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DIA 11/07- Seminários; 12/07 Exames de graduação; 13/07 Campeonato

No sábado, 12/07, acordamos cedo para tomar café da manhã e ir

para a abertura dos exames de graduação, que seriam realizados no período da tarde. Na parte da manhã, haveria competições da categoria aspirante até oitavas de final, e o Bruno e o Brian estariam competindo.

A abertura foi bastante rápida, uma vez que seria realizada no domingo novamente, e as competições começaram às 9h. A cerimônia de abertura foi realizada pelo Sr. Ciutoco Kogima, [presidente da CBK] e pelo chefe dos árbitros, Sr. Hayashi. A

abertura foi modesta e, como não poderia faltar, contou com uma homenagem póstuma ao Kimura sensei. Econômico na homenagem e bem ao ‗estilo japonês‘, o Sr. Kogima agradeceu ao Sr. Kimura pelo fato de tanto ter ajudado no desenvolvimento do Kendo no Brasil.

Domingo- 13/07/08- Preparei-me e desci [dos alojamentos para o

ginásio] para fazer aquecimento antes do campeonato mas, como me atrasei, não foi possível aquecer. Assim, coloquei o Bogu [armadura] e fui para a abertura do campeonato. A utilização da armadura na abertura é um termo de apresentação formal.

A abertura foi realizada como de costume, mas com a presença do hoje vereador Aurélio Miguel; as outras autoridades presentes foram Sr. Kogima, Sr. Tamaki, Sr. Hayashi e professores idosos. Em primeiro lugar, sobre o discurso do Aurélio Miguel enaltecendo o Kendo [e as artes japonesas em geral] e sua gafe, chamando o Kendo de Judo em algum momento do seu discurso, além de que, em certo sentido, ele ser visto como um ―japonês‖ quando viveu no Japão para treinamentos intensivos com os japoneses. Ainda falou sobre o Kendo e de como, no Japão, tudo acaba girando em torno dessa prática marcial, o Kendo. Mais uma vez, o que foi dito corrobora a minha hipótese sobre essa construção classificatória do que é se ‗tornar um japonês‘ e de sua ampliação a não descendentes.

Em segundo lugar, o discurso do Sr. Tamaki. Ele pontuou que vem crescendo o número de atletas sem descendência japonesa e que isso era bom. Ele ainda disse ser preciso ampliar a maneira como o Kendo chega ao publico e fazer com que se tenha mais adeptos, não só de descendentes de japoneses217. Pensando sobre esse discurso, noto que há pelo menos uns quinze anos está a se buscar uma abertura maior do Kendo em relação a pessoas sem descendência nipônica. Há um aspecto amplo de inserção do Kendo ao mundo e, parece-me que isso vem a classificar o resto do mundo tendo por base o Japão. Realmente o Japão conseguiu ampliar sua atuação no mundo, e por uma modalidade da ―guerra‖, não da guerra como foi desenvolvida na primeira metade do século XX, mas por uma dimensão simbólica, ou seja, enquanto extensão da troca.

O discurso do Sr. Kogima foi pautado por um minuto de silêncio [um não-discurso, portanto] em razão da morte do Kimura sensei. Ele agradeceu ao Kimura por tudo o que fez em prol do Kendo além de que a CBK mandou confeccionar um banner com a foto

217 De acordo com uma pesquisa superficial no site da Federação Internacional de Kendo, sediada no Japão, e de acordo com opiniões de vários professores do Brasil, há um plano de expansão do Kendo em nível mundial e um extenso trabalho de propagação e viagens de professores japoneses para variados locais do mundo com esse objetivo. Recentemente, quando estive efetuando coleta de dados no 14º Mundial de Kendo realizado em Agosto de 2009 em São Bernardo do Campo [SP], pude confirmar tal plano de expansão, pois as palavras correntes nos discursos foram ‗globalização‘ e ‗inserção do Kendo nos Jogos Olímpicos‘. Não obstante, existem críticos a essa idéia de inserção, e o problema ainda delongará anos para se chegar a certo consenso dentro da FIK [Federação Internacional de Kendo].

dele218. Após a abertura, retornamos à arquibancada para

aguardar o início as competições. [Nota de campeonato, Julho de 2008]

O termo ‗japonês‘ parece não posicionar – para o Kendo – apenas ‗uma nacionalidade‘. Pelo contrário, as evidências da pesquisa de campo indicaram que o termo é um dado modo classificatório que passa pela atualização do comportamento virtual com o comportamento atual. E quando esse comportamento se alinha com o comportamento virtual, teríamos por definição um ‗japonês‘. Que esse ‗japonês‘ possua o fenótipo qualificativo constitui uma contingência. O necessário é o comportamento.

