4. Complex Valued Scalar Fields - Mesh-Free Valley Surfaces 41
4.3. Valley Surface Construction
4.3.2. Non-Manifold Regions
Considerando o sujeito e o discurso como constitutivamente heterogêneos, Authier-Revuz (2004) estabelece o estudo das marcas dessa heterogeneidade que seria, segundo a autora, uma forma de explicitar as diferentes vozes que atravessam o discurso de um sujeito, buscando uma unidade, ainda que ilusória. Para a autora, a alteridade nos textos é identificada a partir da materialização assumida nas formas do discurso reportado.
A autora divide essa heterogeneidade em dois pólos: a heterogeneidade mostrada e a heterogeneidade constitutiva. Somente a primeira seria acessível aos aparelhos linguísticos, por ser marcada no próprio discurso como o discurso do outro, enquanto a segunda não permitiria essa identificação, uma vez que o discurso do outro seria inextricavelmente ligado ao discurso do mesmo:
Todo discurso se mostra constitutivamente atravessado pelos “outros discursos” e pelo “discurso do Outro”. O outro não é um objeto (exterior, do qual se fala), mas uma condição (constitutiva, para que se fale) do discurso de um sujeito falante que não é fonte primeira desse discurso. (AUTHIER- REVUZ, 2004, p. 69)
Esses “outros discursos” aos quais a autora se refere são os discursos que circundam o sujeito; já o discurso do Outro2 é o ponto de onde emana um novo discurso. O discurso surgiria, então, da negação de um Outro – afirma-se um discurso por meio da negação de um Outro. Esse “um”, no entanto, permaneceria clivado pelo Outro e pelos outros que o circundam. Daí a existência da heterogeneidade constitutiva.
Na forma explícita da heterogeneidade, o locutor se comportaria como tradutor do discurso de outrem – no caso do discurso indireto – ou como um porta- voz de um discurso – no caso do discurso direto. Ocorre, dessa forma, a explicitação da alteridade discursiva. Por diversos motivos, com diversos objetivos, o locutor empenha-se em delimitar seu discurso e o discurso do outro.
2O “Outro”, grafado em letra maiúscula, se distingue do “outro” no sentido de não tratar-se de um discurso diferente, de um discurso externo, mas sim da parte constituinte do mesmo discurso, interno a este discurso, relacionando-se com ele. Como esclarece Maingueneau (2008c): “Ele se encontra na raiz de um Mesmo sempre já descentrado em relação a si próprio [...]. É aquela parte que faz falta a um discurso e lhe permite encerrar-se em um todo. É aquela parte de sentido que foi necessário o discurso sacrificar para constituir a própria identidade.” (MAINGUENEAU, 2008c, p. 37)
A intenção do locutor é delimitar o momento em que sua fala foi interrompida pela fala do outro; com o aparente intuito de se preservar de alguma forma, ele se utiliza da fala do outro, mas se preocupa em deixar evidente que aquele posicionamento não é seu.
Isso se dá, de forma mais marcada, por meio da utilização de citações, de aspas, de grifos como o itálico, por exemplo, e, de forma menos marcada, por meio da ênfase na fala, da ironia e das imitações, por exemplo, em que o discurso do outro é utilizado, inserido no dizer do locutor para produzir sentido, mas delimitado, ainda que não explicitamente marcado:
Esse modo de “jogo com o outro” no discurso opera no espaço do não explícito, do “semidesvelado” do “sugerido”, mais do que do mostrado e do dito: é desse jogo que tiram sua eficácia retórica muitos discursos irônicos, antífrases, discursos indiretos livres, colocando a presença do outro em evidência tanto mais que é sem o auxílio do “dito” que ela se manifesta: é desse jogo, “no limite”, que vêm o prazer – e os fracassos – da decodificação dessas formas. (AUTHIER-REVUZ, 2004, p. 18)
Authier-Revuz (2004) traça um caminho que parte das formas nitidamente marcadas, passa pelas formas recuperáveis da alteridade discursiva para chegar à presença do outro em toda parte do discurso. A autora, no entanto, ressalta que na relação entre a heterogeneidade mostrada e a heterogeneidade constitutiva não há uma delimitação que permita separá-las em algum momento, dado que a heterogeneidade mostrada é concebida como uma negociação do sujeito com a heterogeneidade constitutiva:
para a descrição lingüística das formas de heterogeneidade mostrada, a consideração da heterogeneidade constitutiva é, a meu ver, uma ancoragem, necessária, no exterior do lingüístico: e isso não somente para as formas que parecem oscilar facilmente devido às modalidades incertas de seu resgate, mas, fundamentalmente, para as formas mais explícitas, mais intencionais, mais delimitadas da presença do outro no discurso. (AUTHIER-REVUZ, 2004, p.22)
A heterogeneidade mostrada, portanto, não pode ser concebida como um reflexo da heterogeneidade constitutiva, mas como “elemento da representação – fantasmática – que o locutor (se) dá de sua enunciação.” (AUTHIER-REVUZ, 2004, p.70), uma vez que o sujeito, ao marcar o discurso do outro, acredita conseguir distanciá-lo de seu discurso; ele crê que esse distanciamento é, efetivamente,
estabelecido, o que, de fato, não ocorre, uma vez que o sentido do seu discurso sempre estará ligado ao discurso que ele nega.
É a ilusão de ser a fonte do sentido daquilo que diz que estabelece a principal relação da heterogeneidade mostrada com a heterogeneidade constitutiva, pois, ao delimitar o discurso do outro em sua fala, o sujeito acredita conseguir formar um todo homogêneo com as próprias palavras: “através dessas marcas, designando o
outro localizadamente, o sujeito empenha-se em fortalecer o estatuto do um.”
(AUTHIER-REVUZ, 2004, p. 74). Em outras palavras, o sujeito legitima seu discurso como único ao excluir dele o discurso do outro, acreditando ser isso possível.
Consonante com o trabalho de Authier-Revuz (2004), Maingueneau (2008c) propõe uma reflexão acerca da origem dos discursos e, apoiado nos estudos sobre heterogeneidade constitutiva, apresenta sua principal concepção, denominada de “primado do interdiscurso”, ideia pela qual se entende o discurso como resultado de sua relação com outros discursos.
A noção de interdiscurso é de fundamental relevância para a reflexão acerca da constituição heterogênea do ethos discursivo que se pretende realizar neste trabalho de pesquisa; considera-se que a concepção de interdiscurso, articulada à noção de heterogeneidade discursiva, servirão como base para o estudo das relações discursivas que constituem o ethos que se pretende investigar.