4. Complex Valued Scalar Fields - Mesh-Free Valley Surfaces 41
4.5. Results
4.5.1. Application to Sound Visualization
Maingueneau (2008c) ressalta que estudar essa alteridade constitutiva do discurso significa mais do que analisá-lo em sua relação com outros discursos: significa conceber o discurso como o resultado dessa relação interdiscursiva. O discurso, dessa forma, é heterogêneo em sua constituição e permanece clivado pelas várias formações discursivas que estão na base de seu processo constitutivo.
Com o intuito de caracterizar discursivamente essa alteridade, de acordo com a situação sócio-discursiva, o autor propõe uma tripartição do conceito de interdiscurso em universo discursivo, campo discursivo e espaço discursivo.
O universo discursivo representa um conjunto de formações discursivas de todos os tipos, interagindo em uma dada conjuntura. Por se tratar de um conjunto bastante amplo, não há a possibilidade de se apreender o universo discursivo em
sua totalidade, por isso esse conjunto sofrerá delimitações com o propósito de tornar o trabalho do analista mais viável.
Essas delimitações constituem os campos discursivos, em que formações discursivas de uma mesma função social, mas divergentes em sua maneira de atuação, constituem relações de polêmica, aliança ou neutralidade. O discurso político é um exemplo de campo discursivo – bem como o filosófico, o religioso, etc. – pois apesar de os textos de que dele fazem parte desempenharem uma mesma função social, os posicionamentos dos sujeitos podem diferir no modo de atuação neste campo.
Segundo Maingueneau (2008c), é no interior do campo discursivo que se constitui um discurso. É da relação de concorrência entre as formações discursivas que o discurso se constitui. Obviamente que não há uma relação homogênea entre as formações discursivas em um campo. Há discursos hegemônicos e há aqueles mais marginais, por esse motivo, os discursos não se formam da mesma maneira, mas são constituídos a partir da relação entre esses vários discursos. Daí seu caráter heterogêneo.
Os espaços discursivos, então, são os recortes que o analista faz, no interior do campo discursivo, relacionando os discursos concorrentes, de acordo com seu propósito de análise. Esse recorte nunca é feito de maneira arbitrária: é necessário um conhecimento prévio que permita levantar hipóteses que serão ou não confirmadas no decorrer do estudo. No interior dos espaços discursivos é possível identificar as relações entre os discursos formados nos campos discursivos. É necessário, no entanto, sublinhar que se tratam de recortes, de maneira que não é possível alcançar todos os outros discursos que se (inter)relacionam, constituindo um determinado discurso.
Maingueneau (2008c) ressalta que, apesar de concordar que um discurso nasce como reação a outro discurso, ambos – o primeiro e o segundo – são atravessados por outros discursos. A noção de interdiscurso concebe que há uma constante relação de troca entre o Mesmo de um discurso e o seu Outro, ou seja, não há a constituição de uma identidade fechada, uma vez que o sentido de um discurso está sempre ligado ao discurso negado:
No espaço discursivo, o Outro não é nem um fragmento localizável, uma citação, nem uma entidade externa; não é necessário que ele seja localizável por alguma ruptura visível da compacidade do discurso. Ele se
encontra na raiz de um Mesmo sempre já descentrado em relação a si próprio, que não é em momento algum passível de ser considerado sob a figura de uma plenitude autônoma. Ele é aquele que faz sistematicamente falta a um discurso e lhe permite encerrar-se em um todo. É aquela parte de sentido que foi necessário o discurso sacrificar para constituir a própria identidade. (MAINGUENEAU, 2008c, p. 36-37)
Dessa forma, entende-se que há um jogo dialógico entre o Mesmo e o Outro de um discurso em que o Mesmo nega o Outro. Esse Outro, no entanto, não fala do exterior do discurso do Mesmo, ao contrário, fala de dentro dele. O Outro está intrínseco ao mesmo, como “um eu do qual o enunciador discursivo deveria constantemente separar-se. Ele seria, de alguma forma, o interdito de um discurso.” (MAINGUENEAU, 2008c, p. 37).
Não há, portanto, a marcação dessa alteridade. O funcionamento discursivo resulta da interação entre os discursos concorrentes. Cabe ao analista do discurso analisar o Mesmo em relação às formações discursivas que o constituíram, mas também em relação às formações discursivas que constituíram seu Outro – que ele rejeita para construir sua identidade – para alcançar o entendimento de sua constituição.
