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Normalisering (”Mean-reversion”) Statoil

Kapittel 5 Olje- og gass sektoren

5.4 Case 1: Statoil ASA

5.4.2 Normalisering (”Mean-reversion”) Statoil

Não só a descentralização da produção de conteúdos e a possibilidade de atores externos ao Jornalismo difundirem informações a grandes audiências afetam a capacidade do

jornal impresso de divulgar notícias exclusivas, completamente inéditas, “em primeira mão”.

O próprio surgimento do Jornalismo on-line e a profusão de portais de notícias vinculados a conglomerados de comunicação têm imposto dificuldades à plataforma impressa no que diz

respeito ao “furo” jornalístico.

O furo de notícia ou de reportagem é um “fetiche” da profissão, compreendido no

contexto da disputa comercial entre os jornais. Trata-se de um jargão que remete ao ineditismo da notícia, empregado para definir um assunto relevante que foi publicado por um veículo antes

de seus concorrentes. Nem todos os fatos, porém, têm o peso de “furo” quando noticiados de

forma exclusiva. Gonçalves (2014) ajuda na definição do termo:

O furo de reportagem – a notícia de um fato inesperado dada em primeira mão – é, portanto, uma notícia exclusiva. Mas nem toda notícia exclusiva é considerada um furo. O diferencial implica em três propriedades: 1) o grau ou potencial de repercussão da notícia; 2) a afetação à sociedade; 3) e o reconhecimento pelos demais meios, isto é, os próprios pares (GONÇALVES, 2014, p. 593).

Trata-se, portanto, de notícias de peso, extraordinárias, que se destacam pela relevância e pelo potencial de causar desdobramentos. Traquina (2004, p. 37) acrescenta que

“a obsessão do jornalista com a obrigação de fornecer as últimas notícias, de preferência em ‘primeira mão’ e com exclusividade, tornar-se-á um marco fundamental na identidade jornalística”. Note-se, assim, que o “furo” é um elemento que compõe o habitus do Jornalismo, algo constantemente perseguido como forma de dar relevância ao veículo, de destacá-lo entre os concorrentes.

A Era Digital pode trazer alguns complicadores à busca pela notícia exclusiva. Uma das razões é o fato de muitos acontecimentos passarem a circular e a ganhar publicidade na Internet de forma espontânea, antes de chegarem ao conhecimento das Redações de Jornal. A partir de canais como o Facebook e Twitter, por exemplo, um assunto pode se multiplicar e começar a repercutir independentemente da ação dos media. Uma vez disseminado na Internet,

o fato ganha o mundo, passa a ser de “domínio público” perdendo o caráter de exclusividade

almejado pelo Jornalismo. Em casos assim, publica primeiro o veículo de imprensa que vê mais

rápido. Porém, o tom de ineditismo, o aspecto crucial do “furo”, acaba comprometido.

Para os jornais impressos há, ainda, uma aparente desvantagem. Na Era Digital, a

valorização do “tempo real” e o fator velocidade fazem que, em determinados casos, os portais

de notícia tenham prioridade na veiculação do conteúdo apurado e produzido ao longo do dia.

aumento da pressa em publicar os fatos e da preocupação em não ficar para trás em relação aos concorrentes. As notícias são publicadas e atualizadas minuto a minuto, nem que para isso seja

necessário comprometer sua qualidade. “No tempo real, tempo é a definição do serviço, e a

relação tempo versus credibilidade é a base de seu diferencial frente a outras modalidades

jornalísticas” (ADGHIRNI, 2004, p. 35).

A realidade no ambiente on-line impacta o meio impresso, que é foco da presente pesquisa. Com o ritmo acelerado de publicação de notícias na Internet, não é raro jornais de papel veicularem, na manhã seguinte, um apanhado de matérias já exaustivamente trabalhadas na véspera – com a possibilidade de enfoques diferentes, acréscimo de dados complementares, contextualizações e outros elementos que até podem dar relevância ao material, mas que já não possuem o caráter de ineditismo.

É evidente que não é o uso da Internet que cria, que faz surgir dificuldades relativas à notícia exclusiva. Basta lembrar a entrevista coletiva, instrumento há muito empregado pelas fontes para publicizar temas aos jornais, de forma que todos os veículos ficam sabendo da informação ao mesmo tempo, impossibilitando que um ou outro seja privilegiado e reporte a

notícia “em primeira mão”. O que ocorre na Era Digital é, mais uma vez, uma alteração na

escala em que as situações ocorrem, a complexificação do cenário principalmente para o Jornalismo impresso, cujas características do suporte o deixa em desvantagem em relação ao on-line, em que não há limite de tempo e espaço.

