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Norsk Hydro recorded profit after tax and minority interests

In document THE STATE OWNERSHIP REPORT 2016 (sider 50-53)

- Lembra-se, ou ouviu falar da interdição das ladainhas, ou sabe a altura em que as mesmas tiveram interditas?

Baltazar - Foi o padre que as proibiu. O padre José Ribeiro. Foi o teu tio Carrapiço

que foi no lugar dele. Lembro-me quando o Padre José Ribeiro para cá veio já estavam interditas. O meu falecido pai dizia que quando lá iam abaixo, iam os carneiros e ficavam as ovelhas. O teu tio Carrapiço ainda lá foi dois ou três anos.

- Porque é que chamavam as pessoas de carneiros?

Baltazar – Era a ideia de que iam sem pastor, que as ovelhas ficavam, e os

carneiros iam.

- Não sabem o motivo da proibição das festas?

Costa - Eu porque me apercebia, o senhor bispo era contra as festas, não gostava

que a rapaziada se divertisse uns com os outros e não gostava de foguetes, e nesse dia, havia uma festa grande, era a festa do povo e religiosa.

Baltazar - Passados uns tantos anos voltou outra vez o padre a fazer as procissões,

enquanto o padre não foi, as pessoas foram lá sempre.

Costa - Pois a festa da Ascensão também esteve proibida, foi o São Lourenço e a

festa da Ascensão. Enquanto a freguesia do Guardão vier ao São Lourenço a Campo de Besteiros, a gente vai lá sempre acima, diziam os do Campo. Andaram, andaram, e depois voltou a fazer as procissões, e depois mais tarde, o padre não queria que fizessem a festa junto com a festa religiosa. Uns anos era a profana e era a religiosa e eram mordomos praticamente iguais. A religiosa era só uma missa, uma procissão, e não havia mais nada. As pessoas estavam habituadas da parte da tarde terem um arraial. Perguntaram ao padre Ribeiro, porque sempre se fizeram e ele respondeu que isso temos todos os dias, baile e tudo.

Baltazar - Quando calhou o meu ano foi duro, foi o Libânio e eu, o Manuel e o

Mocho que está lá para Leiria. Aquilo foi uma embirra, pus um advogado, porque não se fazia a festa, a festa profana, se a gente não prejudicava nada a festa religiosa que era feita nas mesmas condições da parte da tarde, tínhamos apenas um conjunto, um arraial, porque

é que o senhor Abade não quer. “Não, não, eu não autorizo”. Fui ter com um advogado. Esse advogado é que me disse que fizesse o que tinha a fazer. “Vais à câmara de Tondela tirar a licença”, mas o problema que eles não passavam a licença por causa do padre, enquanto o padre não desse sinal, ela (a funcionária da câmara) não dava a licença. Chegámos lá, então queremos a licença para a festa da Ascensão, para a profana. Perguntaram se tinha o papel do padre, dissemos que não, e eles então, não, não deram. Então temos este papel deste advogado, e queremos só saber o motivo. Ficaram a olhar uns para os outros, era rente ao meio-dia, assim à parte do meio-dia. “Então, os senhores querem mesmo?” Então, nós não prejudicamos ninguém, a festa era feita e só temos o arraial para se divertir e mais nada e às 11 horas ou meia noite, o mais tardar, aquilo acaba tudo, portanto aquilo não prejudica nada, a festa religiosa é o que é e a outra é só de tarde. Não sei porque não se faz isto. Então perguntaram se íamos logo para cima. Dissemos que podíamos ficar um bocado, “então passem logo de tarde” e deram-nos a licença, e desde aí recomeçou, porque eles não passavam a licença, porque ele (o padre) não dava ordem. Depois foi a guerra dali com ele, até andava com obras na igreja, até me pôs contra o religioso. Desde esse ano faz-se tudo igual. Eles vinham cá sempre e quando lá ia o Carrapiço com a procissão, eles vinham cá dar uma volta à capela e estava a Igreja fechada. Vinham cá acima, davam a volta à igreja e assim como íamos nós lá abaixo.

Costa - Rezavam um bocado à porta da Igreja e davam umas voltas, acho que

eram 3 voltas, as mesmas que damos em Campo de Besteiros.

- Qual era a razão porque vão ao Campo no dia de São Lourenço?

Baltazar - Porque era promessa de eles virem defender, quando foi os mouros

vieram as 3 freguesias, segundo dizem que houve os mouros além no São Bartolomeu.

Costa - Espera lá que a festa, de nós irmos ao São Lourenço tem outra finalidade.

Foi uma praga grande que houve aqui, naquela época e depois rezaram aqui e veio cá um padre benzer os campos, isto era o que ouvia dizer quando era pequeno. Benzeu os campos e a praga desapareceu e depois prometeram ir a pé, durante enquanto o mundo fosse mundo iam a pé, descalços, agradecer à Senhora do Campo. Era assim que explicavam isso. Depois, como houve a interditação, eles também foram teimosos e continuaram a vir cá sempre, estava como conciliada uma coisa com a outra.

Baltazar - As freguesias que vieram combater os mouros cá, foram as três

freguesias que vieram, mas isso é da Ascensão.

Costa -Mas nós irmos lá ao Campo é o agradecimento de Nossa Senhora ter feito

o milagre e prometeram ir lá sempre a pe, chovesse, fizesse sol e descalços. Isso foi para expulsar os mouros.

Costa -As três freguesias vêm cá derivado a isso. Agora, quando era essa coisa de

fazer milagres só se fosse ao Campo, mas as outras duas estão incluídas nisso, porque atacaram os mouros e vieram combate-los.

