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In document THE STATE OWNERSHIP REPORT 2016 (sider 41-49)

(Esta entrevista e as seguintes foram devidamente autorizadas, tanto a sua utilização e divulgação).

- Descreva a festa das ladainhas.

TI Júlia – Ora bem, a festa das Cruzes tem origem dos mouros, portanto já há

muito tempo. Eu só posso dizer aquilo que o meu pai, que Deus tem, me informava, que ele era uma pessoa que sabia e procurava saber. Portanto isto tem origem dos mouros. A festa das Cruzes que se refere não sei desde quando vem. Mas que este encontro que se faz das cruzes é de origem dos mouros. Os mouros, é assim, só andei na escola três anos, ou seja, só fiz a terceira classe, e nunca saí daqui, não andei pelo mundo a trabalhar, sempre trabalhei na agricultura e sempre vivi aqui. Mas imagino que no tempo dos mouros aqui não existia praticamente ninguém, portanto imagino que nesse tempo havia aqui meia dúzia de pessoas, portanto os mouros habitaram acolá, naquele monte, chamado Gateira e habitaram no monte Cramol, onde está a capela de São Bartolomeu. E que os meus filhos pequenos andaram lá metidos, naqueles buracos, naquelas pedras. Eu nunca tive tempo de lá ir, nem quando os levava lá à festa de São Bartolomeu. Eles conhecem, entravam por lá e descreviam, visto pelos meus olhos nunca vi. Portanto, não sei se faziam bem ou se faziam mal, se eram agressivos ou senão eram, mas que as pessoas não gostavam lá deles é verdade, senão não pediam proteção. Começaram por pedir proteção aos povos vizinhos, freguesias vizinhas, mas sempre vieram em ajuda das pessoas do Guardão, porque isto não era Guardão era Santa Maria Guardiã, este território quando foi designado Santa Maria do Guardão era Santa Maria Guardiã e, os fugitivos e condenados à morte e à prisão que conseguissem fugir para este território, as autoridades não os podiam prender nem castigar. Isto deve ter demorado anos a chegar à freguesia de Santiago; à freguesia de Santa Eulália e Castelões que desde sempre seriam povoadas e, então lá se organizaram e, num dia, suponho que seja dia da Ascensão ou não foi, reúnem- se. Mas aqui na Gaiteira não existiam, mas existiam além, no São Bartolomeu e, eles então organizaram-se uns com os outros. Os primeiros a chegar para correr com os mouros foram da freguesia de Santiago. O povo de Santiago. Como o povo seria meia

dúzia de pessoas veio atrás o Campo e atrás deles veio o de Castelões, daquela zona dali que não sei que nome teriam, se era Castelões ou se não era. O povo daqui de Guardiã, quando se viu amparado foi também para ajudar. Quando eles foram para ajudar, para sair daqui encontram-se ali, onde existe aquela cruz para agradecer e talvez nessa altura quisessem comemorar. Encontraram-se ali e abraçaram-se uns aos outros com o Guardão a agradecer, àquela gente toda. E talvez, nessa altura quisessem comemorar, no ano seguinte essa dita reunião, digo eu. O meu pai também dizia aquilo que ouvia falar, e também deduzia aquilo que poderia ser possível. Pronto, depois as cruzes devem ter vindo depois em gratificação deles que ninguém sabe quando. Então continuam a vir no dia da Ascensão, primeiro a freguesia de Santiago, a seguir, a freguesia do Campo ou de Santa Eulália e a seguir a de Castelões de São Salvador. E nós vamos ao encontro deles abraçá- los ali, freguesia por freguesia, cruz por cruz, portanto, imagine a freguesia de Santiago traz dez conjuntos de cruzes, conjuntos que é a cruz e as lanternas, são três pessoas, imagine que Guardão também leva dez conjuntos. Ao chegar ali trazem os pendões alusivos à sua freguesia, pousam a cruz naquela cruz de pedra que está ali e esperam que o Guardão se aproxime também e então é como que um beijo e, esperam que as dez do Guardão uma por uma se vá juntar àquela que está de Santiago. No fim daquilo tudo, dessa cerimónia, toda a freguesia de Santiago roda virada aqui à Igreja, aproxima-se outra cruz. Esta cerimónia toda demora talvez mais de duas horas. Por cada cruz tem de esperar o abraço de cada uma das nossas. A freguesia de Santiago vem virada à Igreja saudar Nossa Senhora da Guardiã; Santa Maria do Guardão e aproxima-se a freguesia de Santa Eulália que torna a repetir o mesmo ritual. No fim desta, torna a vir à Igreja agradecer a Deus e a Nossa Senhora, entretanto chega Castelões de São Salvador torna a repetir-se o mesmo ritual até à última cruz. Uma particularidade que tem isto e é talvez das festas do país com mais valor, por isto é que cada freguesia canta, o pároco nomeia o santo e cada freguesia responde “orai pro nóbis”, mas com uma distinção, a freguesia de Santiago canta com uma música, o Guardão canta com outra o mesmo “orai pró nóbis”. A do Campo a mesma coisa, a de Castelões de São Salvador a mesma coisa, isto é, acho que enaltece esta festa, porque estes cantares é que não há em mais lado nenhum.

