• No results found

Os campeonatos de Kendo possuem uma dinâmica determinada por sua temporalidade e por sua relação – função216 (LEVI-STRAUSS: 1976, P. 121-152)

entre os eventos. Os eventos dessa estrutura-dinâmica são: Abertura; Campeonato-

216 Embora tenha sentido em outro contexto, a idéia de ‗função‘ utilizada por Levi-Strauss no capítulo 8 – Estrutura e a forma – comportaria uma interpretação de desnível hierárquico, inserida em uma ‗relação‘. Em suma, a idéia de função é dependente, o que pode ser interpretado como dois termos desnivelados hierarquicamente entre si, um pouco como a lógica do ‗englobamento‘ em Dumont; por outro lado, a idéia de ‗relação‘ pode comportar a interpretação de ‗reciprocidade sincrônica, e/ou diacrônica‘, ou ainda uma ‗não reciprocidade‘.

dividido por graduação nas categorias de atletas e Encerramento. Nas Aberturas e nos encerramentos tem-se espaço para uma dimensão política, pois são convidadas pessoas que tiveram papel importante na realização do referido campeonato, sejam prefeitos, secretários ou administradores locais e pessoas que tiveram ou têm papel relevante nas associações. Normalmente essas pessoas são homenageadas recebendo alguma distinção. A escolha é discutida antecipadamente nas reuniões das associações e as determinação final dos nomes possui ‗interesse político‘, embora sejam escolhas que tenham referência no mérito, atrelado ao desenvolvimento do Kendo em nível local, regional e nacional. As aberturas em suma são os momentos de inserção política e momentos de traçar cordas para o universo externo ao Kendo.

Desde os primeiros momentos de chegada aos ginásios onde ocorrem os campeonatos, a visão é ‗familiar‘. As famílias dos atletas vão assistir a seus filhos, pais e mães se somam nas arquibancadas, o café da manhã é um momento de confraternização e de rever pessoas, parentes e amigos. Conversas e descontração. Cerca de uma hora antes do início formal do campeonato o ginásio é tomado pelo barulho de shinai batidos uns contra os outros, pois os atletas se aquecem, em preparação para o campeonato. Com a proximidade do horário de início – às oito horas – forma-se a mesa de autoridades e tem-se início a abertura.

Campeonato brasileiro de Kendo de 2007. [13/07- Piratininga; 14 e 15/07- Baby Barioni (SP)]

Abertura oficial do campeonato:

Entre as falas proferidas nessa abertura, três se situam para além do Kendo. A de Tamaki, a do Cônsul do Japão no Brasil, e a de um representante do Centenário da Imigração. Em relação ao pronunciamento do Dr. Tamaki, ele disse que o Kendo no Brasil poderia ser dividido em três fases, sendo a primeira a participação dos imigrantes até o primeiro mundial no Japão [1973]; a segunda, de 1973 a 1990, com os filhos dos imigrantes principalmente; e, por fim, a nova fase, com presença de não descendentes. Falou ainda que o Kendo começa do quadril para baixo e não do quadril pra cima.

A fala do Cônsul do Japão [Nihongo] focou um clima geral de agradecimento pela acolhida dos japoneses, e ele ainda operou um conceito de ‗exportação da ética samurai‘, como sendo um dos grandes legados prestados pelo Japão ao mundo. Isso é de suma importância. De fato o samurai é um produto de exportação para o Japão, e mais importante que isso é o enquadramento em uma dada conjuntura hierárquica tendo por limite superior o Japão. A bem dizer, esse plano hierárquico não se pensa como ordens superpostas, mas como uma nebulosa na qual o Japão

[dada idéia sobre] é o centro e as outras idéias como que gravitariam ao redor, aproximando-se ou distanciando-se.

Em relação à fala do responsável pelo Centenário, ele frisou os Nikkey e o movimento dekasegi e o trabalho em torno da festa do Centenário. Resumidamente, como o Japão exporta de tudo, de gente a tecnologia e a idéia de retorno para a terra natal visando envio de recursos ao Brasil. [Nota de campeonato, Julho de 2007].

