A produção de alimentos, seja animal ou vegetal, passa por constantes modificações ao longo do tempo e vai se adaptando às exigências das sociedades. As inovações tecnológicas sempre estiveram presentes no processo de produção de alimentos com a finalidade de aumentar a produção e/ou a produtividade e atender às demandas de alimentos para aqueles que se dedicavam, sobretudo, a atividades não ligadas à agricultura. Sendo assim, a agricultura está ligada ao desenvolvimento da sociedade e, por isso, sempre há grupo responsável pela produção de alimentos para que outros grupos se dediquem a atividades não ligadas diretamente à agricultura.
“A agricultura é uma invenção humana e, sobretudo, feminina”, (BOGO, 2008, p. 74) e com o seu surgimento a partir da domesticação de animais e plantas o ser humano pôde iniciar a sua sedentarização, e, com isso, foi possível organizar as pessoas em classes. Desta forma, foi possível diferenciar cada grupo de acordo com a atividade que desenvolvia “a contar do fim da sociedade nômade, quando se deu a descoberta da agricultura, todas as etapas do crescimento agrícola representaram saltos importantes, dado pelo Homem, no sentido do progresso econômico e social” (GUIMARÃES, 1982, p. 14). Essa organização também proporcionou o surgimento de centros urbanos, ainda que de início muito vinculados ao campo, mas com o passar do tempo ou em alguns momentos houve um distanciamento entre os dois.
A humanidade já vivenciou distintos modos de produção - comunismo primitivo, tributário ou asiático, escravista, feudal e capitalista - e em cada um deles a agricultura, o campo e a cidade tinham seus papeis definidos e característicos. Contudo, ao passar do tempo e, sobretudo no capitalismo, houve uma maior distinção entre os dois “a maior divisão entre o trabalho material e intelectual é a separação da cidade e do campo” (MARX; ENGELS, 2002, p. 71).
Hoje, o capitalismo é o modo de produção dominante e, com isso, seus princípios, sejam econômicos, sociais, filosóficos ou ideológicos são os que direcionam a forma predominante do desenvolvimento da sociedade. No aspecto da agricultura, o capitalismo intensificou a separação das atividades do campo e da cidade, o que não acontecia no feudalismo, mesmo que se considere uma ligação ou uma relação de complementariedade. No modelo de desenvolvimento atual, é bem específico o papel de cada um na organização e manutenção da sociedade. No início, os capitalistas buscam separar o campo e a cidade, mas na atualidade, há uma complementariedade das atividades econômicas desenvolvidas tanto no campo como na cidade. É possível identificar hoje as “cidades do agronegócio”.
O capitalismo tem como princípios a liberdade, a igualdade e propriedade privada, mesmo que estejam assegurados na esfera jurídica e isso não implique em igualdade entre as classes. Para Harnecker e Uribe (1979, p.38):
Os donos dos meios de produção, tendo nas suas mãos o poder econômico, têm nas suas mãos o Estado com todo o seu aparelho: exército, polícia, tribunais, funcionários públicos, etc. Tem nas suas mãos portanto não só o poder econômico como também o poder político. (grifo dos autores)
A classe dominante não tem interesse em fazer com que a classe dominada tenha conhecimento dessas questões. Os grupos de pessoas que se organizam e compreendem o significado do funcionamento capitalista busca alertar os demais sobre o caráter concentrador e ao mesmo tempo excludente, mas que a classe dominante acaba justificando e legitimando o modelo de exploração através da dominação ideológica. “O capitalismo se estabelece com a consolidação do território capitalista” (FERNANDES, 2009, p. 201), ao realizar esta ação não deixam claro para o conjunto da sociedade é que poucos é que podem se tornar realmente capitalistas. Assim, ser capitalista, segundo Oliveira (2001, p. 21) significa:
Capitalistas são, portanto, todos aqueles que, possuidores de capital, destinam-no à produção. Na agricultura, adquirem terras e outros meios de produção e contratam trabalhadores para trabalharem para eles em troca de um salário.
Para Marx e Engels, (1998, p. 32):
Ser capitalista é ter não só uma condição puramente pessoal, mas uma condição social na produção. O capital é um produto coletivo e só pela ação unida de muitos membros e ainda, como último recurso, é só pela ação unida de todos os membros da sociedade que ele pode se movimentado.
Para o campo, a característica difundida pela classe dominante é de que os camponeses se tornem - ou tenham como propósito principal de se tornar - capitalistas e, com isso, embora sejam ainda “pequenos produtores”, tentam reproduzir o modelo agropecuário do capital, o agronegócio. Silva (1981, p. 36) destaca que “[...] a história da agricultura brasileira revela uma sólida aliança entre o capital e a grande propriedade, sendo derrotada qualquer proposta no sentido de democratizar a propriedade da terra”.
A agricultura cumpria inicialmente o papel de produzir e fornecer alimentos e matéria prima para a cidade, alimentando os trabalhadores e suprindo a necessidade industrial. No entanto, os capitalistas viram na agricultura uma importante fonte de obtenção de lucros e, desta forma, passaram a comandar a cadeia produtiva e direcionar o que plantar e como plantar, integrando a cadeia industrial à agricultura e as tornando quase inseparáveis na atualidade.
A classe dominante no campo, representada pelos fazendeiros que dominaram as decisões política, econômicas e sociais no Brasil até o início do século XX, foi se metamorfoseando com o processo de modernização do Brasil a partir de 1930, sendo incorporada/transformada na burguesia urbana “[...] no Brasil, o desenvolvimento do modo capitalista de produção se faz principalmente pela fusão, em uma mesma pessoa, do capitalista e do proprietário de terra” (OLIVEIRA, 2001b, p. 186).
