Para que pudesse averiguar o processo avaliativo da escola, acompanhei e observei a aplicação das avaliações durante algumas semanas nas salas das séries iniciais, e conversei com as professoras sobre como é feita a avaliação dentro da escola.
Ao analisar a prática de avaliação das professoras, deparei-me com diferentes atitudes e comportamentos.
Em primeiro lugar, a escola utiliza o Sistema Etapa no seu processo de ensino-aprendizagem com os alunos.
Durante o ano há no total oito apostilas. As professoras têm que cumprir uma ordem da escola e da supervisora do Sistema Etapa, onde há dia para início e término das apostilas.
As apostilas dos professores não vêm com respostas, pois a intenção do Sistema Etapa é que o docente construa junto com os alunos as respostas, e não apenas corrige-as nas aulas transcrevendo-as na lousa ou simplesmente fale-as oralmente.
Na própria apostila do professor há o planejamento de unidade de cada matéria, onde já vêm estabelecido etapas de como apresentar, desenvolver e concluir tal assunto a ser trabalhado.
Fica a critério de o professor seguir o “roteiro” da apostila, ou tê-lo como base e acrescentar ao planejar a unidade a ser estudada com idéias advindas dele, conforme queria trabalhar com a classe.
É importante que o docente procure identificar e estimular o interesse e a participação nos alunos, aproveitar seus conhecimentos anteriores e relacioná-los ao tema da unidade, visando os objetivos propostos como: conhecimentos, habilidades e atitudes.
Nesse aspecto, observei que em todas as salas que passei isso ocorreu de forma geral.
As provas, segundo o Sistema Etapa, não deve ter dias marcados, ou seja, não deve haver semana de provas. Porém, alguns professores avisam os alunos que terá avaliação.
Os professores e alunos são apressados para o desenvolvimento do maior número de temas / conteúdos possíveis. Dentro desse contexto, os processos de avaliação são um tanto mecânicos e superficiais.
Ao observar o processo avaliativo na escola foi possível perceber que notas e conceitos são classificatórios e não apresentam a real dificuldade e avanços de cada aluno, como numa sala de 2º ano, um aluno bom em matemática fez uma avaliação que constava de contas de adição e subtração com dois algarismos. Nesta prova ele obteve nota 9,5.
Algumas semanas depois, foi aplicada aos alunos uma avaliação semelhante também com contas de adição e de subtração. Esse mesmo aluno tirou nota 8,5 por distração, pois sabia o conteúdo.
Mesmo assim, a professora questionou sobre a nota tirada dizendo que ele não havia estudado, que prestasse mais atenção, e por isso foi mal na prova.
Na escola, os alunos precisam ser avaliados constantemente.
Nesta pesquisa sobre avaliação, pude observar que a nomenclatura utilizada pela escola não é a palavra “prova” e sim “verificação da aprendizagem” ou “atividade especial”, mas que na verdade o modelo de avaliação não foge do esquema tradicional de aplicações de prova, onde cada aluno senta em sua carteira em fileiras uma atrás da outra, não pode olhar na prova do colega, há um silêncio total na sala e cria-se uma expectativa no aluno, há tensão, angústia, e alguns esquecem o que estudaram.
Quando há tempo, a professora já vai corrigindo as avaliações dos alunos que terminaram. Estes ficam tensos e rondando a mesa da professora para saberem qual a nota que tiraram.
Algumas vezes quando os alunos apresentam dúvidas ou dificuldades, a professora explica novamente o exercício e tenta relembrá-los.
A sala em que apresentou um pouco de diferença na aplicação das avaliações foi a do 1º ano, antigo pré, mas é visível que desde pequenos eles já são treinados e preparados para enfrentarem o vestibular.
Eles sentam em carteiras enfileiradas e cada um faz sua avaliação, não podendo ajudar o colega.
A professora explica os exercícios e passa de mesa em mesa para ir acompanhá-los e auxiliá-los quando preciso.
Para os alunos é como se eles estivessem fazendo uma atividade como outra qualquer. Não há “peso” da palavra prova.
É complicado impor regras como: “não é para ajudar o colega”. Algumas vezes presenciei alunos levantando e indo na carteira do outro para tentar explicar o exercício.
Penso que uma criança nessa faixa etária ainda não está preparada psicologicamente para passar por um processo de avaliação classificatória, pois para o aluno pode ser difícil distinguir os momentos de aprendizagem e os momentos de avaliação.
Alunos com dificuldades de leitura, que ainda não estão alfabetizados, com problemas psicológicos, entre outros, tem atenção redobrada e é avaliado por aquilo que conseguiram fazer nas aulas e na avaliação.
Além da análise de observação , também foram aplicados questionários em professoras que ministram suas aulas nas salas de 1º, 2º, 3º, 4º e 5º anos, tendo um total de cinco docentes.