Embora aqui eu apresente um exemplo de um nihonjin – o professor Kimura – o seu

comportamento e presença foram tomados como modelares de um ‗japonês exemplar‘,

ou seja, lutou contra adversidades, propagou o Kendo praticando-o até os 93 anos de idade, sempre esteve presente nos eventos e campeonatos. Em sua entrevista, quando vivo, ele diz:

As pessoas param muito rápido. Desistem muito rápido. Tem que continuar; as pessoas treinam e, quando começam a ficar boas, param. Eu tive mais de 10 mil alunos. Não teve um que continuou até hoje porque param.

Perguntei-lhe as razões dessa desistência, a qual me respondeu:

O Kendo não dá dinheiro. Quando chega na idade de trinta e quarenta anos a pessoa precisa ganhar dinheiro. Fazer a vida. Você não vai ficar rico com o Kendo; então a pessoa desiste porque tem que cuidar da vida. Eu não tinha apego ao dinheiro então eu continuei [risos]. Ainda hoje eu sou assim.

(...)o Kendo é uma forma de aprimorar o caráter humano. Na realidade, forma a pessoa. E para formar a pessoa, não são dez ou vinte anos que você consegue; são quarenta ou cinqüenta anos que você precisa para realmente entender. [Entrevista Prof. Kimura. Junho de 2008. Tradução simultânea de Harumi Nakahara].

Portanto, é o processo, a seqüência contínua que define, prescreve, fabrica. Será que esse caso seria exclusivo do dispositivo Kendo?

Campeonatos: onto-praxio-lógica samuraica

Em relação propriamente aos campeonatos, eles se desenrolam das categorias mais baixas às altas em um crescendo de habilidade que se demonstra pelo crescendo da

hierarquia de Dan. Participei – na correta acepção do termo – durante a pesquisa de campo de sete campeonatos de Kendo de Julho de 2007 a Outubro de 2008219 e noto que

todos ocorrem nesse esquema determinado. Porém, cada campeonato possui certa especificidade e detalhes que o fazem único, pois também se tratam de eventos comemorativos. Os campeonatos poderiam ser tomados em uma perspectiva conjunta a partir da relação entre fragmentos de ‗rito e mito‘, pois cada luta, cada comportamento manifesto, cada reencontro é uma dada forma de reviver os laços de co-parentela e de se atualizar o passado.

Após a ‗abertura‘ do campeonato, o professor designado como ‗chefe dos árbitros‘ apresenta quais são as regras de delimitação dos pontos que deverão ser seguidas durante a competição. Ao final da apresentação das regras que em suma são dadas como tempo de luta – que varia de dois a três minutos dependendo do número de atletas220 – o chefe dos árbitros faz o pedido para que as lutas sejam ‗honestas e honradas‘, pois isso é o que distinguiria o Kendo de artes marciais por essa função discriminante, de acordo com os professores221. Ao final da declaração do chefe dos

árbitros, os kenshi de terceiro Dan acima são convocados para receber as instruções, pois farão a arbitragem das lutas abaixo de seu nível nesse sistema hierárquico. Neste momento os atletas abaixo dessa graduação são convocados a deixar as quadras para o início das competições. Por sua vez todos deixam o local designado para as lutas e voltam para as arquibancadas.

Conforme dissemos, o campeonato começa das graduações mais baixas às altas. As lutas – conhecidas como shiai - possuem uma ‗forma‘ e um ‗conteúdo‘ (LEVI- STRAUSS: 1976, P.121-137). Há a necessidade de dois kenshi para que haja o combate e devem ser – a princípio – de academias diferentes. Cada um é designado por meio de uma fita – vermelha ou branca – que o identifica para os fins da competição e há uma série de regras de etiqueta a cumprir durante a duração do embate. No início, os dois devem se cumprimentar por meio de uma saudação – otagainirei – pela qual se demonstra o ‗espírito de cortesia‘ que, de acordo com os nativos deve permear os combates. Após a saudação, ambos cruzam as espadas de bambu e um fato interessante tem lugar. Nesse cruzar espadas, cada atleta demonstra o seu nome, ou melhor, o nome

219 Embora tenha efetuado coleta de dados em cinco campeonatos, conforme afirmei anteriormente. 220 Até o tempo de cinco minutos em competições internacionais.

