2 Institutter som omfattes av det resultatbaserte finansieringssystemet
2.3 Norsk institutt for kulturminneforsking, NIKU
Vestido de noite, de cintura baixa e sem mangas, estilo “melin- drosas”, em tecido acetinado verde-água, bordado na frente e atrás com pastilhas peroladas e fios prateados. Saia na parte de trás, também em tecido verde-água, acompanha os bordados do corpo, em fios prateados. Na parte da frente, três saias superpos- tas, sendo uma em crepe de China, plissada, verde-água. Um peso metálico em cada lateral desta saia para o caimento. A segunda saia, também em crepe de China, em tons mais claros, e a última em renda prateada. A saia do vestido é toda em forro duplo. Ves- tido de procedência francesa (Paris), traz a etiqueta da Casa “Boué Soeurs 9, rue de la Paix”. 1927. Pertenceu a Carmem da Silveira Bettenfeld.41
FIGURA 6.
Vestido RG 7091. Fotografia: Rita Andrade, com permissão do Museu Paulista da USP. Vestido de etiqueta da maison de couture francesa Boué Soeurs datado de 1927 pelo museu. Nesta fotografia aparece da maneira como é armazenado na reserva técnica do museu.
O vestido que hoje se encontra armazenado numa caixa feita com papel es- pecial de PH neutro e que avoluma um armário da reserva técnica do Museu Paulista da USP chegou até nossos dias por uma doação feita em 1993 (Figu- ra 6). Sobre essa doação específica sabe-se bem pouco. A data da doação está disponível no banco de dados do Setor de Objetos do museu, mas não encon- tramos no Setor de Documentação algum documento que remetesse direta- mente ao vestido. A doadora, Carmencita da Silveira Bettenfeld Jullien, havia feito ao menos uma doação anterior, em 1992, de uma série de documentos e fotografias que viriam a formar a coleção Amadeu da Silveira Saraiva, seu tio, mas entre esses objetos não há nenhuma menção a roupas.42
41 Texto da ficha de catalogação do vestido RG 7091. Acervo Museu Paulista da Universidade de São Paulo.
42 O registro desta coleção encontra-se no departamento de documentação do Museu Paulista: ARQ 26
Coleção Amadeu da Silveira Saraiva. Em carta (anexa ao registro) ao então diretor do museu, professor doutor Ulpiano Toledo Bezerra de Meneses, do dia 13 de fevereiro de 1992, Carmencita escreveu: “venho, por meio desta, oferecer ao Museu Paulista da Universidade de São Paulo, em caráter definitivo e como doação não clausulada, 248 pranchas contendo caricaturas e fotografias originais relativo à vida e obra de Santos Dumont (1920 a 1956 aprox.). O referido material, assim organizado, pertencia a nosso tio Amadeu Saraiva, aeronauta, esportista e amigo pessoal de Santos Dumont”.
Por sorte,43 há, na ficha de catalogação do vestido, menção a Carmem da Sil-
veira Bettenfeld (1894-1980), mãe de Carmencita e primeira dona do vestido Boué Soeurs. As informações a esse respeito são esparsas e oficiosas, mas, de certa forma, explicadas pelo modo como o vestido — e provavelmente as demais doações de Carmencita — foi parar neste e não em outro museu. Em um dos laudos técnicos que compõe a documentação referente à do- ação dos objetos da coleção Amadeu da Silveira Saraiva (datado de 18 de junho de 1996), lemos que o material havia sido coletado por Maria José Elias (então funcionária do museu) e “amiga pessoal da doadora, a senhora Carmencita da Silveira Bettenfeld Julien”.44 A amizade pode ter colaborado
para a escolha deste museu, e pode ainda ter contribuído para enriquecer a documentação sobre o vestido com enxertos claramente apurados em depoi- mentos da família (talvez da própria Carmem falecida em 1980) e lidos, por exemplo, na frase que não consta da ficha de catalogação do vestido, mas que foi impressa num cartão postal vendido na lojinha do museu em que se lê: “vestido [...] comprado por brasileiros em Paris [grifo nosso], França. Década de 1920”.
Não localizamos outra evidência da origem da compra, como nota fiscal, cartas, memórias. Qualquer outro tipo de documento que talvez tenha um depoimento comprovando a compra em Paris não chegou em nossas mãos ou encontra-se ainda escondido em outras entradas. Haveria sim uma alter- nativa a esta: o vestido pode ter sido comprado no Brasil – em São Paulo, por exemplo, havia lojas especializadas em vender artigos de alta-costura francesa. Onde de fato o vestido fora comprado é um aspecto de sua história que desconhecemos, mas que pode ser explorado pelo estudo de elementos materiais desse objeto. De um modo ou de outro, é possível aceitar as se- guintes evidências: a origem do vestido é francesa (há uma etiqueta de sua Maison – Boué Soeurs), e seu destino, São Paulo. Entre um ponto e outro, Carmem da Silveira Bettenfeld e seus espaços — sua valise, seu guarda- roupas, sua casa, sua cidade, seus paradeiros — foi seu pouso (talvez não o único) e também seu meio mais importante de circulação.
Sobre Carmem sabemos quase nada. É do nosso conhecimento que em 1927, suposta data de compra do vestido, em Paris, ela tinha 33 anos de idade. Ela não é nosso objeto de pesquisa, mas seria confortante, para não dizer pru- dente, saber mais sobre o corpo e a alma que habitaram em primeira mão o vestido. Carmencita, a filha que fez com que objetos da família chegassem a nós, faleceu há pouco tempo e o que resta dos bens ou memórias da mãe estão com a família, inacessíveis no momento.45 Haverá, entretanto, outros
modos de acessar as trajetórias do vestido e talvez seja mesmo possível reco- nhecer algo de Carmem nas pistas que ela deixou impressas em sua roupa. A coleção de vestidos que lhe pertenceu e que foi doada por sua filha ao mu- seu também informam certas características de predileção por tecidos, cores e texturas, por modos de vestir, conviver e circular com suas roupas.
Pelo método de interpretação de objetos exposto no capítulo anterior, inves- tigamos agora a datação informada na ficha de catalogação do vestido (1927) e quais são as marcas que informam sua origem e também sua circulação. Nossa investigação começa por Paris.
43 Talvez o ‘acaso’ fosse
igualmente adequado aqui. Acaso e sorte são ainda a explicação possível para situações deste tipo.
44 O Laudo assinado por
Solange Ferraz de Lima, Setor de Documentação, Museu Paulista da USP.
45 A Profa. Maria José
Elias, amiga pessoal de Carmencita, nos informou (por telefone, em outubro de 2007) acreditar que os bens de Carmem tenham sido distribuídos entre os filhos, mas, depois do falecimento de Carmencita, não teve mais contato com a família.