Na Tabela abaixo, há a porcentagem dos tipos de Temas textuais no discurso dos guias e monitores:
Brasil Espanha Museu Cidade Museu Cidade
M1Br M2Br P1Br P2Br M1Es M2Es P1Es P2Es
Nº % Nº % Nº % Nº % Nº % Nº % Nº % Nº % Conjunções 78 82 117 82 209 82 197 78 22 81 56 78 114 78 264 80 Conjuntivos - - 09 6 16 6 10 4 05 19 08 11 22 15 34 10 Continuativos 18 18 17 12 32 12 47 18 - - 08 11 10 7 33 10 Temas textuais 96 143 257 254 27 72 146 331 Temas múltiplos 124 175 315 301 31 96 193 421 Total de Temas 248 386 681 562 106 162 437 695
Tabela 13: Porcentagem dos tipos de Temas textuais em cada corpus
O tipo de Tema textual mais freqüente é a conjunção. Em relação aos outros Temas textuais, há uma diferença entre os corpora. Em português, os continuativos são mais usados do que os conjuntivos e, em espanhol, ocorre o contrário.
(a) Conjunções
A porcentagem das conjunções é muito semelhante nos dois idiomas: 81%, em português e 79%, em espanhol. Coincidentemente, praticamente os mesmos números ocorrem em relação ao tipo de visita: 81%, em visita monitorada, e 79,5%, em visita guiada.
A conjunção mais freqüente foi a coordenativa e/y, mas também houve muitas ocorrências de então/entonces e mas/pero:
(217) Lá eles não produziam nada também, né. Eu digo, tudo o que era necessário pra um lar, pra uma casa, um adorno pra uma casa, pra vestimenta, pra... // E aqui praticamente ficavam as famílias desguarnecidas completamente porque os homens iam embora // e a mulher é que cuidava de tudo. (P1Br)
(218) Cada celda estaba separada de la siguiente por un estrecho ( ) de unos dos metros de altura. // Y el resto del espacio le cerraban con cortinas o algo similar. (M1Es)
(219) Então, a XXX tem essa peculiaridade de ser uma empresa mais que centenária e que ao longo desse tempo todo, ela vem participando ativamente da construção do país, que está presente na vida da, de grande parte da população brasileira. (M2Br)
(220) Habla sobre la discriminación sexual en el África negra, la discriminación de las mujeres y de los homosexuales. // Entonces, a partir de ahí construye esta obra. (M2Es)
(221) A coleta praticamente era feita raramente, // mas existiam pontos de lixões onde as pessoas jogavam seus detritos. (P1Br)
(222) O sea que ese es el ya el urbanismo moderno del siglo XX que invadió esa parte más antigua. // Pero el resto vemos que todavía el trazado de las calles por donde vamos a ir es casi todo el trazado original de la Edad Media. (P2Es)
Por meio dos exemplos acima, observa-se que as conjunções foram utilizadas de duas formas como diferentes estratégias de coesão do texto: da primeira forma, iniciaram orações, o que significa que houve uma pausa, uma descontinuidade da fala, para indicar que se tratava de outra oração; da segunda, conectaram orações dentro de uma sentença. Essa questão da pausa será vista no item Orações paratáticas e hipotáticas, pois causou dúvidas na extração e análise dos Temas.
