O jovem Rafael é natural do município de Canutama/AM, mudou-se com seus pais, quando tinha 9 anos de idade, para Manaus, passando a residir em um bairro conhecido por seus problemas sociais, econômicos e altos índices criminalidade. Nesse contexto, sentia-se limitado em sua liberdade, sentia saudade do estilo de vida do interior. No início de sua adolescência, vivenciou a separação conjugal de seus genitores, optando em continuar morando com seu pai. Tal decisão teve como consequência assumir certas responsabilidades domésticas e educacionais. Para o DIEESE (2012), a realidade socioeconômica brasileira impõe aos jovens tanto no campo quanto na cidade, dificuldades de múltipla natureza.
A educação doméstica de Rafael foi mediada por seu pai, o qual era seu responsável e provedor financeiro. A relação pai/filho foi balizada no respeito, companheirismo e disciplina, uma vez que seu genitor era muito rígido. O pai do entrevistado priorizava sua formação escolar, pois almejava que seu filho, com o término de seus estudos, pudesse galgar melhores condições de trabalho e qualidade de vida. Entretanto, Rafael apresentou comportamentos conflituosos em alguns colégios, sendo algumas vezes transferido, mas seu progenitor manteve uma postura paterna e adotou medidas austeras e severas para que seu filho não comprometesse seus estudos.
Esses comportamentos apresentados por Rafael são explicados por alguns autores como típicos do período da adolescência. Essas concepções teóricas são encontradas nas obras de estudiosos como: Erikson (1976) e Aberastury e Knobel (1981). Tais autores possuem uma visão do período juvenil como um tempo de transição entre a infância e a idade adulta, marcado por conflitos, perturbações e crises frequentes, no qual o sujeito reconstrói sua identidade pessoal e social. Entretanto, salientam Bock, A., Aguiar e Ozella (2011), ―as características da adolescência têm sua explicação nas relações sociais e na cultura e não no próprio desenvolvimento do sujeito que se constitui como adolescente‖ (p. 167).
Rafael teve sua formação educacional básica sempre em instituições públicas de ensino, tanto em Canutama quanto em Manaus, frequentou cursos profissionalizantes de curta duração, por meio de programas governamentais de promoção à qualificação ocupacional juvenil. Tais cursos o prepararam profissionalmente para concorrer a uma vaga de trabalho no polo industrial manauense e, dessa maneira, obter recursos financeiros para se sustentar. Sobre esse aspecto, frisa Moraes (2005), desde a implantação do Plano Nacional Qualificação a camada trabalhadora tem se beneficiado pela capacitação, em especial os jovens provenientes das camadas de baixa renda.
Durante sua vida escolar Rafael vivenciou momentos contraditórios e complexos, por um lado, seu gosto pela matemática rendeu-lhe o reconhecimento por seus educadores, como um bom aluno; no entanto, também o levou a se opor aos métodos e às técnicas utilizadas por alguns docentes no ensino da disciplina. Por outro lado, seu talento pelo futebol ficou evidente, ganhou campeonatos estudantis, bem como a atividade desportiva ocupou seu tempo ocioso e evitou seu envolvimento com o comércio ilegal de drogas muito comum em seu bairro. Contudo, seu interesse pela matemática, pode ter sido um determinante para a sua escolha ocupacional na área de engenharia. Segundo Oliveira (2009) geralmente os jovens pobres escolhem profissões a partir da identificação de habilidades e/ou gosto pessoal.
No início de sua juventude, Rafael passou por um período turbulento, assinalado pelo consumo de bebidas alcoólicas, exagero em suas atividades de lazer e o desinteresse por seus estudos. Foi nesse contexto que teve contato com a doutrina cristã evangélica e, por meio dos ensinamentos bíblicos, ele começou uma série de mudanças em seu estilo de vida. Desse modo, a vida religiosa tornou-se um ponto de partida, buscando sempre segurança e apoio nos momentos de dificuldades com os líderes de igreja evangélica e na sua fé em Deus. Diante dessa realidade, retomou o interesse para cursar sua qualificação profissional em nível superior, e atribui à intervenção divina a conclusão do seu curso de engenharia. De acordo com Bock, A. e Aguiar (2011), a maioria dos jovens não tem conhecimento dos determinantes que fundamentam sua escolha ocupacional.