Na pesquisa realizada no colégio, foram perguntados para as professoras quais os instrumentos de avaliação que elas utilizam para avaliar os alunos, e de acordo com a análise feita dos questionários, os instrumentos de avaliação mais utilizados foram a prova, seja ela objetiva, dissertativa ou oral, e a observação em sala feita pelas professoras, e em segundo são os trabalhos feitos em grupo ou individual.
Apenas a professora do 4º ano usa o relatório individual, além dos outros instrumentos.
Já a professora do 5º ano é a que mais usa diversos instrumentos avaliativos para avaliar seus alunos como por meio de provas, trabalhos, observação, auto- avaliação e seminários.
Porém, para aprovar ou reprovar o aluno somente a prova é levada em conta. Dos cinco professores, quatro deram suas opiniões dizendo que através da avaliação por meio da prova é que se tem como saber se o aluno estudou e entendeu a matéria ou não.
Analisando as respostas das professoras, ficou evidente que a prova como instrumento avaliativo e para efeito de aprovação e reprovação ainda predomina, como podemos observar no relato das professoras do 5º e do 4º ano:
“Provas, somente através delas que posso verificar se o aluno realmente entendeu, mas antes costumo fazer uma auto-avaliação”.
“Provas objetivas, dissertativas e orais”.
Somente a professora do 1º ano, antigo pré, é que apresentou uma resposta diferenciada:
“Observação e atividade especial, ou seja, prova. Freqüentemente a classificação de uma criança que não está aprendendo resulta de uma abordagem muito restrita do seu conhecimento. Avalio sempre o que a criança não sabe. O que ela deixa de fazer nem sempre significa que não sabe”.
Houve, a meu ver, um pouco de contradição nas respostas dadas nos questionários com relação às observações feitas em salas de aulas.
Na classe do 5º ano, presenciei alguns alunos no momento da avaliação muito tensos. É visível que alguns nem conseguiam lembrar o conteúdo estudado e quanto mais ficavam nervosos, menos lembravam.
É importante que o professor trabalhe a questão do momento de avaliação com os alunos, solucionando esse problema, pois o docente é o principal neste processo para que se incorporem mudanças no processo avaliativo dentro do âmbito escolar, pois de acordo com a idéia de Charles Hadji,
se o professor não assumir o risco de fabricar instrumentos e inventar situações, desde que tenha a preocupação constante de compreender para acompanhar um desenvolvimento, como o aluno poderia realmente assumir o risco de aprender ?. (HADJI, 2001, p. 24).
A auto-avaliação do 5º ano não é feita pelo aluno, ou seja, não é aquela a qual o aluno atribui a si mesmo uma nota ao examinar seu próprio trabalho escolar, se auto-analisando durante um período.
Essa “auto-avaliação” é feita a partir da observação do professor para com o aluno, e é uma ação que se leva em conta observar, analisar e compreender as estratégias de aprendizagem do discente.
O objetivo da auto-avaliação como prática de instrumentação é enriquecer o sistema escolar internamente para aumentar a eficiência de uma maior orientação para com os alunos em seu processo aprendizagem.
A auto-avaliação como processo cada vez mais pertinente é uma “habilidade” a construir, pois assim, permite-se ao aluno que reflita, analise e aprenda a fazer um exame crítico de sua produção, a fim de progredir rumo a um êxito maior.
Porém, tudo depende do uso que o aluno poderá fazer desse instrumento, do sentido que lhe dará, e de sua participação, para que a partir disso, se construa uma avaliação formativa.
Segundo Philippe Perrenoud, “a formativa é toda avaliação que auxilia o aluno a aprender e a se desenvolver, ou seja, que colabora para a regulação das aprendizagens e do desenvolvimento no sentido de um projeto educativo”. (PERRENOUD apud HADJI, 2001, p. 20).
Já na classe do 4º ano, observei que a “Verificação da aprendizagem de Ciências”, foi um pouco diferente das demais salas em que presenciei a aplicação das avaliações.
Nesta classe houve um desprendimento em relação ao modelo tradicional de avaliação.
A professora escreveu na lousa o tema: “Eletricidade”, cujo assunto fora estudado semanas anteriores.
O objetivo da avaliação era verificar se os alunos realmente compreenderam o assunto ensinado. Para isso, eles tiveram que explicar com suas próprias palavras sobre o que entenderam a respeito do tema.
A verificação foi feita em dupla, com consulta à apostila.
Aqui se percebe uma pequena mudança na metodologia de avaliação.
As salas dos 3º e 4º anos, muitas das atividades são feitas em duplas ou em trios, para que os alunos possam se ajudar, de maneira que todos aprendam.