221 Em suma, aceitar que foi atingido, corroborar o veredicto dos árbitros e ter uma postura de combate a- vingativa.

de sua ‗casa‘. O seu sobrenome é escrito na placa de identificação222 que fica em sua

armadura, conforme dissemos acima. Essa identificação é interessante pois coloca em relevo que o combate é uma modalidade de enfrentamento entre famílias e academias conforme apontamos. Mas também é apresentado o respeito que se manifesta na cortesia antes e ao final do combate, pois quem está ali não é apenas o kenshi tal ou qual, mas sim a família tal ou qual e a academia x ou y. Aqui, tem-se a idéia de que a família, por meio da academia, está a lutar.

Shiai – imanência do inimigo e a transcendência do ponto de vista

A primeira observação a se fazer é que as lutas nos campeonatos são divididas por idade, gênero e graduação, ao menos nas lutas individuais. Nas lutas por equipes, o gênero é agrupado. O embate é desenvolvido por melhor de três pontos, na qual um kenshi ganha a luta após fazer dois pontos, portanto. As áreas permitidas para toque são: cabeça, braços, tronco e pescoço. Não há variação de pontuação entre essas áreas, sendo que o que define um ponto válido é o ―ki-ken-tai-ichi‖223, ou seja, a sincronia entre

espírito - manifesto no grito, espada e corpo. Quem define a pontuação são os juízes, chamados de shinpan, sendo que na arbitragem são três juízes que ficam em forma de triangulo na área delimitada para o combate e também vemos serem necessários dois juízes para validar um golpe. Em razão disso é assegurada certa probidade em tal avaliação224.

No Kendo, as lutas fazem parte de uma economia simbólica da morte dada por simulacros. Evidentemente não se mata alguém assim como não se é morto por outrem, mas a dimensão do ‗matar‘ e ‗tornar-se morto‘ é constitutiva desse regime relacional- funcional, que marcaria a disposição de uma identidade entre ‗matadores‘ e nesse sentido conforme se sobe a graduação, o contingente diminui e chegamos aos ‗matadores‘ por excelência, que são os membros da Seleção Brasileira de Kendo. O Kendo é uma economia da alteridade na qual o conceito de ‗inimigo‘ possui um valor central e não oposto nesse regime. Ele é – no mais das vezes – visto como ‗o

222 Zeken. Já apresentada anteriormente.

223 気剣体一致。O Ki-Ken-Tai-ichi é um termo de suma importância, e falaremos sobre ele no capítulo 3; denomino-o neste momento de ‗triedro analítico do Kendo‘, pois pautado na tríade ‗espírito, espada e corpo.

224 Evidentemente que erros de arbitragem podem ocorrer mas mesmo em tal situação, existe um acordo tácito entre os praticantes [e dado no plano hierárquico, evidentemente] no sentido de acatar a decisão dos árbitros; entrementes, não é fácil decidir sobre a efetivação de um ponto, por necessidade de conjugação de um conjunto de fatores de ordem ‗corporal‘ e ‗espiritual‘. Notadamente, os shinpan possuem graduações superiores em relação às graduações dos ‗combatentes‘.

instrumento‘ no qual a circulação e aquisição de conhecimento se tornam possíveis. O ‗inimigo‘ pode bem ser o parente, e também outrem.

Tal processo é indicativo de uma reflexão mais ampla sobre a própria relação entre descendentes e não descendentes225. Em Victor Hugo Kebbe (2008, P. 144-146)226 que trabalha com jornais que a princípio teriam a função de mediadores entre dencendentes no Brasil e dekasegi no Japão avalia a relação estabelecida entre os agenciamentos de descendentes com não descendentes em um processo similar à amizade formal tomando o registro de Manuela C. Cunha (1986, P. 53-63), ou seja, relações de evitação, estranheza, que marcariam o cálculo dado no plano do parentesco entre não-parentes [afins]. Não notamos esse jogo de ‗espelhos‘ funcionalista no Kendo. Ao contrário, o não-descendente não ‗cumpre o papel‘ de enquadrar o reconhecimento de ‗si‘ pelos descendentes. Ele é tão sujeito à ativação do ‗devir‘ quanto outrem. E Victor Hugo o bem sabe (2008, P.146).