- Como dão a informação aos habitantes do Guardão que se está a aproximar a freguesia de Santiago?

Ti Júlia - É um senhor que está na escada do sino e, ao ver lá em cima aproximar-

se o primeiro pendão dá três toques no sino grande e, toda a gente se prepara. - E o padre do Guardão como se comporta, como recebe os outros párocos?

Ti Júlia - Há aí uma capa, capa de asperges que o pároco do Guardão, chegando

perto do outro pároco, é que põe essa capa.

Padre António Duarte – A simbologia é de acolhimento. Essa capa é quase um

símbolo do poder que o pároco tem, mas naquele momento quem vai presidir é o outro pároco, o outro passa a ter poderes que lhe são dados pelo pároco da paróquia para ele agora conduzir o seu grupo.

- Quem coordena toda a cerimónia, quem são as pessoas encarregues dessa missão?

Ti Júlia - Aqui quem coordena é a mordomia. São cinco ou seis que são nomeados

todos os anos. No fim da cerimónia da missa, temos a bênção dos campos. As pessoas, nesse momento, recebem com silêncio a bênção que o pároco faz com a respetiva água benta, que asperge os quatro cantos. Ou seja, os quatro pontos cardeais e protege todo o vale e serra, acreditamos que sim. No fim da missa começa a organizar-se a procissão, obedecendo à mesma ordem, onde vai esta imagem, Nossa Senhora dos Milagres que é uma réplica. A procissão dirige-se à capela de São Sebastião e depois volta para cá com cânticos a Nossa Senhora de louvor acompanhados pela música.

- Em relação às ladaínhas já assistiu em São Bartolomeu?

Ti Júlia - Só fui lá uma vez, e consegui ver os rituais que faziam. Para mim tem

esse agradecimento e as bênçãos que as pessoas pedem. Existe a segunda-feira da Ascensão, a terça-feira da Ascensão e a quarta-feira da Ascensão que havia em todas as freguesias que iam àquelas capelas que eram as chamadas ladainhas menores. Aqui, graças a Deus ainda se faz. Graças ao sacrifício do Senhor Padre e de algumas pessoas que ainda têm alguma fé, porque estas coisas sem fé não valem a pena fazer. É a semana das ladaínhas.

Padre Duarte – São as ladaínhas dos santos, fazemos procissão em que a primeira

vai até ao cruzeiro ao cimo da calçada romana e volta-se depois para a igreja e leva-se as lanternas e a cruz e, não vai pendão nenhum. No segundo dia vai-se a São Sebastião, mas termina lá. E no terceiro dia sai daqui da Igreja vai até São Sebastião, depois ali desmobiliza, depois só junto da capela de São Bartolomeu, junto a umas pedras que indicam cada freguesia, forma-se outra vez a procissão.

Ti Júlia – Naquele local tem lá uns cabeços, umas pedras que indica que não

chegaram todas ao mesmo tempo.

Padre Duarte – Forma-se ali outra vez e continua a ladaínha para a capela de São

Bartolomeu e termina na capela.