O seu ingresso no curso de engenharia, em uma instituição privada de ensino superior, ocorreu por meio do programa bolsa universidade da prefeitura de Manaus, uma vez que Rafael foi contemplado com uma bolsa de estudo para cursar a faculdade. Depois de relutar, pois almejava estudar mecatrônica, mas ciente de que era uma oportunidade para frequentar uma universidade, aceita cursar engenharia civil, no decorrer do referido curso universitário, acaba se identificando com a área de formação. Segundo Bock, A., Furtado e Teixeira (1999), muitas vezes a escolha profissional de um indivíduo, devido a seus determinantes, torna-se em última instância um ato de coragem.
Portanto, o processo de escolha ocupacional de Rafael foi se constituindo gradativamente, mediante suas vivências humanas e relações sociais, no qual foi interagindo com inúmeras possibilidades oferecidas pelo seu contexto sociocultural. Diante dessa realidade, afirmam Bock, A., Aguiar e Ozella (2011), ―a visão sócio-histórica concebe o homem como um ser histórico, isto é, um ser constituído no seu movimento; constituído ao longo do tempo, pelas relações sociais, pelas condições sociais e culturais engendradas pela humanidade‖ (p. 166).
5.3 Conclusões
O sujeito escolhe, e essa escolha é um momento de seu processo pessoal de construção de sentidos. Mas essa construção utiliza como recurso ou matéria-prima não só a irredutível existência singular dos sujeitos, suas experiências e os afetos que dedica a cada momento vivido, mas o conjunto de significações e de formas de relacionamento e produção social em que acontecem e que circunscrevem as experiências por ele vividas. Bock, S., (2010, p. 140) Com a realização da pesquisa, verificou-se que o processo de escolha profissional, tanto de Pedro quanto de Rafael, foi marcado pela história de vida pessoal e pelo contexto socioeconômico manauara. As famílias dos nossos entrevistados são oriundas de municípios do interior do estado do Amazonas, assim como muitas que constituem as camadas sociais pobres manauenses, em sua maioria residentes nos bairros periféricos da cidade. Esses grupos familiares trazem consigo seus hábitos, costumes e valores típicos de suas regiões, os quais foram apropriados por seus integrantes. Segundo um estudo da FIOCRUZ (2010), geralmente são famílias com membros numerosos e com baixo grau de escolaridade, elas migram para Manaus em busca de oportunidades de trabalho e melhores condições de vida.
Um dos aspectos mais fortes, trazidos da experiência e do pertencimento familiar de nossos sujeitos, talvez seja o projeto de sair deste lugar (de pobre) que historicamente lhes foi destinado. Sentem-se humilhados em algumas situações sociais e acreditam que a escola é a redentora nestas situações. Dessa forma, frequentar a escola e ser capaz de fazer um curso superior aparece em seus projetos como a salvação. Expressam, então, um orgulho bastante grande por estarem ou terem chegado onde chegaram.
O estudo revelou que o contexto socioeducacional, vivenciado por nossos entrevistados, foi marcado pela conduta assumida por seus genitores. Mesmo com baixa escolaridade, eles incentivavam seus filhos a galgar elevados níveis de formação educacional, na perspectiva de eles conseguirem alcançar melhores posições socioeconômicas, como se observa no trecho “[filho] quero que você seja alguém na vida”. Essa realidade também foi
observada por Ferretti (1988) durante sua pesquisa de doutoramento. O autor ao analisar as informações obtidas em um grupo de trabalhadores detectou que um dos aspectos elencados pelos sujeitos foi o estímulo aos filhos na obtenção de escolaridade, como forma de assegurar no futuro melhores condições de trabalho e renda e, dessa forma, superar a pobreza.
Os grupos familiares enfrentaram inúmeros obstáculos socioeconômicos para sobreviver, segundo os participantes; comumente seus chefes não são portadores da cultura
letrada, mas incentivam seus filhos a frequentar a escola, e este aspecto torna-se importante como registro significativo. Nesse contexto, os pais dos nossos participantes assumiram um papel extremamente relevante, pois priorizavam os estudos de seus filhos, mesmo quando os próprios entrevistados, em alguns momentos, não reconheciam a importância da educação, como pode se constatar no seguinte fragmento “meu filho deixe só eu trabalhar e você vá estudar”.