Nas graduações inferiores, através das quais pude desenvolver uma percepção das lutas através de minha participação, um dos pontos impressionantes é a visão dos olhos do adversário. É aqui que uma luta se desenvolve e se resolve. Através do olhar apercebe-se o outro. Porém, a comunicação mais essencial, pois diretamente oferecida, é o contato entre espadas. Sr Ishihashi disse que é através delas que se começa a conversa. Em suas palavras, faz-se um ‗carinho‘ no outro através do contato. Essa ‗comunicação‘ que se estabelece ‗entre‘ as espadas é uma forma de arquitetura de signos diacríticos em um sistema que busca e toma reação a partir do menor sinal corporal do adversário; isto é, uma semiótica corporal avaliada e acionada nas lutas. Essa semiótica após ser ativada prescreve respostas e movimentos corporais determinados e inconscientes em resposta aos movimentos virtuais ou reais do outro. Em suma, a consistência de um shiai é dada em agenciamentos comunicativos.

O corpo em tal regime não é pensado em sua especificidade. O corpo, sendo instrumento no Kendo, é artefato que necessita como condição de máxima

225 E ainda mais ampla, mapeando a própria relação entre Japão e outras socialidades sob o registro da ‗guerra‘ enquanto modalidade universal de troca. Sobre isso, consultar (TURNBULL, S. 2006) que relata uma historiografia do Japão sob esse enfoque. Não obstante, o trabalho sobre o ‗valor‘ da guerra para a socialidade nipônica ainda está por se fazer.

226 SILVA, VHK: Um jornal entre Brasil e Japão: A construção de uma identidade para ―japoneses no Brasil‖ e ―Brasileiros no Japão‖ Dissertação de Mestrado em Antropologia Social, UFSCAR, São Carlos, 2008: em tal trabalho, Victor Hugo avalia através dos jornais escritos para a ‗comunidade nipo-brasileira‘ constructos que poderiam ser classificados como identitários e que construiriam pontes [transnacionais] entre descendentes de japoneses no Brasil e aqueles que emigram para trabalhar no Japão. Em suma, os periódicos seriam máquinas de transporte que garantiriam constructos identitários transnacionais.

comunicação, do outro. O entrelaçamento entre ‗espíritos‘ é o resultado dessa comunicação. Nesse espelhamento, a perspectiva de si é transposta para uma relação. Essa relação, que é comunicativa e fusional, interna e externa, marca a própria dinâmica e um processo de constituição daquilo que poderia ser tomado como ‗identidade‘ entre esgrimistas. Um vencedor não é diferente de um perdedor.

Então, como o Kendo alguém pratica – sei lá – dez anos, quinze anos, vinte anos, cinqüenta anos; então, cada um vem contribuindo. Mas a gente precisa saber o que é um Kendo. Lutas etc. é importante, mas não é só isso. O mais importante no Kendo é ensinado pureza. Por exemplo, Kobaiashi sensei que consegue sentir o pensamento da outra pessoa, ele consegue espelhar o outro aqui, no coração puro dele. Porque se o coração não está puro, não consegue. Então, esse lado que o Kendo pratica. Esse lado do ‗correto coração‘ que o Kendo ensina. Mas cada um tem que procurar, né. Por que se o kokoro não está correto, aqueles quatro pontos que tem que ser evitados do Kendo: o medo, a dúvida, a insegurança e a indecisão, né, porque esses quatro aí aparecem na hora mais importante, do golpe, então o coração tem que estar correto para ter certeza, pra ir pra frente.

(...)Eu, de vez em quando capto alguma coisa(...) Mushin, sem pensamento. Essa é a arte que precisa ser desenvolvida(...) não é que não tem pensamento; mas sim que ele não se atém ao seu próprio pensamento. Mas está totalmente ligado. Aí, quando pressente, bate o golpe.

Terça feira fui treinar no Fukuhaku com o Fujikura e com o Constantino Sensei; e o Fujikura é alto né, e ele me segurou mas eu já tinha batido o golpe. Quando a gente se liberta do medo de levar um golpe e das preocupações da luta, a gente está livre para executar um belo golpe. É preciso uma vida para isso. Musashi, por exemplo, depois de vencer mais de sessenta vezes chegou a conclusão que não ganhou porque era bom, né; depois de todas as lutas e já ao final da vida ele descobriu o verdadeiro significado da espada. [Entrevista Sr. Ishihashi- Janeiro de 2007].

