O fenômeno certamente não passou despercebido. Já os primeiros navegado- res portugueses, no início do século XVI, foram surpreendidos pelo parentesco linguístico existente entre os habitantes do Reino do Congo e aqueles do litoral oriental do continente. Desde que Wilhem Bleek3 identificou pela primeira vez,
em 1862, o grupo de populações de línguas bantas e batizou esta família com o nome “Bantu”, segundo a reconstrução da palavra significando “pessoas”, os antropólogos, os linguistas e os historiadores, entre outros, demonstram curioso interesse pela questão banta e esforçam -se para explicar as origens e os movi-
1 M. GUTHRIE (1967 -1971) reúne os dados conhecidos. Comparar com A. E. MEEUSSEN, 1969. 2 C. MEINHOF, 1906. Uma nova gramática comparativa está em vias de elaboração nos centros de Leyde
e Tervuren.
mentos destas populações. Desde 1886, H. H. Johnston esboçou uma hipótese para localizar o berço da protolíngua, assim como para retraçar a história da sua difusão geográfica. O seu estudo, publicado em 1919 e 1922, constitui a primeira tentativa séria de descobrir as origens dos bantos e de reconstituir o processo da sua dispersão. Baseando -se sobre fatores linguísticos, ele situou os ancestrais dos bantos em Bahr al -Ghazāl, “não distante do Bahr al - Djabāl, a Leste do Kordofān, no Norte, ou das bacias do Bénoué e do Chade, no Oeste”. Segundo ele, os bantos deslocaram -se, primeiramente, rumo ao Leste, em dire- ção ao monte Elgon, depois, a partir deste ponto em direção às margens norte do lago Vitória, à Tanzânia continental e à floresta do Zaire (atual República Democrática do Congo), a verdadeira penetração na África Central e Meridio- nal começando aproximadamente em -3004.
Em 1899, Carl Meinhof ofereceu a prova formal (pela fonética) da unidade das línguas bantas. Desta época até os nossos dias, linguistas, frequentemente chamados “bantoistas” não deixaram de aprofundar o conhecimento desta famí- lia de línguas5. Duas grandes hipóteses visando explicar as origens dos povos
falantes das línguas bantas foram propostas pelos linguistas. Segundo Joseph Greenberg, os povos bantos seriam originários da zona onde as línguas bantas são mais divergentes; apoiando -se nesta proposição, ele situa o berço destes povos na Nigéria, na região do médio Bénoué, no Nordeste do vasto território onde as línguas estão solidamente implantadas6.
Como esta conclusão não foi aceita pelo influente bantoista Malcolm Guthrie, ela foi, posteriormente, objeto de rigorosos exames; contudo, ela é hoje admitida por todos os linguistas. Para Guthrie, as origens dos “protobantos” deveriam situar -se na região onde as línguas bantas são mais convergentes, ou seja, em torno das bacias dos rios Congo -Zambéze, devendo -se encontrar o núcleo na província do Shaba, no Zaire7. Foi com base nestas hipóteses discordantes que
avançadas por eminentes linguistas que numerosos especialistas construíram as suas próprias teorias acerca das origens e da expansão dos bantos.
O eminente historiador Roland Oliver, partindo do princípio que as teses de Greenberg e de Guthrie são complementares, elaborou uma brilhante teoria dividindo em quatro fases a expansão dos bantos, a partir dos seus territórios de origem na África Ocidental até a África do Sul, a saber: uma rapidíssima migração,
4 H. H. JOHNSTON, 1919 -1922.
5 C. MEINHOF, 1899. No tocante à história e à bibliografia da questão, conferir J. Vansina, 1979 -1980 6 J. H. GREENBERG, 1972.
ao longo dos cursos d’água do Congo (Zaire), de pequenos grupos de populações falantes de línguas “pré -bantas”, das regiões arborizadas do centro de Camarões e Oubangui, até regiões de mesmas características, no Sul da floresta equatorial do Zaire; um progressivo reforço da implantação destas populações imigradas e a sua expansão através da região arborizada estendida de um litoral a outro e abraçando o centro da África, desde a foz do Congo (Zaire) até o Zaire, na costa ocidental até o rio Rovuma, na Tanzânia, na costa oriental; a rápida penetração dos bantos na região mais úmida situada no Norte e no Sul da sua precedente zona de expansão lateral; e a ocupação do restante da atual África banta, processo que começou no curso do primeiro milênio antes da era cristã e que não acabaria senão aproximadamente em meados do segundo milênio da era cristã8.