Baltazar - As pessoas iam à Capela de Nossa Senhora do Campo, iam sem padre,

mas faziam as cerimónias na mesma.

Costa -Sim, era o padre louco, salvo erro, foi o padre Zé Ribeiro dos Santos que

disse é pá, “anda para aí um armado em padre louco”, porque ele lia a bíblia e tudo, fazia as cerimónias como o padre. Ele um dia, lá numa homília qualquer que o chamou que anda por aí armado em padre louco e assim ficou. Era um tio meu que fez isso.

- O que fazia essa pessoa apelidada de padre louco?

Costa - Era trabalhador do campo e negociava para aí lenha.

- Essas pessoas foram interditadas?

Costa - Disseram que foram excomungadas.

- Alguns dias atrás entrevistei a Senhora Júlia Fernandes e ela referiu que era o pai o principal responsável.

Baltazar - Sim, era o tal Carrapiço, sim o António Marques Carrapiço, esse é que

foi interditado. Ele houve uma temporada grande quem nem ia à igreja. - As pessoas como olhavam para essa situação?

Costa - Normal, não achavam bem o que fizeram a eles, a malta por aí não

acharam bem ele ter sido excomungado, porque ele é que, e toda a gente dizia, senão fossem eles, a festa tinha acabado e a teimosia do povo daqui e os de lá de baixo não deixaram acabar com o hábito que já vem de há trezentos ou quatrocentos anos. Não sei de quando é que esse agradecimento de lá ir abaixo, do milagre dos campos, da tal praga e tal como prometeram, enquanto o mundo fosse mundo que não deviam deixar acabar

isso que há escritos disso, como dizia o padre Ribeiro dos Santos. Ele explicava isso, várias vezes, eu lembro-me,

- Porque razão que um povo desobedece a uma ordem do bispo e continua a fazer uma festa?

Costa - Porque aquilo era o espírito católico, o espírito católico que tinham e não

era com outra intenção, no meu entender, não havia ninguém com outra intenção. Tinham uma fé tão grande que não acharam bem ele ter proibido, e então continuaram uma vez o que sempre foi feito. Iam sem o padre

- Esse senhor António Marques Carrapiço, qual era a profissão dele?

Costa - Ele era construtor civil, já naquela altura, era um proprietário abastado.

Era uma pessoa bem-vista aqui na localidade. Sempre foi, sempre foi muito bem aceite. - Tinha capacidade para liderar este movimento de resistência?

Costa - Ele tinha, ele foi um individuo sempre com muita capacidade em todos os

aspetos.

- O que é para si a festa das ladaínhas?

Costa - Eu também sou católico e sou da mesma opinião. Não, tenho fé, tenho fé,

e vou lá sempre e quando posso vou lá, já não posso ir a caminhar, mas vou de carro, porque a procissão nesse dia sai daqui da Igreja e vai quase ao limite da freguesia com o Campo de Besteiros que fica aqui ao fundo de Janardo, depois desfazem e vão até às almas, à Arrifana e dali segue em procissão até à Igreja de Santa Eulália e vão dar uma volta à Igreja Matriz seguindo para a Senhora do Campo e lá, dão três voltas então entram na capela e fazem lá a missa, e no fim, é tradição irmos para a Quinta da Cruz que há lá sempre um petisco para comer e um convívio. Naquele tempo não havia a hipótese que há hoje, as pessoas eram mais pobres, quem pudesse levar uma merenda, um farnelzito quem podia levava e quase toda a gente era melhor ou pior, os mordomos era tradição terem lá uma pipa de vinho para as pessoas poderem beber e comer. Comiam a bucha que levavam e bebiam até quanto houvesse.

- Qual era o significado da festa das ladaínhas?

Costa - Pois foi uma promessa que fizeram de expulsarem daqui os mouros é o

no dia de quinta-feira da Acensão onde vêm as 3 freguesias. Quando tocaram o sino a rebate e vieram as 3 freguesias que ali há indícios de os mouros de terem estado acampados na serra.

- Porque ocorre a cerimónia do abraço das Cruzes?

Costa - Ah, pois, quando chegam a um sítio próprio, uma pedra própria onde as

cruzes dão o abraço.

- A cerimónia da bênção dos campos?

Costa - Também é no fim, isso é o padre, quase no fim das cerimónias todas, o

padre faz uma cerimónia que é a bênção para abençoar os campos.

- Tirando aquela fase em que ela esteve interdita, nunca houve conflitos entre as freguesias?

Costa - Não, não, nunca! Nunca houve nada. Diziam que havia lá uma cruz.

Dizem que foi deitada abaixo de propósito, ou então algum carro de bois que a deitou abaixo…

Que ligação haverá entre a Nossa Senhora do Campo e o Guardão?

Costa - Aí é que não se sabe porque razão, talvez tivessem aquela fé, de Nossa

Senhora do Campo que abençoa os campos. A explicação é que há uma força interior de sermos católicos e como herdámos essa tradição, a gente normalmente de pequeninos aprende o que os nossos pais nos ensinaram, o que era o mais útil, depois tentamos transmitir aos nossos filhos a mesma coisa. É isso, que a gente sente, e fazemos por continuar. Aquilo que dissemos é aquilo que temos de memória e de ouvir os nossos antepassados. O Carrapiço é que era o número um, esse é que teve coragem de incentivar a malta, os que queriam ir, e os teimosos de lá. Era uma espécie de padre, ele fazia de padre. Eu não sei se devo dar o nome de tipo de revolta. Naquela altura foi ele, o António Rosa de Janardo e esse Joaquim. Era tudo gente bem vista, de respeito.

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