O Estado Novo teve um papel marcante na tentativa de integração da Região Norte do restante do país, mediante setores considerados chave para o seu desenvolvimento, como a exploração de seus recursos energéticos. A partir de então, a ocupação do território se acelerou, com base nas suas relações como o centro do poder nacional, embora apenas durante o Regime Militar tenha se dado efetivamente um planejamento regional para a Amazônia (BECKER, 2001).
A visão do Estado Novo da década de 1940 na Amazônia era de um lugar vazio, “despovoado” (ou com um reduzido número de habitantes que não eram reconhecidos como cidadãos) a ser conquistado. Andrade (2010) discute a importância do programa governamental “Marcha para o Oeste” e do “Discurso do rio Amazonas”, proferido por Vargas em Manaus. A “Marcha para o Oeste” marca o esforço do “imperialismo" brasileiro na "conquista" de seu próprio território, buscando a integração econômica do país a partir da colonização das regiões “desabitadas” do país, como a Amazônia (ANDRADE, 2010), além de garantir o suprimento de energia e a exploração de suas riquezas naturais "abundantes" para o desenvolvimento da nação.
Em suma, a ideia empreendida nos discursos oficiais referisse principalmente ao caráter civilizatório da fronteira, que traria para as regiões ditas abandonadas do país, o progresso que o Estado Novo estaria realizando nas localidades centrais, como Rio de Janeiro e São Paulo (ANDRADE, 2010, p. 459).
A ideia de uma região desabitada a ser desenvolvida nos moldes de São Paulo e Rio de Janeiro estava relacionada ao programa “Marcha para o Oeste”, porém, seu principal objetivo não era ocupar a Amazônia, mas, segundo alguns autores (CABREIRA, 1996 apud ANDRADE, 2010), a imigração – principalmente de nordestinos – evitaria conflitos sociais internos e movimentos contra o governo ditatorial. Em outubro de 1940, a estratégia do governo de legitimar o Estado Novo levou Vargas à “inóspita" região amazônica, que até então era vista como um lugar lendário, desprezado, o “Inferno Verde” (ANDRADE, 2010). Em Manaus, no famoso “Discurso do Rio Amazonas”, Vargas defende como o espaço imenso e despovoado dificulta a integração econômica do país:
O empolgante movimento de reconstrução nacional consubstanciado no advento do regime de 10 de novembro não podia esquecer-vos, porque sois a terra do futuro, o vale da promissão na vida do Brasil de amanhã. O vosso ingresso definitivo no corpo econômico da nação, como fator de prosperidade e de energia criadora, vai ser feito sem demora. Vim para ver e observar, de perto, as condições de realização do plano de reerguimento da Amazônia. Todo o Brasil tem os olhos voltados para o Norte, com o desejo patriótico de auxiliar o surto de seu desenvolvimento. E não somente os brasileiros; também estrangeiros, técnicos e homens de negócio, virão colaborar nessa obra, aplicando-lhe a sua experiência e os seus capitais, com o objetivo de aumentar o comércio e as indústrias e não, como acontecia antes, visando formar latifúndios e absorver a posse da terra, que legitimamente pertence ao caboclo brasileiro (ANDRADE, 2010, p. 228). Com os primeiros conhecimentos da Pátria maior, este vale maravilhoso aparece ao espírito jovem, simbolizando a grandeza territorial, a feracidade inigualável, os fenômenos peculiares à vida primitiva e à luta pela existência em toda a sua pitoresca e perigosa extensão. As lendas da Amazônia mergulham raízes profundas na alma da raça e a sua história, feita de heroísmo e viril audácia, reflete a majestade trágica dos prélios travados contra o destino. Conquistar a terra, dominar a água, sujeitar a floresta foram nossas tarefas. E, nessa luta, que já se estende por séculos, vamos obtendo vitória sobre vitória (ANDRADE, 2010, p. 229).
Nos trechos retirados do “Discurso do Rio Amazonas”, fica evidente a visão do governo a respeito do Norte. O Estado Novo assumia a função de “colonizador” da região a ter sua natureza “dominada”, sujeitada ao homem e ao desenvolvimento racionalista. E interessante perceber em outros trechos do discurso de Vargas culpando o clima “caluniado" pelo pouco povoamento, mas criador de uma raça mais forte. Com o desenvolvimento, a região teria sua natureza e seus aspectos naturais “domados” em prol do progresso.
No período em questão, a grandiosidade da floresta era sinônimo de primitivismo e atraso em relação a outras regiões do país mais industrializadas,
assim, os planos governamentais tinham por objetivo substituir as atividades pouco rentáveis ao Estado (praticadas pelos índios e caboclos) por atividades de exploração mais racionais e produtivas, compatíveis com a economia e a sociedade moderna (REFKALESKY LOUREIRO, 2009). Os governos militares interpretavam a floresta como um lugar a ser conquistado e explorado.
La visión de la Amazonia como territorio a ser conquistado, ocupado y explotado estaba intimamente ligada a las teorías geopolíticas originadas essencialmente en círculos militares. Este enfoque, que dominó la primeira mitad del siglo XX, tuvo expresiones diversas que incluyeron hasta conflictos armados y, en sus versiones más convencionales, grandes programas de colonización dirigidos por el Estado a lo largo de carreteras cuyos trazados respondían a criterios de ocupación territorial. (DOUROJEANNI, 1992 apud NASCIMENTO, 1999).
O padrão econômico voltado para a exportação desde sua colonização até os dias atuais foi incentivado pelo governo do Estado Novo. A visão da Amazônia como um lugar a ser explorado, antes mesmo de ser adotada pela Federação, já pertencia as grandes metrópoles estrangeiras, que viam seu potencial produtivo como “última fronteira econômica”, superabundante em recursos naturais “infinitos". Essa visão eurocentrista e distorcida da região Norte do Brasil trouxe graves conflitos em seu meio rural e contribuiu com a miséria urbana, além dos danos ambientais (REFKALESKY LOUREIRO, 2009).
"No caso da Amazônia, sua ocupação se fez em surtos devassadores ligados à valorização momentânea de produtos no mercado internacional, seguidos de longos períodos de estagnação” (BECKER, 2001). O primeiro surto foram as drogas-do-sertão, ainda no Período Colonial, seguido da borracha (quando se forma a elite local) e os projetos do Governo Federal (sobretudo durante a Ditadura Militar; marcado pela degradação ambiental) (CARDOSO; VENTURA, 2012).
O grande investimento estadunidense durante a Segunda Guerra Mundial garantiu a presença militar na Amazônia por meio de desapropriação de diversas áreas periurbanas nas principais cidades (como Manaus e Belém), garantindo a segurança regional contra a “ameaça comunista”. Esses centros urbanos ganhariam a presença marcante das Forças Armadas e a construção de aeroportos que facilitariam sua integração ao restante do território nacional. O Cinturão Institucional é uma marca deste período, em que Belém, após uma grave crise econômica devido
ao fim do ciclo da borracha, parece finalmente se relacionar economicamente com as demais regiões brasileiras, ainda que de maneira precária (sem as grandes rodovias), sendo incluída em um planejamento governamental da União. A formação do Cinturão Institucional ilustra a presença física e definitiva da União na cidade de Belém e na Amazônia, por meio dos poderes atribuídos às Forças Armadas.