foram definidos a partir da referência que guardavam de antigas professoras, além da troca de experiências com colegas e professoras mais experientes. [...] as professoras atribuem um imenso valor ao trabalho desenvolvido no contexto escolar, a prática cotidiana constituiu-se em um aprendizado [...] (MANKE, 2006, p. 118-119).
Os relatos das colaboradoras revelam uma consciência da limitação e das lacunas – aspectos que lhes motivaram a se instrumentalizar enquanto professoras. Os cursos realizados lhes possibilitaram repensar e fundamentar suas práticas em sala de aula, como é percebido na fala da professora Nilza: “Mas a gente nunca se acomodou, porque o que interessava à gente era fazer acontecer, era fazer com que as crianças aprendessem e saíssem com uma noção do que era música” (Nilza, E1, p. 2).
Também é percebido que a professora Cristiane tem em comum com as demais colaboradoras deste estudo a formação prévia instrumental e, de diferente, o fato de chegar para ensinar no CIART com certa experiência em educação musical, o que não a impediu de continuar sua busca por formação em música, sinalizando assim, como as outras colaboradoras, reflexão e compromisso com a sua carreira docente.