O fato de surgirem dificuldades não significa, no entanto, que os jornais de papel

tenham perdido a capacidade de “furar” a concorrência e até mesmo as demais mídias. O que

se percebe é que, no interior das Redações, parece haver uma constante avaliação e controle sobre o que deve ser imediatamente publicado nos portais da Web e o que deve (e pode) ser guardado para o jornal do dia seguinte.

Gonçalves (2014) investigou a questão do furo jornalístico em três agências de notícias brasileiras que têm jornais impressos como carros-chefes de seus conglomerados: Folhapress (jornal Folha de S. Paulo), Agência Estado (jornal O Estado de S. Paulo) e Agência Globo (jornal O Globo). A autora verificou que, em caso de haver uma notícia de relevância considerada exclusiva apurada pelo repórter, o impresso tem o privilégio da veiculação. A notícia fica embargada, não sendo disponibilizada para as agências.

Na lógica de aproveitamento e distribuição de conteúdos pelas agências de notícias dos três principais conglomerados de mídia brasileira, o furo de reportagem, pelo seu

chefe, produtor da informação, para em seguida ser disponibilizado pelo serviço noticioso (GONÇALVES, 2014, p. 594).

Moretzsohn (2014) identificou fenômeno semelhante ao pesquisar os ritmos de publicação de notícias do jornal O Globo a partir da iniciativa da empresa de juntar, no mesmo ambiente físico, suas redações on-line e impressa, em 2008. Com o auxílio de entrevistas com repórteres e editores, a autora mostrou um possível paradoxo: o portal O Globo on-line passou

a ser prioridade na Redação, a grande aposta do jornal a partir da campanha “Muito além do papel de um jornal”, que visava valorizar o conteúdo da Web – mas, mesmo assim, foi o jornal

de papel que permaneceu como veículo mais prestigiado do grupo O Globo, como relata a autora:

As avaliações internas continuam a ser voltadas para o papel, os prêmios do mês são dados principalmente às reportagens que saem no papel. [...]. Os controles também passam a ser mais rígidos sobre o impresso: alguns dos entrevistados mencionaram que notam críticas do comando da redação ao que sai no papel, o que raramente ocorre com o site. E não é porque o site seja melhor – afinal, é ali que os erros se multiplicam, justamente pelas urgências do “tempo real” (MORETZSOHN, 2014, p. 74).

O olhar especial para impresso mesmo na Era Digital, verificado por Moretzsohn e Gonçalves, pode se justificar pelo modelo de negócios do Jornalismo e pelo fato de os jornais de papel, e não os portais on-line, ainda serem as principais fontes de rentabilidade das empresas de comunicação. Conforme afirmou o então editor-executivo do O Globo, Orivaldo Perin, em entrevista a Moretzsohn em 201220, o jornal ainda é a “vaca leiteira” dos conglomerados de comunicação no Brasil, através da venda de espaço publicitário e outros negócios possibilitados pelo prestígio que alguns dos impressos conquistaram ao longo do tempo. Por isso, faz-se necessário ainda buscar meios de dar relevância ao papel.

Mesmo em um cenário de dificuldades oriundas da velocidade com que os fatos se tornam conhecidos pela Internet, há casos recentes no Jornalismo que mostram que o furo ainda é possível e valorizado no meio impresso. Em maio de 2016, em meio à cobertura da Operação Lava-Jato21 e ao ritmo frenético de divulgação de notícias sobre o caso nos grandes portais da

20 Entrevista disponível no site Observatório da Imprensa: <http://observatoriodaimprensa.com.br/imprensa-em-

questao/_ed707_longa_vida_ao_papel/>. Acesso em: 6 out. 2016.

21 Operação que investiga esquema de corrupção na Petrobras envolvendo políticos de vários partidos e as

Web, o jornal Folha de S. Paulo conseguiu levar à sua edição impressa do dia 23 de maio uma reportagem exclusiva sobre gravações telefônicas feitas pelo ex-presidente da Transpetro, o cearense Sérgio Machado, nas quais o então ministro do Planejamento Romero Jucá falava em um pacto para deter a operação. Só depois que foi publicada no impresso, a notícia foi replicada no site da Folha on-line e repercutida por vários outros veículos. O furo de notícia levou à demissão de Jucá do ministério e causou outros desdobramentos nas investigações.

