3. Mathematical Definitions, Properties, and Methods 23
3.4. Differential Geometry
Para que não se vá a vida ainda e a amada volte pede à palavra outra palavra outra Sob palavra Max Martins (1990)
A palavra lida ou escrita foi sua grande paixão. No conto “Crônicas de minha passagem”, que faz parte do livro Céu Caótico, Maria Lúcia indaga “De onde buscarei palavras e quais versos me seguirão ditados pela memória? Qual tempo escolherá a memória, o tempo dos amantes? O da infância, indelével? O da solidão, a ocupar os segundos das horas mortas?” (MEDEIROS, 2005, p. 25).
Essa paixão fez com que me perguntasse, ao me aproximar do final deste trabalho, sobre o que eu queria trazer da biografada, neste momento. A morte silenciosa? A doença avassaladora? Ou sua voz... sua palavra...? Ao começar a pensar nos Atos finais da dissertação, chamei-os, a princípio, de Eros e Tânatos, assim juntos. Neles falaria de seu amor pela leitura e pela escrita, pelos amigos, pelas trocas de correspondência; em seguida, falaria da morte. Foi difícil. Era como se nada pudesse ser dito do fim. Depois, separei-os e os inverti: falaria da morte (Tânatos) e então do amor (Eros).
Para isso, retomei “O Banquete”, de Platão, cujas páginas iniciais deixam claro, que, após as decisões sobre o comer e o beber quando apetecesse aos convivas, Erixímaco propõe seja despedida a tocadora de flauta, e que se distraissem com discursos – mas de que tema falariam os convivas do banquete, senão de Eros?
Nenhum de nós, Erixímaco, teria dito Sócrates, votará contra a tua proposta. Do meu lado, não me recuso a falar, pois confesso não entender de nada mais, senão de amor. Agatão e Pausânias, também, não se esquivarão, e muito menos Aristófanes, que só se ocupa com Dionísio e Afrodite, nem nenhum dos presentes, apesar de ficar muito difícil a tarefa para os que nos encontramos nos últimos lugares. Mas, se os primeiros colocados desenvolverem o tema com eloquência, declarar-nos-emos satisfeitos. Com feliz auspício, pois, inicie Fedro o elogio de Eros (PLATÃO, 2001, p. 30).
Ao deparar-me com esta frase, lembrei de outro livro que tenho há algum tempo e do qual li alguns trechos. Intitula-se Os sentidos da paixão e traz artigos de vários pensadores sobre a paixão. Revi pelo menos quatro artigos: “Sobre o medo”, de Marilena Chauí; “Platão: As várias faces do amor”, de José Américo Motta Pessanha; “Paixão da igualdade, paixão da liberdade: a amizade em Montaigne”, de Sérgio Cardoso; “A paixão de Clarice Lispector”, de Benedito Nunes. Chauí (1987) trata do medo enquanto paixão, o que envolve ideias de corpo, alma, poder, ética, morte, esquecimento. O medo, segundo ela, é e sempre será paixão articulada com outras formas, formando um verdadeiro sistema de
medo. Ao tratar do medo do esquecimento, “e de jamais poder deslembrar”, traz à
tona sentimentos humanos assolados pelo medo.
Temos medo do esquecimento e de jamais poder deslembrar. Da insônia e de não mais despertar. Do irreparável. Do inominável e do horror à perda do nome próprio, essa “doença mortal” que, um dia, Kirkegaard chamou de desespero humano (CHAUÍ, 1987, p. 37). E, pela contradição, nos aproximamos da biografia literária. Nela, queremos lembrar, lembrar o biografado, sua obra, trazer seu nome e sua herança literária à lembrança e ao conhecimento dos vivos.
Em Platão: as várias faces do amor, nos achegamos à paixão da escritora tratada no início deste capítulo: a palavra. Na compreensão de José Américo, o discurso de Eros é, sobretudo, o amor pela palavra, pelo discurso em que amor e palavra estão intrinsecamente ligados.
Falar de amor em Platão cria uma inevitável circularidade. Dela não podemos fugir: o próprio Platão não nos deixa escapar. É que, em Platão, amor e fala, amor e discurso, amor e palavra estão intrínseca e definitivamente interligados. Há, para Platão cumplicidade entre Logo e Eros. Para sermos mais corretos: existe estreita vinculação entre as diversas formas de amor – múltiplas figurações de Eros – e as respectivas linguagens que falam do amor e com que o amor se fala. Os discursos amorosos retratam as várias faces de Eros (CARDOSO, 1987, p. 77).
Fiquei pensando nas faces de Eros para ver até onde ele poderia ser tratado como amizade, para falar dos amigos, o que incluiria os escritores, tratados como se os conhecêssemos – nós biógrafos, e os leitores de biografia -, e aqueles
que passaram pela vida da biografada (alguns dos quais vim a conhecer, ainda que brevemente). Perguntei a mim mesma, durante dias, o que ela gostaria que estivesse aqui registrado, que história consentiria à palavra de outrem escrever? Por que não, pensei, exatamente, o que deixou? Os livros publicados, o Diário, os escritos em cadernos, os papéis avulsos, os tickets de metrô, de avião, mapas de lugares, cartas, postais? A história de sua vida em suas próprias palavras?
Ao contar os impasses, as dúvidas e perguntas que me assaltaram, encontro no livro de Sergio Vilas Boas, intitulado Biografismo, um capítulo chamado “Transparência”, no qual, em certo trecho, reflete o autor:
Ora, não existe nenhuma regra declarada ou subtendida que impeça o biógrafo de dar transparência à sua narrativa pela inclusão (pertinente, sensata, comedida) de suas dúvidas, suas escolhas, seus conflitos, seus impasses, suas vivências ao longo da jornada biográfica: dizer, por exemplo, como chegou lá e até onde não pôde chegar por causa disso ou daquilo. Mas não uma ou duas linhas no prólogo. Refiro-me a expor no contexto do que se narra, a fim de imprimir franqueza e liberdade de espírito (VILAS BOAS, 2008, p. 180).
Enfim, para Eros e Tânatos sobrou apenas o espaço de um entre parênteses em subtítulo de capítulo. O importante é a palavra. A paixão pela palavra tratada nesse breve espaço dos parênteses.
Abandono, então, meus pensamentos para entregar, de certa forma, a palavra a Ela, Maria Lúcia Medeiros. É ela quem deve ter as palavras finais.