Para o DIEESE (2012), a conclusão do ensino básico pelos jovens dá a oportunidade de sua inserção no mercado de trabalho formal, retirando-os das atividades informais que recrutam uma grande parte do segmento juvenil brasileiro. Essa valorização da escolarização por parte dos genitores de ambos participantes é uma tentativa, por meio da formação educacional de seus filhos, de possibilitar-lhes a superação das dificuldades impostas pela pobreza e vislumbrar uma perspectiva de um futuro melhor. Percebeu-se que isso foi internalizado por nossos sujeitos, como é verbalizado por Pedro “eu achei meu caminho
investindo no meu estudo, graças à persistência de minha mãe”.
As falas sobre esta busca estão fundamentadas na ideologia liberal, as quais são disseminadas maciçamente pelos meios de comunicação às camadas de baixa renda. Segundo Bock, S. (2010), no liberalismo a mobilidade social é vista como relacionada direta e quase exclusivamente à educação/escolarização, isto é, os mais escolarizados têm melhores chances de ascensão social.
Os grupos familiares pertencentes às camadas sociais pobres enfrentam muitos obstáculos socioeconômicos e educacionais na cidade de Manaus, desencadeados, principalmente pela má distribuição de renda. Muitas vezes, seus integrantes são submetidos a condições precárias e desumanas de trabalho, bem como passam por situações de constrangimento e humilhação por causa de sua origem pobre. Conciliam a dupla jornada escola/trabalho seguindo a regra apontada pelo DIEESE (2012). Os entrevistados passaram por momentos semelhantes aos acima mencionados, mas constituíram sentidos e significados que motivaram sua luta em galgar melhores condições de vida, acreditando ser a escola uma alternativa para isso.
Diante dessa realidade, para os nossos entrevistados a escola tornou-se uma ponte para a ascensão profissional e social. Ela é vista como um ambiente propício para a aquisição do conhecimento, desenvolvimento de habilidades e construção de competências necessárias para o exercício de uma atividade laboral. Nesse contexto, o recinto educativo é internalizado pelos sujeitos como uma instituição que ajuda os jovens a se prepararem para sua admissão no mercado de trabalho.
A partir dessa realidade, constatou-se que os nossos sujeitos não percebiam a escola como um local de socialização, de apropriação das manifestações culturais e transmissora da história de um povo, mas, sim, restringiam-na a uma ponte para uma vida melhor, que envolve, entre vários aspectos não expressados ou esmiuçados, um bom lugar no mercado de trabalho. Talvez, essa percepção esteja relacionada, entre outros determinantes, à ausência secular do recinto escolar nas camadas pobres brasileiras, como salienta Aranha (1996) historicamente, em nosso país, a educação formal era privilégio das camadas ricas, o acesso ao ensino para as demais camadas sociais veio ocorrer no século passado. Portanto, o sentido e o significado de escola para as diferentes camadas sociais brasileiras apresentam algumas peculiaridades.
A escola, para os entrevistados, ao promover a formação educacional/profissional possibilita ao sujeito o status social, como é evidenciado no trecho “ganhei prêmios de
melhor aluno”. Nessa perspectiva, quem estuda é reconhecido por seu esforço e dedicação; no
futuro, com o término de seus estudos, conseguirá alcançar uma colocação profissional privilegiada e adquirir visibilidade pessoal e social. Porém, essa concepção camufla as mazelas e os obstáculos impostos pelo contexto socioeconômico manauense ao sujeito, pois afirma que o estudo é o caminho para o sucesso, bem como responsabiliza, unicamente, o indivíduo pela sua obtenção. Para Bock, S. (2010), a ideologia liberal dissemina que temos oportunidades iguais, e por isso vence quem estiver melhor capacitado e realizar o maior esforço.
Esta concepção, que atribui a responsabilidade da ascensão social e profissional exclusivamente ao sujeito, revela-nos o extremo desprezo por pessoas que não tiveram ou não têm a possibilidade de frequentar a escola/universidade. Tal visão é compartilhada por nossos participantes, pois eles afirmam que o ensino é ofertado para as distintas camadas sociais brasileiras, com iguais oportunidades. Sendo assim, “cabe a cada um de nós pobres, lutar!”;
se o sujeito não obtiver uma boa colocação social, foi porque não se dedicou o suficiente ao estudo. Não percebem e nem criticam o ―jogo‖ a que estão submetidos, pois, em geral, não alcançarão os mesmos resultados que aqueles que provêm das camadas altas e médias.