- Quem trata de arranjar as flores que lançam sobre as cruzes no momento da cerimónia do abraço?

Ti Júlia – A mordomia e as pessoas que se encarregam de arranjar a igreja. As

flores são as flores da época.

- Se tivesse que definir a Ascensão o que é esta festa para si?

Ti Júlia – Para mim, é uma grandeza muito grande, desde garota, o dia da

Ascensão é único e só tenho uma mágoa muito grande, que é, não ser feriado municipal. - A procissão à Nossa senhora do Campo, o que significa para si?

Ti Júlia – A ida à Nossa Senhora do Campo tem mais de trezentos e quarenta e

tal anos e tenho muita pena que o meu pai, nunca tenha sabido a data certa. - Sabe as razões, porque estas procissões foram interditas?

Ti Júlia - Era o tal Salazarismo que não queria ajuntamentos, se foi pelo

Salazarismo ou pelo próprio Bispo da Diocese, ou do pároco dessa altura, em 1940, ou 41, o meu pai disse que foi no ano em que nasci. O padre fez aqui na missa o anúncio o que se ia passar na quinta-feira a seguir, portanto, as ditas ladainhas, segunda, terça e quarta, e na quinta o que se ia passar. Na segunda-feira recebeu uma ordem do Bispo, talvez por carta nesse tempo, em que era interditada a festa da Ascensão e a festa de ir ao Campo. E um dos senhores, o Júlio de Janardo, rapaz novo nesse tempo, talvez com os seus 17 anos ou 18, vinha no dia da Ascensão para cumprir uma promessa com a cruz enfeitada e engalanada com ouro e essas coisas todas, que hoje há pouco, mas ainda há,

quem tenha o brio do tradicional. E nisto começou a juntar-se gente, porque as pessoas não foram informadas a partir dessa segunda-feira, portanto, o senhor que tinha intenção de vir, veio, não havia telefone, não havia forma de contactar. Passou-se depois de boca a boca, mas de certeza, a boca não chegou ao ouvido do senhor, vinha com a cruz. O meu pai estava por aqui sentado, teria nessa altura 35 anos. Era dia da Ascensão andava por ali, aqui havia respeito, porque era um dia santo. Entretanto, da família do senhor, dos Calheiros, e de um Américo que era alfaiate no Campo e, de um que tinha uma loja de fazendas, Alfredo Gil Leitão, vieram essa meia dúzia de pessoas também com uma cruz e foram descendo por aí abaixo, e o rapazito com a cruz e os que vinham ao lado dele, ou seja, os que vinham com as lanternas, mas sentado estava, sentado ficou. O meu pai andou assim por ali, e eles foram aproximando-se e como não havia mais ninguém com cruz, senão esse dito rapaz, o meu pai foi-se aproximando dele, e disse, “Júlio trouxeste a Cruz?”, - “Sim, trouxe, mas as pessoas disseram o que se estava a passar”, e diz assim o meu pai - “Mas tu estás doente? Podes com a cruz?” “Posso, senhor António!” Então, porque não vais?”, “O senhor acompanha-me?” ao que o meu pai respondeu, “acompanho sim senhor!”. E o meu pai acompanhou o homem fizeram o dito, houve o abraço na mesma, a porta da igreja estava fechada, deram a volta à igreja e, ali terminou. O meu pai começou a passar a palavra e, se os dos Campo tiveram a hombridade para vir ao Guardão como é que os do Guardão não vão ter hombridade para ir ao Campo! E foram 12 pessoas, nesse ano, ao Campo. Fizeram os mesmos rituais à porta da Igreja, porque a porta da igreja estava fechada e foram ao Campo. No ano seguinte, já sem cruzes e um dos que fazia de padre era o meu pai, que nomeava os santos, meia dúzia deles e algumas mulheres arreigadas e foram outra vez ao Campo. No ano seguinte, os do Campo vieram ao Guardão, no dia da Ascensão e isso assim foi continuando, foi continuando, e juntando gente. Ah, mas o meu pai já estava casado. Nos nascemos começámos a caminhar e todos os anos íamos à Senhora do Campo. Nós não vamos ao São Lourenço, vamos sim, à Senhora do Campo, em dia de São Lourenço que é diferente. Foi retornada em 1955. Cerca de quinze anos. Hoje não se vai com respeito, nem com a fé que nós íamos, não ia padre. No dia de São Lourenço para a Senhora do Campo a procissão sai daqui até ao fundo da povoação de Janardo e ali desarma e a última evocação era à Senhora dos