Ainda sobre a cobertura nacional da Operação Lava-Jato, estudo de Fernandes (2015) sobre agendamento intermidiático no Jornal Nacional (TV Globo) mostra que foi a mídia impressa a precursora na divulgação de cada nova denúncia, com exibição de reportagens de teor extraoficial, com dados inéditos de depoimentos de ex-diretores da Petrobras e de

políticos envolvidos no caso. A autora identificou que “ao veicular novas denúncias do

escândalo, o JN priorizou a agenda dos jornais F olha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O

Globo e das revistas Veja e Época, em contraposição à busca por evidências físicas efetuadas

pela equipe de Jornalismo da própria emissora” (FERNANDES, 2015, p. 122).

Para trazer a discussão ao cenário local e, ao mesmo tempo, para mesclar ainda mais teoria e empiria já no início deste trabalho, destacamos depoimentos de dois editores do jornal impresso cearense O Povo, objeto desta pesquisa, Érico Firmo e Ítalo Coriolano, entrevistados para esta dissertação. As entrevistas foram utilizadas como ferramenta metodológica e serão úteis a várias seções da pesquisa, mas especialmente ao capítulo de análise do corpus. De acordo com os jornalistas cearenses, mesmo com a ampla utilização de blogs e sites de redes sociais para a difusão de conteúdo, muitas fontes continuam tendo os jornais como referência para a difusão e repercussão de temas. “Recebemos pilhas de documentos a serem dissecados, revelações feitas nos bastidores da Assembleia e da Câmara, e-mails com denúncias dos mais

variados tipos, dados cujas fontes iniciais não podem ser divulgadas” (CORIOLANO, 2016).

Ao descrever situações de bastidor ocorridas recentemente, durante a campanha para prefeito de Fortaleza em 2016, Érico Firmo reforça o entendimento de que, mesmo na Era

Digital, os impressos têm conseguido manter, em alguma medida, capacidade de “furar” as

demais mídias:

Vive chegando dossiê sobre fulano ou sicrano, com mais ou menos consistência. E chegam informações exclusivas em questões estratégicas. [...]. O anúncio do Moroni como vice do [prefeito de Fortaleza] Roberto Cláudio [na campanha municipal de 2016] foi vazado aos jornais. A informação de que o Gaudêncio seria vice do Wagner, também. Quando o Heitor fechou aliança com a Rede, uma fonte da Rede me procurou e eu antecipei a informação na coluna. (FIRMO, 2016).

Uma questão interessante que se interpõe a partir de situações como as descritas até agora é de que parece surgir, no interior das Redações, uma preocupação e um debate não apenas sobre o que publicar, mas também sobre quando e onde publicar, na tentativa de permitir, quando possível, que o jornal impresso seja o suporte de notícias exclusivas, como

forma de dar relevância à “vaca leiteira” das empresas de comunicação.

Entra em cena um cálculo que leva em consideração o risco e o custo-benefício de

“segurar” uma notícia importante para o jornal do dia seguinte, uma vez que a empresa pode

ser atropelada por outro concorrente – que eventualmente teve acesso ao mesmo conteúdo – e,

assim, perder a chance de divulgar o fato “em primeira mão”.

Para finalizar a discussão neste tópico, percebe-se, portanto, que o “furo” não caiu por terra no meio impresso e que o desafio, na verdade, parece ser outro: o de evitar que o jornal

de papel do dia seguinte tenha cara de “velho”, de driblar um cenário diário de discussão e

repercussão exaustiva dos temas vistos ao longo do dia na Internet por meio dos portais de notícia e sites de redes sociais, buscando novas angulações e interpretações sobre os fatos, a ponto de conferir relevância ao conteúdo veiculado no impresso. Nesse sentido, o jornal pode assumir novas funções, recuperar outras que haviam sido deixadas de lado, explorar novos filões em nome de sua relevância, temas sobre os quais procuraremos refletir na seção a seguir.

2.3. Novas e velhas funções do Jornalismo: “cão de guarda”, gatekeeping e gatewatching