A partir das falas dos nossos sujeitos, percebeu-se que nenhuma escola pública frequentada por eles desenvolvia um trabalho voltado para o processo de escolha vocacional de seus alunos. Este fato é muito comum nas instituições escolares públicas que atendem o ensino básico e isso é preocupante, pois, independente do nível escolar, acredita-se que os estudantes necessitam de um acompanhado durante seu processo de escolha ocupacional, principalmente os alunos do ensino médio, pela possibilidade de frequentarem um curso
técnico ou universitário. De acordo com Bock, S. (2009), ―o ensino profissional nunca deu muita atenção às escolhas profissionais de seus alunos. Sempre tratou esta questão como secundária e, quando o fazia, restringia-se às atividades de informação profissional por meio de feiras e/ou palestras com profissionais‖ (p. 380).
Nesse contexto, o processo de escolha vocacional dos nossos entrevistados ocorreu sem a mediação de uma prática de orientação profissional, tanto na escola quanto fora dela. O governo brasileiro tem defendido uma concepção de que, no âmbito escolar, tal processo deve ser acompanhado por um trabalho transdisciplinar e, para isso, o Ministério da Educação elaborou uma proposta didática pedagógica, na qual presta orientações aos professores para o desenvolvimento de atividades voltadas para a abordagem do tema trabalho (BRASIL, 1998). No entanto, percebeu-se que os alunos da rede pública de ensino estão desprovidos de um trabalho consistente acerca da escolha ocupacional. Dessa forma, eles encontram-se despreparados para fazer uma escolha profissional crítica. Aparecem expressões e situações que indicam uma escolha ―aleatória‖, sem acompanhamento de reflexões e informações. O universo de onde retiram suas escolhas parece restrito. Encantam-se com uma ocupação e fixam-se nela. Sempre gostei, encontrei o que queria e sonhava, eu tenho jeito pra isto, são expressões comuns para indicar a escolha.
A escolha vocacional para estes participantes se constituiu baseado em um processo alienado e idealizado. O estudo constatou-se que a maior parte do segmento estudantil pobre, não recebe qualquer tipo de auxílio durante seu processo de escolha por uma ocupação, por isso optam por perfis profissionais, que tiveram contato direto ou indireto, em algum momento de sua vida, seja por meio da mídia ou do grupo de amigos, como identificado nos trechos a seguir: “cheguei a imaginar ser apresentador de TV” ou “aqueles homens executivos, bem vestidos, educados e com boa comunicação”. De acordo com Bock, A.,
Furtado e Teixeira (1999), os meios de comunicações e os grupos de iguais interferem de forma significativa na escolha ocupacional dos jovens.
O processo de escolha ocupacional de nossos sujeitos aconteceu a partir de uma percepção humanista e religiosa, de ajudar outras pessoas por meio de sua profissão, como se constata no seguinte relato de Rafael “Deus me deu uma oportunidade de me formar em uma área tão difícil é pra ajudar outras pessoas”. A partir dessa perspectiva, nossos participantes
optaram por seus cursos superiores, na tentativa de poder, no futuro próximo, realizar uma ação humanitária, visando colaborar na construção de um mundo melhor, entretanto, as posturas assumidas por eles revelam a superficialidade de seu processo de escolha
profissional. Sobre esse aspecto, enfatiza Bock, S. (2010), esses jovens escolhem ocupações que permitam a realização dessa ideia.
Essa realidade vivenciada por nossos participantes é muito comum entre os estudantes residentes em Manaus, pertencentes às camadas pobres. Esses alunos não têm condições de custear um serviço de orientação profissional particular, possuem recursos financeiros limitados, muitos são dependentes das políticas de transferência de renda e dos programas educacionais para sua formação para o trabalho, como se constata na fala de Rafael “fiz curso de formatação, fiz curso de informática básica e avançada. Todos cursei por meio de bolsas”. Nesse contexto, salienta Bock, S. (2009), há uma necessidade de uma política
pública de promoção da orientação vocacional nas escolas da rede pública, para dá oportunidade aos alunos de baixa renda discutir e refletir acerca de seu processo de escolha ocupacional.