Milagres, e depois, era um Pai Nosso por alma de todos aqueles que já passaram naquele local em peregrinação, mas feito com fé que hoje não existe. Hoje não é nada disto e depois, armavam na Arrifana junto às almas. Saía-se daqui, dava-se a volta à Igreja de Santa Eulália e segue para a Capela do Campo e dá três voltas, na terceira volta entrava- se e todos se ajoelhavam ou em pé e rezavam pelas suas intenções. Mais tarde, o meu pai que via que muita gente do Campo esperava por nós, tanto nas Almas, ou lá na capela e o meu pai sentiu-se assim, na obrigação de agradecer às pessoas do Campo por nos receberem. O meu pai tinha o dom da palavra, um pouco sério, falava e, toda a gente o ouvia e alguns, mais tarde, começaram a bater palmas. Entretanto veio para cá o nosso Padre José Ribeiro dos Santos que era do Campo e, o que era da Igreja não podia ir contra. O senhor Abade começou a ver que já nunca mais tiravam este ritmo ao povo e, então, entendeu que apesar de terem sido interditados, tanto é que no domingo de páscoa iam à casa das pessoas e não iam à nossa. O meu pai que nunca fez nada de mal, então o senhor Padre queria que ele fosse se “desinterditar” ao Bispo, mas o meu pai dizia que não fez mal nenhum. Então, porque tem de pedir perdão de quê e porquê e a quem? O meu irmão andava a estudar em Viseu, nessa altura e, foi o meu irmão pedir ao Bispo, perdão para “desinterditar” o meu pai e quando o padre foi a primeira vez, já depois deste tempo todo, em 1955, primeiro foi a festa da Ascensão em maio já desinterditada, e depois foi a seguir o 10 de agosto e, o meu pai pediu ao senhor Abade para agradecer aos do Campo, porque nós devemos-lhe a honra de nos acolherem, de nos esperarem e, ele nunca disse ao meu pai que sim, passou-se isso, na festa da Ascensão e, o meu pai insistia “quando chegar a freguesia do Campo não se pode esquecer de lhes fazer um agradecimento”. O senhor Abade agradeceu à freguesia do Campo, agradeceu a todos, mas em especial à freguesia do Campo. As festas da freguesia do Guardão que mais me comovem são a festa da Ascensão e o dia de São Lourenço. Nós fomos titulados por carneiros, e muitos nomes mais por pessoas ligadas à Igreja, por irmos ao Campo.

Na procissão final, a Senhora dos Milagres vai atrás é a única imagem e já foi o nosso Padre José Ribeiro que incutiu isso, se nós somos da freguesia de Santa Maria do Guardão, porque é que ela não nos havia de acompanhar. No antigamente não havia imagem nenhuma. A procissão é com banda de música que acompanha, desde o cimo da

calçada até à Igreja. Uma parte ainda grande de promessa, outras, por brio de não deixar acabar, hoje, está a perder-se, porque antigamente eram engalanadas com ouro, silvas, hoje já não. Não sei se as pessoas enfeitavam pela fé ou pela vaidade, e aqui, a paroquial é sempre a primeira.

Padre Duarte - Isto do enfeitar é por ser no mês das flores, da primavera, ligação

aos campos que é natural que as pessoas colocassem flores em tudo o que pudessem por, é a primeira a paroquial, porque é a primeira que vai receber as outras.

Ti Júlia - O mordomo da cruz é ele que se encarrega dela.

Padre Duarte – Nas ladainhas não havia noitadas, devido ao tipo de manifestação

religiosa, mas nas romarias sim, há noitadas, três dias de festas com excessos e provavelmente terá sido isso que levou ao Bispo a proibir essas romarias, para acabar com isso.

Anexo 3 - Entrevista com Baltazar da Silva Marques (80 anos) e José

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