É importante ressaltar que o Mesmo e o Outro não são discursos totalmente contrários. Se assim fosse, o discurso que surgisse a partir do Mesmo, negando-o, seria correspondente ao Outro de onde esse Mesmo surgiu, o que de fato não ocorre. Os discursos surgem em campos que englobam formações discursivas diferentes e que também sofrem mudanças de acordo com a conjuntura sócio- histórica. A tendência, segundo Maingueneau (2008c), é de que um discurso negue seus dois discursos outros: aquele que o antecedeu, do qual ele se constitui, e aquele que é constituído depois dele a partir de sua negação.
Outro aspecto importante a ser ressaltado é a coexistência desses discursos: o surgimento de um discurso não significa o desaparecimento do discurso do qual emergiu. Os dois discursos podem conviver e manter relações de concorrência, de complementariedade, de aliança etc. Não se pode negar que há um discurso que, dependendo da conjuntura histórica, será mais aceito que o outro e ocupará uma posição hegemônica, isso pode culminar no desaparecimento gradativo do outro, mas esse desaparecimento não pode ser, de modo algum, prenunciado.
Essa relação entre discursos diversos acompanha as mudanças de ordem sócio-histórica pelas quais passam as sociedades, sendo assim, trata-se de um
processo impreciso no sentido de os discursos não terem início, meio e fim determinados. Conforme as demandas de ordem política, econômica, social, ocorrem mudanças ideológicas e, consequentemente, se transformam as formações discursivas, e determinados discursos passam a se sobrepor a outros, constituindo, gradativamente, uma nova forma de constituir discursivamente fatos, pessoas, instituições etc.
O objetivo deste trabalho de análise é o de estudar a constituição de um ethos feminino na Revista Mulher do jornal O Liberal, a partir da análise dos discursos relacionados ao papel social feminino. Reconhece-se que várias mudanças ocorreram em relação às atividades consideradas pertencentes ao universo feminino nas últimas décadas, o que implica em mudanças na maneira de se reconhecer o sujeito mulher.
A hipótese central deste trabalho é a de que discursos pertencentes a duas formações discursivas – que aqui chamar-se-á de “voz conservadora” e “voz contemporânea” – relacionam-se, constituindo um ethos feminino heterogêneo, porque cindido entre dois discursos destacados no espaço discursivo constituído no âmbito desta pesquisa, que revelam um processo de transição das concepções acerca do lugar social ocupado pela mulher.
Com o objetivo de analisar a relação entre esses discursos na constituição deste ethos feminino, serão aproximados os conceitos de ethos discursivo – postulado pelo arcabouço teórico mais recente da Análise do Discurso – e de heterogeneidade constitutiva, postulado que imprimiu ao arcabouço teórico da AD profundas transformações.
A aproximação desses dois conceitos permitirá resgatar a tensão que caracteriza também a constituição de imagens nos/pelos discursos, uma vez que se entende, conforme Maingueneau (2008c), que a interdiscursividade se espraia em todos os planos discursivos de uma semântica global. Ou seja, considerando-se que a interdiscursividade é o princípio de base no qual se fundam os discursos e esse jogo de relações entre discursos é constitutivo dos novos sentidos, entende-se que todos os planos de organização e de funcionamento dos discursos são por ele atravessados.
Desse modo, o propósito deste trabalho é investigar o ethos feminino constituído na Revista Mulher, focalizando justamente seu caráter heterogêneo, buscando compreender como são deixadas marcas na materialidade discursiva que
apontam para o processo de tensão interdiscursiva entre uma imagem mais contemporânea que se busca constituir e uma imagem mais conservadora que se busca ultrapassar. Mais do que identificar qual imagem feminina se constitui por meio da prática discursiva jornalística voltada para o público feminino, busca-se entrever os processos constitutivos dessas imagens.
Com o intuito de compreender as questões que permeiam a constituição de discursos acerca dos lugares ocupados pela mulher em sociedade, será traçado, a seguir, um panorama histórico em que serão abordadas as principais mudanças de ordem histórico-social que propiciaram a constituição tanto dos discursos mais conservadores quanto dos mais atuais acerca do papel social feminino.