Nessa perspectiva, nosso estudo evidenciou que o processo de escolha profissional de jovens, provenientes das camadas de baixa renda de Manaus, está ocorrendo sem um autoconhecimento de si, sem um aprofundamento acerca das profissões, sem uma posição crítica perante o mercado de trabalho. Com certeza, estas experiências produzem escolhas distintas e, por que não afirmar, desiguais.
Essa realidade é percebida durante a escolha pelo curso universitário de ambos os participantes. Por um lado, Pedro comparou as incumbências de um psicólogo com as atividades que ele executava em seu grupo religioso com os jovens e, dessa forma, escolheu o curso de psicologia. Por outro, Rafael tinha um fascínio pela disciplina matemática, talvez isso tenha levado a se identificar com a engenharia civil, uma vez que o curso pertence à área das ciências exatas, isso rompeu com seu interesse pela mecatrônica. A partir desse contexto, verificou-se que a escolha profissional desses jovens ocorreu em uma realidade vivenciada por eles. De acordo com Bock, A., Furtado e Teixeira (1999), o indivíduo escolhe sua profissão a partir das possibilidades de seu contexto sociocultural.
A partir da fala de nossos entrevistados, percebeu-se que o processo de escolha profissional de jovens pertencentes às camadas pobres manauenses, ocorre em um curto período de tempo. Pois, as escolas públicas que eles frequentam não trabalham com seus alunos, desde os primeiros anos do ensino fundamental até o término do ensino médio, as questões acerca do trabalho. Possibilitando-lhes um percurso duradouro de informação, discussão e reflexão sobre si mesmo, os tipos de profissões e o mercado de trabalho, elementos determinantes para uma boa escolha ocupacional. Dessa forma, frisam Aguiar,
Bock, A. e Ozella (2011), ―temos o jovem que não se vê com a possiblidade de escolher, que não se vê como sujeito, e sim como subjugado‖ (p. 175).
Nesse contexto vocacional, verificou-se que o processo de escolha ocupacional dos jovens integrantes das camadas médias ocorre de forma diferente à dos jovens pobres pesquisados, ele se caracteriza por ser mais longo. Desde os primeiros anos escolares, a maioria dos estudantes das camadas privilegiadas pode contar com atividades pedagógicas voltadas para o processo de escolha por uma profissão, e quando estes chegam ao ensino médio, encontram-se mais preparados para escolher uma ocupação, e se caso necessitarem de alguma ajuda mais específica, têm condições financeiras para contratar um serviço particular de orientação profissional. Segundo Bock, S. (2010), infelizmente essa realidade não é compartilhada por seus pares pobres.
Durante o processo de escolha profissional dos nossos participantes, observou-se uma naturalização das dificuldades socioeconômicas e a aceitação das ideologias neoliberais. Pois, em nenhum momento, ambos os sujeitos não verbalizaram qualquer questionamento quanto às situações de pobreza, impostas pelo sistema capitalista, vivenciadas por eles, apesar de relatarem momentos de humilhação e/ou constrangimento, decorrentes do seu extrato social de pertencimento. Eles também não apresentam nenhuma crítica às concepções neoliberais; aliás, fundamentam sua visão de mundo a partir de alguns princípios do liberalismo. Esse contexto revela para Bock, A. e Aguiar (2011) a falta de criticidade dos sujeitos acerca dos fatores determinantes para sua escolha vocacional.
Com a realização da pesquisa, verificou-se que as atividades de trabalho exercidas por nossos sujeitos não influenciaram sua decisão pelo curso superior, uma vez, que estas são tomadas como temporárias, servindo apenas, por um lado, para prover recursos financeiros para custear sua sobrevivência e as despesas do curso universitário, por outro, elas surgem descoladas e desconfiguradas de um processo de escolha ocupacional emitido em determinado período, ou melhor, eles não as reconhecem como uma escolha ocupacional. Dessa forma, eles entendem que a consolidação de sua profissão está intrinsecamente ligada ao término do curso de graduação. Nessa perspectiva, afirmam Bock, A., Furtado e Teixeira (1999), em