A fala do Cônsul Japonês é exemplar por relacionar a prática do Kendo em um sistema transnacional-transcultural. Tomando por base a teoria desenvolvida por Glick- Schiller et al (SCHILLER, BASCH & BLANK-SZANTON: 1992, 1995) a dimensão apontada passa a ser considerar o Kendo como uma chave relacional entre Brasil e Japão. E o ponto importante a ser notado é a função – sempre presente – entre Kendo e Japão. Em suma, o que se está a postular é a exportação da ‗ética samurai‘ para o mundo através do Kendo. O trânsito se oferece tomando o Kendo enquanto veículo de transmissão de idéias, conceitos e modos de vida. Parece – sobre o Kendo – que não há modulações significativas para se adequar às realidades locais (SAHLINS: 1997). Pelo contrário, o Kendo promoveria uma neutralização da ‗diferença‘ por meio do controle sobre os corpos e comportamentos – postulando um modo de vida sobre o qual não haveria muito que fazer a não ser se adequar – ou escapar, evidentemente. Se bem que ‗adequação‘ não seja o melhor termo para conceituar um processo de fabricação de subjetividades ‗japonesas‘. Nesse sentido, entendo o ―paradoxo‖ presente na fala do Prof. Tamaki que, ao mesmo tempo em que me disse que o Kendo no Brasil não tinha adquirido ‗maturidade‘ pois dependia muito do Japão, sua atitude perante a vida era a de exatamente ‗viver ao modo Kendo‘. Não há paradoxo de fato, uma vez que se é verdade que o Kendo pode ser considerado um ‗dispositivo de japonesidade‘ que fabrica ‗subjetividades japonesas‘, sua operação praxiológica não permite manobras ousadas para fora de suas linhas.

Bom, eu acho que o Kendo do Brasil ainda não adquiriu maturidade suficiente para ter uma personalidade. Nós dependemos muito do Japão. Tudo o que se diz lá nós aceitamos e seguimos sem pesquisar sobre o assunto, né, então eu acho que tem que ter mais maturidade; isso é o que eu observo. (Prof. Tamaki- entrevista, Fevereiro de 2008)

Sobre a exportação da ‗ética samurai‘, o Kendo passa a conformar-se como instrumento disciplinar, que molda, corrige e fabrica singularidades japonesas. Ora, a própria dinâmica de entrada da política no Kendo referenda a proximidade e influência

do Japão enquanto termo central nessa ―economia política da fabricação de indivíduos‖ (TURNER, T.: 1979, P.158-160).

Campeonato de Suzano/ Fukuhaku – 27/04/2008

O campeonato de Suzano ocorreu nesta cidade, das 7h30 às 17h. Cheguei ao ginásio Paulo Portela junto com o Paulo e o Shigueo por volta das 7h20min. Trocamos de roupa e nos dirigimos à lateral do ginásio para compormos a entrada junto com os outros atletas. Tomamos café da manhã, e entramos no

ginásio, em ordem alfabética por academia, após

cumprimentarmos alguns amigos. A abertura do campeonato se deu às 730h com a presença de autoridades do Kendo [Ciutoko Kogima, Hayashi, Ishihashi, Yamamoto, entre outros] e demais autoridades locais, dentre elas o prefeito de Suzano e o secretário de esportes [que viveu no Japão alguns meses, representando o Brasil e jogando basquete] Sr. André Fellipo Falbo Ferreira.

Os pronunciamentos foram corteses e focaram as relações entre Japão e Brasil no nível das nacionalidades e de como os pioneiros emigrados do Japão foram importantes para a inserção do Kendo no Brasil. O secretário de esportes falou sobre sua admiração pela ‗disciplina‘ japonesa. Hayashi falou sobre sua alegria pela oportunidade de se unir as duas academias de Suzano. Após os pronunciamentos, houve saudação às bandeiras; quatro bandeiras compuseram o pavilhão: a brasileira, a japonesa [menor que as outras], Estado de SP e Suzano. Creio que a bandeira do Japão por ser menor foi resultado de indisponibilidade de uma bandeira de medidas oficiais. Seja como for, houve os respectivos hinos nacionais e no hino japonês, várias pessoas o cantaram.

Após a saudação, retiramo-nos da quadra para o início das competições. A abertura do campeonato [abertura com apresentação de Kendo kata] foi realizada pelo Sr. Ishihashi e Sr. Hayashi, membros das duas academias de Kendo de Suzano. Ambos estavam com trajes de gala. [Nota de campeonato: Abril de 2008]

Por transformar a diferença em uma similitude, o sistema de reflexão corpo- comportamental do Kendo engloba o pensamento e transforma em japoneses aqueles que não o são. Disciplina, corrige, opera uma rotação de atitudes que passa a conformar em seus esquemas prescritivos e performativos (SAHLINS: 1999, P.172-192) o que é ―tornar-se um japonês‖, pois é disto mesmo que se trata; para o Kendo parece ser difícil aceitar a idéia de ‗existência‘ de ‗japoneses‘ per se. Existem atualizações e será ‗japonês‘ de fato quem e quando ativado pelo dispositivo. Por exemplo, a idéia de ‗disciplina‘ que no senso comum é imputada erroneamente enquanto ‗estado‘ – há quem diga uma qualidade inata – para os japoneses e descendentes designa um ‗processo‘, uma linha de força continuamente ativa. Estamos em posição de dizer que encontramos

um processo de ‗fabricação de sujeitos‘, ou seja, uma ‗máquina‘ dispositiva. E como ‗dispositivo‘ de japonesidade, pergunto-me se não estaríamos em vista de formular um modelo amplo de interpretação que levaria em consideração os processos, não os estados.