Há intervenção da professora quando necessário.
Na sala do 2º ano, a “Verificação da aprendizagem de Matemática” foi feita com consulta, mas individual.
Os alunos puderam utilizar a tabela de tabuadas na avaliação e a professora fez as intervenções quando necessárias.
Na verificação de Matemática, a professora passou em todas as mesas para auxiliar os alunos no momento avaliativo.
Algumas vezes deu estímulos positivos para alguns alunos na hora da prova. É perceptível que o conceito expressado na prática pelos docentes em seu trabalho é em sua maior parte a avaliação classificatória ou somativa, isto é, o
professor atribui uma nota ou conceito ao aluno com o objetivo de promovê-lo; ele é classificado de acordo com o nível de aproveitamento e rendimento atingido.
No gráfico abaixo, pode ser constatado que 60% das professoras praticam a avaliação classificatória, e 40% praticam a avaliação formativa.
A professora do 5º ano, explicou a sua opção escolhida argumentando:
“Não é justo atribuir uma nota positiva para o aluno que não tem interesse de aprender”.
Apenas a professora do 2º ano respondeu que o conceito de avaliação que é expressa na sua prática é a avaliação formativa, isto é, esse processo avaliativo informa o aluno e o professor sobre o resultado da aprendizagem, durante o desenvolvimento das atividades escolares.
Porém, não é isso que ocorre uma vez que a escola evidencia a prova e a nota do aluno como fator principal para a promoção para a série seguinte.
Somente uma professora , a do 4º ano, explicitou a utilização em sua prática docente dos dois tipos de avaliações: a classificatória e a formativa.
A afirmação da escolha da professora para exercer na prática é expressa através de sua resposta:
“Seguindo o sistema apostilado seria a classificatória somente, porém utilizo à formativa também como processo de formação do aluno”.
Quanto à prática que contribui para a construção de conhecimento do aluno e no seu processo de desenvolvimento escolar, a opinião das professoras recaiu, em sua maioria no item: “levar em consideração o conhecimento prévio do aluno e avaliá-lo por meio de atividades diferenciadas durante a aula”.
Porém, quanto às atividades diferenciadas durante as aulas poucas vezes isso ocorreu. A maioria das atividades está focada e de acordo com a apostila.
Uma ou outra professora usou livros de história para explicar determinado assunto, e utilizou as aulas de arte para inserir alguns contextos.
Em segundo lugar, na opinião e opção escolhida pelas professoras, o que contribui também é: “a aprendizagem do aluno verificada por meio de provas”, “acompanhamento e intervenção do professor no processo educacional”, e “o aluno participar das decisões que diz respeito ao projeto da escola”.
Quanto a estes itens, somente os dois primeiros estão mais presentes em sala de aula, e são colocados em ação na prática docente.
Com relação ao sentimento demonstrado pelo aluno ao receber uma nota baixa, pude perceber que por meio dos questionários houve variações nas opiniões, mas através das análises de observação obtive outro resultado, contrapondo o que algumas professoras acreditam e argumentaram, onde se pode verificar em algumas respostas dadas por elas:
“Negativa, porque o aluno sabe que precisava estudar mais”. (professora do 5º ano)
“É positiva, pois ele reconhece a necessidade de estudar, prestar mais atenção, fazer e refazer exercícios, ou seja, ele toma consciência de eu precisa se esforçar mais, pelo menos este é o esperado”. (professora do 2º ano)
“Positiva, pois se tornará como um desafio a ser superado”. (professora do 3º ano)
“Difícil dar uma resposta concreta, porque o aluno é um ser abstrato em constante desenvolvimento”. (professora do 4º ano)
Já por meio da observação em salas, os alunos apresentaram uma reação negativa, onde estavam mais preocupados em saber que notas tiraram e qual seria a reação de seus pais se a nota não fosse a que eles estariam esperando que o filho tirasse.
No momento em que a nota, ou seja o valor numérico, é anunciado ao aluno, é visível sua decepção por não ter tirado 10.
Pude presenciar uma situação dessas, onde uma aluna bem estudiosa e inteligente tirou nota 9,0 numa “Verificação da aprendizagem de Português”. Quando recebeu sua nota, ficou triste e com um sentimento de frustração e me disse que gostaria de ter tirado nota 10.
Houve comentários entre os alunos de qual tinha sido a maior e a menor nota da classe.
Por essa atitude, compreende-se que a avaliação classificatória ou somativa ainda prevalece na grande maioria das escolas.
Tive acesso a algumas “verificações de aprendizagem” ou “atividade especial” (ver anexo) e pude perceber que em alguns casos o aluno faz a avaliação mais pela memorização de conteúdos do que pelo entendimento e compreensão de conteúdos ensinados.
CAPÍTULO VIII