Aqui, está-se a adquirir o ponto de vista outro. Através desse espelhamento interno e externo entre os lutadores, que separa no início e se confunde no final, quando um é eliminado, adquire-se o ponto de vista do outro. Ao espelhar o adversário em seu ―próprio coração‖ e ser espelhado pelo adversário, tem-se a fusão da perspectiva. Teríamos um caso relativamente diferente dos Araweté, povo de língua tupi estudado por Viveiros de Castro pela perda de uma componente importante nessa geometria que é

a própria efetivação da morte (VIVEIROS DE CASTRO: 2002a, P.292-294). O autor

argumenta que a relação entre matador e vítima pertence ao mundo do dom, mas ela ocupa uma posição limite nesse mundo. A relação é criada pela supressão de um de seus

termos, que é introjetado pelo outro; a dependência extensiva e extrínseca entre as partes converte-se em diferença intensiva, imanente a uma singularidade dividida. A relação de predação-morte constituir-se-ia, portanto, em modo de subjetivação lançando ao infinito a multiplicidade de cada singularidade e a própria agressão guerreira ameríndia revelar-se-ia um processo de ―transformação ritual do eu‖. No Kendo, embora tenhamos a perda da ‗efetivação‘ da ‗morte‘, tomado como um processo de aquisição de um ponto de vista japonês, poderíamos argumentar que ocorre processo semelhante, visto que a morte virtual se apresenta. Ora, se temos essa componente em forma virtual e se adquire-se ‗ponto de vista‘ outrem através do embate entre espiritos, pode ser que idéia de identidade calcada apenas no ‗olhar fenotípico‘ seja imprecisa. Cada singularidade é dividida, embora potencialmente adstrita pelo triedro do Kendo ki-ken-tai227 – e, se cada ser potencializa essa tripartição, pode ser que haja mais ‗identidades‘ entre ‗diferentes‘ do que sonharia nossa vã sócio-antropo-logia... Mas isso não é tudo [muito pelo contrário...]

Do „valor‟- ou „neutralização da vingança‟

Não importa a ‗vitória‘, assim como a ‗derrota‘ não macula a reputação de uma pessoa. Porém, algumas lutas são exemplares:

No campeonato brasileiro de 2007, o kendoca Ernesto Onaka228 lutou com uma mão só pois havia quebrado dois dedos da mão esquerda em um treinamento intensivo. Lembro-me que ele chegou até as quartas de final do referido campeonato. A cada golpe desferido pelo Sr. Onaka, o ginásio inteiro vibrara com a manifestação de habilidade e se compadecia por sua situação. Aliás, ele recebeu o kantosho, o diploma de ‗honra ao mérito‘ ao final do campeonato pelo feito. [Nota de campeonato- 2007]

Esse é um dos momentos de demonstração do ‗valor‘ de um kenshi. Ora, a habilidade associada a uma situação de franca instabilidade corporal é razão para o aparecimento de ‗teorias nativas‘ sobre a determinação do ‗espírito‘ nessas situações. Conversando com pessoas que presenciaram o evento junto a mim, a argumentação constante foi a de que o Sr. Onaka havia conseguido fazer com que seu ‗espírito‘ dominasse os dois termos restantes: o ‗corpo‘ e a ‗espada‘; o que designo como ‗triedro

227 気剣体一致。Ou Ki-Ken-Tai-Ichi quer dizer literalmente espírito, espada, corpo unidade. Sobre o trietro do Kendo [e a significação definitiva deste parágrafo], ver o terceiro capítulo, no qual trataremos especificamente do triedro e suas implicações.

228 Ernesto Eisaku Onaka, 31 anos, Agricultor, 2º Grau completo e 5º Dan de Kendo. Reside em Curitibanos, Santa Catarina. Nissei.

analítico do Kendo‘. Isso é importante. Parece que os ‗termos‘ podem ser operados distintamente em relação aos momentos de atualização embora haja certa ênfase dada na linha relativa ao ‗espírito‘. Ou seja, a linha ‗corpo‘ e a linha ‗espada‘ podem estar relativamente desequilibradas, mas a linha ‗espírito‘ deve – ao menos virtualmente – ter constância. Nota-se, portanto, certo desequilíbrio na ‗totalização‘ do sujeito. Voltarei a isso no próximo capítulo.

Retomando, saber ganhar e perder faz parte da ‗atualização‘, pois após a luta têm lugar os agradecimentos. Uma ‗luta limpa‘ seria aquela na qual não tem lugar o ‗ego‘ (Sr. Ishihashi - entrevista), mas apenas a ‗manifestação do espírito‘. O embate visto pelo ponto de vista nativo é uma forma de morrer e viver. Alguém sempre irá morrer em uma luta assim como sempre irá viver, embora se trate de uma morte ‗virtual‘. A conduta manifesta no momento é o traço distintivo, pois pode indicar o que se espera de um