O capitalismo se apropriou das atividades produtivas na agricultura e estabeleceu, na atualidade, o agronegócio como modelo dominante para a produção de alimentos, de geração de renda para as famílias que vivem no campo e como possibilidade de acabar com a fome. O agronegócio passou assim a ditar o modelo de organizar a produção, baseando-se no monocultivo, produção em grande escala, mecanização e modernização da agricultura, diminuição do número de trabalhadores, e uso intensivo de fertilizantes e agrotóxicos.
Embora este seja o modelo defendido e implementado no campo pelos capitalistas e que recebe apoio do Estado através de políticas governamentais de incentivo a produção de commodities, é importante observar que, coexistindo com a agricultura capitalista, há a agricultura camponesa. Esta agricultura camponesa deve cumprir com a tarefa de produzir para atender a demanda do mercado interno e, com isso, produzir alimentos para o conjunto dos trabalhadores a um preço acessível e que possibilite que a sua maioria permaneça na cidade e não veja necessidade da realização da reforma agrária propriamente dita. Embora, seja necessário considerar que o agronegócio também produza parte dos alimentos consumidos para o conjunto das pessoas, a maior parte é produzida pela agricultura camponesa. Segundo Mattei (2005, p. 11):
Durante o processo de modernização da agricultura brasileira, as políticas públicas para a área rural, como a política agrícola, privilegiaram os setores mais capitalizados e a esfera produtiva das commodities, voltadas ao mercado internacional, com o objetivo de fazer frente aos desequilíbrios da balança comercial do país. Para o setor da produção familiar, o resultado disso foi altamente negativo, uma vez que grande parte desse segmento ficou à margem dos benefícios oferecidos pela política agrícola, sobretudo nos itens relativos ao crédito rural, aos preços mínimos e ao seguro da produção.
A agricultura camponesa convive com o agronegócio em desvantagem por não ser grande produtora de commodities. A propriedade privada da terra passa a ser objeto
de disputa e enfrentamentos entre a classe dominante e a classe dominada pelo seu controle. Com estas lutas, estabelece um enfrentamento ao capital onde consegue conquistas e se territorializa, mas no enfrentamento permanente, o capital pode utilizar destes mesmos territórios para continuar influenciando no modo de viver, produzir e comercializar. “A propriedade privada que teve origem na carência dos meios de sobrevivência tornou-se, ao longo da história, a razão de ser da sociedade. Ela, propriedade, se constitui na forma concreta, mediadora entre trabalho e capital”, (BOGO, 2009, p.49).
Desta forma, para o desenvolvimento capitalista avançar o Estado e sua estrutura é utilizada a fim de legitimar e justificar as intervenções deste em defesa das empresas transnacionais, do sistema financeiro e do comércio internacional que beneficia os capitalistas. Aos que pertencem a classe trabalhadora, o Estado intervém com políticas públicas insuficientes e, às vezes, inadequadas que acabam produzindo efeitos desastrosos na cidade e no campo, como o desemprego, a fome, a desigualdade social, dentre outros.
Conforme Stedile e Oliveira (2005, p. 16):
O domínio do capital estrangeiro e das grandes corporações sobre a economia como um todo representa também um novo modelo de dominação do capital sobre a agricultura. [...] ele atua de forma diferenciada, de acordo com as regiões, de acordo com os produtos, de acordo com as relações dos camponeses e trabalhadores.
Essa forma como o capital passou a ser dominante trouxe também mudanças estruturais na forma de dominar a produção de mercadorias agrícola em todo o mundo. A racionalidade produtivista para geração do lucro do capital foi empregada na agricultura, ou seja, aumento da produtividade do trabalho e da natureza, na modernização do processo produtivo e da rentabilidade econômica do único produto ali produzido. Isto fez com que substituíssem a força de trabalho humana pela mecanização intensiva e utilização cada vez maior de fertilizantes e agrotóxicos. O trabalhador continua no campo, mas em menor número e recebendo menores remunerações pelo seu trabalho, com exceções aos trabalhadores que se especializam em uma determinada área, mas que em geral não absorve um grande número de trabalhadores.
Quanto à estrutura fundiária, o capitalismo necessita de grandes extensões de terra para se desenvolver, aumentando as fronteiras agrícolas, abolindo a ideia da necessidade da reforma agrária para o desenvolvimento do país, segundo Melo (2006, p. 63):
Além de impedir a realização da reforma agrária, a modernização agropecuária trouxe em consequências a continuidade da concentração de poder econômico e político pelos grandes proprietários de terra. Provocou também um significativo aumento do êxodo rural, com a expulsão e expropriação de milhões de famílias, que migraram para as cidades ou engrossaram os números de famílias sem terra. Consequentemente, o aumento da concentração fundiária é a grande responsável pela violência, desigualdade e pobreza no campo brasileiro.
Mas, a classe dominante busca legitimar suas opções frente ao conjunto da sociedade e apresenta o agronegócio como alternativa sob os argumentos favoráveis de ser responsável pelo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), pelo fortalecimento das atividades industriais, um gerador de empregos e por levar desenvolvimento às diversas regiões e municípios.
Com isso, a alternativa apontada pelo capitalismo, para o campesinato, é a integração com o mercado, sendo produtores de commodities, tornando-se pequenos produtores parte do “agronegocinho”. Ou seja, reproduzir o modelo de produção capitalista em suas propriedades e em escala menores, incompatível com o pacote agrícola do agronegócio, ou a migração para os centros urbanos em busca de emprego nas áreas que apontam em expansão e, assim, proporcionar a expansão do agronegócio, pois este não absorve muita mão de obra em suas áreas de produção.