O comentário de Eggins (1994: 283) sobre a posição de alguns elementos no Tema é interessante. Diz que alguns elementos, como a conjunção e, devem ocorrer em posição inicial, quer dizer, sempre fazem parte do Tema. Pode-se dizer que o mesmo ocorre com outras, como mas, porque... Todavia, alguns podem localizar-se em outras posições na oração e fazer parte, portanto, do Rema. É o caso de então, no exemplo abaixo:
(b) Adjuntos conjuntivos
Os adjuntos conjuntivos foram mais recorrentes em espanhol, 14%, do que em português, 4%. Nas visitas no Brasil, ocorreram na mesma proporção, ainda que ausentes em M1Br, mas, na Espanha, ocorreram mais nas visitas a museus do que a cidades, que talvez tenham preferido usar conjunções ou Temas simples. Enquanto os espanhóis pareceram variar mais a forma de iniciar as orações, os brasileiros utilizaram, na maioria das vezes, as expressões dessa forma/assim, por exemplo e conseqüentemente:
(224) Dessa forma, tá se referindo ao café, né. (M1Br)
(225) Por exemplo, essa senhora aqui, XXX, que era solteira, era Soares, depois ela se casou e virou XXX, ela ingressou em 1924, (...) (M2Br)
(226) Conseqüentemente, precisa de gente pra trabalhar o café. (P1Br) (227) Sin embargo, nuestra presencia es intrínseca (...) (M2Es)
(228) Es decir, si yo tengo un palacio estupendo y maravilloso no me voy a ir a la casa del vecino de enfrente a entrevistarme con este señor, a tener una audiencia con él. (P1Es) (229) En fin, ya el Rastro sigue teniendo su ambiente y sus tipos que sólo se encuentran ahí,
pero también ha evolucionado mucho. (P2Es)
A maioria dos adjuntos conjuntivos foi utilizada no início de orações, não para conectar sentenças em uma mesma oração. Segundo Thompson (1996: 134), esses elementos “sinalizam como a oração como um todo se encaixa no texto anterior”. Assim sendo, é necessária a existência de alguma idéia para que essa oração faça sentido. Além disso, podem posicionar-se em qualquer lugar na oração, ainda que, mais tipicamente se encontrem em posição Temática.
(c) Adjuntos de continuidade
Mais freqüentes em português do que em espanhol, os adjuntos de continuidade servem para indicar que o falante vai continuar seu discurso e são mais comuns na linguagem oral. O motivo pelo qual esses adjuntos ocorreram mais em português pode ser a maior informalidade do brasileiro. Os guias e monitores brasileiros usaram-no, em média, 15%, e os espanhóis, 7%, ou seja, menos da metade. Não foi utilizado pela monitora de M1Es, provavelmente, como várias vezes mencionado nesta pesquisa, devido a sua formalidade. Os que mais ocorreram foram bom e aí, em português, e bueno/bien, pues e eh, em espanhol:
(230) Bom, a história da colonização, todo mundo que é daqui já sabe, né. (P1Br)
(231) Aí, vocês sabem que a Bolsa de Nova York quebrou com o mundo todo, né, inclusive com os cafeicultores, que eles tinham um dinheiro aqui que acabaram, né, tendo que retrair os investimentos e simplificar o projeto original. (M1Es)
(232) Bueno, vamos a dar un salto. Ya el imperio romano empieza a decaer (...) (P1Es)
(233) Pues este es el Cerro San Juan (de Guiso). (P1Es)
(234) Eh, voy a pararme un momentito en la época romana, en la que Alcalá no existe todavía como, como tal. (P1Es)
Todos os continuativos dos exemplos foram posicionados no início da oração, fazendo parte do Tema. Algumas vezes, ocorreram depois do Tema ideacional, principalmente do Participante, fazendo parte do Rema:
(235) A XXX, aí, começou a fazer empréstimos. (M2Br)
(236) La ciudad, pues, después de que la han puesto como capital, empezó a ser el centro de toda España. (P2Es)
Com base na Tabela 13 acima e nos dados obtidos com a análise dos Temas múltiplos, uma conclusão sobre seu uso seria que, com o alto número de Temas textuais, tanto os guias quanto os monitores de ambos os países pareceram privilegiar a conexão de idéias, sobretudo por intermédio de conjunções, mas também de adjuntos de continuidade e continuativos. O amplo uso em todos os textos da conjunção coordenada e representa a preferência por orações coordenadas e por adicionar informações. Houve também, nos textos em geral, contraste (mas/pero, entretanto/sin embargo), aposição (por exemplo/por ejemplo), causa (porque/porque), conclusão (portanto/por tanto, finalmente, en fin), entre outros.