Retomando, as ‗aberturas‘ podem ser vistas como o postulado ideal, tomado como ‗exemplar‘ e um lugar no qual o que é externo ao Kendo pode ser capturado e reavaliado por uma perspectiva de adequação do evento à estrutura imanente- transcendente ao Kendo e/ou Japão.

CAMPEONATO DE KENDO CENTENÁRIO DA

IMIGRAÇÃO JAPONESA- 28 E 29 JUNHO DE 2008- São Carlos/SP

Domingo- 29/06/2008

Encontrei-me com o sr. Edson Ferraz [Secretário de Esportes de São Carlos] e com o sr. Firmiano [Presidente da Câmara Municipal] que comporiam a mesa de autoridades. Pude notar que ambos estavam bastante impressionados com a visão do pessoal do Kendo, que no momento fazia aquecimento nas quadras. A mesa de autoridades estava composta pelos srs Edson Ferraz, Firmiano, Constantino, Paulo, Yashiro, Kimura, Azuaite M. França e Ishihashi.

Fomos então convocados – atletas – a abandonar a quadra para que fosse iniciada a cerimônia de abertura. Deixamos a quadra e nos posicionamos fora do ginásio, para entrarmos em ordem de academias momentos depois. O simbolismo presente talvez tenha um caráter mítico em razão dos dojo receberem ameaças vindas de fora, no sentido de desafios. A entrada dos atletas indica essa correlação e os desafios colocam em desnível o status. Nunca existe o desafio de pessoas do mesmo nível nesse ‗ideal‘ de Japão hierárquico, tomado o exemplo de Musashi que desafiou a escola de esgrima ―Kenpo‖.

Ao final da entrada dos atletas teve início a cerimônia de abertura do campeonato, com a saudação ao kami, onde estavam posicionadas as bandeiras. Após a saudação tocou o hino nacional japonês, seguido pelo brasileiro. Nos hinos, durante a execução, o Kimura sensei ficou com a cabeça abaixada, provavelmente em sinal de respeito.

Após os hinos, os discursos. Os pronunciamentos que detiveram minha atenção foram, em primeiro lugar, o vereador Azuaite [responsável por uma emenda orçamentária no valor de R$ 6.000,00 para a realização do campeonato]. Ele foi muito agraciado e fez o seu discurso sobre a paz entre os povos e falou do João [seu filho] que treina Kendo e de quanto ele ficava feliz por essa razão. O Edson Ferraz agradeceu a oportunidade e falou que a secretaria de esportes estava aberta para outros pedidos de realização de campeonatos. O discurso do Yashiro – que estava representando o prefeito municipal [que não pode comparecer

pois estava na Argentina, tratando de questões políticas do

MERCOSUL] – foi no sentido de agradecimento do apoio geral

para o campeonato e ele forneceu algumas estatísticas sobre os participantes. Falou sobre o caráter desse campeonato, que era eminentemente universitário.

Após, teve o pronunciamento do presidente da ASCK, Paulo Bertoni - ele agradeceu às pessoas que tornaram o campeonato possível e foi interrompido pelo sr. Yashiro, que o lembrou da emenda do Azuaite; de qualquer forma, o tom foi de agradecimento.

Após o término da abertura, fui chamado para fazer o juramento do atleta, que consiste em dizer que lutará fielmente, respeitará as regras dos árbitros, para a honra do esporte etc.. o procedimento é chegar à frente da mesa das autoridades, cumprimentar com uma mesura, falar as palavras contidas na carta de juramento, entregar a carta cerimoniosamente ao chefe dos árbitros e sair, voltando às fileiras. [Nota de campeonato, Junho de 2008].

As ‗aberturas‘ comportam o que é exterior – em parte – ao modo do Kendo. É uma estrutura que insere outras lógicas, através da neutralização de seu caráter contingente (SAHLINS: 1999). Em primeiro lugar, mostra os antigos. Professores, personalidades, reafirmando-os enquanto conexões-sóciomotivadas a partir da perspectiva meritocrática-hierárquica. Em segundo, engloba a política para os seus próprios fins, seja captando recursos via patrocino para sua realização, seja mediante a vinda de figuras notórias que dão peso político ao campeonato. Em terceiro, a mesa de autoridades demonstra – inclusive para os políticos – a reafirmação de um valor comunal tradicional que por definição seria uma característica definidora da situação de ‗descendente de japoneses‘ para o exterior. Em outras palavras, em questão está o reviver ‗mitológico‘ sobre a epopéia i[e]migratória, reafirmando os laços em relação ao Japão e em relação aos antigos, através dos quais essa arte marcial se estabilizou.