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Considerar a questão agrária como conflitualidade, enfrentamento, luta, resistência ou até mesmo adesão dos camponeses ao agronegócio é levar em consideração também a disputa pelo controle de um determinado território. Para isso, a análise neste trabalho será a partir do território constituído com a criação do assentamento Canudos. Desta forma, ao buscar compreender essas relações e sua conflitualidade, estabelecemos como referência de análise PQA, que se contrapõe ao PCA.

O camponês a ser analisado é um indivíduo caracterizado como sujeito Sem

Terra, possuidor de uma identidade que o diferencia dos demais indivíduos sem-terra,

não somente na condição de sem a posse da terra, mas de que os indivíduos, ao se inserirem no MST, tornam-se sujeitos e criam uma identidade com o MST dentro da própria luta e organicidade do Movimento. Sendo assim, o Sem Terra é, de forma geral, um sujeito camponês e que se diferencia dos demais por seu vínculo ou sentimento de pertença ao MST e sua inserção na organicidade do movimento sendo um segmento dentro da classe camponesa, ou seja, um indivíduo que segundo Caldart (2004, p. 32):

Ser Sem Terra hoje significa mais, ou não significa o mesmo, do que ser trabalhador rural ou camponês que não possui terra para cultivar, muito

embora não seja possível entender a identidade Sem Terra sem compreender sua raiz na cultura camponesa e nas questões do campo. (grifo da autora)

Desta forma, o indivíduo sem-terra, seja ele um camponês ou um trabalhador urbano, com o processo de luta, torna-se o sujeito Sem Terra. O que define esta mudança ou sua formação de identidade não está relacionado somente ao campo das abstrações ou definições teóricas, mas ao grupo social ao qual estará inserido, no caso do MST, um movimento social com objetivos, normas e princípios organizativos, ou “ações sociopolíticas construídas por atores sociais coletivos pertencentes a diferentes classes e camadas sociais [...] criando um campo político de força social na sociedade” (GOHN, 2000, p 251).

O sujeito Sem Terra é aquele indivíduo que luta pela terra, mas, ao ter efetivada a conquista com a criação do assentamento, continua sendo Sem Terra, pois cria um “sentimento” de pertença a um movimento social coeso que contribuiu para a criação desta identidade coletiva. “Nem todo o movimento na sociedade pode ser considerado como movimento social, pois ele existe quando são canalizadas forças coletivas por diferentes grupos para a transformação das relações sociais, políticas, econômicas etc.” (FABRINI, 2008, p 240).

No período de acampamento, a mobilização é permanente fazendo com que as pessoas se unam em busca do objetivo e se reconheçam enquanto um grupo coeso contribuindo para a formação da identidade coletiva. Esta busca pelo objetivo em comum é o que vai caracterizar a tipologia de um determinado movimento social que pode ser considerado como socioterritorial e/ou socioespacial, sendo que o MST se configuraria como um movimento socioterritorial, conforme Fernandes (2001, p. 52):

Partimos do pressuposto que os movimentos socioterritoriais são todos os que têm o território como trunfo. Todavia, muitos movimentos não têm esse objetivo, mas lutam por dimensões, recursos ou estruturas do espaço geográfico, de modo que é coerente denominá-los de movimentos socioespaciais.

O MST é, assim, um movimento social que possui como seus principais objetivos a terra, a reformar agrária e a transformação social, ou seja, seus objetivos podem ser considerados de curto, médio e longo prazo para serem implementados. A luta pela terra é considerada como uma luta econômica e imediata, pois quem vai para

um acampamento lutar por terra, em geral, busca resolver um problema de ordem econômica. A dificuldade de geração de renda faz com que muitos visualizem na constituição do assentamento a solução para este problema. Sendo assim, a luta pela terra “resolveria” os problemas econômicos e imediatos das famílias sem-terra.

A reforma agrária pode ser compreendida como uma luta pela reestruturação agrária. No entanto, no Brasil são realizadas políticas de assentamento (e não necessariamente da reforma agrária), ou uma reforma agrária conservadora, como aponta Girardi (2008). A criação de assentamentos pode ser compreendida, também, como um conjunto de medidas e políticas públicas que possibilita às famílias se fixarem no campo em busca de uma melhor qualidade de vida. Esta é uma luta considerada de médio prazo, pois muitas ações devem ser desenvolvidas e/ou são de responsabilidade do Estado, sendo que algumas destas ações devem ser consideradas, inclusive, na fase de assentamento, para ter as condições mínimas de viabilização da vida no meio rural.

A transformação social seria uma mudança estrutural na sociedade como uma luta de longo período, pois diz respeito a mudanças na estrutura econômica, política e social. Dessa forma, é possível verificar que o MST é um movimento social com uma estratégia clara para alcançar seus objetivos e, para isto, utiliza diversas táticas que são suas lutas, mobilizações e/ou ações, tendo como principal agente o sujeito Sem Terra.

Retratar os integrantes do MST enquanto sujeitos Sem Terra não é o mesmo que suprimir ou dar novo significado ao campesinato, mas sim de caracterizar um segmento de trabalhadores camponeses em específico que, ao estar vinculado a um movimento social que ao mesmo tempo é socioterritorial, carregado de simbologias e intencionalidades, possibilita esta diferenciação/especificidade aos demais.

Desta forma, quando nos referimos neste trabalho ao camponês, ao Sem Terra ou simplesmente ao assentado, estaremos tratando do mesmo grupo de pessoas que compõem o território do assentamento Canudos. A opção em tratar a terminologia Sem Terra ou assentado em detrimento de camponês está relacionada ao fato de dar ênfase às ações do MST enquanto movimento social com características próprias que identificam um determinado território.