Desde 1973, três equipes de linguistas, trabalhando independentemente, provaram que Guthrie estava equivocado. Os seus dados, embora diferentes, são todos fundados em uma abordagem similar (baseados em exames de léxico). Um dos estudos utiliza, na realidade, os próprios ensinamentos de M. Guthrie.
A prova de as línguas bantas tiveram perfeitamente um berço ocidental está portanto realizada. Idealmente, deveríamos poder recompor as vias de difusão e os modos de desenvolvimento destas línguas, caso reencontrássemos os subgru- pos que compõem a sua família. Qualquer comparação em linguística histórica tenta de fato construir uma árvore genealógica na qual o ancestral da família aparece como o ancestral direto dos ancestrais de subgrupos, eles próprios, ante- riores aos ancestrais de subgrupos de línguas etc. Para assim proceder, pode -se comparar maciçamente tanto o léxico fundamental (léxico -estatístico) quanto os fatos gramaticais. Até aqui, ninguém ainda pôde propor uma subdivisão gene- alógica do grupo das línguas bantas que fosse suficientemente segura a ponto de ser realmente aceita, isso em razão daquilo que os linguistas denominam “fenômenos de convergência”, ou seja, empréstimos maciços entre línguas bantas desde a época do ancestral comum até os dias atuais. Ao nível das semelhanças, é muito difícil distinguir o que é empréstimo daquilo que remonta a um ancestral de subgrupo comum. Esta situação, ela própria, é de uma importância capital para os historiadores, pois que ela prova que, desde sempre, os diferentes gru- pos falantes de banto permaneceram em contato estreito com os seus vizinhos. Jamais houve, portanto, populações realmente isoladas umas das outras.
Os estudos em curso empregam computadores e estabelecem esquemas de divergências genéticas a partir ou de elementos comparativos do vocabulário de
base ou – igualmente desde muito pouco tempo – de elementos gramaticais9.
Pode -se concluir, há consenso entre linguistas sobre este ponto, que houve dois grandes blocos de línguas bantas, aquele do Oeste, estendido sobretudo em toda a floresta tropical, e aquele do Leste, ocupando as regiões de Uganda ao Cabo.
Em suplemento, as línguas do grupo oriental são mais próximas umas das outras, comparativamente às línguas do grupo ocidental entre si. Isso equivale a dizer que a extensão do grupo oriental foi mais tardia e rápida que aquela do grupo ocidental, caso aceitemos que a taxa de mudança e a importância da convergência tenham sido idênticas nos dois casos, situação não necessariamente verdadeira. Por outro lado, a concordância existe, em geral, quanto à realidade de pequenos agrupamentos genéticos que não remontam muito remotamente no passado linguístico. Assim sendo, existe um grupo genético congo ou um grupo genético das línguas da região dos Grandes Lagos. Os estudos recentes indicam, sempre melhor, quais seriam estes agrupamentos mínimos.
Não se esperaram os resultados destes estudos para subdividir as línguas bantas. M. Guthrie realizou desde 1948 uma classificação dita “prática”, na qual a comparação dos dados existentes permitia reagrupar blocos de línguas geograficamente contíguas nas zonas de “semelhança”10. A classificação não mais
que provisória e prática é a tal ponto prática que ela é até hoje frequentemente empregada. Atribui -se a cada zona uma letra de A a T, seguida de um número para todo o agrupamento de menores proporções e de um segundo número correspondente à própria língua. A70 designa o grupo de línguas ditas “pahouin” e A74 o fang.
A priori, do ponto de vista histórico, esta classificação não tem valor. As
tentativas sempre mais profundas para alcançar uma classificação histórica o demonstram. Inclusive os subgrupos designados por números não podem sem- pre ser aproximados, além de não se poder utilizar a classificação prática como argumento histórico. Assim sendo, não se pode deduzir do fato de que o benga do Gabão e o bubi da Ilha de Malabo pertencerem ambos ao grupo A30 que os falares bantos bubi derivem da costa ocupada pelos benga ou que os benga viriam, por sua vez, da ilha. A classificação não tem valor probatório em matéria histórica.
9 Y. BASTIN, A. COUPEZ e B. de HALLEUX, 1981. As comparações entre os dois tipos de dados permitem atingir uma quase -certeza em caso de congruência. O bloco banto ocidental desliga -se niti- damente do bloco oriental e, no interior do primeiro, um grupo do noroeste desliga -se claramente do grupo central da floresta. O programa de computador desenvolve -se na medida em que novos dados são recolhidos.