1. Nas muitas conversas que teve com o Cónego Ribeiro dos Santos alguma vez falaram do período da interdição da festa das Cruzes?
2. Como era a sua reação, falava de forma aberta, ou procurava não abordar o assunto. Segundo o Cónego Ribeiro dos Santos qual era o pensamento do bispo Moreira Pinto em relação à festa das Cruzes?
3. Quais foram as diligencias para que o bispo mudasse de opinião?
4. Um dos meus entrevistados referiu que os padres que tudo fizeram para o regresso da festa das Cruzes foi o Cónego Ribeiro dos Santos e o Cónego Nogueira, pároco de Campo de Besteiros?
Era um assunto que o Sr. Abade evitava e do qual não manifestava interesse em que fosse abordado. Preferia falar da festa propriamente dita, do ritual, do significado religioso e histórico, da sua imponência e singularidade na região e até no país, na importância que esta festa ocupa no imaginário e na vida pessoal dos habitantes das freguesias/paróquias envolvidas – era e é a “jóia da coroa” deste território – uma manifestação de fé que resistiu ao tempo e que ninguém consegue dizer com certeza quando e porquê começou. Existe, mantém o brilho e a grandeza e o ritual riquíssimo, num local inesperado, numa serra que seria pouco povoada à data do início, … que consegue congregar tanta gente (num passado não muito longínquo seriam ainda muito mais) para cumprir uma promessa de séculos, que continuará a ser até “ao fim dos tempos”, assim esperamos.
Só uma vez se referiu ao assunto, por minha solicitação, de forma inesperada, tenho pena de não ter registado em áudio, e de tal forma foi inesperada que não consigo com muita precisão descrever o que partilhou na altura. Referiu que todos os anos, com a devida antecedência pedia audiência ao Sr. Bispo de então, penso que D. José da Cruz Moreira Pinto, para solicitar a devida autorização para realizar a festa que se encontrava interdita, como penso que outras na Diocese (não sei qual a razão – no Guardão dizia-se que as festas na Diocese foram proibidas devido a um acidente motivado pelos foguetes, numa paróquia qualquer. Um sacerdote, que ia a cavalo, caiu da montada, porque o animal
se assustou com os foguetes, e acabou por falecer em consequência da queda. Por essa razão todas as festas foram interditas). O referido Bispo negava sempre, nunca deferindo o pedido. O Sr. Abade sempre que entendia oportuno abordava o assunto nas reuniões do clero e foi reunindo algum apoio. Num dado ano, e numa reunião do clero presidida pelo referido Bispo pediu permissão e apresentou a festa e a importância que ela tinha para as quatro paróquias envolvidas e para os fiéis do arciprestado de Besteiros e de todo o concelho de Tondela. O Bispo não terá gostado muito da ousadia, mas também não o manifestou explicitamente. Depois deste caminho percorrido com muita diplomacia e com a mobilização de algumas influências silenciosas lá conseguiu, finalmente a tão ansiada autorização do Bispo, concedida no Paço Episcopal, na presença de outro padre, não sei se do mesmo arciprestado, com a advertência de que fosse uma festa modesta e discreta, como convinha ao espirito da época e tão apreciado pelo prelado. Penso que referiu que o Bispo já não se encontrava bem de saúde e que o recebeu mesmo nos seus aposentos privados.
A festa aconteceu de facto, tendo sido retomada oficialmente com a presença dos sacerdotes das paróquias, não sei precisar o ano, e foi qualquer coisa de imponente e grandioso com ecos em todos os jornais locais. Foi de tal maneira falada que chegou ao conhecimento do Sr. Bispo que ainda chegou a dizer ao Sr. Abade qualquer coisa como “Sei que sempre fez a sua festa e que foi muito modesta e discreta…” parece que seria um Bispo, apesar de tudo, com sentido de humor!...
5. O que representa para o Luís a festa das Cruzes?
A festa das Cruzes ou festa da Ascensão faz parte da minha história pessoal, é tão natural que se torna difícil dizer o que representa para mim.
Eu nasci em Angola e vim morar para o Guardão de Cima com três anos de idade. Sempre participei nesta festa que para mim era algo de naturalmente obrigatório. Nesse dia não tinha escola (a escola era no arraial da festa profana, logo não havia condições) e a minha família participava na festa, não tinha o costume de levar uma cruz, mas participávamos nos preparativos, nas ladainhas dos dias anteriores e na cerimónia, no próprio dia. A minha tia ajudava o “Sr. José Barbeiro” a enfeitar as cruzes na sua loja,
ao cimo da calçada romana e depois, mais tarde noutros locais. Chegou a faze-lo em nossa casa a pedido de pessoas que lá vinham. Eu assistia a esse trabalho minucioso de segurar muito bem, com linha branca e agulha, os fios e cordões de ouro, nos aros de ferro forrados com fitas de tecido branco. E depois eram decoradas com grinaldas de papel ou flores naturais, ou simplesmente o ouro, conforme o gosto de quem fazia a promessa de levar a cruz à festa da Ascensão, à casa da Senhora do Guardão, a Senhora dos Milagres. O laço branco, aos pés do Crucificado, era obrigatório!...
Depois havia todo o imaginário em torno da festa, partilhado pelos meus avós, a lenda dos mouros e a sua expulsão definitiva deste território – estavam aquartelados no castelo (em São Bartolomeu) e faziam incursões sobre as aldeias para pilharem, matarem e raptarem,… tiveram que se juntar todos e tomar de assalto o local para se livrarem de vez de tais infiéis e das suas más ações – a união fez a força e Santiago foi o primeiro e mais valente… ficou a promessa de até ao fim do mundo virem ali agradecer e implorar a bênção e proteção da Senhora do Guardão, a Senhora que guarda.
Continua a ser a minha festa/romaria, admiro sobretudo a fé, a confiança em Deus e palavra de um povo que honrou e continua a honrar, com orgulho uma tradição de séculos. Espero que consigamos transmitir às gerações futuras esse orgulho, para que sejam eles o guardiões e continuadores desta tradição bela, única, rica e misteriosa…